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9 de setembro de 2020

Aula em forma de entrevista

A historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz dá um show no Roda Viva, na TV Cultura, e fala sobre história, autoritarismo, racismo e a tradição brasileira. 




Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

7 de agosto de 2020

Žižek: A dialética paralisada da pandemia

Para Žižek, filósofo esloveno, a reabertura gradual do comércio, apesar do crescente número de casos, denuncia que o retorno à normalidade - ou o novo normal - é um  gesto psicótico supremo, sinal de uma loucura coletiva.


A dialética paralisada da pandemia

Por Slavoj Zizek, no Blog da Boitempo

Nossa vida social não está paralisada por estarmos tendo que obedecer a regras de isolamento social e quarentena – nesses momentos de aparente paralisia, as coisas estão mudando radicalmente. A rejeição ao lockdown é na verdade uma rejeição à mudança.

O simples que é difícil de fazer

Os marxistas tradicionais costumavam estabelecer uma distinção entre o comunismo propriamente dito e o socialismo, que seria sua etapa inicial, inferior (na qual o dinheiro e o Estado ainda existiriam, os trabalhadores ainda recebem salários e assim por diante). Na União Soviética houve um debate em 1960 sobre onde eles se encontrariam nesse quesito, e a conclusão foi que embora não estivessem ainda no comunismo pleno, tampouco se encontravam na sua etapa inferior (o socialismo). O resultado foi a introdução de uma distinção adicional entre uma fase inferior e superior do próprio socialismo… Ora, será que algo semelhante não está ocorrendo agora com a epidemia da covid-19? Até cerca de um mês atrás, nossa mídia estava recheada de alertas sobre uma segunda e muito mais potente onda da epidemia que ocorreria no outono e no inverno.

Hoje, com novos picos em toda parte e números de infecção despontando mais uma vez, o que se diz é que não se trata ainda da segunda onda, mas apenas de um agravamento da primeira onda, que persiste. Essa conclusão classificatória só confirma que a situação da covid-19 está ficando grave, com o número de casos explodindo em todo o mundo novamente. Portanto passou da hora de levar a sério verdades simples tais como aquela recentemente anunciada pelo diretor geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus: “A maior ameaça diante da qual nos deparamos agora não é o vírus em si, é a falta de liderança e solidariedade a nível global e nacional. Não conseguiremos derrotar essa pandemia se permanecermos divididos enquanto mundo. A pandemia da covid-19 é um teste de solidariedade e liderança globais. O vírus floresce com a divisão, mas é aplacado quando nos unimos.” Levar essa verdade a sério significa que devemos considerar não apenas as divisões internacionais como também as divisões de classe no interior de cada país.

 “O coronavírus meramente expos a pandemia pré-existente de pobreza. A covid-19 chegou em um mundo no qual a pobreza, a desigualdade extrema e o desprezo diante da vida humana estão se alastrando, e no qual políticas econômicas e estruturas jurídicas são concebidas a fim de gerar e sustentar riqueza para os mais poderosos, não para erradicar a pobreza.”

Conclusão: é impossível conter a pandemia viral sem atacar também a pandemia da pobreza. Como? A princípio, não tem muito mistério: dispomos dos meios necessários para reorganizar adequadamente o sistema de saúde e assim por diante. No entanto, para citar a frase final do “Elogio ao comunismo”, de Brecht, presente na sua peça A mãe: “Er ist das Einfache, das schwer zu machen ist [É o simples, que é difícil de fazer]”. Há muitos obstáculos que fazem com que esse simples seja tão difícil de realizar (sobretudo a ordem capitalista global), mas quero aqui focar em um obstáculo ideológico – ideológico no sentido das posturas, preconceitos e fantasias semi-conscientes, mesmo inconscientes, que regulam as nossas vidas também (e especialmente) em tempos de crise. Ou seja, trata-se de pensar uma teoria psicanalítica da ideologia.

Nos meus livros, muitas vezes me refiro a uma série de filmes de Louis Buñuel construídos em torno do tema central recorrente da “impossibilidade não explicável da realização de um simples desejo” – as palavras são do próprio Buñuel. Em L’age d’or, o casal quer consumar seu amor, mas é repetidamente impedido de o fazer por conta de algum acidente besta. O herói do filme Ensaio de um crime quer realizar um simples assassinato, mas todas as suas tentativas fracassam. Ao final de uma noite de festa, um grupo de pessoas ricas não consegue atravessar a soleira para deixar a casa em O anjo exterminador. Em O discreto charme da burguesia, dois casais querem jantar juntos, mas complicações inesperadas sempre impedem a realização desse simples desejo. E, finalmente, em Aquele obscuro objeto do desejo, temos o paradoxo de uma mulher que, através de uma série de truques, adia repetidamente o momento final de encontro com seu amante… Será que não estaríamos testemunhando algo muito semelhante com a reação à atual pandemia? Todos nós de uma maneira ou de outra sabemos o que precisa ser feito, mas as estranhezas do destino vão nos impedindo de fazê-lo.

Agora que as infecções de covid-19 estão aumentando e as pessoas voltam a se preocupar, as novas medidas restritivas são anunciadas mas sempre junto com uma ressalva explícita ou ao menos implícita dizendo: “mas não haverá retorno a um lockdown total, a vida pública continuará…” Essa ressalva ecoa as queixas de muitas pessoas: “Eu não aguento mais [um lockdown total]. Quero minha vida normal de volta!” Por que? Terá sido o lockdown uma paralisia desprovida de dialética (para inverter o famoso tema benjaminiano da “dialética paralisada” [Dialektik im Stillstand])? Nossa vida social não está paralisada por estarmos tendo que obedecer a regras de isolamento social e quarentena – em tais momentos de (ou do que pode parecer uma) paralisia as coisas estão mudando radicalmente. A rejeição ao lockdown é na verdade uma rejeição à mudança.

Normalidade e psicose coletiva

Ignorar isso significa nada menos que um tipo de psicose coletiva. Escuto nas queixas contra o lockdown uma confirmação inesperada da afirmação de Jacques Lacan de que a normalidade é uma versão de psicose. Exigir um retorno à normalidade hoje implica um fechamento psicótico ao real do vírus – seguimos agindo como se a infecção na realidade não ocorresse. Basta reparar nos discursos mais recentes de Donald Trump: embora ele tenha consciência do verdadeiro escopo da epidemia, ele fala e age como se não soubesse de suas implicações, acusando ferozmente os “esquerdistas fascistas” de serem a principal ameaça aos EUA hoje, e por aí vai. Mas Trump aqui é muito menos uma exceção do que pode parecer – lemos regularmente na mídia e na imprensa notícias que soam algo como: “Apesar dos novos picos de infecção, a abertura continua…” De maneira insuperavelmente irônica, o retorno à normalidade torna-se assim o gesto psicótico supremo, o emblema da loucura coletiva.

Isso, é claro, não resume a verdade toda a respeito do impacto psíquico da epidemia. Em uma época de crise, o grande Outro (a ordem simbólica substancial que regula as nossas interações) está simultaneamente desintegrando, demonstrando sua ineficácia, e se fortalecendo (nos bombardeando com ordens precisas a respeito de como agir, o que fazer e o que não fazer). Isto é, o fechamento psicótico não é a única nem mesmo a mais predominante reação à epidemia. Há também a postura obsessiva.1 Muitos de nós gozamos com os rituais protetivos contra o perigo da infecção. Lavamos compulsivamente as nossas mãos, evitamos tocar nos outros e mesmo tocar a nós mesmos, esterilizarmos todas as superfícies de nossos apartamentos etc. É assim que agem os obsessivos: uma vez que o gozo objetal se encontra interditado, eles realizam uma guinada reflexiva e passam a gozar com as próprias medidas que mantêm o gozo objetal a uma distância segura.

Aqui, Jacqueline Rose levantou uma objeção crítica contra mim (durante um debate na Birkbeck Summer School): “Como você concilia a liberação de obscenidade, mesmo psicose, no espaço público com a sua explicação dos elementos progressistas do momento? Pode a ética derrotar a obscenidade? Temo que o conjunto da psicanálise sugere o contrário.” As coisas, a meu ver, são mais complexas. A obscenidade perversa não é o momento no qual o inconsciente irrompe abertamente de maneira desprovida de qualquer regulação ética a constrangê-lo. O próprio Freud chegou a escrever que na perversão, o inconsciente é o mais difícil de acessar – motivo pelo qual é quase impossível psicanalisar os perversos: primeiro eles precisam ser histericizados, é preciso que suas certezas sejam enfraquecidas pelo surgimento de questionamentos histéricos.

Mas penso que o que estamos testemunhando agora, com a epidemia se arrastando, é justamente uma gradual histericização daqueles que possuíam uma posição perversa ou mesmo psicótica. Trump e os outros novos populistas de direita estão surtando internamente, ficando nervosos, suas reações são cada vez mais inconsistentes, autocontraditórias, assombradas por uma questão. Voltando a Rose, penso que a própria obscenidade já depende de certa ética, ela se enquadra numa postura que não pode ser designada senão como ética: aqueles que agem de maneira obscena querem chocar as pessoas com seus atos e assim despertá-los de suas ilusões cotidianas. A forma de superar essa ética da obscenidade é trazer à tona suas inconsistências: aqueles que agem de maneira obscena possuem seus próprios tabus, eles nunca são tão radicais quanto pensam ser. Não há nenhum político atualmente mais constrangido pela repressão de seu inconsciente do que Trump, precisamente quando ele pretende agir e falar de maneira sincera e aberta, dizendo o que lhe der na telha.

O pessimismo de Rose se justifica, mas num nível ligeiramente diferente. Hegel não disse simplesmente que não se aprende nada da história, ele disse que única coisa que aprendemos com a história é que não há nada a se aprender com ela. É claro que “aprendemos com a história” no sentido de reagir às catástrofes do passado, de incluí-las nas narrativas de um possível futuro melhor. Digamos, depois do horror da Primeira Guerra Mundial, as pessoas ficaram completamente horrorizadas e formaram a Liga das Nações a fim de evitar futuras guerras – mas o que veio em seguida foi a Segunda Guerra Mundial. Aqui sou um pessimista hegeliano: cada trabalho de luto, cada simbolização de uma catástrofe deixa algo de fora e assim abre um caminho para uma nova catástrofe. E não adianta ter consciência do perigo que nos aguarda. Basta lembrar do mito de Édipo: seus pais sabiam o que ocorreria, e a catástrofe se realizou porque tentaram evitá-la… sem a profecia que comunicou a eles o que aconteceria, a catástrofe não teria se realizado.

Só penso que nossos atos nunca são autotransparentes, nunca sabemos o que estamos fazendo, quais serão os efeitos do que estamos fazendo. Hegel tinha plena consciência disso e aquilo que ele denominava “reconciliação” não é um triunfo da razão mas a aceitação da dimensão trágica da nossa atividade: precisamos humildemente aceitar as consequências de nossos atos mesmo que não gostaríamos que isso ocorresse. Os comunistas russos não queriam o terror stalinista, isso não fazia parte dos planos deles, mas foi o que ocorreu, e eles são de certa maneira responsáveis por ele. Será que o mesmo se dará com a epidemia do corona? E se algumas das medidas que estamos implementando para combatê-la ensejarem novas catástrofes?

O suporte fantasmático do capitalismo

É assim que devemos aplicar o idealismo de Hegel à realidade da covid-19: aqui, também, devemos ter em mente a afirmação de Lacan de que não há realidade desprovida de suporte fantasmático. As fantasias fornecem a moldura daquilo que experimentamos como realidade – a epidemia da covid-19 como fato da nossa realidade social é portanto também uma mistura do real e das fantasias: todo o arcabouço a partir do qual nós a percebemos e reagimos a à pandemia é sustentada por diferentes fantasias (sobre a natureza do próprio vírus, sobre as causas de seus impacto social e assim por diante). O próprio fato de que a covid-19 quase parou o mundo em um momento no qual muito mais pessoas vinham morrendo de poluição, fome etc, já fornece um claro indício dessa dimensão fantasmática. Temos a tendência de esquecer que há pessoas – refugiados, pessoas presas em meio a uma guerra civil – para as quais a epidemia da covid-19 representa uma preocupação menor, desprezível.

Isso significa que não há esperança? Etienne Balibar escreveu o seguinte contra mim (também no contexto de um debate na Birkbeck Summer School): “me soa um pouco infantil a ideia de que só porque a crise é uma ‘grande’ crise (concordo), todas as ‘lutas’ estão potencialmente se fundindo em um único movimento revolucionário (contanto que gritemos ‘uni-vos! Uni-vos!’ de maneira suficientemente alta)… ainda permanecem alguns obstáculos! As pessoas precisam primeiro sobreviver…” Mas penso que algo como uma nova forma de comunismo terá de surgir precisamente se quisermos sobreviver!

Se as últimas semanas demonstraram alguma coisa é que o capitalismo global não tem condições de conter a crise da covid-19. Por que não? Como observou Todd MacGowan, o capitalismo é, em seu âmago, sacrificial – em vez de imediatamente consumir o lucro, devemos reinvesti-lo, de modo que a satisfação plena é eternamente adiada.2 Em uma das últimas cenas da ópera de Mozart, Don Giovanni canta de maneira triunfal: “Giacché spendo i miei danari, io mi voglio divertir [Já que estou gastando meu dinheiro, quero me divertir]” É difícil imaginar um lema mais anticapitalista – um capitalista não gasta seu dinheiro para se divertir, mas para ganhar mais dinheiro. No entanto, esse sacrifício não é experimentado como tal, ele é ocultado: nos sacrificamos agora para lucrar lá na frente.

Com a epidemia da covid-19, a verdade sacrificial do capitalismo veio à tona. De que forma? Somos abertamente solicitados a sacrificar (parte das) nossas vidas agora a fim de manter a economia rodando. Estou me referindo aqui à maneira pela qual alguns dos seguidores de Trump, por exemplo, diretamente exigiram que pessoas maiores de 60 anos de idade deveriam aceitar morrer a fim de sustentar o “american way of life” capitalista… É claro, os trabalhadores que exercem profissões perigosas (mineradores, metalúrgicos, caçadores de baleias) já vêm arriscando suas vidas há séculos – isso sem falar nos horrores da colonização, em que quase metade da população indígena foi erradicada – mas agora o riso está direta e explicitamente formulado, e não é exclusivo aos pobres. Pode o capitalismo sobreviver a essa mudança? Penso que não: ela sobrepuja a lógica do gozo eternamente adiado que permite com que o capitalismo funcione.

O obverso desse ímpeto capitalista incessante de produzir a cada instante novos objetos são as crescentes pilhas de restos inúteis, montanhas de carros usados, sucata eletrônica e assim por diante, tal como o famoso “cemitério de aviões” no deserto de Mojave na Califórnia. Nessas pilhas cada vez maiores de “coisas” inertes, disfuncionais, que não podem senão nos provocar espanto com sua presença inútil, é possível, por assim dizer, identificar o ímpeto capitalista em estado repouso. E será que algo dessa natureza não ocorreu com todos nós quando, com a quarentena, nossa vida social se paralisou? Vimos objetos que usávamos todo dia – lojas, lanchonetes, ônibus, trens e até aviões – simplesmente em estado de repouso, fechados, desprovidos de suas funções. Não poderíamos dizer que isso foi uma espécie de epoché imposta sobre nós? Tais momentos devem nos fazer pensar: será que vale mesmo a pena voltar ao pleno funcionamento desse mesmo sistema?

O mais difícil ainda está por vir

A verdadeira provação, contudo, não é tanto o lockdown e o isolamento, ela se dará quando nossas sociedades começarem a se movimentar novamente. Em uma coluna anterior aqui no Blog da Boitempo, comparei o efeito da epidemia de covid-19 sobre a ordem capitalista à “técnica dos cinco pontos que explodem o coração” da cena final do filme Kill Bill: volume 2, de Quentin Tarantino. A técnica consiste em uma combinação de cinco golpes desferidos com a ponta dos dedos em cinco pontos de pressão diferentes no corpo do oponente. Depois de sofrer o golpe, a vítima ainda pode seguir viva contanto que não se mova. Assim que virar as costas e completar cinco passos, contudo, seu coração explode e ela desaba… Ora, não foi assim que a epidemia da covid afetou o capitalism global? É relativamente fácil manter o lockdown e o isolamento, temos consciência de que trata-se de uma medida temporária; algo como dar uma pausa. Os problemas realmente vêm à tona quando nos vemos diante do imperativo de inventar uma nova forma de vida, uma vez que fica claro que não há mais possibilidade de retorno à antiga. Em outras palavras, os tempos realmente difíceis estão chegando agora.

Em um ensaio ainda inédito intitulado “Present Tense 2020”, W. J. T. Mitchell lê a temporalidade da epidemia através das lentes da tríade da antiguidade grega composta por Chronós, Aion e Kairós. Chronós personifica o tempo linear implacável que conduz inexoravelmente à morte de todas as coisas vivas. Aion é o deus do tempo circular, das estações, do ciclo do zodíaco, da imagem da serpente devorando a própria cauda, do eterno retorno. Kairós possui um aspecto duplo de ameaça e promessa – na teologia cristã, trata-se do momento da decisão fatídica, o momento no qual “a novidade vem ao mundo”, assim como no nascimento de Cristo.

A epidemia é em larga medida lida através das lentes de Chronós ou Aion: como um acontecimento no curso linear das coisas, como uma temporada ruim, um ponto baixo que cedo ou tarde será revertido. O que eu espero é que a epidemia siga a lógica de Kairós: uma catástrofe que nos impelirá a encontrar um novo começo. Para nossos liberais, a aparição inesperada de Trump foi um momento de Kairós, algo novo que estilhaçou os fundamentos de nossa ordem estabelecida. Para mim, Trump é apenas um sintoma do que já estava errado em nossas sociedades, e ainda estamos para ver o novo surgir.

Se não inventarmos um novo modo de vida social, não será apenas um pouquinho pior, mas muito pior. Mais uma vez, minha hipótese é de que a epidemia da covid-19 anuncia uma nova época na qual teremos que repensar tudo, inclusive o significado básico do que é ser humano, e nossas ações devem ir ao encontro de nossos pensamentos. Talvez hoje devamos inverter a décima primeira tese de Marx sobre Feuerbach: no século vinte, tentamos mudar o mundo de maneira rápida demais, e agora chegou a hora de interpretá-lo de uma nova maneira.

Fonte: Blog da Boitempo


Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

28 de julho de 2020

Como a flexibilização da quarentena nos afeta?

Matéria da revista Elle sobre as consequências do afrouxamento das medidas de isolamento 


Há cinco meses, a pandemia do Covid-19 se impõe como a nossa nova realidade. O pânico inicial levou muitas pessoas a enxergarem o isolamento social como estratégia de mitigação do problema, mas com a flexibilização da quarentena a angústia e a raiva viraram emoções cada vez mais presentes.
A pandemia expôs as nossas desigualdades tanto materiais quanto estruturais. À medida em que o tempo em isolamento avança para aqueles que permanecem em casa — mesmo com todo o conforto e recursos — fica difícil lidar com quem descumpre o isolamento por opção própria.
Nos indignamos ao assistir via redes sociais, ou por meio dos discursos de governantes, aqueles que relativizam a crise e usufruem de pequenos-grandes privilégios em tempos de exaustão emocional. Um post compartilhado de um céu azul na beira da praia ou cenas de bares lotados para quem só enxerga a parede de sua casa há meses, pode ser a gota d'água.
De acordo com a pesquisa do Datafolha do dia 29 de junho, apenas 12% dos brasileiros seguem em isolamento, saindo somente para realizar tarefas extremamente necessárias. Paradoxalmente, explode o número de vítimas da doença, e nunca antes tememos tanto o vírus: 47% da população afirmou sentir muito medo de ser infectado.
Como podemos navegar, então, por esta fase em que se desenha uma retomada do cotidiano, mas ainda convivendo diariamente com os efeitos da pandemia?
O MAL-ESTAR QUE DECORRE DO PACTO COLETIVO
Segundo Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, o isolamento social é uma espécie de pacto coletivo que criamos e que passamos a entender como uma regra em resposta ao "novo normal".
"Para interiorizar essa regra, a gente pensou que ela valia para todo mundo. Eu fiz uma renúncia, me impus severas abstinências – de planos, de afetos, de liberdade —, mas entendi esse sacrifício como um bem comum. Aquele que fura a quarentena abala o nosso processo de interiorização da regra, e é normal que a gente se sinta enganado."
Esse pacto coletivo pode ter diferentes motivações, como a nossa noção de cidadania, a nossa moral, o nosso altruísmo, a nossa capacidade de obedecer a uma ordem, de se sentir útil ou até mesmo a nossa hipocrisia. Em O Mal-estar na Cultura (1930), Freud reflete sobre as renúncias individuais que precisamos fazer para que a vida em sociedade seja possível, e expõe o quanto esse esforço também é acompanhado de um preço a ser cobrado.
"Aquele que fura a quarentena abala o nosso processo de interiorização da regra, e é normal que a gente se sinta enganado", Christian Dunker
"O que Freud chamou de mal-estar é o fato de que a renúncia toca pontos muito caros ao sujeito, como liberdade de escolha, de deslocamento, de expressão dos desejos. Não é tudo que se pode dizer e fazer, sob pena de comprometer o arranjo que permite a vida com o outro, e do qual todos podem se beneficiar", explica a psicanalista e pesquisadora em Linguística Aplicada (PUC-SP) Amanda Mont'Alvão. "É uma renúncia porque, como humanos, somos constituídos de desejos que pressionam por satisfação, e algumas destas realizações implicam no prejuízo ou até mesmo destruição de uma outra pessoa. Daí a necessidade de a sociedade possuir leis e instâncias mediadoras que estabeleçam e zelem por pactos coletivos possíveis".
Convivemos incessantemente com esse conflito e se em condições normais a renúncia individual em prol da coletividade já é desafiadora, que dirá em um contexto de muito medo e desigualdade. Do ponto de vista cognitivo, o desencontro de informações torna tudo ainda mais difícil, como explica Fabiano Moulin, neurologista da Unifesp.

"Nós precisamos de uma narrativa que contextualize o nosso sofrimento. E é aí que entram os nossos vieses, espécie de 'atalhos' que o nosso cérebro cria para facilitar os nossos processos. Dois deles, principalmente, permitem que a gente seja muito resiliente: a nossa sensação de pertencimento e o nosso senso de propósito."
No Brasil, porém, o especialista aponta que esses dois consensos foram destruídos pela forma como a pandemia foi encarada politicamente. Passamos a conviver com discursos simplistas de uma realidade complexa, resumidos a quem acredita no vírus ou não, quem espera um milagre salvador ou não, quem advoga pela retomada da economia ou não.
Mas há uma guerra simbólica que compõe a nossa realidade. À medida em que julgamos quem fura o isolamento, nos diferenciamos daqueles que preferem negar o real e nos aproximamos daqueles que defendem o discurso científico na construção de soluções para o enfrentamento da pandemia.
Apenas 12% dos brasileiros seguem em isolamento, saindo somente para realizar tarefas extremamente necessárias.
"Chegamos em um cenário que agora está mais claro: nem todos compartilham da mesma noção de realidade. Mas como você desmonta sistemas imaginários de quem nega o real? É preciso lembrar: o real se apresenta, e se reapresenta, e insiste. A Terra é realmente redonda. O vírus realmente existe. Mas a gente tem que se colocar numa posição subjetiva humilde para criar ferramentas de compreensão desse real", aponta a psicanalista e pesquisadora do Núcleo Diversitas (USP), Maria Lucia Homem. "Eu sei que gritar 'fascistas!' nas redes sociais pode trazer algum alívio, mas ainda acredito na comunicação não violenta como ferramenta para furar essa bolha de sentidos".
OS NOSSOS LIMITES EMOCIONAIS SÃO EXPOSTOS PELA PANDEMIA
Para os especialistas, durante o processo de reabertura das cidades, e de um potencial retorno à quarentena caso o nível de contaminação volte a aumentar, cada um vai precisar fazer uma avaliação individual de suas concessões. E é esperado que desse processo surjam emoções como culpa, vergonha, medo e depressão.
"Você pode até acreditar que a quarentena é importante e você pode querer cumpri-la à risca, mas todos nós temos limites psíquicos. Não somos infinitamente elásticos. A gente quebra. Precisamos ponderar a nossa moralidade versus a matéria-prima de que a gente é feito. E esse é um exercício muito difícil, porque significa que a gente precisa sair da nossa moral binária", explica Dunker.
Se até agora entendemos a quarentena como uma lei de tudo ou nada – ou você cumpre, ou você está fora dela — a situação que se impõe, sem qualquer perspectiva de acabarmos com o vírus a curto prazo, vai nos exigir uma outra racionalidade, igualmente ética.
Talvez, tenhamos que enxergar a nossa realidade com as diversas camadas que ela exige, e isso, segundo Dunker, envolve um criterioso trabalho de avaliação de riscos: quem é você, com quem sua quarentena se comunica, quais os custos disso e quais os riscos você apresenta para os outros.
É um trabalho que envolve análise de informação para sermos o mais prudente que podemos, mas também um exercício de coragem para conviver com aquilo que não conhecemos ou controlamos. No caso, o vírus.
Em tempos como o nosso, e também na pós-pandemia, muita reconstrução vai precisar ser feita. E o luto, seja de quem perdeu entes queridos ou do abandono de uma realidade que outrora existia, precisa de espaço para se estabelecer.
"Lidar com o sofrimento, com a impotência, chorar, falar sobre a finitude de nossos corpos e de nossas certezas, e também pedir ajuda. Por mais que cada um enfrente a pandemia com a sua subjetividade, precisamos tomar todas essas perdas como nossas, porque elas são. Um país que parou e perdeu mais de 60 mil vidas, muitas vezes de forma solitária, vai precisar aprender a honrá-las", reforça a psicanalista Mont'Alvão.

Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

3 de junho de 2020

Epidemias e seus impactos na história da humanidade

Leandro Karnal fala, no Café Filosófico, sobre Epidemias e seus impactos na história da humanidade e nos ajuda a entender um pouco mais da situação atual a partir da analise histórica de outras epidemias em outros momentos.


"Ao longo da história, epidemias provocaram medo, mortes, produziram culpados, teorias conspiratórias... mas também promoveram avanços da ciência, novas demandas políticas, sociais, econômicas... despontaram líderes responsáveis e criatividade. Que lições podemos aprender com a história? 
Diversos pensadores apontam algumas direções e legados desta crise que a pandemia da COVID19 trouxe ao mundo. Este programa, gravado no formato live (seguindo a orientação da OMS), traz uma análise do historiador Leandro Karnal sobre como a humanidade viveu os impactos causados por epidemias ao longo do tempo e como o momento atual pode também promover mudanças fundamentais na maneira como temos vivido até aqui."





Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

15 de maio de 2020

"Serviços de saúde mental são parte essencial de todas as respostas governamentais à covid-19. Eles devem ser ampliados e totalmente financiados."

ONU alerta para aumento do sofrimento psicológico durante a pandemia

Fonte: DW

"Secretário-geral pede que governos e autoridades atendam às necessidades de saúde mental em meio à crise. "Mesmo quando a pandemia estiver sob controle, luto, ansiedade e depressão continuarão afetando a população."
O secretário-geral da ONU, António Guterres, alertou para um aumento de sofrimentos psicológicos atrelados à covid-19 e pediu a governos, sociedade civil e autoridades de saúde que atendam urgentemente às necessidades de saúde mental em meio à pandemia de coronavírus.
Em mensagem de vídeo com instruções políticas, o chefe das Nações Unidas disse que, "após décadas de negligência e subinvestimento em serviços de saúde mental, a pandemia de covid-19 agora está atingindo famílias e comunidades com estresse mental adicional".
Guterres apontou para "tristeza pela perda de entes queridos, choque pela perda de empregos, isolamento e restrições de movimento, dinâmica familiar difícil e incerteza e medo pelo futuro".
Segundo o secretário-geral, as pessoas que mais precisam de ajuda são os profissionais de saúde, idosos, adolescentes, jovens e aqueles com condições de saúde mental preexistentes, além dos envolvidos em conflitos e crises.
"Mesmo quando a pandemia estiver sob controle, luto, ansiedade e depressão continuarão afetando pessoas e comunidades", alertou Guterres. "Serviços de saúde mental são parte essencial de todas as respostas governamentais à covid-19. Eles devem ser ampliados e totalmente financiados."
Em um documento de 17 páginas, as Nações Unidas ainda enfatizaram que "a saúde mental e o bem-estar de sociedades inteiras foram severamente afetados por esta crise e são uma prioridade a ser tratada com urgência".
O texto diz ser "provável um aumento a longo prazo no número e na gravidade dos problemas de saúde mental", e alerta que, caso não sejam tomadas providências, a covid-19 "possui potencial para [se tornar] uma grande crise de saúde mental", assim como "uma crise de saúde física".
O documento menciona o sofrimento psicológico generalizado devido aos aspectos imediatos de saúde relacionados ao vírus, às consequências do isolamento social, ao medo de infecções, à morte e à perda de membros da família, ao distanciamento físico de entes queridos e à turbulência econômica.
"Desinformação e rumores frequentes sobre o vírus e a profunda incerteza sobre o futuro são fontes comuns de angústia", diz o comunicado da ONU. "Em todas as comunidades existem numerosos idosos e pessoas com condições de saúde preexistentes que estão aterrorizadas e solitárias."
"As dificuldades emocionais de crianças e adolescentes são exacerbadas pelo estresse familiar, isolamento social, com alguns enfrentando aumento do abuso, interrupção da educação e incerteza sobre o futuro", prossegue o texto..
Segundo a organização, a maioria das necessidades de saúde mental permanece sem atendimento devido ao tamanho do problema. A ONU apontou para uma falta histórica de investimentos em cuidados de saúde mental e apelou por uma ampla disponibilidade de ajuda emergencial e apoio psicológico durante a pandemia.
Por fim, as Nações Unidas clamaram pelo desenvolvimento de serviços de saúde mental para o futuro, "a fim de apoiar a recuperação da sociedade da covid-19"."
Veja o vídeo no Twitter de Guterres: https://twitter.com/antonioguterres


Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

14 de maio de 2020

Como estão os adolescentes em tempo de pandemia?


Cada fase da vida se afeta de uma forma diferente com os acontecimentos de uma época, da mesma forma que tem seus recursos possíveis para lidar isso. A psicanalista Julieta Jerusalinsky fala do impacto da pandemia e do isolamento para os adolescentes. 






Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

13 de maio de 2020

Pesquisa indica aumento de depressão e ansiedade durante o isolamento


Apesar dos índices que indicam aumento de depressão e ansiedade neste período de isolamento social, quem recorreu a análise online apresenta menos sintomas e lida melhor com algumas dificuldades típicas deste momento.

Pesquisa da Uerj indicaaumento de casos de depressão entre brasileiros durante a quarentena

As incertezas com o novo coronavírus e as mudanças impostas pelo isolamento social vêm provocando sofrimento psíquico. Logo após a decretação da quarentena por causa da pandemia de Covid-19, o professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), iniciou uma pesquisa sobre o comportamento dos brasileiros durante o isolamento. Os resultados mostram que os casos de depressão praticamente dobraram entre os entrevistados, enquanto as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80%, nesse período.
Filgueiras coordena o estudo por meio do Laboratório de Neuropsicologia Cognitiva e Esportiva (LaNCE), em parceria com o Dr. Matthew Stults-Kolehmainen, do Yale New Haven Hospital, nos EUA.  Para a realização da pesquisa, 1.460 pessoas em 23 estados e todas as regiões do país responderam a um questionário on-line com mais de 200 perguntas, em dois momentos específicos, de 20 a 25 de março e de 15 a 20 de abril.
De acordo com os dados analisados, as mulheres são mais propensas do que os homens a sofrer com estresse e ansiedade durante a quarentena. Outros fatores de risco são: alimentação desregrada, doenças preexistentes, ausência de acompanhamento psicológico, sedentarismo e a necessidade de sair de casa para trabalhar. Já para depressão, as principais causas são idade mais avançada, ausência de crianças em casa, baixo nível de escolaridade e a presença de idosos no ambiente doméstico.
De acordo com o professor Alberto Filgueiras, os resultados sugerem um agravamento preocupante. “A prevalência de pessoas com estresse agudo na primeira coleta de dados foi de 6,9% contra 9,7%, na segunda. Para depressão, os números saltaram de 4,2% para 8,0%. Por último, no caso de crise aguda de ansiedade, vimos sair de 8,7% na primeira coleta para 14,9%, na segunda coleta”, ressalta.



Por outro lado, a pesquisa sinaliza que quem recorreu à psicoterapia pela internet apresentou índices menores de estresse e ansiedade. Da mesma forma, aqueles que puderam praticar exercício aeróbico tiveram melhor desempenho do que os que não fizeram nenhuma atividade física, ou que praticaram apenas atividade de força.Mas Filgueiras faz um alerta, pois a pressão social pode acabar impondo mais estresse às pessoas, em tempos de isolamento. “Esse período da quarentena não é o momento de mudar seus hábitos radicalmente. Isso pode gerar ainda mais angústia. Respeite seu estilo de vida e seus limites”, reforça.
Nos próximos meses, a pesquisa terá continuidade com novos ciclos de aplicação do questionário, enquanto durar a quarentena.

Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

5 de fevereiro de 2020

Resposta de Maleval a Paul Preciado na 49ª Jornada da Escola da Causa Freudiana


Cometei da fala polêmica de Paul Preciado aqui no blog - e postei seu texto na íntegra - que critica uma posição assumida pelos psicanalíticas lacanianos atualmente no que diz respeito ao gênero e sexuação. 
As criticas de Paul, sobre este tema tão atual e necessário, levantaram um debate, já que vários psicanalistas responderam à sua intervenção, alguns incisivamente contra, outros compartilhando de suas ideias. 

Abaixo, segue a resposta de Maleval, psicanalista francês. 





Resposta à intervenção de Paul B. Preciado na 49ª Jornada da Escola da Causa Freudiana
Jean- Claude Maleval


Um longo comentário criticando a psicanálise, acusada de obsolescência, nunca havia ressoado na tribuna de um congresso de uma escola de Lacan antes do dia 17 de novembro de 2019. Não podemos duvidar que a diatribe de Paul B. Preciado vem testemunhar uma nova conjectura histórica.
Ele rejeita a binaridade dos sexos, considerada patriarcal, em nome de um construtivismo do gênero, que supostamente estaria mais comprometido com a modernidade. Ele ignora que a abordagem lacaniana da sexuação não é essencialista. Ela se afirma tão construtivista quanto a sua abordagem: não consideramos que o devir sexual seja determinado pela fisiologia (1). Existem fortes identificações contrárias ao sexo biológico entre os neuróticos. E existem suplências que passam pela transexualização.
No entanto, segundo Lacan, a escolha do sexo não está aberta à infinita diversidade de gêneros. Ele a concebe como sendo determinada por uma fixação de gozo em um sintoma, ao qual ele reduz a função fálica: fixação feita “toda” pelo dito homem, e não-toda pela dita mulher. Este é um dado histórico? É o patriarcado que gera o primado da referência fálica? A hipótese de Lacan (2) o relaciona a um efeito de linguagem sobre o falasser. Mortificando o vivente, o significante produz um limite que se impõe ao gozo de cada um - parcialmente, totalmente ou de modo algum (ele pode falhar). A conexão do gozo com a linguagem, que une a perda traumática do vivente (a) e sua cifragem significante (S1), constitui o que Lacan designa como a função fálica em seu último ensino (3). Embora de maneira diferente, ela vale tanto para o homem como para uma mulher. Ela é própria ao falasser qualquer que seja a conjuntura social na qual é construída (4). No entanto, ela leva a abordar o gozo, destaca Jacques-Alain Miller, "pelo lado onde ele é interditado" (5); enquanto P. B. Preciado o gostaria ilimitado.
            Considerando que "a pornografia diz a verdade da sexualidade" (6), P. B. Preciado postula, escreve Sophie Marret-Maleval, um corpo gozante "capaz de escapar da influência do significante", que o leva a "visar a correlação entre verdade e gozo", na busca pela "desalienação total" (7). A existência de um corpo biológico natural, não tocado pela linguagem, está no início de suas hipóteses; a partir de então, ele o concebe aberto a todas as construções possíveis. Na sua perspectiva, ele mesmo, hoje Paul, Beatriz ontem, o gozo é mal limitado por escolhas identitárias, voluntárias, temporárias, reversíveis e estendidas ao infinito. Por outro lado, segundo Lacan, existe um limite com o qual é preciso compor. Na época do Outro que não existe, fica claro que esse limite não é determinado por uma ordem simbólica. O modo de gozo, para a maioria dos sujeitos, se encontra restrito e limitado por uma captura contingente e singular a um significante. Disso resulta uma constatação: um modo de gozo próprio a cada um. Uma das conclusões mais seguras do passe, já esclarecida por Lacan, revela a produção de "esparsos disparatados" (8) e desfaz a ilusão de uma travessia comum.
A diatribe de P. B. Preciado certamente se baseou em uma leitura rápida de Lacan, que tendia a congelar sua abordagem em um binário da sexuação; no entanto, sua inserção em 2019, em um congresso de psicanálise, não pode ser considerada um evento menor. Os aplausos que pontuaram positivamente seus comentários várias vezes atestam que eles não deixaram de ecoar em um grande público. Por mais questionável que nos pareça seu discurso, ele não deixa de ter uma grande repercussão sobre os sujeitos cada vez mais numerosos que aderem a ele: ele modifica alguns de seus comportamentos e às vezes transforma voluntariamente seus corpos.
B. Preciado iniciou sua intervenção formulando questões que não devemos negligenciar muito rapidamente: quantos analistas da Escola (AE) (9) são homossexuais (10)? Quantos AEs são transexuais (11) ou transgêneros? É certo que o passe implica uma desidentificação que exclui se apresentar sob esses significantes, mas é ele compatível com esses modos de gozo? Como um analista que conhece hoje seu nó  subjetivo não borromeano pode abordar o passe? Como nenhum EA até agora se apresentou assim, a escolha se reduziria para ele, em renunciar a se introduzir na  experiência ou em dar uma forma neurótica ao seu testemunho? Nos dois casos, a investigação de Lacan sobre se tornar um analista sofre um abalo. Não há dúvida, porém, que no século XXI os gozos que determinam a passagem ao analista demonstram uma diversidade que vai muito além dos modos de gozo do século passado. Por que, por exemplo, uma substituição não poderia levar a isso?
A referência continuinista certamente forneceria uma solução fácil: seria suficiente no passe destacar o S1 do sinthoma sem se preocupar com as diferenças de funcionamento subjetivo. No entanto, trata-se de não ignorar a distinção entre o sinthoma "desabonado do inconsciente" (12) e aquele que, ao contrário, está articulado a ele. Até então, os passes parecem tratar apenas os últimos.
Além disso, uma discussão sobre a relevância do conceito de sinthome no autismo poderia ser evocada (13). O que o autismo tem a ver com o passe? Lembremo-nos de Jacqueline Léger, convidada da Primeira Jornada do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Autismo (CERA) (14). Ela nos disse que, após uma longa análise, trabalhou por muitos anos como psicóloga clínica de formação analítica. Certamente ela não deu o passo para se tornar uma analista. Mas outras pessoas autistas o farão, se já não o tiverem feito. Quanto a saber se a prática de analistas não neuróticos irá se deparar com limites, a questão merece ser levantada. Seria muito ilusório, no entanto, supor que os analistas neuróticos nunca iriam se deparar com limites - se eles fossem bem analisados.
P. B. Preciado chamou nossa atenção para a estreiteza do modelo no qual o passe seria baseado. Devemos afirmar, contra a experiência, que a prática analítica é reservada aos neuróticos? Isso é pouco provável, exceto para retornar ao ato de Lacan que institui uma autorização que se baseia em uma decisão do analista. Portanto, por que limitar a investigação desejada por Lacan sobre tornar-se analista? Suas modalidades de ontem ainda são as de hoje? Não se costuma dizer que o passe não pode ser a verificação de qualquer conformidade? Levar Lacan a sério quando ele convida quem recorre à psicanálise a "alcançar em seu horizonte a subjetividade de seu tempo" (15) não implica uma renovação contínua do passe? - à semelhança por exemplo de um posicionamento acolhedor do casamento para todos. Certamente, nada proíbe um homossexual, um transexual, um transgênero, ou um autista de se apresentar a um passe, mas na prática eles não passam por ele, não o atravessam ou mesmo não o declaram. Pois o AE ainda não está obrigado a aderir a uma parte da ordem simbólica?
Uma dificuldade, no entanto, P. B. Preciado não deixou de enfatizar: os entrelaçamentos sempre persistentes da teoria psicanalítica com o discurso da psiquiatria. Como apresentar-se ao passe dando a entender que se é psicótico, perverso ou autista? Obviamente, o processo é dificultado por esses significantes. A ampliação do passe leva então à premissa de uma mutação da denominação dos funcionamentos subjetivos? Deveríamos falar de estrutura repressiva ou substitutiva? (16) Talvez seja melhor, para produzir uma ruptura mais radical, distinguir apenas entre o nó borromeano, o nó não borromeano e o nó pela borda?
Todas essas questões complexas sobre o passe e nossa terminologia hoje estão surgindo com maior força. Ainda é muito cedo para levantá-las? Mas quando chegará o momento certo? Devemos temer que elas abram um abismo? Ou devemos tentar entender melhor uma mutação já em andamento? A escolha que nos é oferecida é de sufocá-las, o que não as impediria de surgir, ou acompanhar seu progresso, sem deixar de considerá-las. Temos que ter cuidado para não deixar de ouvir a intervenção de P. B. Preciado: ele veio lembrar a psicanálise da necessidade de evolução permanente. Os modos de gozo são tributários das mudanças sociais. Também Lacan nunca para de apontar que "o inconsciente é a política" (17)!


1- São os psicanalistas que dizem se referir a Lacan tendo uma abordagem essencialista da sexuação que fazem com que a transexualidade seja considerada “uma loucura”: segundo Frignet: “é impossível não ser um homem ou uma mulher. A essa primeira impossibilidade, se soma uma segunda: a transformação exterior e o desejo pessoal do sujeito, é impossível modificar esse pertencimento. Somente a aparência será mudada, o sujeito, queira ou não, será para ele mesmo e para os outros, um homem ou uma mulher” (Frignet H., Le transsexualisme, Paris, Desclée de Brouwer, 200, p.149 & 128)
2 - A abordagem lacaniana da sexuação, como qualquer teoria, se baseia em hipóteses indemonstráveis, isso vale também para a teoria de gênero. Invocar a experiência analítica em favor de uma, ao invés da outra, seria recorrer ao que Lacan chamou de “carta marcada da clínica” (Escritos, p. 815).
3- “O falo é a conjunção do que chamei de esse parasita, ou seja, o pedacinho de pau em questão, com a função da fala”. (Seminário 23, p.16)
4- Ganharíamos no século XX em acentuar a abordagem lógica da função fálicas, que a reduz a uma barra sobre o gozo operado por uma cifragem significante, a fim de destacá-la mais radicalmente de qualquer imagem peniana.
5- J.-A. Miller, “Orientação Lacaniana, O Partenaire-sintoma” (1997-1998) lição de 18 de março de 1998
6- Preciado, B. Testo Junkie. Sexe drogue et biopolitique. Paris, Grasset, 2008, p. 218
7- Marret-Maleval S. “Sur Testo Junkie. Sexe drogue et biopolitique de Beatriz Preciado”, Ornicar? 58, 2018, p. 195-198
8- Lacan, Outros Escritos, p. 569
9-AE: título concedido por três anos àqueles cujo percurso e o fim da análise têm valor de ensino, ao final do procedimento do passe, instituído por Lacan, por sua vez, os passadores, analisandos ainda em análise, transmitem ao cartel do passe o testemunho do passante.
10- No que diz respeito ao sujeito homossexual, Miller afirma que a psicanálise visa “essencialmente obter que o ideal deixe de impedir o sujeito de praticar seu modo de gozo, [...] aliviar o sujeito de um ideal que o oprime por ocasião e colocá-lo em posição de sustentar seu mais-de-gozar, o mais-de-gozar que ele é capaz, o mais-de-gozar que lhe é próprio, ter uma relação mais confortável” (Miller & Laurent, O outro que não existe e seus comitês de ética, lição de 21 de maio de 1997, publicado em espanhol). Não compartilhamos as opiniões dos psicanalistas que afirmam ser capazes de identificar o normal e o patológico, tal como Charles Melman no jornal Le monde de 01 de outubro de 2005: “Façamos uma pergunta simples, a homossexualidade constitui uma patologia? É o que psiquiatria americana hoje rejeita. Se admitirmos que ela está organizada por uma defesa contra a diferença e a alteridade, neste caso, é incontestável que ela constitui”.
11- Quando a psicose ordinária é suplantada, por exemplo por uma transexualização bem assumida, ela constitui um dos modos de conformidade social, e nada autoriza a considerá-la como uma patologia. (ver Maleval J.-C., « Du fantasme de changement de sexe au sinthome transsexuel », Repères pour la psychose ordinaire. Paris, Navarin, 2019, p. 186-208).
12- Lacan J., « Joyce le symptôme I », em Joyce avec Lacan, Paris, Navarin, 1987, p. 24
13- Parece que a cura do autismo permite às vezes não liberar o S1 de um sinthoma, mas sim construir um S1 como síntese.
14- Jornada do Centro de Estudos e Pesquisas sobre o Autismo, Paris, 10 de março de 2018.
15- Lacan J., « Fonction et champ de la parole en psychanalyse » (1953), Écrits, Paris, Seuil, coll. Champ Freudien, 1966, p. 321.
16 : Cf. Maleval J.-C., Repères pour la psychose ordinaire, Paris, Navarin, 2019, p. 199-200.
17 : Lacan, Seminário 14, lição de 10 maio de 1967, disponível no blog Lacan em .pdf


Tradução para o português por Arryson Zenith Jr.
Versão original em francês disponível aqui 


Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
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