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5 de setembro de 2020

Karnal e Dunker

Dupla que dispensa qualquer legenda ou apresentação!

Os canais Falando Nisso, do Christian Dunker, e Prazer, Karnal, do Leandro Karnal, têm nos presenteado com com conteúdos excelentes e com temas super atuais. Não percam! 







Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
 

28 de julho de 2020

Como a flexibilização da quarentena nos afeta?

Matéria da revista Elle sobre as consequências do afrouxamento das medidas de isolamento 


Há cinco meses, a pandemia do Covid-19 se impõe como a nossa nova realidade. O pânico inicial levou muitas pessoas a enxergarem o isolamento social como estratégia de mitigação do problema, mas com a flexibilização da quarentena a angústia e a raiva viraram emoções cada vez mais presentes.
A pandemia expôs as nossas desigualdades tanto materiais quanto estruturais. À medida em que o tempo em isolamento avança para aqueles que permanecem em casa — mesmo com todo o conforto e recursos — fica difícil lidar com quem descumpre o isolamento por opção própria.
Nos indignamos ao assistir via redes sociais, ou por meio dos discursos de governantes, aqueles que relativizam a crise e usufruem de pequenos-grandes privilégios em tempos de exaustão emocional. Um post compartilhado de um céu azul na beira da praia ou cenas de bares lotados para quem só enxerga a parede de sua casa há meses, pode ser a gota d'água.
De acordo com a pesquisa do Datafolha do dia 29 de junho, apenas 12% dos brasileiros seguem em isolamento, saindo somente para realizar tarefas extremamente necessárias. Paradoxalmente, explode o número de vítimas da doença, e nunca antes tememos tanto o vírus: 47% da população afirmou sentir muito medo de ser infectado.
Como podemos navegar, então, por esta fase em que se desenha uma retomada do cotidiano, mas ainda convivendo diariamente com os efeitos da pandemia?
O MAL-ESTAR QUE DECORRE DO PACTO COLETIVO
Segundo Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, o isolamento social é uma espécie de pacto coletivo que criamos e que passamos a entender como uma regra em resposta ao "novo normal".
"Para interiorizar essa regra, a gente pensou que ela valia para todo mundo. Eu fiz uma renúncia, me impus severas abstinências – de planos, de afetos, de liberdade —, mas entendi esse sacrifício como um bem comum. Aquele que fura a quarentena abala o nosso processo de interiorização da regra, e é normal que a gente se sinta enganado."
Esse pacto coletivo pode ter diferentes motivações, como a nossa noção de cidadania, a nossa moral, o nosso altruísmo, a nossa capacidade de obedecer a uma ordem, de se sentir útil ou até mesmo a nossa hipocrisia. Em O Mal-estar na Cultura (1930), Freud reflete sobre as renúncias individuais que precisamos fazer para que a vida em sociedade seja possível, e expõe o quanto esse esforço também é acompanhado de um preço a ser cobrado.
"Aquele que fura a quarentena abala o nosso processo de interiorização da regra, e é normal que a gente se sinta enganado", Christian Dunker
"O que Freud chamou de mal-estar é o fato de que a renúncia toca pontos muito caros ao sujeito, como liberdade de escolha, de deslocamento, de expressão dos desejos. Não é tudo que se pode dizer e fazer, sob pena de comprometer o arranjo que permite a vida com o outro, e do qual todos podem se beneficiar", explica a psicanalista e pesquisadora em Linguística Aplicada (PUC-SP) Amanda Mont'Alvão. "É uma renúncia porque, como humanos, somos constituídos de desejos que pressionam por satisfação, e algumas destas realizações implicam no prejuízo ou até mesmo destruição de uma outra pessoa. Daí a necessidade de a sociedade possuir leis e instâncias mediadoras que estabeleçam e zelem por pactos coletivos possíveis".
Convivemos incessantemente com esse conflito e se em condições normais a renúncia individual em prol da coletividade já é desafiadora, que dirá em um contexto de muito medo e desigualdade. Do ponto de vista cognitivo, o desencontro de informações torna tudo ainda mais difícil, como explica Fabiano Moulin, neurologista da Unifesp.

"Nós precisamos de uma narrativa que contextualize o nosso sofrimento. E é aí que entram os nossos vieses, espécie de 'atalhos' que o nosso cérebro cria para facilitar os nossos processos. Dois deles, principalmente, permitem que a gente seja muito resiliente: a nossa sensação de pertencimento e o nosso senso de propósito."
No Brasil, porém, o especialista aponta que esses dois consensos foram destruídos pela forma como a pandemia foi encarada politicamente. Passamos a conviver com discursos simplistas de uma realidade complexa, resumidos a quem acredita no vírus ou não, quem espera um milagre salvador ou não, quem advoga pela retomada da economia ou não.
Mas há uma guerra simbólica que compõe a nossa realidade. À medida em que julgamos quem fura o isolamento, nos diferenciamos daqueles que preferem negar o real e nos aproximamos daqueles que defendem o discurso científico na construção de soluções para o enfrentamento da pandemia.
Apenas 12% dos brasileiros seguem em isolamento, saindo somente para realizar tarefas extremamente necessárias.
"Chegamos em um cenário que agora está mais claro: nem todos compartilham da mesma noção de realidade. Mas como você desmonta sistemas imaginários de quem nega o real? É preciso lembrar: o real se apresenta, e se reapresenta, e insiste. A Terra é realmente redonda. O vírus realmente existe. Mas a gente tem que se colocar numa posição subjetiva humilde para criar ferramentas de compreensão desse real", aponta a psicanalista e pesquisadora do Núcleo Diversitas (USP), Maria Lucia Homem. "Eu sei que gritar 'fascistas!' nas redes sociais pode trazer algum alívio, mas ainda acredito na comunicação não violenta como ferramenta para furar essa bolha de sentidos".
OS NOSSOS LIMITES EMOCIONAIS SÃO EXPOSTOS PELA PANDEMIA
Para os especialistas, durante o processo de reabertura das cidades, e de um potencial retorno à quarentena caso o nível de contaminação volte a aumentar, cada um vai precisar fazer uma avaliação individual de suas concessões. E é esperado que desse processo surjam emoções como culpa, vergonha, medo e depressão.
"Você pode até acreditar que a quarentena é importante e você pode querer cumpri-la à risca, mas todos nós temos limites psíquicos. Não somos infinitamente elásticos. A gente quebra. Precisamos ponderar a nossa moralidade versus a matéria-prima de que a gente é feito. E esse é um exercício muito difícil, porque significa que a gente precisa sair da nossa moral binária", explica Dunker.
Se até agora entendemos a quarentena como uma lei de tudo ou nada – ou você cumpre, ou você está fora dela — a situação que se impõe, sem qualquer perspectiva de acabarmos com o vírus a curto prazo, vai nos exigir uma outra racionalidade, igualmente ética.
Talvez, tenhamos que enxergar a nossa realidade com as diversas camadas que ela exige, e isso, segundo Dunker, envolve um criterioso trabalho de avaliação de riscos: quem é você, com quem sua quarentena se comunica, quais os custos disso e quais os riscos você apresenta para os outros.
É um trabalho que envolve análise de informação para sermos o mais prudente que podemos, mas também um exercício de coragem para conviver com aquilo que não conhecemos ou controlamos. No caso, o vírus.
Em tempos como o nosso, e também na pós-pandemia, muita reconstrução vai precisar ser feita. E o luto, seja de quem perdeu entes queridos ou do abandono de uma realidade que outrora existia, precisa de espaço para se estabelecer.
"Lidar com o sofrimento, com a impotência, chorar, falar sobre a finitude de nossos corpos e de nossas certezas, e também pedir ajuda. Por mais que cada um enfrente a pandemia com a sua subjetividade, precisamos tomar todas essas perdas como nossas, porque elas são. Um país que parou e perdeu mais de 60 mil vidas, muitas vezes de forma solitária, vai precisar aprender a honrá-las", reforça a psicanalista Mont'Alvão.

Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

29 de março de 2020

Sobre os atendimentos online nos tempos de isolamento social

Artigo do psicanalista Christian Dunker, publicado em seu blog, aborda questões importantes do atendimento online, que se fez necessário no cenário de pandemia que estamos presenciando. 



Tá puxado, mas dá pra receber atendimento psicológico online


A situação de confinamento domiciliar, alteração da rotina de trabalho ou estudo, a atmosfera de temor e indeterminação, bem como o fato de que nossa vida psíquica anterior ao coronavírus nem sempre ser um mar de rosas, reúne muitos ingredientes que incrementam a demanda por psicoterapias ou por escutas de apoio e cuidado. O Conselho Federal de Psicologia dispensou psicólogos do credenciamento usualmente requerido para atendimento online, nos meses de março e abril. Reúno aqui [veja o vídeo abaixo] um conjunto de ponderações e de referências, tanto para aqueles que estão dando seguimentos a tratamentos psicológicos anteriores, agora de modo compulsoriamente virtual, quanto para aqueles que pretendem ou precisam recorrer a este suporte. 
Psicólogos que trabalham em hospitais, na saúde geral ou na saúde mental em outros países têm sido lembrado de que o cuidado de si é condição essencial e primeira para cuidar dos outros. Isso implica atenção às condições de trabalho, por exemplo, praticar horários de plantão de forma a racionalizar tanto a circulação dentro da cidade quanto a favorecer o atendimento por telefone ou online. A Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar manifestou-se pela importância do uso de medidas protetivas (como uso da máscara N95) quando em contato direto com pacientes infectados pela covid-19, mas na situação que se avizinha, nem sempre isso será possível. Daí a importância de se discutir o atendimento à distância como alternativa real. 
(...)

Recomendações sobre o início do tratamento 
Vivemos uma situação de exceção e isso deve ficar claro para todos os envolvidos. Muitos terapeutas têm pouca ou nenhuma experiência com atendimentos a distância. Pacientes vão achar muito estranho compartilhar assuntos íntimos com um desconhecido que se apresenta do tamanho da tela de um celular. Sinceridade e transparência serão condições mais que necessárias para enfrentar a situação. No caso da psicanálise, mas também de muitas abordagens psicodinâmicas, quanto mais à vontade o paciente sentir-se para falar, escolhendo livremente suas palavras e temas, evitando julgamentos e avaliações, melhor. Do outro lado precisamos de uma escuta aberta, flutuante ou lúdica, o que nem sempre é fácil longe do consultório e da privacidade que ele traz consigo. Aqui a dificuldade maior reside no fato de que nossa preocupação uns com outros, neste momento, precisa acolher transtornos objetivos e temores realísticos, por exemplo, concernentes a saúde, ao abrigo domiciliar e a informações protetivas, bem como ao impacto econômico e relacional incalculável na vida das pessoas
Uma psicoterapia não deixa de ser ao final um tipo de conversa, mas uma conversa que conta com vários elementos contraintuitivos: nem sempre perguntas são respondidas, nem sempre o objetivo é manter uma comunicação clara, nem sempre seguimos um fio narrativo bem definido.  Talvez a melhor definição desta conversa tenha sido dada pelo André Breton, o criador do surrealismo: "uma conversa onde se diz o que se quer e se escuta o que não se quer"
A criação de outra forma de escutar, que permite redimensionar tamanhos e volumes das experiências narradas, bem como ênfases e repetições em seus pontos cruciais, pode ser difícil na situação de distância e isolamento social, ou de compressão humana e privação de privacidade em certos domicílios
Os relatos de quem já está empenhado nesta experiência apontam para um cansaço ainda maior do terapeuta nessas condições. Há uma alteração da estrutura atencional, dificuldade de concentração e inquietação com a presença real do outro. Para os psicanalistas isso tem requerido estratégias para manuseio de câmera, de modo a desviar o olhar frontal, muitas vezes sentido como intrusivo, mas permitir a busca e a manifestação e inserção de presença quando isso se faz necessário. A presença do analista, tantas vezes indiciada pela voz, seja por uma interjeição adversativa ou de assentimento, seja pelo olhar, torna-se mais complexa, mas ainda assim não impossível
Particularmente difícil é a modulação da temporalidade no interior da sessão. Muitas intervenções dependem da maneira exata como o analista parece "soprar palavras" no ouvido do analisante, aproveitando-se dos interstícios da associação livre, ou interromper subitamente a sessão, no caso da prática lacaniana do tempo lógico
A reconfiguração dos códigos e da temporalidade requer um trabalho de reinvenção e adaptação de tal maneira a mitigar os efeitos e a preponderância do fluxo informacional, que identificamos com os meios digitais. É preciso reaprender a ficar em silêncio e evitar, calculadamente, a parceria imaginária que o meio digital nos habituou, ou seja, responder de maneira cada vez mais acelerada
Tudo isso requer modificações táticas e invenções criativas de novos modos de dizer.  Freud dizia que os pacientes que têm dificuldades com a língua, por exemplo, porque não são nativos naquele idioma tenderão a atribuir a esta dificuldade a certas trocas e equívocos de linguagem.  De fato, temos um problema análogo quando estamos na linguagem digital. Muitos desencontros, lapsos e deslizes podem ser facilmente atribuídos às condições muitas vezes instáveis do suporte comunicativo. Mas que não se torne uma desculpa

Sigilo e privacidade 
Muitas pessoas não encontram lugar retirado em suas casas para falar abertamente de coisas que não queremos e no fundo não devemos partilhar com os outros, principalmente quando eles estão envolvidos. Tenho ouvido relatos de pessoas fazendo suas sessões nos jardins, nas áreas comuns dos prédios e até mesmo nos banheiros de suas casas. Inversamente a intrusão das casas dos terapeutas tem dado ensejo a latidos, miados e exposições familiares incomuns na clínica tradicional. Freud já disse que um consultório comporta os barulhos naturais de uma casa. Nada disso altera um grama na relação de sigilo que todo psicoterapeuta deve ter com tudo o que escuta e o cuidado que terá com o destino do que ouve.
(...)

Leia o artigo na íntegra aqui



Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ

22 de abril de 2019

A conceito de gozo para Lacan


O conceito de gozo para Lacan é fonte de diversos equívocos. Não só pela dificuldade teórica, mas também pelas metamorfoses que o conceito sofre ao longo do ensino de Lacan.
Para começar a pensar a noção de gozo, recomento o vídeo do Christian Dunker, que traz algumas colocações básicas. 








Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.


11 de dezembro de 2017

Christian Dunker: de Lacan a Lacração

Christian Dunker analisa efeitos das redes sociais no comportamento contemporâneo

Entrevista concedida ao jornal Estadão, em 2 de dezembro. 

Por Ronaldo Bressane
veja a entrevista na íntegra aqui
“E aí, bichô! Você se deu bem, eu não vou mais viajar então temos tempo, chegaí! Quer um café?” Assim o alemão grandalhão me recebe em seu consultório, em um simpático sobrado antigo no bairro do Paraíso, em São Paulo. Véspera de feriado, de repente sua viagem engasgou, abrindo espaço na caudalosa agenda do psicanalista paulistano de 51 anos. Com quase três décadas de clínica, Dunker reinventou-se como professor universitário na USP, youtuber contumaz e ensaísta prolífico: acaba de publicar Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano, que em três meses de lançamento caminha para sua segunda edição. A coletânea de ensaios aprofunda e diversifica as temáticas de seu livro anterior, Mal-estar, Sofrimento e Sintoma(Boitempo), em que define o conceito de “sofrimento” como uma psicopatologia do dia a dia, alinhando os sintomas mentais a problemas sociais.
Um grande mérito na escrita de Dunker é a velocidade voraz na associação de ideias, o bom humor na formulação de conceitos e a fluidez na aproximação de escolas teóricas distantes. Assim, de um lado jogam Freud, Lacan, Klein, Badiou, Bauman, Adorno, Lipovetsky, Foucault, Marx, Benjamin, Arendt. De outro, batem bola Woody Allen, Beckett, Sophia Coppola, Clint Eastwood, Marguerite Duras, Lucrecia Martel, Ian McEwan, Nelson Rodrigues, irmãs Wachowski, Zizek, Jessé de Souza… Navegando entre conceitos psicanalíticos e novas nomenclaturas para males contemporâneos – como o narcisismo digital ou a normalopatia –, Dunker pula da discussão de relacionamento à lacração mais rápido do que você soletrar Complexo de Édipo. Chama todo mundo para a conversa e, ao contrário de muitos colegas, tem horror à solenidade sisuda. Aqui, o psicanalista formula teorias sobre os sofrimentos advindos do excesso das redes sociais, a apatia política, a cultura do ódio digital e até tenta psicanalisar os candidatos à presidência da República. Após três horas de papo, passarinhos cantavam e a luz caía sobre o consultório, enquanto Dunker desafiava, rindo: “Agora quero ver você colocar em ordem toda essa loucura que falamos, bicho.”
As redes sociais podem nos levar à depressão?
As redes nos impactam de duas maneiras. A primeira é afetar nosso sistema de identificação: imagens, linguagem escrita, velocidade da relação. Gira em torno de quem sou eu, quem é você, quem somos nós. Segundo: nosso sistema de demanda. Aí uma novidade: tem sempre alguém nos esperando, nos oferecendo algo. Entramos numa espécie de deriva: “Cause o meu desejo, ofereça um objeto, um serviço, uma facilidade”, como se a gente fetichizasse nossa atenção. As redes criam a experiência de supor que nosso clique é importante. Isso causa uma deformação no tamanho do eu. Você pode afirmar: eu amo mais isso e menos aquilo. Produzimos ofertas e certa arrogância. E fetichizamos: “Dei um unfollow no cara!”. Gera uma macrocefalia egóica, porque o ego cresce sem verdadeira referência no outro. E o outro é importante para regular nossas fantasias. Então vem um terceiro processo, depois da identificação e da demanda: a criação do ódio. Seria natural passar do like, da simpatia, da afinidade, para um percurso de viagem comum. Amigos estão na mesma viagem, estão engajados. Quando você tem uma fidelidade, um compromisso, vem a questão: o que descobrimos junto? Este terceiro polo está ligado à intimidade, às noções de público e de privado. Você não consegue passar dos grupos de WhatsApp para experiências de solitude, de incerteza, de compartilhamento de coisas que você não sabe – ali você só compartilha certezas sem nuances. O que acontece com essa inflação do eu? Como os outros não respondem ao seu sistema de identificação, seu mundo diminui. Conforme o seu ego cresce, a empatia pelos outros some. Assim, você só consegue falar com os outros que falam igual a você. Daí você tem a política de identidade, e não de interesses, utopias, ideologias, futuros possíveis. Você vive numa bolha e acha que só ela existe.
E é assim que ocorrem os linchamentos virtuais?
Primeiro você infla ideais, e esse excesso é opressor. O discurso sobre a sexualidade no mundo virtual ou é de pornografia indecorosa ou é de um puritanismo malsão. Quando algo nos oprime, tem de ser destruído. É necessário um processo de idealização e também um processo de devoração dos heróis. Quando uma personalidade é desmascarada em razão de um pecado que vem à tona, se transfere para ela o oposto do amor que havia antes. “Quero puni-lo muito mais do que ele merece.” São funções ligadas ao narcisismo, que é uma função de defesa baseada no julgamento. Julgo o Outro e me coloco fora da roda, me coloco como juiz. Esta é uma autoavaliação constante quando se vai pra rede. E é uma espécie de droga. Preciso ficar julgando: curto, não curto, curto, não curto. E fico voltando à rede sempre, para reconstruir a minha identidade de juiz. Só que isso é uma pirâmide. Então acabo resolvendo as questões com juízos cruéis, intolerantes, moralistas. Em seguida vem a depressão, o sentimento de vazio, de mal-estar. Afinal, num mundo onde só há contrato, julgamento, vítimas e carrascos, cedo ou tarde eu também vou virar réu – pois esta é a regra do jogo. 
Isso explica a polarização política nas redes, que tende a se acirrar em 2018, ano de eleições? 
Esse ponto Melanie Klein explica na figura do esquizoparanoide. Funciona assim: entre eu e você existe uma relação em que eu não te satisfaço e você não me satisfaz. Então vou brigar com você. Mas, na verdade, o problema não é você… é um cara lá fora. Aí, em vez de a gente pensar no que a gente tem em comum, que tal pensarmos em qual é o nosso inimigo? Precisamos nos purificar, porque no outro lado é que estão os ruins – aqui, eu e você ficamos numa boa. Precisamos então não decidir o que queremos, e sim reagir ao que os outros querem. Daí pensamos em como reagir com o petralha, o coxinha, o imigrante, o isentão… voltamos ao bode expiatório da tragédia grega. Vou bloquear a pessoa no Face, silenciar no Twitter, transformar o adversário em inimigo. O adversário não merece ter uma opinião contrária. Portanto pode ser destruído. 
Mas, mais estridente que essa cultura do ódio, existe uma massa apática. Apesar da crise política, as ruas não estão mais mobilizadas: onde estão as panelas? 
Na superfície existe o ódio, mas abaixo existe a vergonha. “Ah, então você apoiou o PT mesmo sabendo de coisas estranhas… Como?” Quando evoluiu-se para escândalos de corrupção, dá vergonha: “Puxa, lá atrás eu deveria ter sido mais crítico.” E do outro lado: “Então eu vou ser hostil à Dilma e apoiar o Temer? Aquele ato de destituição contra a Dilma virou apoio a corruptos?” Vergonha! “Ah, mas você bateu panela contra a Dilma e a favor do Temer?” “Eu não!” Aí você tem uma dissonância cognitiva. A pessoa se engana e sente vergonha. Foi enganada por um monte de lorota. Poxa, no fundo as pessoas têm algum sentimento crítico. De um lado tem uns caras enganados por uma esquerda que não fez o que queriam; de outro, caras enganados por um discurso contra a corrupção. A apatia e a imobilidade são causadas pela vergonha, que é um afeto introspectante: você esconde a cara, se fecha, não quer olhar. A vergonha desmascara a sua fantasia. Mostra como você é tolo, ridículo, infantil. Fica como criancinha enganada: “Enganei o bobo, na casca do ovo…” Assim surge o ódio. 
Recentemente o líder do MTST, Guilherme Boulos, que também é psicanalista lacaniano, contou que as pessoas que passaram a integrar o movimento têm menos transtornos mentais do que quando vagavam pelas ruas: como isso é possível? 
Os sem-teto organizados têm menos neuroses por causa do objetivo comum: a luta. Encontramos o mesmo fenômeno em Belo Monte, só que ao contrário. Junto com a jornalista Eliane Brum, levamos uma equipe de analistas para escutar pessoas que tinham sido desalojadas de uma ilha e postas criminosamente em assentamentos urbanos. Em três meses você observava suicídios, drogas, sintomas psicológicos inexplicáveis – com pessoas que então moravam em casas. Havia essa lacuna de entendimento: por que essas pessoas sofrem agora? Antes estava péssimo, não tinham teto nem água encanada. Só que antes essas pessoas tinham uma narrativa de sofrimento: todos nós juntos dividimos um peixe, todos nós fazemos juntos um mutirão. Existia um funcionamento em torno de um comum, que foi perdido com a chegada da hidrelétrica. No sofrimento, você cria um registro comum, você pode ter uma valência política, tanto geral quanto individual.


Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

26 de julho de 2016

Dica ViaFreud: canal do Christian Dunker

O professor da USP Christian Dunker, autor de "Estrutura e Constituição da Clínica Psicanalítica", e colunista do blog da Boitempo, criou um canal no Youtube onde divulga excelentes vídeos comentando alguns conceitos importantes da Psicanálise e seus autores. 

Eu super recomendo duas séries de vídeos, para ver, anotar e rever! A primeira é uma série de 15 aulas sobre os Conceitos Fundamentais da psicanálise a partir da leitura de Lacan, onde Dunker explora o estádio do espelho, os três registros RSI, o tempo lógico, a dialética entre desejo e demanda e outros conceitos teóricos importantes para os estudiosos sobre o tema.

A segunda é a série Falando Nisso, que não é voltada para os psicanalistas, mas para o público em geral, para o leigo que ouve falar no inconsciente e se interessa em saber um pouquinho mais. Nesta série de vídeos, Dunker tem a preocupação de abordar mal entendidos frequentes como a diferença entre psicologia, psicanálise e psiquiatria, a psicanálise com crianças, o tratamento da ansiedade através da psicanálise, aproximando o leigo da clínica psicanalítica e do legado freudiano para além dos conceitos rebuscados ou os jargões populares como "Freud explica!"
No vídeo abaixo, Chistian Dunker fala sobre psicanálise, psiquiatria e psicologia.







Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.