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13 de outubro de 2020

Sobre a fofoca, com Silvia Federici - em defesa dos vinculos entre as mulheres

Silvia Federici é filósofa, professora emérita da Universidade Hofstra em Nova Yorke e reconhecida ativista feminista. Italiana radicada nos Estados Unidos, é autora de Calibán e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva (2004) , Revolução ao ponto zero: trabalho doméstico, reprodução e lutas feministas (2013) e Mulheres e caça às bruxas (2019), entre outros.

No vídeo, a autora aborda um ponto trabalhado no livro Calibán e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva (2004) sobre a fofoca e a mudança do significado deste termo. Para ela, esse processo desvela uma tentativa de diluição dos vínculo entre as mulheres, de silenciamento e principalmente da recusa e desvalorização do saber que circulava entre as mulheres. 






Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

31 de maio de 2020

1 de junho de 2016

O sintoma como sex-symbol

Texto da psicanalista Marie-Hélène Brousse, O sintoma como sex-symbol, sobre feminino e feminismo  a partir de conceituações da psicanálise e da experiencia pessoal da autora.

O sintoma como sex-symbol
Como abordar o tema dessa conferência? Eu hesitei muito tempo, dividida: pelos discursos, sempre submetidos à significantes mestres, pela teoria analítica, seus debates e seus progressos, pela Época e as tendências que ela manifesta...?
Nada disso me era conveniente. Eu já havia tratado de tudo isso em intervenções anteriores. Havia no tema desse Simpósio de Miami, tema cuja escolha eu havia contribuído, algo que me obrigava a ultrapassar essas aproximações, algo que não me satisfazia.
Joan Copjeck, ontem a tarde, utilizando o método da análise dos discursos, mostrou em sua conferência porque o discurso feminista havia rejeitado e ainda rejeita hoje a psicanálise: Esse discurso recusa aquilo que ela chamou de “a promiscuidade do sexo”. Eu tentaria, utilizando o método clínico, mostrar porque o Feminismo é um modo de fazer sintoma desta mesma “promiscuidade do sexo”.
Pois eu me rendi às evidências: havia um resto sintomático que exigia o recurso à experiência analítica, uma vez mais, ainda. Um resto que exigia uma espécie de controle de minha posição subjetiva. Esse resto, de onde ele surgia? Da associação de dois termos: meu feminismo e minha relação à causa analítica; entre os dois, um lugar vazio surgia que exigia um saber.
O controlador, por esse texto que é endereçado a você, é você. Lacan pode dizer que, quando ele dava seu Seminário, ele estava em posição de analisante. Sempre que se transmite algo do saber inconsciente vivo, não é possível escapar de um retorno à essa casa de analisante.
E não é por acaso que isso se passa nos Estados Unidos, pois eu suponho à meus interlocutores americanos um saber sobre o feminino que me é desconhecido. Eu acredito que elas estejam em posição de precursoras em alguns pontos, a despeito e talvez porque eu não fale a mesma língua teórica que elas. A língua freudo-lacaniana não é a língua dos Gender Studies, nem dos Cultural Studies, não é tampouco a língua dos diferentes feminismos americanos. Contudo, é inegável que o real ao qual nós nos confrontamos é o mesmo. Que elas tenham encontrado mais cedo do que nós é inegável.
Desde que eu me lembro eu era feminista. Primeiramente ao modo de uma criança. Ser uma menina não era um problema em minhas coordenadas familiares. Para meu pai e minha mãe, de modo diferente, era um valor. Por que eu queria então nesse caso ser um menino, quando eu era para o Outro parental aquilo que a psicanálise pós freudiana chamou de “girl phallus”?. Mas eu não tardei a encontrar, no Outro, obstáculos. Eu me lembro de duas anedotas que funcionaram como “marcas”. A primeira é a descoberta, no meio escolar católico – que foi o de meus primeiros anos de escola – que as mulheres não podiam virar Papa: mandei para fora o interesse pela religião e passei a ter uma rejeição violenta a qualquer monoteísmo. Primeiro sentimento de injustiça. A segunda é mais complexa e trata do Nome. Eu nasci logo após a segunda guerra mundial e as conversas dos adultos sempre voltavam à isso. Em uma época em que eu batia na obrigação feita às mulheres de trocar de sobrenome quando se casavam, portanto de trocar de identidade ao entrar nas leis patriarcais da aliança simbólica, alguém, evocando o destino dos judeus durante a guerra, disse que para sobreviver os judeus haviam trocado de nome. A equação mulher=judeu=perigo de desaparecimento foi constituída. Mais tarde eu deduzi que o destino das mulheres, contudo, numericamente majoritárias, era paradoxalmente ligado ao das minorias. Eu posso, portanto, dizer que o feminismo, como fenômeno de identidade, é meu primeiro sintoma.
Como sublinhou magistralmente Miller em uma conferência feita nos Estados Unidos, na Kent State University, o Édipo freudiano, quer dizer, o complexo de castração, é uma máquina de produzir uma identificação e uma escolha de objeto. Todos os trabalhos que tratam de gender devem ser colocados do lado da identificação, quer ela seja Imaginária, Simbólica ou Real. A identidade não resolve a questão da escolha de objeto, questão que implica a escolha do gozo. Indo direto ao ponto, minha identidade, pelo viés do sintoma feminista, não recaía sobre a reivindicação de possuir atributos viris (nada de penisneid). Lacan, no Seminário V, falando do Édipo feminino, afirmava que à menina nada falta, no sentido de penisneid, e que o complexo de castração não tem a ver com os órgãos ou as imagens, e sim com o sujeito em sua relação com a linguagem e à opacidade do desejo do Outro.
O que eu reivindicava, e que ainda reivindico é a universalidade. Eu estava, portanto, em uma identificação viril, a qual Lacan, em seu Seminário Mais, Ainda, situa do lado masculino definido pelo princípio do “Para todo X, phi de X”. O feminismo que eu exercia, sem fazer dele um ativismo militante, era, portanto, igualitário e jurídico. Ele se opunha à qualquer segregação que se apoiasse no sexo biológico ou sociológico, à qualquer segregação que viesse do discurso. Isso dá um resultado divertido se acrescentamos que minha escolha de objeto era decididamente masculina: identidade feminista, quer dizer, masculina no sentido da lógica da sexuação e escolha de objeto masculino: portanto eu era “gay” e não lésbica. A questão da identidade, sempre elaborada no Outro, situa toda uma paleta da sexualidade no lado dos discursos do mestre, religioso, laico ou científico. Como tal, ela é fundamentalmente um problema de lógica de conjuntos e categorias. E isso mesmo que não se possa escapar ao fato de que o universal do “para todos” fabrica a segregação da qual ele promete conseguir fugir. É uma das razões que fazia com que meu sintoma feminista, que se sustentava no Pai, não pudesse dar nenhuma carne ao feminino. Ele funcionava como defesa contra o perigo da lei do capricho, defesa contra o inigualitarismo. Nesse ponto se tratava de um humanismo. Mas ele funcionava igualmente como defesa contra o feminismo, isso quando não se faz do feminino o significante simétrico do significante masculino, se concebemos o feminino como podendo não ter nenhuma relação com o masculino, seguindo assim o axioma do inconsciente lacaniano: a relação sexual não existe.
Eu me lembro de minha primeira consulta ginecológica de adulto em que eu vinha pedir uma receita para pílula, já maior. O médico me deu uma lição de moral paterna, convencido de que graças à pílula eu iria mergulhar em uma vida de promiscuidade sexual. E eu pensei “ah se isso pudesse ser verdade!”, e eu lhe disse que, por conta de meus estudos de filosofia, eu não tinha vindo lhe pedir uma lição de moral, mas que, como eu tinha o direito, eu o utilizava como distribuidor de contraceptivos. O verdadeiro limite de minha solução feminista eu iria, efetivamente, encontrar não na minha recusa da segregação e sim na pesquisa dos corpos. Um limite no real, o dos encontros amorosos e/ou sexuais fora do princípio da universalidade. O “para todos” do universal produz a segregação e a reforça ao lutar contra ela, não deixando outro lugar para a diferença além do lugar da exceção através do modelo “Todas putas menos minha mãe”. O “não todo”, que Lacan desenvolve com sua “lógica de borracha”, produz conjuntos incompletos e inconsistentes. Por aí uma outra versão do feminino pode se impor. Eis porque, após ter lido os textos consternadores dos psicanalistas pós-freudianos sobre o gozo feminino, e impulsionada pela insustentável posição de um falo imaginário incapaz de recobrir um vazio, um desaparecimento sempre que o desejo do Outro tentava ultrapassar a barreira da imagem e a defesa pelo sintoma, eu escolhi a psicanálise, ou seja, o desejo de Lacan.
O tratamento analítico lacaniano obteve o seguinte resultado: substituição da psicanalista à mulher, com a mesma dificuldade de definição. O que esta substituição modificou? Meu feminismo de início era um sintoma que se batia pela manutenção das mulheres na estrutura do laço social, quer dizer, em todo discurso do mestre quer fosse do passado ou ainda por vir. Eu posso é claro constatar ainda a justiça dessa crítica e estender o campo à outros indivíduos. Um sujeito que não se situa dentro das coordenadas do discurso do mestre dominante está exposto a uma segregação que o põe em risco, inclusive de sobrevivência.
Mas a escolha da prática da psicanálise implica em passar de uma lógica da identidade a uma lógica da posição de gozo. Eu não pude, portanto, recuar diante da análise daquela que ordenava minha posição fálica e sustentava por esse viés o meu combate. Ao me dirigir para Miami e lendo uma revista feminina, eu acho que era a “Elle”, eu me deparei com o seguinte título de um artigo: “Ser uma mulher, é um esporte de combate”. O preço a pagar era, com efeito, muito pesado. Primeiramente o combate nos leva sempre à estrutura imaginária a/a’. Em segundo lugar esta posição fálica me ligava a uma posição em que, dominada pelo supereu materno, todo desejo estava mortificado, todo acesso à esse não-todo que me constituía era perigoso para a integridade de uma feminilidade idealizada, e não real. O corpo e seus gozos ficavam submetidos a um controle feroz. Eu era para mim mesma este objeto do fantasma pelo qual eu desejava recobrir e dar consistência ao desejo do Outro que não existe. Em terceiro lugar a posição de gozo não se articula com a identidade e com o gênero, ao menos não totalmente. Os objetos pulsionais nesse caso são dominantes na constituição de um outro tipo de identidade, pulverizada, inclassificável. O feminino que me habita me surgiu como descontinuidade nas manifestações, incontrolável pelo Ego, jogando com a ordem simbólica que me era cara, sempre pronta para a ironia, chegando até esse gozo de desvanecimento e do corte fora do sentido. Eu o encontrei sem distinção de gênero em alguns e algumas. Enfim, o sexo biológico ou sociológico não tem nada a ver e, sobretudo, não determina, ao menos não totalmente, a posição de gozo dos seres que possuem seu ser de linguagem.
E o que aconteceu nessas condições com a minha questão de infância sobre a segregação, o sentimento de perigo real que ela produzia em mim e que possui parte de suas coordenadas na História, mas igualmente na minha “hystoria” particular, usando o neologismo de Lacan? Isso continua como uma questão lógica. Nas diferentes modalidades do discurso do mestre, incluindo evidentemente as que se impõem hoje em dia, a das feministas, a dos transgêneros, a dos homossexuais, tudo se ordena em torno do Um posto em posição de agente do discurso, o um da ordem. Todo significante mestre é segregador. Se vários discursos do mestre coexistem, o múltiplo não abole o princípio da universalidade, mas como disse Lacan em sua pequena nota sobre o Pai, multiplicam-se os fenômenos de borda, de fronteiras, entre minorias definidas cada uma a partir de seus significantes mestre. As fronteiras permitem que a segregação funcione como no mundo da guerra das estrelas: raças que coexistem em uma ordem jurídica e sob legalidade democrática. Em sua proposição sobre o Psicanalista da Escola, Lacan formula o nome do pai em suas três dimensões: imaginária, simbólica e real. Eis o que ele diz dessa última: “a terceira facticidade (do Édipo freudiano) ...é a que torna pronunciável o termo de: campo de concentração... Resumamos ao dizer que o que nós vimos emergir, para o nosso horror, representa a reação de precursores em relação ao que virá, desenvolvendo-se como consequência dos remanejamentos dos agrupamentos sociais pela ciência, e notadamente pela universalização que ela introduz. Nosso futuro de mercados comuns encontrará sua balança em uma extensão cada vez mais dura dos processos de segregação.” Os discursos dos mestres que hoje se praticam são determinados pelos avanços da ciência que define um universalismo fundado, não sobre o significante, mas sobre o número e a letra. A segregação vai se modificar, se antes era um processo simbólico, ela vai se tornar real. É possível supor que a identidade sexual será modificada, mas não menos segregadora.
Passar do feminismo como sintoma ao sintoma analítico, é passar do discurso do mestre ao discurso analítico. Esse último não coloca no lugar do poder um significante, homem ou mulher por exemplo, e sim um objeto pulsional, qualquer que seja, para um dado sujeito. O discurso analítico não gera, portanto, grupos sociais. Ele busca os Uns, solitários. A definição do feminino que Lacan dá em Mais, ainda é uma tentativa de subverter o julgamento universal. É, a meu ver, a única possibilidade de derrotar a segregação sem contudo negar a necessidade lógica. Então, eu me tornei psicanalista, eu escuto os Uns solitários sem nunca prejulgar sobre seus modos de gozo e de suas soluções sexuais. Meu princípio é lacaniano, é “o ser sexuado apenas se autoriza por si mesmo”. Eu passo minha escuta, como Lacan testemunhou ele mesmo, a escutar os seres falantes inventar seu gênero e se submetendo à lógica de seu saber inconsciente, assumindo a escolha de seu modo de gozar. Desagregação. Nunca é possível se desembaçar de seu sintoma, nós o tornamos operatório.
Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

18 de maio de 2016

Diálogos do Lacaneando

No ultimo final de semana de abril eu participei  - pela segunda vez - do Diálogos do Lacaneando. Uma conversa maravilhosa que teve como tema "O feminino no corpo e na cultura"
Junto com Carla Regina Françoia, professora da Unibrasil e PUC-PR, doutoranda em filosofia pela PUC-PR, Patricia Porchat, professora da Unesp e autora do livro Transsexualismo, desconstruindo gêneros e patologias com Judith Butler, e coordenado pela jornalista Patrizia Corsetto, discutimos sobre o  "O feminino no corpo e na cultura" a partir de dois eixos: a estética do corpo e o gênero.  Temas super atuais, como o impacto da cultura no corpo feminino, a obsessão pela beleza, os sintomas alimentares (anorexias e bulimias), as alterações da imagem do corpo através de procedimentos estéticos e body modification, assim como a transsexualidade, o gênero e a eterna questão de Freud "o que quer uma mulher?", foram amplamente discutidos com a participação da plateia.  



                                      





Patricia Porchar, Patrizia Corsetto, Carla Françoia e Fernanda Pimentel

 O evento, que aconteceu na Livraria da Vila, no Shopping Pátio Batel, em Curitiba, foi organizado pelo site Lacaneando e pela Livraria da Vila.


Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

29 de abril de 2016

Diálogos em Curitiba

Esse sábado tem Diálogos do Lacaneando em Curitiba!






Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

2 de novembro de 2014

28 de agosto de 2012

Jornadas Clínicas da EBP - Rio: Horizontes do Feminino na Psicanálise.


 

A escuta freudiana revelou a importância psíquica da diferença sexual anatômica.
Não existem dois sexos complementares, pois no inconsciente só há um sexo:
o masculino. O feminino não encontra uma representação significante e a diferença
morfológica não é suficiente para localizar o Outro sexo, de tal modo que para os
psicanalistas a questão sobre o sexo não é a questão do gênero. O desejo
da mulher está em jogo na relação com o parceiro sexual, seja homem ou
mulher. A surpreendente expressão de Lacan “A mulher não existe” denota
o impossível da proporção entre os sexos. O feminino é não-todo regulado
pela lógica da castração edipiana que permite a assunção do próprio sexo.
Quais são as manifestações desse “não-todo” hoje?
Há uma dimensão do feminino que vem se tornando pregnante na nossa
cultura e que é preciso levar em conta na direção dos tratamentos. Isso diz
respeito, por um lado, a uma tendência à infinitização do gozo em alguns
sintomas contemporâneos que refletem uma patologia da ordem da adição.
Por outro lado, há um aspecto do feminino na atualidade que se verifica na
criatividade das soluções singulares, que não decorrem de uma norma para
todos, para lidar com o real.

As XXI Jornadas clínicas da EBP-Rio, em parceria com o ICP-RJ, apresentarão
as contribuições dos psicanalistas de nossa comunidade em relação aos eixos
 temáticos propostos.


Local
Centro de Convenções Bolsa do Rio
Praça XV, N. 20, Centro, Rio de Janeiro

Convidada internacional: Silvia Salman
Coordenação Geral
Angela C. Bernardes e Rodrigo Lyra Carvalho
Comissão Científica
Cristina Duba (Coordenadora) | Ana Lucia Lutterbach Holck | Angélica Bastos
Glória Maron | Ruth Cohen
Comissão Organizadora
Adriana Lipiani | Angélica Tironi (coordenação de infraestrutura)
Lydia Vasconcellos | Magda Delecave | Monica Rolo | Roberta Assunção
Rodrigo Fraga | Ronaldo Fabião (coordenação de tesouraria)
Sandra Landim | Sarita Gelbert (coordenação de comunicação)
Vanda Assumpção Almeida (coordenação de comunicação)
Vânia Gomes (coordenação de infraestrutura)


25 de abril de 2012

Novo curso de pós-graduação em Niterói/RJ

PÓS-GRADUAÇÃO: PSICANÁLISE E SAÚDE MENTAL no LASALLE

Duração: 18 Meses - Inicio em 04 de Agosto de 2012

Horários: Sábados, 8hs às17hs

Apresentação do Curso:
Este curso parte de uma iniciativa de Mestres, Doutores e Especialistas do Campo da Psicanálise e da Atenção em Saúde Mental aptos a transmitir avanços no conhecimento interdisciplinar sobre os dispositivos institucionais de intervenção e tratamento de pacientes com transtornos psíquicos graves.

Sabe-se que, na atualidade, tais transtornos não são tratados, sequer concebidos, apenas pelo campo da psiquiatria, mas são abordados numa perspectiva transdisciplinar que envolve conhecimentos de diversas áreas como psicologia, psicanálise, serviço social, enfermagem, terapia ocupacional, fisioterapia, dentre outras. Esta diversidade, com suas especificidades, compõe o campo da Saúde Mental que hoje funciona sob o caráter intersetorial da sociedade e dos organismos públicos, não se restringindo ao tratamento apenas medicamentoso e/ou manicomial. O campo da Saúde Mental abrange uma política de inclusão social e desinstitucionalização dos pacientes de longa internação psiquiátrica, tornando o manicômio apenas uma peça auxiliar temporária para situações de crise psicótica. Hoje o tratamento é efetuado pela via sócio-familiar, com dispositivos capazes de manter o paciente em sua comunidade e em seu território, de forma a garantir seus direitos de cidadania e socialização. O manicômio, que era peça chave da relação entre sociedade e “loucura”, passa a ser elemento coadjuvante, já que esses pacientes contam com formas de tratamento que vão muito além da clausura manicomial e medicamentosa, atingindo a maior parcela da população psicótica nos dias de hoje. Nesta perspectiva, o modelo da atenção em saúde mental, que substitui o modelo anterior da tutela estatal excludente, conta de forma decisiva com os conhecimentos da psicanálise, os quais estabelecem parâmetros profundos de concepção e tratamento para o sofrimento mental.

A cidade de Niterói, bem como municípios adjacentes (São Gonçalo, Itaboraí, Maricá, Silva Jardim, Rio Bonito, dentre outros) encontram-se em processo de franca expansão deste novo modelo, abrindo instituições de saúde mental e seguindo a política nacional de inclusão psicossocial dos pacientes psiquiátricos. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), bem como os Serviços Residenciais Terapêuticos, configuram um balizador decisivo deste novo modelo, abrindo um campo interdisciplinar de tratamento que conta, na sua raiz, com profissionais de diversas áreas. Muitos desses profissionais encontram hoje importantes necessidades de ampliação de seus conhecimentos sobre as estruturas psíquicas investigadas pela psicanálise, bem como sobre a lógica dos dispositivos de atenção em saúde mental, articulados à aplicação da psicanálise nessas instituições.

Nesta conjuntura, o Curso Psicanálise e Atenção em Saúde Mental fornecerá importantes ferramentas teórico-clínicas para a especialização de profissionais graduados que atuam ou querem atuar no campo da Saúde Mental, visando constituir um rico espaço de aprofundamento, estudo, debate e avanço para a qualidade da intervenção desses profissionais. A especialização permite e fomenta, além disso, a expansão do novo modelo, proporcionando benefícios sociais e ampliação do mercado de trabalho para os formados, dado o crescimento das instituições de saúde mental, garantido pela lei 10.216 de abril de 2001, que dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental.

Objetivo:
Proporcionar aos Profissionais de Psicologia e Áreas Afins um campo de conhecimento capaz de torná-los aptos ao exercício de sua profissão no campo da Saúde Mental, em articulação aos postulados psicanalíticos, ampliando seu raio de atuação e intervenção.

Objetivos Específicos:
Aprofundar o estudo teórico em psicanálise, com foco nas estruturas clínicas ali investigadas e abordadas; estabelecer conhecimento aprofundado sobre o campo da Saúde Mental, sua política nacional, suas instituições e seus dispositivos; estabelecer articulação teórica entre a psicanálise e as políticas de saúde mental; formar profissionais aptos ao trabalho no campo da Saúde Mental e suas instituições; discutir sobre a aplicação da psicanálise nas instituições de saúde mental.


Mais informações:
http://www.lasallerj.org/especializacao/

0800 709 3773
Secretaria da Pós-Graduação: 2199-6689
posgraduacao@unilasalle.org

27 de fevereiro de 2012

Exposição de fotografia + aula + exibição de curta na Casa do Saber: INVENÇÕES DO FEMININO



Invenções do feminino
Exposição da fotógrafa Irina Ionesco e
aula aberta da psicanalista Marcia Neder


A CASA DO SABER RIO convida para a abertura da exposição Invenções do feminino, da fotógrafa francesa Irina Ionesco. Com apresentação e curadoria de Betch Cleinman, a exposição reúne fotos de mulheres, em séries realizadas entre 1976 e 2006. São mulheres “inventadas” pela artista, mostrando fragmentos de uma realidade feminina – tema da aula aberta da psicanalista Marcia Neder, que aborda o conceito psicanalítico de feminilidade através das personagens hipersexualizadas, sedutoras e fatais de Irina Ionesco. Antes da aula, será apresentado o curta-metragem Mar negro (7 min), dirigido por Matheus Ramalho, sobre uma sessão de fotos realizada durante a passagem da fotógrafa pelo Brasil, em 2010.






Casa do Saber | Rio - Parceria: SESC-Rio

1º de março, quinta-feira
Abertura da exposição: 19 horas
Documentário e aula aberta: 20 horas
Evento gratuito – Vagas limitadas
Inscrições pelo telefone (21) 2227 2237



Marcia Neder
Psicanalista, pós-doutora e doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP, pesquisadora do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise e Educação (Nuppe) da USP, palestrante convidada da PUC-Rio e professora adjunta da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS). É autora dos livros Psicanálise e educação, Laços refeitos e A arte de formar: o feminino, o infantil e o epistemológico.

1 de novembro de 2011

"Por que a homossexualidade incomoda tanto?"

Em entrevista à Revista Trip, Contardo Calligaris fala de homossexualidade, intolerância, preconceito e homofobia
Fonte: à Revista Trip de outubro de 2011.

"Por que a homossexualidade incomoda tanto?"

"Contardo Calligaris é um homem acostumado a temas espinhosos. O psicanalista italiano de 63 anos, nascido em Milão e radicado em São Paulo, assina colunas toda quinta-feira na Folha de S.Paulo, e a trinca sexo, amor e relacionamentos é uma de suas constantes. Nesta edição de Trip dedicada à diversidade sexual, convidamos o terapeuta para refletir sobre por que, afinal, a homossexualidade provoca tanto incômodo. “Ninguém se incomoda com algo a não ser que isso seja objeto de um conflito interno. O homofóbico tem dificuldade em conter traços de homossexualidade que estão dentro dele”, responde Contardo. Segundo o psicanalista, as piadinhas sobre gays, tão comuns nas rodas de homens, celebram um laço que, no fundo, é homossexual. “Ninguém conta uma piada de veado para uma mulher, porque para ela é uma coisa totalmente ridícula. Ela vai virar e dizer: ‘Hein?’.”
Na entrevista a seguir, Contardo aponta para o enorme preconceito contra gays e lésbicas que ainda persiste no Brasil, fala sobre o papel das novelas na formação da opinião pública e defende a aprovação da lei que criminaliza a homofobia. “Essa garantia legal é crucial”, afirma. O psicanalista sai em defesa do “politicamente correto”, que, aqui, não funciona como nos EUA. “Lá, alguém como o [deputado federal Jair] Bolsonaro já estaria na cadeia há muito tempo”, acredita. Seu desejo, diz, é que a sociedade avance para um estágio em que se possa viver livremente de forma “junta e misturada”, ou seja, em uma realidade na qual ser heterossexual ou homossexual não seja tão importante para definir as nossas identidades.
 


Por que a homossexualidade incomoda tanto?
Vários psicanalistas e psicólogos já formularam sobre isso. Existe quase uma regra que quase nunca se desmente na prática. Quando as minhas reações são excessivas, deslocadas e difíceis de serem justificadas é porque emanam de um conflito interno. Por que afinal me incomodaria meu vizinho ser homossexual e beijar outro homem na boca? De forma simples, o que acontece é: “Estou com dificuldades de conter a minha própria homossexualidade, então acho mais fácil tentar reprimir a homossexualidade dos outros, ou seja, condená-la, persegui-la e reprimi-la, se possível até fisicamente porque isso me ajuda a conter a minha”. O problema de toda neurose é que a gente reprime muito mais do que precisa. A neurose multiplica a repressão. Se eu tenho uma vaga impressão de que eu poderia ter uma atração por um colega de classe, então acabo construindo uma série de comportamentos que me convençam de que não só não tenho atração nenhuma como eventualmente posso chamar esse colega de veado, criar um grupo de pessoas que compartilham daquela opinião e esperar ele sair da escola para enchê-lo de porrada.


O homofóbico necessariamente é um gay enrustido?
Eu não diria que é um gay enrustido. A homofobia responde a uma necessidade de reprimir uma parte da sexualidade, mas não significa necessariamente que essa pessoa seja homossexual. É alguém que está reagindo neuroticamente a traços de homossexualidade que estão em cada um. Isso já é suficiente para criar a homofobia.


A sociedade brasileira ainda é muito preconceituosa? O politicamente correto mascara isso?
O politicamente correto no Brasil é muito precário se comparado ao dos Estados Unidos. Aqui as pessoas se autorizam a dizer coisas que lá seriam impensáveis. O Bolsonaro já estaria na cadeia há muito tempo. Não tenho nada contra o politicamente correto, mesmo os seus excessos, porque não estou convencido de que as falas sejam inocentes. As piadas de discriminação deveriam ser proibidas. Deveria ser possível agir legalmente contra isso. Mas, sim, acho que a sociedade brasileira ainda é fortemente preconceituosa. O engraçado é que as formas mais triviais de preconceito se expressam em grupos que acabam sendo homossexuais. O clássico é a piada de veado, que faz todo mundo rir e ocorre numa roda de homens na padaria. Esses homens celebram rindo um laço entre eles que, no fundo, é homossexual. Os quatro skinheads que saem à noite para dar porrada na praça da República substituem o que seria uma homossexualidade neles batendo em quem eles supõem ser homossexual.


Você é a favor da lei que criminaliza a homofobia?
Sou totalmente a favor. Incitar o ódio e a exclusão não dá. A liberdade de expressão não justifica ir contra direitos fundamentais.


Como funciona o preconceito das pessoas que dizem não ter preconceito? Como reagem pais que se consideram esclarecidos quando descobrem que o filho é gay?
No caso dos pais, tem uma parte da reação que não é necessariamente homofóbica. Há um sentimento de perda e preocupação. Eles presumem que não terão netos, isso é uma perda. Eles têm uma apreciação realista da sociedade. Pensam: “Se o meu filho for gay, a vida dele será mais dura. Não poderá viver em qualquer lugar, vai ter que morar em grandes metrópoles. Quando for alugar um apartamento, talvez encontre um dono que não vai gostar de saber que ele vive com outro homem. Uma noite pode estar na praça da República e ser agredido. Quando for fazer a queixa na delegacia, pode ouvir que, se não fosse veado, isso não teria acontecido. Vai trabalhar numa multinacional e todo mundo vai ter a foto da mulher ou do marido em cima da mesa. Ter a foto de alguém do mesmo sexo provavelmente não vai contribuir para o progresso da carreira dele. Enfim, haverá uma série de limitações”. Pode ser que para nossos filhos e netos isso evolua, mas a realidade hoje é essa.

Esses pais se culpam? Perguntam: “Onde foi que eu errei?”

Hoje muito menos, o que prova que a homossexualidade está sendo menos considerada como patologia do que no passado. A homossexualidade é produzida por uma série de coisas complexas, algumas, aliás, não têm nada a ver com o tipo de criação que a pessoa recebeu. Responsabilizar os pais é algo grotesco. Agora, nos anos 70, sim. Eu atendi pais que se recusavam completamente a aceitar que os filhos eram gays. E tive pacientes homossexuais que tinham perdido o contato com os pais a partir do momento em que saíram do armário.

Como você vê a representação dos gays nas novelas?

A existência de gays como personagens positivos ou simplesmente aceitos tem um efeito importante. A novela das nove é a grande formadora de opinião no Brasil. Às vezes tem até uma capacidade de antecipar e transformar a visão sobre as coisas. Nem sempre o que aparece nas novelas é porque os brasileiros mudaram. Às vezes os brasileiros mudam porque apareceu na novela. É pequena a antecipação, mas ela existe. A novela pode se propor a escandalizar um pouco, permitir que as pessoas pensem um pouco além do que elas pensavam antes.


Homossexualidade é genética ou construída? Ou nem cabe mais essa questão?
É um debate aberto. O que todo mundo sabe hoje é que a genética não é o destino de ninguém. Mesmo que existisse um gene da homossexualidade, que, se existe, ainda não foi encontrado, ele precisaria ser posto em ação. Os nosso genes se realizam ou não a partir de uma série de questões relacionadas ao ambiente – geofísico e humano. Imaginar que exista uma separação rigorosa entre o genético e o construído é ingênuo. As coisas se misturam. O grande argumento a favor da tese de que é genético é que existem pesquisas com gêmeos que mostram que, em univitelinos, se um é homossexual a maioria dos irmãos também é. Algo em torno de 60%. Agora, isso é um argumento a favor da tese? Na verdade, é um argumento contra porque, se são univitelinos, deveria ser 100%, já que o patrimônio genético dos dois é rigorosamente igual. O caso é interessante porque mostra que a coisa é mais complexa.

“O gênero não é o mais importante para definir a sexualidade de alguém. A fantasia define muito mais”

Crianças criadas por casais homossexuais sofrem de dificuldades específicas? Seu desenvolvimento é diferente do de crianças de casais heterossexuais?
Isso já está totalmente estabelecido. Há um campo de pesquisas importante nos EUA e em alguns países da Europa, onde já há um bom tempo os casais homossexuais foram autorizados a adotar crianças. Está absolutamente claro que as estatísticas, tanto do futuro da vida sexual dessas crianças como da patologia eventual delas, são absolutamente idênticas às das crianças criadas por casais héteros. Acho que isso não deveria nem mais ser tema de conversa. Porque os resultados estão lá, são conhecidos.


O preconceito é maior em relação a casais de homens que desejam adotar filhos?
É possível. Até porque um dos grandes mitos da homofobia é que as pessoas, sobretudo as mais ignorantes, confundem homossexualidade com pedofilia. Então elas perguntam: “Mas como um casal de homossexuais masculinos vai adotar crianças? Eles vão estuprá-las”. E a pedofilia pode ser totalmente heterossexual.


Você já sentiu atração por homens? Teve vontade de beijar e transar com um homem?
Não, atração nesse sentido não… Mas cresci nos anos 60, uma época de amor livre. Tudo aquilo era bastante aberto e misturado.


Deu para experimentar bastante coisa?
Sim.


Você já questionou a sua orientação sexual?
Questionar a orientação sexual já é em si um problema porque, no fundo, eu não acredito muito nessa distinção entre homossexual e heterossexual como um divisor de águas. Do ponto de vista da personalidade de alguém, é um fato muito marginal. Muito mais do que se ela transa com pessoas do mesmo sexo ou não, o que define uma pessoa é a fantasia sexual com a qual ela funciona. Um homossexual cuja sexualidade é alimentada numa fantasia sadomasoquista tem muito mais a ver com um heterossexual com fantasia parecida do que com outro homossexual que, ao contrário, gosta de transar ternamente, dando beijinhos. O gênero não é o mais importante para definir a sexualidade de alguém. A fantasia define muito mais.


Há quem diga que no futuro as pessoas vão se relacionar independentemente do gênero. Seria tudo meio “junto e misturado”. Você concorda com isso?
Eu preferiria que fosse assim. A homossexualidade se tornou uma identidade necessária para tempos de luta. Nos últimos 30 ou 40 anos e certamente nas próximas décadas ainda terá que se afirmar para que haja uma paridade de direitos real e concreta. Mas, uma vez retirada essa necessidade de luta, não sei se a escolha de gênero do objeto sexual será o mais importante para definir a identidade de alguém… Sou homossexual ou sou heterossexual. Sim, e daí? Good for you. Não sei se verei esse novo mundo, mas espero que isto aconteça: que essa identidade se torne insignificante, pois não será tão necessária."


Fernanda Pimentel é psicanalista, tem mestrado em Psicanálise pela UERJ  e pesquisa sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
http://fernandapimentel.com.br

26 de outubro de 2011

Dica de leitura.

Dica de leitura: O parceiro amoroso da mulher atual, de Lêda Guimarães, publicado em Opção Lacaniana online, Ano 2 , Número 5 , Julho 2011

“Um homem quando ama é uma mulher”, assim proferiu
Pierre Naveau durante a jornada do ano 2000 da EBP-MG,
apoiado na formulação de Lacan “amar é dar o que não se
tem”, o que determina que a posição do amante contenha em
si a condição de castrado. Por essa razão, a sustentação de
uma posição masculina implica numa desvalorização da
vertente do amor e na prevalência da vertente erótica na
constituição das parcerias, como um mecanismo defensivo
fundamental para sustentar a identificação viril enquanto
dotado de falo. Mas isso não quer dizer que os homens não
saibam amar, como costumam se queixar as mulheres, pois
ainda que mantenham como linha de frente o traço perverso
da sua fantasia sexual, acabam escolhendo uma mulher,
dentre as demais, como seu objeto de amor privilegiado.
Seria também engano supor que as mulheres são mais
especialmente dotadas da capacidade de amar. Sua incessante
demanda de amor contém toda uma carga sexual que resulta na
erotomania própria ao estado de apaixonamento, no qual o
gozo feminino é experimentado sob o modo de um
arrebatamento, que mantém em primeiro plano uma
justificação em nome do amor: “me ame, mais, mais e mais
ainda”.
Para traçar algumas formulações acerca do parceiro
amoroso da mulher atual, vejamos inicialmente o que Lacan
nos diz, no livro 18 do seu Seminário, acerca do modo como
um homem poderá ser definido:
O importante é o seguinte, a identidade de
gênero é o que acabei de expressar com estes
termos ‘homem’ e ‘mulher’. É claro que a
questão do que surge precocemente só se coloca
a partir de que, na idade adulta, é próprio do
destino dos seres falantes que se distribuam
entre homens e mulheres. Para compreender a
ênfase que se coloca nessas coisas, neste caso,
é necessário nos darmos conta de que o que
define o homem é sua relação com a mulher e
vice-versa.
Tomando essa implicação direta entre homens e mulheres
em sua parceria sintomática, pretendo desenvolver algumas
formulações acerca das mulheres contemporâneas, levantando
a hipótese de que o declínio do viril não poderia ter sido
engendrado na história da civilização sem a contribuição,
ou até mesmo a imposição da sua parceira-sintoma.
Ocorreu na civilização, em um dado momento propício,
um fato radicalmente novo nas parcerias entre homens e
mulheres. A partir do século XII, o sonho do amor eterno
que faz pulsar o coração da feminilidade, alcançou um
estatuto simbólico na configuração da realidade de nossa
sociedade. Através do surgimento do amor cortês o estatuto
simbólico desse sonho emergiu nas palavras de amor do
cavalheiro gentil, dirigidas à sua dama inacessível. Com a
passagem dos ditos do amor cortês para o campo da escrita,
através das cartas de amor e das ficções literárias dos
romances impossíveis, o sonho feminino do amor eterno
ganhou um estatuto simbólico de verdade.
A aposta na crença do sonho de amor produziu nos
últimos séculos a liberdade social para constituir os laços
de casamento. O feminismo aqui se estabeleceu como o motor
fundamental dessas transformações, se instituindo
inicialmente como a luta das mulheres para alcançar uma
independência econômica que lhes permitisse a liberdade de
escolha da sua parceria amorosa. Desse modo, apoiadas na
crença das palavras do amor cortês, as mulheres
empreenderam uma luta contra as tradições da família
patriarcal, que determinava as regras dos laços de
casamento. A gênese do feminismo tomou, assim, como ponto
de mira o desafio à autoridade paterna, àquele que era
concebido como o juiz que ordenava a linha do destino das
mulheres. Podemos supor, dessa maneira, que o grande motor
do feminismo foi impulsionado pela aposta nas promessas do
amor cortês, instituindo com suas ganas o declínio da imago
paterna na civilização.
Oh! Lindo e esplendoroso amor, em que o cavalheiro
servil se curvava extasiado diante de sua deusa: A Mulher
impossível!
Porém, com o advento do feminismo, no qual A Mulher
quis engendrar-se como possível, imediatamente esse lindo
amor começou a desaparecer, pois à medida que as mulheres
passaram a falar em resposta ao apelo apaixonado do seu
amante, a desgraça começou a se abater sobre a virilidade
dos homens, reduzindo suas promessas de amor eterno ao
ridículo de meras falácias, instituindo a derrocada do
viril..."

Veja o artico completo em http://www.opcaolacaniana.com.br/pdf/numero_5/O_parceiro_amoroso_da_mulher_atual.pdf

14 de junho de 2011

Entrevista Psicológica TV

O site Psicológica TV faz um trabalho muito bacana entrevistando psicólogos e psicanalistas sobre os mais diversos assuntos, abordanto temas atuais e interesantes.
Já tinha comentado aqui do excelente trabalho do Julio Camacho entrevistando os queridos amigos Flávia Albuquerque e Felipe Grillo.
Essa semana estreiou o trailler da entrevista que eu fiz para o site, falando sobre Anorexia e Feminilidade.
Agradeço a equipe Psicológica Tv o convite e o carinho!




18 de junho de 2010

"Não se nasce heterossexual"

Como se chega a ser heterossexual? A pergunta já tenta aproximar a primeira ideia que, assim proposta, também pretende matar dois pássaros com um tiro. Primeiro disparo: a sexualidade do sujeito é contingente. Da mesma forma que o vínculo existente entre o significante e o significado; da mesma forma que a relação de contingência que a pulsão mantém com o objeto. Segundo tiro: chegamos a ser heterossexual.

Ambos os disparos incluem uma obviedade dedutiva: a sexualidade do sujeito é um ponto de chegada, não de partida. "Constrói-se" independentemente do sexo anatômico, e essa produção inclui os avatares da lógica fálica, do caso por caso. A essa fábrica, Freud chamou Édipo & Complexo de Castração, e sua matéria-prima pulsional é a linguagem. Ou, lalíngua, que Lacan descreve, como neologismo, em um só termo, essa forma particular de falar e que – parasitando o sujeito – lhe é transmitida por meio da estrutura de parentesco em cada caso.

A sexualidade assume existência a partir dessa linguagem-esburacada e é um conceito cultural que já não é possível confundir com a anatomia genital dos seres falantes. E se é cultural é o mesmo que se perguntar: como é possível que uma alta dama oriental se apaixone por um cavalheiro caucasiano baixinho? Ou como se chega a ser histérico em vez de psicótico?

Mas então, como? Uma resposta pontual pode ser esta: "falando", gerúndio que serve de caminho para que o sujeito chegue. Mas essa falação – "Seminário 22", Lacan –, longe de ser interpretada como um conjunto de códigos comuns para se entender mutuamente, nada mais é do que o representante do gozo sexual. Esse nó é problemático, porque o sujeito já não sabe o que diz quando fala, já que – repetimos – não se trata de "fazer-se entender", mas sim de gozar.

Estamos dizendo, pois, que existe algo chamado falo, que une o real – anatômico, sexual – com o significante. Essa contingência determinará a escolha sexual do objeto. Isto é, ser heterossexual é um acidente no marco da castração do sujeito.

Esse acidente de castração é elaborado em três etapas. E – a julgar pela clínica – se a neurose existe é porque sempre há acidentes, e a passagem do segundo tempo do Complexo para o terceiro – no qual o sujeito reconhece que o pai não é a lei, mas sim que a transmite – é muito mais problemático do que acreditávamos.



Heath Ledger e Jake Gyllenhaal no filme Brokeback Mountain

Mas, então, não nascemos heterossexuais? Não só não nascemos, como também nem que queiramos o somos. A sexualidade, como o corpo, nós a temos, adquirimos, conquistamos. Como dirá Lacan, "é um presente da linguagem". Em todo caso, já desde Freud sabemos que o inconsciente é homossexual desde o momento em que não há mais do que a inscrição de um único significante: o falo. A partir do narcisístico, o autoerotismo tem seu autorrecolhimento sobre o homossexual. A partir de Lacan, o sujeito está ancorado no "todo fálico". Essa posição implica que o inconsciente rejeite o Outro sexo. Segundo se lê no seminário "Ainda" – e isso está na base da axiomática "a relação sexual não existe" –, o gozo enquanto sexual é fálico. Isto é, não se relaciona com o Outro enquanto tal. E também podemos responder a partir da nossa práxis: o inconsciente repete o próprio real, base de todo sintoma: o homossexual também se encontra nele.

Escutamos hoje mais do que nunca certos pacientes (amantes da precisão científica) que se encontram duvidando da potencial escolha sexual de seus filhos. Principalmente porque, em muitos casos, eles mesmos já se divorciaram para viver com uma pessoa de seu próprio sexo. Quando se trata do inconsciente, não há maneira consciente de garantir um não-acidente no trajeto. Assim como não há método para definir um objeto único para a pulsão: se houvesse, estaríamos no campo da natureza e não do ser falante.

Sob uma sociedade muito mais tolerante e melhor informada – o que não é pouco –, podemos acompanhar nesses avatares lógicos o devir de cada experiência subjetiva para – mesmo que não responder sempre – pelo menos perguntar a partir de um lugar em que unam dois pássaros com um só laço: desejo e amor. Isto é, administrar o gozo de uma maneira mais produtiva.

Artigo publicado no blog Significantes.