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5 de setembro de 2020

Karnal e Dunker

Dupla que dispensa qualquer legenda ou apresentação!

Os canais Falando Nisso, do Christian Dunker, e Prazer, Karnal, do Leandro Karnal, têm nos presenteado com com conteúdos excelentes e com temas super atuais. Não percam! 







Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
 

18 de maio de 2020

Psiquiatras alertam para 'tsunami' de problemas de saúde mental em meio à pandemia

Fonte: G1

Os psiquiatras alertam para um "tsunami" de problemas de saúde mental devido à pandemia de coronavírus.
Os médicos estão particularmente preocupados com o fato de crianças e idosos não receberem o apoio de que precisam devido ao fechamento de escolas, ao isolamento social e ao medo de hospitais. Fatores como a solidão, o medo da Covid-19 e incertezas quanto ao futuro agravam doenças mentais pré-existentes e criam novos problemas para pessoas até então saudáveis.
Em uma pesquisa feita no Reino Unido, os psiquiatras relataram aumento no número de atendimentos de emergência relacionados a doenças mentais e uma queda nas consultas de rotina.
Eles afirmam que muitas pessoas deixaram de procurar ajuda mesmo com os serviços de saúde mental ainda abertos, e por isso acabaram chegando ao ponto em que atendimentos de emergência foram mais necessários.

'Os pacientes evaporaram'
"Já estamos vendo o impacto devastador da Covid-19 na saúde mental, com mais pessoas em crise", diz a professora Wendy Burn, presidente do Royal College of Psychiatrists (Colégio Real de Psiquiatras), no Reino Unido.
"E estamos muito preocupados com as pessoas que precisam de ajuda agora, mas não estão conseguindo. Nosso medo é que o 'lockdown' (fechamento total de comércio e serviço) esteja fazendo com que as pessoas guardem problemas que poderiam levar a um 'tsunami' de doenças mentais depois".
A pesquisa da instituição de caridade Rethink Mental Illness, feita com 1.300 médicos de saúde mental de todo o Reino Unido, constatou que 43% haviam visto um aumento em casos urgentes, enquanto 45% relataram uma redução nas consultas de rotina.
"Na psiquiatria da velhice nossos pacientes parecem ter evaporado, acho que as pessoas têm medo demais de procurar ajuda", disse um psiquiatra.
Outro escreveu: "Muitos de nossos pacientes desenvolveram distúrbios mentais como resultado direto da interrupção da rotina gerada pelo coronavírus, do isolamento social, do aumento do estresse e da falta de remédios".

Idosos e jovens estão entre os grupos que geram maior preocupação
"Estamos preocupados que crianças e jovens com doença mental que possam estar com dificuldades não estejam recebendo o apoio de que precisam", diz Bernadka Dubicka, que preside a faculdade de psiquiatria infantil e adolescente do Royal College of Psychiatrists. "Precisamos passar a mensagem e deixar claro que os serviços ainda estão abertos."
Tanto do Reino Unido quanto no Brasil, o atendimento psicológico continua funcionando e pode inclusive ser feito à distância, através de plataformas de videochamada. No entato, o uso da tecnologia para chamar um médico durante o bloqueio é difícil para algumas pessoas mais velhas, explica Amanda Thompsell, especialista em psiquiatria para idosos.
Idosos também costumam ser "relutantes" em procurar ajuda, e sua necessidade de apoio à saúde mental provavelmente é maior do que nunca, diz ela.

'Prioridade clara'
A instituição de saúde mental Rethink Mental Illness disse que as preocupações levantadas pelos especialistas são apoiadas por evidências de que as pessoas estão convivendo com mais doenças mentais.
Em uma outra pesquisa feita no país, a maioria das pessoas disse que sua saúde mental piorou desde o início da pandemia, devido à interrupção de rotinas e estratégias que elas utilizavam para controlar problemas de saúde mental como depressão, ansiedade, pânico, entre outros.
"O NHS (sistema de saúde público do Reino Unido) está fazendo um trabalho incrível nas circunstâncias mais difíceis, mas a saúde mental deve ser uma prioridade clara", diz Danielle Hamm, da instituição de caridade. "É preciso investimentos para garantir que os serviços possam lidar com esse aumento antecipado da demanda."
Segundo ela, sem o atendimento adequado no momento, pode levar anos para que algumas pessoas se recuperem dos problemas mentais gerados pela pandemia.



Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

13 de maio de 2020

Pesquisa indica aumento de depressão e ansiedade durante o isolamento


Apesar dos índices que indicam aumento de depressão e ansiedade neste período de isolamento social, quem recorreu a análise online apresenta menos sintomas e lida melhor com algumas dificuldades típicas deste momento.

Pesquisa da Uerj indicaaumento de casos de depressão entre brasileiros durante a quarentena

As incertezas com o novo coronavírus e as mudanças impostas pelo isolamento social vêm provocando sofrimento psíquico. Logo após a decretação da quarentena por causa da pandemia de Covid-19, o professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), iniciou uma pesquisa sobre o comportamento dos brasileiros durante o isolamento. Os resultados mostram que os casos de depressão praticamente dobraram entre os entrevistados, enquanto as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80%, nesse período.
Filgueiras coordena o estudo por meio do Laboratório de Neuropsicologia Cognitiva e Esportiva (LaNCE), em parceria com o Dr. Matthew Stults-Kolehmainen, do Yale New Haven Hospital, nos EUA.  Para a realização da pesquisa, 1.460 pessoas em 23 estados e todas as regiões do país responderam a um questionário on-line com mais de 200 perguntas, em dois momentos específicos, de 20 a 25 de março e de 15 a 20 de abril.
De acordo com os dados analisados, as mulheres são mais propensas do que os homens a sofrer com estresse e ansiedade durante a quarentena. Outros fatores de risco são: alimentação desregrada, doenças preexistentes, ausência de acompanhamento psicológico, sedentarismo e a necessidade de sair de casa para trabalhar. Já para depressão, as principais causas são idade mais avançada, ausência de crianças em casa, baixo nível de escolaridade e a presença de idosos no ambiente doméstico.
De acordo com o professor Alberto Filgueiras, os resultados sugerem um agravamento preocupante. “A prevalência de pessoas com estresse agudo na primeira coleta de dados foi de 6,9% contra 9,7%, na segunda. Para depressão, os números saltaram de 4,2% para 8,0%. Por último, no caso de crise aguda de ansiedade, vimos sair de 8,7% na primeira coleta para 14,9%, na segunda coleta”, ressalta.



Por outro lado, a pesquisa sinaliza que quem recorreu à psicoterapia pela internet apresentou índices menores de estresse e ansiedade. Da mesma forma, aqueles que puderam praticar exercício aeróbico tiveram melhor desempenho do que os que não fizeram nenhuma atividade física, ou que praticaram apenas atividade de força.Mas Filgueiras faz um alerta, pois a pressão social pode acabar impondo mais estresse às pessoas, em tempos de isolamento. “Esse período da quarentena não é o momento de mudar seus hábitos radicalmente. Isso pode gerar ainda mais angústia. Respeite seu estilo de vida e seus limites”, reforça.
Nos próximos meses, a pesquisa terá continuidade com novos ciclos de aplicação do questionário, enquanto durar a quarentena.

Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

11 de dezembro de 2017

Christian Dunker: de Lacan a Lacração

Christian Dunker analisa efeitos das redes sociais no comportamento contemporâneo

Entrevista concedida ao jornal Estadão, em 2 de dezembro. 

Por Ronaldo Bressane
veja a entrevista na íntegra aqui
“E aí, bichô! Você se deu bem, eu não vou mais viajar então temos tempo, chegaí! Quer um café?” Assim o alemão grandalhão me recebe em seu consultório, em um simpático sobrado antigo no bairro do Paraíso, em São Paulo. Véspera de feriado, de repente sua viagem engasgou, abrindo espaço na caudalosa agenda do psicanalista paulistano de 51 anos. Com quase três décadas de clínica, Dunker reinventou-se como professor universitário na USP, youtuber contumaz e ensaísta prolífico: acaba de publicar Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano, que em três meses de lançamento caminha para sua segunda edição. A coletânea de ensaios aprofunda e diversifica as temáticas de seu livro anterior, Mal-estar, Sofrimento e Sintoma(Boitempo), em que define o conceito de “sofrimento” como uma psicopatologia do dia a dia, alinhando os sintomas mentais a problemas sociais.
Um grande mérito na escrita de Dunker é a velocidade voraz na associação de ideias, o bom humor na formulação de conceitos e a fluidez na aproximação de escolas teóricas distantes. Assim, de um lado jogam Freud, Lacan, Klein, Badiou, Bauman, Adorno, Lipovetsky, Foucault, Marx, Benjamin, Arendt. De outro, batem bola Woody Allen, Beckett, Sophia Coppola, Clint Eastwood, Marguerite Duras, Lucrecia Martel, Ian McEwan, Nelson Rodrigues, irmãs Wachowski, Zizek, Jessé de Souza… Navegando entre conceitos psicanalíticos e novas nomenclaturas para males contemporâneos – como o narcisismo digital ou a normalopatia –, Dunker pula da discussão de relacionamento à lacração mais rápido do que você soletrar Complexo de Édipo. Chama todo mundo para a conversa e, ao contrário de muitos colegas, tem horror à solenidade sisuda. Aqui, o psicanalista formula teorias sobre os sofrimentos advindos do excesso das redes sociais, a apatia política, a cultura do ódio digital e até tenta psicanalisar os candidatos à presidência da República. Após três horas de papo, passarinhos cantavam e a luz caía sobre o consultório, enquanto Dunker desafiava, rindo: “Agora quero ver você colocar em ordem toda essa loucura que falamos, bicho.”
As redes sociais podem nos levar à depressão?
As redes nos impactam de duas maneiras. A primeira é afetar nosso sistema de identificação: imagens, linguagem escrita, velocidade da relação. Gira em torno de quem sou eu, quem é você, quem somos nós. Segundo: nosso sistema de demanda. Aí uma novidade: tem sempre alguém nos esperando, nos oferecendo algo. Entramos numa espécie de deriva: “Cause o meu desejo, ofereça um objeto, um serviço, uma facilidade”, como se a gente fetichizasse nossa atenção. As redes criam a experiência de supor que nosso clique é importante. Isso causa uma deformação no tamanho do eu. Você pode afirmar: eu amo mais isso e menos aquilo. Produzimos ofertas e certa arrogância. E fetichizamos: “Dei um unfollow no cara!”. Gera uma macrocefalia egóica, porque o ego cresce sem verdadeira referência no outro. E o outro é importante para regular nossas fantasias. Então vem um terceiro processo, depois da identificação e da demanda: a criação do ódio. Seria natural passar do like, da simpatia, da afinidade, para um percurso de viagem comum. Amigos estão na mesma viagem, estão engajados. Quando você tem uma fidelidade, um compromisso, vem a questão: o que descobrimos junto? Este terceiro polo está ligado à intimidade, às noções de público e de privado. Você não consegue passar dos grupos de WhatsApp para experiências de solitude, de incerteza, de compartilhamento de coisas que você não sabe – ali você só compartilha certezas sem nuances. O que acontece com essa inflação do eu? Como os outros não respondem ao seu sistema de identificação, seu mundo diminui. Conforme o seu ego cresce, a empatia pelos outros some. Assim, você só consegue falar com os outros que falam igual a você. Daí você tem a política de identidade, e não de interesses, utopias, ideologias, futuros possíveis. Você vive numa bolha e acha que só ela existe.
E é assim que ocorrem os linchamentos virtuais?
Primeiro você infla ideais, e esse excesso é opressor. O discurso sobre a sexualidade no mundo virtual ou é de pornografia indecorosa ou é de um puritanismo malsão. Quando algo nos oprime, tem de ser destruído. É necessário um processo de idealização e também um processo de devoração dos heróis. Quando uma personalidade é desmascarada em razão de um pecado que vem à tona, se transfere para ela o oposto do amor que havia antes. “Quero puni-lo muito mais do que ele merece.” São funções ligadas ao narcisismo, que é uma função de defesa baseada no julgamento. Julgo o Outro e me coloco fora da roda, me coloco como juiz. Esta é uma autoavaliação constante quando se vai pra rede. E é uma espécie de droga. Preciso ficar julgando: curto, não curto, curto, não curto. E fico voltando à rede sempre, para reconstruir a minha identidade de juiz. Só que isso é uma pirâmide. Então acabo resolvendo as questões com juízos cruéis, intolerantes, moralistas. Em seguida vem a depressão, o sentimento de vazio, de mal-estar. Afinal, num mundo onde só há contrato, julgamento, vítimas e carrascos, cedo ou tarde eu também vou virar réu – pois esta é a regra do jogo. 
Isso explica a polarização política nas redes, que tende a se acirrar em 2018, ano de eleições? 
Esse ponto Melanie Klein explica na figura do esquizoparanoide. Funciona assim: entre eu e você existe uma relação em que eu não te satisfaço e você não me satisfaz. Então vou brigar com você. Mas, na verdade, o problema não é você… é um cara lá fora. Aí, em vez de a gente pensar no que a gente tem em comum, que tal pensarmos em qual é o nosso inimigo? Precisamos nos purificar, porque no outro lado é que estão os ruins – aqui, eu e você ficamos numa boa. Precisamos então não decidir o que queremos, e sim reagir ao que os outros querem. Daí pensamos em como reagir com o petralha, o coxinha, o imigrante, o isentão… voltamos ao bode expiatório da tragédia grega. Vou bloquear a pessoa no Face, silenciar no Twitter, transformar o adversário em inimigo. O adversário não merece ter uma opinião contrária. Portanto pode ser destruído. 
Mas, mais estridente que essa cultura do ódio, existe uma massa apática. Apesar da crise política, as ruas não estão mais mobilizadas: onde estão as panelas? 
Na superfície existe o ódio, mas abaixo existe a vergonha. “Ah, então você apoiou o PT mesmo sabendo de coisas estranhas… Como?” Quando evoluiu-se para escândalos de corrupção, dá vergonha: “Puxa, lá atrás eu deveria ter sido mais crítico.” E do outro lado: “Então eu vou ser hostil à Dilma e apoiar o Temer? Aquele ato de destituição contra a Dilma virou apoio a corruptos?” Vergonha! “Ah, mas você bateu panela contra a Dilma e a favor do Temer?” “Eu não!” Aí você tem uma dissonância cognitiva. A pessoa se engana e sente vergonha. Foi enganada por um monte de lorota. Poxa, no fundo as pessoas têm algum sentimento crítico. De um lado tem uns caras enganados por uma esquerda que não fez o que queriam; de outro, caras enganados por um discurso contra a corrupção. A apatia e a imobilidade são causadas pela vergonha, que é um afeto introspectante: você esconde a cara, se fecha, não quer olhar. A vergonha desmascara a sua fantasia. Mostra como você é tolo, ridículo, infantil. Fica como criancinha enganada: “Enganei o bobo, na casca do ovo…” Assim surge o ódio. 
Recentemente o líder do MTST, Guilherme Boulos, que também é psicanalista lacaniano, contou que as pessoas que passaram a integrar o movimento têm menos transtornos mentais do que quando vagavam pelas ruas: como isso é possível? 
Os sem-teto organizados têm menos neuroses por causa do objetivo comum: a luta. Encontramos o mesmo fenômeno em Belo Monte, só que ao contrário. Junto com a jornalista Eliane Brum, levamos uma equipe de analistas para escutar pessoas que tinham sido desalojadas de uma ilha e postas criminosamente em assentamentos urbanos. Em três meses você observava suicídios, drogas, sintomas psicológicos inexplicáveis – com pessoas que então moravam em casas. Havia essa lacuna de entendimento: por que essas pessoas sofrem agora? Antes estava péssimo, não tinham teto nem água encanada. Só que antes essas pessoas tinham uma narrativa de sofrimento: todos nós juntos dividimos um peixe, todos nós fazemos juntos um mutirão. Existia um funcionamento em torno de um comum, que foi perdido com a chegada da hidrelétrica. No sofrimento, você cria um registro comum, você pode ter uma valência política, tanto geral quanto individual.


Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

9 de julho de 2016

Exaustos-e-correndo-e-dopados, por Eliane Brum

A jornalista Eliane Brun dispensa qualquer apresentação, principalmente para os leitores do ViaFreud, que já estão acostumados a me ver compartilhando seus escritos (veja aqui, aqui ou aqui, por exemplo). Precisa, como sempre, ela aborda, nesse texto, os frequentes mal estares da cultura contemporânea. 


Exaustos-e-correndo-e-dopados

Eliane Brum
Fonte: El País
Nos achamos tão livres como donos de tablets e celulares, vamos a qualquer lugar na internet, lutamos pelas causas mesmo de países do outro lado do planeta, participamos de protestos globais e mal percebemos que criamos uma pós-submissão. Ou um tipo mais perigoso e insidioso de submissão. Temos nos esforçado livremente e com grande afinco para alcançar a meta de trabalhar 24X7. Vinte e quatro horas por sete dias da semana. Nenhum capitalista havia sonhado tanto. O chefe nos alcança em qualquer lugar, a qualquer hora. O expediente nunca mais acaba. Já não há espaço de trabalho e espaço de lazer, não há nem mesmo casa. Tudo se confunde. A internet foi usada para borrar as fronteiras também do mundo interno, que agora é um fora. Estamos sempre, de algum modo, trabalhando, fazendo networking, debatendo (ou brigando), intervindo, tentando não perder nada, principalmente a notícia ordinária. Consumimo-nos animadamente, ao ritmo de emoticons. E, assim, perdemos só a alma. E alcançamos uma façanha inédita: ser senhor e escravo ao mesmo tempo.
Como na época da aceleração os anos já não começam nem terminam, apenas se emendam, tanto quanto os meses e como os dias, a metade de 2016 chegou quando parecia que ainda era março. Estamos exaustos e correndo. Exaustos e correndo. Exaustos e correndo. E a má notícia é que continuaremos exaustos e correndo, porque exaustos-e-correndo virou a condição humana dessa época. E já percebemos que essa condição humana um corpo humano não aguenta. O corpo então virou um atrapalho, um apêndice incômodo, um não-dá-conta que adoece, fica ansioso, deprime, entra em pânico. E assim dopamos esse corpo falho que se contorce ao ser submetido a uma velocidade não humana. Viramos exaustos-e-correndo-e-dopados. Porque só dopados para continuar exaustos-e-correndo. Pelo menos até conseguirmos nos livrar desse corpo que se tornou uma barreira. O problema é que o corpo não é um outro, o corpo é o que chamamos de eu. O corpo não é limite, mas a própria condição. O corpo é.

Icarus, de David LaChapelle

Os cliques da internet tornaram-se os remos das antigas galés. Remem remem remem. Cliquem cliquem cliquem para não ficar para trás e morrer. Mas o presente, nessa velocidade, é um pretérito contínuo. Se a internet parece ter encolhido o mundo, e milhares de quilômetros podem ser reduzidos a um clique, como diz o clichê e alguns anúncios publicitários, nosso mundo interno ficou a oceanos de nós. Conectados ao planeta inteiro, estamos desconectados do eu e também do outro. Incapazes da alteridade, o outro se tornou alguém a ser destruído, bloqueado ou mesmo deletado. Falamos muito, mas sozinhos. Escassas são as conversas, a rede tornou-se em parte um interminável discurso autorreferente, um delírio narcisista. E narciso é um eu sem eu. Porque para existir eu é preciso o outro.
Há tanta informação disponível, mas talvez estejamos nos imbecilizando. Porque nos falta contemplação, nos falta o vazio que impele à criação, nos falta silêncios. Nos falta até o tédio. Sem experiência não há conhecimento. E talvez uma parcela do ativismo seja uma ilusão de ativismo, porque sem o outro. Talvez parte do que acreditamos ser ativismo seja, ao contrário, passividade. Um novo tipo de passividade, cheia de gritos, de certezas e de pontos de exclamação. Os espasmos tornaram-se a rotina e, ao se viver aos espasmos, um espasmo anula o outro espasmo que anula o outro espasmo. Quando tudo é grito não há mais grito. Quando tudo é urgência nada é urgência. Ao final do dia que não acaba resta a ilusão de ter lutado todas as lutas, intervindo em todos os processos, protestado contra todas as injustiças. Os espasmos esgotam, exaurem, consomem. Mas não movem. Apaziguam, mas não movem. Entorpecem, mas será que movem?
Sobre esse tema há um pequeno livro, precioso, chamado sugestivamente de Sociedade do Cansaço (Editora Vozes). Seu autor é o filósofo Byung-Chul Han, um coreano radicado na Alemanha que se tornou professor universitário de filosofia e estudos culturais em Berlim. Neste livro, Han faz um diálogo crítico com pensadores como Alain Ehrenberg, Giorgio Agamben, Michel Foucault, Hanna Arendt, Walter Benjamin e Friedrich Nietzsche, entre outros. Já meu diálogo com ele é por minha própria conta e risco. Sobre nossa nova condição, Han diz:
“A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são sociedades livres. Elas geram novas coerções. A dialética do senhor e escravo está, não em última instância, para aquela sociedade na qual cada um é livre e que seria capaz também de ter tempo livre para o lazer. Leva, ao contrário, a uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva, cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Com isso, a exploração é possível mesmo sem senhorio”.
Veja o artigo na íntegra aqui.


Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

17 de setembro de 2015

Sobre a geração de crianças tristes, intolerantes e superficiais

Augusto Cury, psiquiatra e autor de livros publicados em mais de 70 países, lançou recentemente uma versão para crianças e adolescentes do seu best-seller Ansiedade – Como Enfrentar o Mal do Século. O autor conversou com com o pessoal do site CONTI outra sobre os desafios de se criar os filhos hoje e e criticou a maneira como a família e a escola têm educado os pequenos. 

“Nunca tivemos uma geração tão triste”

Excesso de estímulos

“Estamos assistindo ao assassinato coletivo da infância das crianças e da juventude dos adolescentes no mundo todo. Nós alteramos o ritmo de construção dos pensamentos por meio do excesso de estímulos, sejam presentes a todo momento, seja acesso ilimitado a smartphones, redes sociais, jogos de videogame ou excesso de TV. Eles estão perdendo as habilidades sócio-emocionais mais importantes: se colocar no lugar do outro, pensar antes de agir, expor e não impor as ideias, aprender a arte de agradecer. É preciso ensiná-los a proteger a emoção para que fiquem livres de transtornos psíquicos. Eles necessitam gerenciar os pensamentos para prevenir a ansiedade. Ter consciência crítica e desenvolver a concentração. Aprender a não agir pela reação, no esquema ‘bateu, levou’, e a desenvolver altruísmo e generosidade.”

Geração triste

“Nunca tivemos uma geração tão triste, tão depressiva. Precisamos ensinar nossas crianças a fazerem pausas e contemplar o belo. Essa geração precisa de muito para sentir prazer: viciamos nossos filhos e alunos a receber muitos estímulos para sentir migalhas de prazer. O resultado: são intolerantes e superficiais. O índice de suicídio tem aumentado. A família precisa se lembrar de que o consumo não faz ninguém feliz. Suplico aos pais: os adolescentes precisam ser estimulados a se aventurar, a ter contato com a natureza, se encantar com astronomia, com os estímulos lentos, estáveis e profundos da natureza que não são rápidos como as redes sociais.”

Dor compartilhada

“É fundamental que as crianças aprendam a elaborar as experiências. Por exemplo, diante de uma perda ou dificuldade, é necessário que tenham uma assimilação profunda do que houve e aprender com aquilo. Como ajudá-las nesse processo? Os pais precisam falar de suas lágrimas, suas dificuldades, seus fracassos. Em vez disso, pai e mãe deixam os filhos no tablet, no smartphone, e os colocam em escolas de tempo integral. Pais que só dão produtos para os seus filhos, mas são incapazes de transmitir sua história, transformam seres humanos em consumidores. É preciso sentar e conversar: ‘Filho, eu também fracassei, também passei por dores, também fui rejeitado. Houve momentos em que chorei’. Quando os pais cruzam seu mundo com os dos filhos, formam-se arquivos saudáveis poderosos em sua mente, que eu chamo de janelas light: memórias capazes de levar crianças e adolescentes a trabalhar dores perdas e frustrações.”

Veja o artigo na íntegra aqui.


Fernanda Pimentel é psicanalista, tem mestrado em Psicanálise pela UERJ e atualmente cursa doutorado em pela mesma instituição, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
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29 de julho de 2015

Sintomas da depressão pelas lentes de fotógrafa que convive com o diagnóstico


Depois de um diagnóstico de depressão, aos 16 anos, a fotógrafa Christian Hopkins decidiu processar a experiência por trás de uma lente. O resultado é uma série surpreendente de fotos que capturam as nuances pouco compreendidas desse transtorno. As imagens resumem como é conviver com este sintoma na experiência cotidiana da artista.

Fonte: BrasilPost

"Christian, agora com 22 anos, diz que fotografar como ela se sente é uma forma de catarse para lidar com seus pensamentos depressivos.
"Eu venho usando a fotografia como terapia pois ela me ajuda a lidar com muitas das emoções que eu tinha dificuldade em entender no passado", disse a jovem ao jornal The Huffington Post. "Sempre que eu me sinto controlada por uma emoção em particular e incapaz de pensar ou me concentrar direito, eu tiro essa emoção para fora da minha cabeça e a deixo presa em uma fotografia."
Depois de tirar as fotos, ela descobriu que as imagens serviam como desabafo emocional. Elas também serviam um propósito duplo: como recurso educativo para aqueles que não podem compreender com o que as pessoas deprimidas muito frequentemente se deparam.
"Espero que essas fotos sirvam para elucidar os sintomas mais amorfos da depressão, e ao fazer isso, ajudar na compreensão daqueles que - possivelmente até mesmo alguns conhecidos – estão passando por isso", disse a fotógrafa.
A série de fotografias não é a primeira do tipo, mas é uma contribuição bem-vinda em uma discussão muito necessária como essa da doença mental.
Muitos dos que sofrem de distúrbios mentais frequentemente se sentem estigmatizados, fato que as pesquisas indicam como obstáculo à busca pelo tratamento necessário.
Christian espera que transformar a doença em algo tangível seja um bom começo para acabar com esses julgamentos."
Confira a matéria na integra e a série de fotos completa aqui.







Fernanda Pimentel é psicanalista, tem mestrado em Psicanálise pela UERJ  e pesquisa sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

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6 de outubro de 2014

Ex-coordenador do DSM, a 'bíblia' da psiquiatria, admite: "Transformamos problemas cotidianos em transtornos mentais"


Em entrevista para El País, o psiquiatra Allen Frances, ex coordenador do DSM, critica a posição da última edição do manual, a influência da industria farmacêutica e a medicalização do mal estar. 

"Ex-coordenadordo DSM, a 'bíblia' da psiquiatria, admite: "Transformamos problemas cotidianosem transtornos mentais"


Allen Frances (Nova York, 1942) dirigiu durante anos o Manual Diagnóstico e Estatístico (DSM), documento que define e descreve as diferentes doenças mentais. Esse manual, considerado a bíblia dos psiquiatras, é revisado periodicamente para ser adaptado aos avanços do conhecimento científico. Frances dirigiu a equipe que redigiu o DSM IV, ao qual se seguiu uma quinta revisão que ampliou enormemente o número de transtornos patológicos. Em seu livro Saving Normal (inédito no Brasil), ele faz uma autocrítica e questiona o fato de a principal referência acadêmica da psiquiatria contribuir para a crescente medicalização da vida.
Pergunta. No livro, o senhor faz um mea culpa, mas é ainda mais duro com o trabalho de seus colegas do DSM V. Por quê?
Resposta. Fomos muito conservadores e só introduzimos [no DSM IV] dois dos 94 novos transtornos mentais sugeridos. Ao acabar, nos felicitamos, convencidos de que tínhamos feito um bom trabalho. Mas o DSM IV acabou sendo um dique frágil demais para frear o impulso agressivo e diabolicamente ardiloso das empresas farmacêuticas no sentido de introduzir novas entidades patológicas. Não soubemos nos antecipar ao poder dos laboratórios de fazer médicos, pais e pacientes acreditarem que o transtorno psiquiátrico é algo muito comum e de fácil solução. O resultado foi uma inflação diagnóstica que causa muito dano, especialmente na psiquiatria infantil. Agora, a ampliação de síndromes e patologias no DSM V vai transformar a atual inflação diagnóstica em hiperinflação... "







"Os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos."











P. Seremos todos considerados doentes mentais?
R. Algo assim. Há seis anos, encontrei amigos e colegas que tinham participado da última revisão e os vi tão entusiasmados que não pude senão recorrer à ironia: vocês ampliaram tanto a lista de patologias, eu disse a eles, que eu mesmo me reconheço em muitos desses transtornos. Com frequência me esqueço das coisas, de modo que certamente tenho uma demência em estágio preliminar; de vez em quando como muito, então provavelmente tenho a síndrome do comedor compulsivo; e, como quando minha mulher morreu a tristeza durou mais de uma semana e ainda me dói, devo ter caído em uma depressão. É absurdo. Criamos um sistema de diagnóstico que transforma problemas cotidianos e normais da vida em transtornos mentais.
P. Com a colaboração da indústria farmacêutica...
R. É óbvio. Graças àqueles que lhes permitiram fazer publicidade de seus produtos, os laboratórios estão enganando o público, fazendo acreditar que os problemas se resolvem com comprimidos. Mas não é assim. Os fármacos são necessários e muito úteis em transtornos mentais severos e persistentes, que provocam uma grande incapacidade. Mas não ajudam nos problemas cotidianos, pelo contrário: o excesso de medicação causa mais danos que benefícios. Não existe tratamento mágico contra o mal-estar.

Confira a entrevista na íntegra aqui!

Fernanda Pimentel é psicanalista, tem mestrado em Psicanálise pela UERJ  e pesquisa sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
http://fernandapimentel.com.br

23 de maio de 2014

Eu, Hilda Hilst: 15 abortos, 150 cães, 15 mil seguidores no Facebook

Que grandes pensadores, escritores e cientistas se tornaram fenômenos pop a partir do Facebook, não é novidade para ninguém. Freud Sagaz, Clarice Lispector, (1.406.571 pessoas curtiram esse tópico!!!) Sagan Irônico, Caio Fernando Abreu, Virginia Woolf... Com Hilda Hilst Não seria diferente!
Veja a matéria em Obvios.

"Hilda Hilst: 15 abortos, 150 cães, 15 mil seguidores no Facebook

Filha de pai esquizofrênico, um dos maiores medos de Hilda Hilst era ficar louca. Se soubesse que, dez anos depois de morta, sua página no Facebook teria mais de 15 mil seguidores, e que sua obra, relançada, venderia mais de 1.500 exemplares em apenas duas semanas, por certo a poetisa pensaria que finalmente enlouqueceu.





Fernando Pessoa previu em um dos seus mapas astrais que ficaria famoso somente após 50 anos de sua morte. Em língua portuguesa ele teve apenas um livro publicado em vida: “Mensagem”, de 1934. Pessoa morreria no ano seguinte e só em 1985, por ocasião dos festejos pelo cinquentenário de sua morte, o poeta alcançaria a glória merecida (graças também à edição de seus poemas em inglês e à publicação do “Livro do desassossego”, diga-se de passagem, um texto em prosa).
Hilda Hilst, embora tenha feito experimentos extra-sensoriais exóticos - como tentativa de contato com o além via ondas de rádio - não previu nada, mas aconteceu. Após 10 anos de sua morte, a escritora brasileira é celebrada (e consumida) como nunca fora em vida - o que não quer dizer que não tenha alcançado reconhecimento enquanto ainda era viva.
Se estivesse entre nós, certamente Hilda se surpreenderia com os números que atualmente são associados ao seu nome: 15 mil seguidores numa página no Facebook, 1.500 livros vendidos através da loja virtual Obscena Lucidez (de Daniel Fuentes, herdeiro de sua obra) em menos de duas semanas e 23 livros relançados pela Globo Livros neste ano.
Há quem diga que sua poesia é mediana, porém, ninguém contesta o seu magnetismo pessoal, ousadia e audácia."

Veja o post completo aqui:  http://lounge.obviousmag.org/monica_montone/2014/05/superlativa-hilda-hilst-15-abortos-150-caes-15-mil-seguidores-no-facebook.html


E também: http://kultme.com.br/kt/2014/02/10/hilda-hilst-e-o-espaco-de-pensar-o-humano/



Fernanda Pimentel é psicanalista, tem mestrado em Psicanálise pela UERJ  e pesquisa sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
http://fernandapimentel.com.br

21 de outubro de 2013

automutilação: o silêncio de quem fere o próprio corpo

Excelente entrevista com a socióloga Patricia Adler, que publicou recentemente o livro The Tender Cut: Inside the Hidden World of Self-Injury sobre seus estudos e pesquisas sobre a automutilação!


Fonte: Revista Cult

Navalha na carne

O que acontece quando os traumas e a solidão precisam ser exteriorizados? As manifestações silenciosas de quem flagela o próprio corpo vêm crescendo consideravelmente, ano após ano, segundo um estudo que acaba de ser publicado nos EUA –  The Tender Cut: Inside the Hidden World of Self-Injury [“O Corte Suave: Dentro do Mundo Oculto do Autoflagelo”], dos sociólogos Patricia A. Adler e Peter Adler.
O livro aponta que 4% da população adulta sofre com essa prática autodestrutiva, taxa que se agrava entre os mais jovens. A partir de 150 entrevistas feitas com pessoas de diferentes partes do globo, a obra chega à conclusão alarmante de que a automutilação vem aumentando em escala mundial, mas diz que os blogs e redes sociais trazem ajuda a seus praticantes.
Na entrevista abaixo, concedida à CULT por e-mail, Patricia Adler, que leciona sociologia na Universidade do Colorado, consegue ver um fim menos trágico na automutilação: ao canalizar as enormes frustrações de seus praticantes, evitam que estes possam praticar o suicídio.
CULT – Para a realização do livro, foram feitas 150 entrevistas com pessoas que praticam automutilação em todos os lugares do mundo. Como foi feita a escolha dessas pessoas e qual a faixa etária média? Existe algum gênero ou classe social dominante?
Patricia Adler – Começamos com pesquisas regionais, perguntando aos estudantes se gostariam de ser entrevistados e mencionados em entrevistas de rádio que estávamos procurando interessados. As pessoas nos mandavam e-mails pedindo para serem entrevistadas. Fizemos todas as conversas pessoalmente nos primeiros quatro anos.
No entanto, acabamos alcançando uma saturação de dados, não estávamos encontrando nada de novo. Começamos a coletar blogs, diários e outras postagens na internet entre 2001e 2002, nos juntando a vários outros grupos e iniciando postagens de solicitações on-line em torno de 2003 e 2004.
As entrevistas eram conduzidas por telefone. Entrevistamos pessoas do Canadá, da América Latina, do Pacífico Sul, do oeste e leste da Europa… Todas as entrevistas foram feitas em inglês.
Cerca de 80% dos entrevistados eram mulheres. Apenas duas estavam numa faixa etária abaixo dos 18 anos, por conta das restrições do nosso Conselho de Revisão Institucional, que regula as pesquisas.
A maior parte pertencia à faixa etária entre 18 e 30 anos, mas havia provavelmente 15 entrevistados na faixa dos 30, 10 pessoas na casa dos 40 e de 3 a 4 próximas dos 50 anos. Todos eram ou estudantes, ou tinham computadores em casa, então isso as coloca pelo menos na classe média, embora uma colega minha esteja pesquisando informações sobre automutilados em prisões, predominantemente grupos de negros, pessoas de classe baixa e homens.
Os entrevistados foram identificados?
Ninguém teve seu nome revelado. Usamos pseudônimos para todos.
Qual foi o período total em que as pesquisas foram conduzidas?
Iniciamos oficialmente as entrevistas em 2000 e completamos a última em 2007.
O que motivou sua pesquisa?
O embrião da ideia para os estudos começou em 1982, em Tulsa, Oklahoma. Então há pouco tempo trabalhando como professor, Peter [Adler] se deparou com uma estudante em seu escritório que veio falar com ele sobre uma estranha prática sua: ela  se cortava intencionalmente. Intrigado, ele escutou o relato, observou os pequenos cortes em suas pernas, que ela penosamente ocultava, e fez algumas perguntas, com curiosidade, sobre suas motivações e sensações ao executar a prática.
Nos anos seguintes, ambos vislumbramos comportamentos semelhantes. Como professores que ministraram cursos sobre desvios comportamentais, cultura pop, drogas e esporte, frequentemente, nos encontrávamos no papel dos adultos a que os estudantes se voltavam.
Nossos encontros seguintes com a automutilação foram raros, mas ocorreram com mais frequência no fim dos anos 1980 e início dos 1990. Na década de 90, sabíamos ou tínhamos ouvido falar de um número suficiente de pessoas à nossa volta que se cortavam intencionalmente.
Então, na primavera de 1996, uma jovem amiga nossa, estudante do Ensino Médio e filha de amigos próximos, confidenciou a Peter sobre os seus cortes. Ela nunca mencionara o fato aos seus pais, mas precisava de alguém para falar sobre o assunto. Peter era o seu conselheiro estudantil (um de seus trabalhos em paralelo) e eles mantinham uma relação próxima.
Nos anos seguintes, a prática da automutilação começou a revelar-se publicamente, mas apenas uma pequena parcela das pessoas parecia notar isso. Tinha todas as características de um fenômeno crescente no meio underground, assim como nos populares, mas que foram um dia altamente estigmatizadas, tatuagens e piercings que vínhamos testemunhando no período.
Qual a relação, se é que há, entre automutilação e tatuagens?
Embora tatuagens e piercings possam de certo modo lembrar a automutilação, são, essencialmente, práticas muito diferentes.
As pessoas se envolvem com a “modificação corporal” como modo de embelezar ou decorar seu corpo e, também, para filiar-se a uma identidade de grupo.
Já aquelas que se engajam no processo de automutilação buscam um mecanismo de enfrentamento para quando estão sentindo dores emocionais, depressão, frustração ou raiva. Não têm prazer com a automutilação, e não acredito que tatuar-se seja prazeroso para a maior parte das pessoas. Algumas delas mencionaram a mim que focavam na dor, mas essas são duas entre milhares das quais mencionei no livro ou observei em postagens on-line. Então, isso é raro.


Quais as razões mais comuns para a automutilação?
Alguns usaram a automutilação para rebelar-se contra um controle extremo, famílias religiosas ou uma determinada formação da própria imagem. Como falei, buscar a dor é extremamente raro e não merece menção.
As pessoas tiram prazer dessa prática? Talvez. Significa a liberação de emoções difíceis e dolorosas, de raiva e frustração. Isso faz com que as pessoas se sintam melhor? Sim. As pessoas se automutilam pelos seguintes motivos: emoções opressivas, as quais buscam tranquilizar ou liberar, como a) estresse e frustração, b) raiva, c) mal-estar agudo, d) desejo de libertação.

Elas também se convencem da racionalização de sua automutilação por várias razões: a) exteriorizar sentimentos introspectivos, b) punir-se ou ferir-se, c) controle (uma área em justaposição entre a automutilação e o transtorno alimentar). E também por bloqueio emocional: são incapazes de sentir, mas desejam sentir algo.
Quais são os ambientes e instrumentos mais utilizados?
Para se cortar, as pessoas utilizam vários instrumentos. Começam ainda crianças com clipes de papel, pregos e tesouras. Mudam para facas de cozinha, pedaços de vidro, ou abrem cartuchos de barbeadores e utilizam as lâminas. Elas veem na TV ou leem sobre pessoas que usam estiletes e, então, experimentam.
As mulheres tendem a usar instrumentos mais afiados do que os homens, que usam pregos enferrujados, pedaços de metal, facas serrilhadas ou qualquer coisa à mão. As mulheres normalmente se limpam depois, mas não sempre, enquanto isso é raro entre os homens.
Elas costumam fazer cortes menores em locais escondidos, enquanto homens fazem cortes mais profundos e aparentes no peito e nos braços.
Os homens costumam falar dos seus cortes grandes e viris, mais do que as mulheres, e parecem ter uma maior aceitação quando se cortam deste modo. Se fazem cortes pequenos e escondidos, são dados como femininos. Se as mulheres fazem cortes pequenos e escondidos, são mais bem aceitas, enquanto que se praticarem cortes expostos nos braços ou rosto, são altamente estigmatizadas.
As pessoas se queimam com isqueiros, fazem marcas com pedaços de metal que esquentam e prensam contra o corpo. As queimaduras não dão uma imediata sensação de prazer – incham, criam bolha, soltam pus e infeccionam. São mais difíceis de controlar e duram mais.
Algumas pessoas que praticam as duas coisas deixam para se cortar quando se sentem muito mal e se queimam quando se sentem realmente péssimas.
Outras prensam a mão contra as portas a fim de quebrar os ossos, arrancam o cabelo, fio por fio, se arranham e tiram as cascas das feridas (às vezes mantendo-as abertas por anos), abrem velhos ferimentos e evitam que cicatrizem por completo.
Muitas pessoas mantém um kit onde guardam os instrumentos preferidos. Elas podem levar consigo para onde forem ou manter em casa, caso estejam seguras de que conseguem esperar até voltar para casa.
Elas podem tanto preferir certos locais do corpo para a prática, como mudar de local assim que um torna-se “gasto”. Costumam gostar de preparar o ambiente com iluminação suave e músicas melancólicas. Buscam privacidade, pois não querem ser interrompidas. Tudo gira em volta delas mesmas.
Durante o período estudado, houve aumento ou diminuição da prática? Em sua opinião, por que isso acontece?
Houve grande aumento na prática. As estimativas atuais sobre a predominância da automutilação são difíceis de formular com a tradicional base de dados primariamente baseada em internações psiquiátricas e internações emergenciais.
O número de automutilados se aproxima dos 20% de todos os adultos em internação psiquiátrica, com 40 a 80% concentrada na população adolescente.
Em 1988, Favazza e Conterio descobriram que entre 7 a 10% dos pacientes internados em alas psiquiátricas que eles observaram começaram a praticar a automutilação, enquanto que dez anos mais tarde Briere e Gil (1998) constataram uma taxa de 21%.
Entre os adolescentes internados em alas psiquiátricas, essa taxa tem sido maior. Darche (1990) sugeriu que esse foco específico da população vem se automutilando em uma taxa de 40%, enquanto DiClemente, Ponton e Hartley (1991) afirmam que podem chegar a 61%, mas outros sugerem que se poderia alcançar a margem de 80%.
A quantidade de lesões auto-infligidas que figuram nas estatísticas oficiais das salas de emergência são difíceis de sondar, pois a automutilação é agregada com auto-envenenamento, frequentemente caracterizado como tentativa genuína de suicídio.
O problema nisso é que muitas pessoas fazem uso de ambas as práticas, e, assim, a maior parte dos episódios de automutilação não é detectada.
De qualquer modo, pesquisas sobre internações em hospitais do Reino Unido estimam um aumento substancial nas taxas e repetições da automutilação em ambos os gêneros ao longo de 11 anos de estudo, entre as décadas de 1980 e 1990 (62,1% de aumento entre os homens e 42,2% de aumento entre as mulheres).
Mesmo as Maldivas, um pequeno grupo de ilhas na costa da Índia, reportaram em 2009 que o número de entradas em hospitais por ferimentos auto-infligidos teve uma dramática ascensão ao longo dos últimos anos.
Psicólogos tentaram estimar o predomínio da automutilação na população em geral, sugerindo algo entre 1% e 4%, com mais de 20% pertencente ao subgrupo adolescente.

Estudos mais recentes no meio adolescente sugerem que as taxas norte-americanas de automutilação podem chegar a 14-15%, alcançando quase os 50% nos dois primeiros anos do Ensino Médio, com dados similares entre estudantes universitários.
A razão para isso é o fato de que a automutilação é altamente contagiosa socialmente.
Na internet há vários grupos de apoio e discussões que reúnem pessoas de todo o mundo que passaram por experiências semelhantes. Qual é o papel desses grupos?
Comunidades virtuais, salas de bate-papo, grupos, blogs, etc. são meios em que pessoas solitárias isoladas podem interagir. Quando a automutilação inicialmente explodiu no ciberespaço, em meados dos anos 2000, as postagens eram muito esporádicas. Mas agora foram substituídas por locais moderados em que raramente são encorajadas experiências de automutilação.
Achamos que eles são muito úteis para os automutiladores. Ajudam as pessoas a escapar dos estigmas do comportamento e a descobrir uma comunidade que as entenda e aceite. Se quiserem parar, existirão pessoas para ajudá-las. Se tiverem uma recaída, existirão pessoas para aceitá-las, que não desistirão delas. Para as poucas que abraçam a causa, existem outras como elas.
A propagação da automutilação na internet vem sendo terapeuticamente benéfica.
Os automutilados são, normalmente, pessoas solitárias. Qual é a relação entre esse sentimento, presente na subjetivação do indivíduo, e sua exposição em meios públicos como a internet?
É verdade que a automutilação é uma prática predominantemente solitária. As pessoas não querem estar junto de outras quando o fazem e sua atenção é interiorizada. Mas frequentemente procuram outras pessoas para falar sobre aspectos das suas vidas que as levam a cometer o autoflagelo e sobre sua luta contra isso.
A maior parte das pessoas no mundo real não tem habilidade para entender a luta dos automutiladores ou não tem a paciência para aturar suas frequentes carências emocionais.
Já on-line, há milhares de pessoas dispostas a escutar os intermináveis problemas alheios em troca de poder partilhar os seus próprios. Ou algumas pessoas apenas escutam os problemas alheios e os apoiam como uma forma de sustentar a própria abstinência; ajudam a si ajudando os outros.
Quais aspectos legitimam a prática da automutilação como fenômeno social?
Eu diria que o aumento dramático na quantidade de pessoas que se automutilam é um dos fatores que reforçam a sua legitimação. A maior parte das pessoas com quem converso conhece alguém que luta contra esse comportamento. Muitas outras viram em filmes, documentários, programas de TV ou leram sobre o assunto em algum lugar.
Não pensamos nisso mais como um gesto suicida, mas reconhecemos que é antissuicida, uma forma que as pessoas têm de se “autotranquilizar”, para poderem desviar sentimentos suicidas em potencial. É uma ponte que muitas pessoas usam durante períodos árduos das suas vidas até que as coisas melhorem.
É um mecanismo de enfrentamento que as pessoas usam para lidar com sua tristeza, raiva, chateação.
É moderadamente efetiva, não é fisicamente viciante, não é ilegal e não machuca os outros. Então, algumas pessoas a consideram uma alternativa não tão ruim quanto as drogas, a violência contra os outros ou formas piores de autoflagelo.

The Tender Cut: Inside the Hidden World of Self-Injury
Patricia A. Adler e Peter Adler
New York University Press
264 págs.
US$ 22 (R$ 43)