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18 de maio de 2020

Psiquiatras alertam para 'tsunami' de problemas de saúde mental em meio à pandemia

Fonte: G1

Os psiquiatras alertam para um "tsunami" de problemas de saúde mental devido à pandemia de coronavírus.
Os médicos estão particularmente preocupados com o fato de crianças e idosos não receberem o apoio de que precisam devido ao fechamento de escolas, ao isolamento social e ao medo de hospitais. Fatores como a solidão, o medo da Covid-19 e incertezas quanto ao futuro agravam doenças mentais pré-existentes e criam novos problemas para pessoas até então saudáveis.
Em uma pesquisa feita no Reino Unido, os psiquiatras relataram aumento no número de atendimentos de emergência relacionados a doenças mentais e uma queda nas consultas de rotina.
Eles afirmam que muitas pessoas deixaram de procurar ajuda mesmo com os serviços de saúde mental ainda abertos, e por isso acabaram chegando ao ponto em que atendimentos de emergência foram mais necessários.

'Os pacientes evaporaram'
"Já estamos vendo o impacto devastador da Covid-19 na saúde mental, com mais pessoas em crise", diz a professora Wendy Burn, presidente do Royal College of Psychiatrists (Colégio Real de Psiquiatras), no Reino Unido.
"E estamos muito preocupados com as pessoas que precisam de ajuda agora, mas não estão conseguindo. Nosso medo é que o 'lockdown' (fechamento total de comércio e serviço) esteja fazendo com que as pessoas guardem problemas que poderiam levar a um 'tsunami' de doenças mentais depois".
A pesquisa da instituição de caridade Rethink Mental Illness, feita com 1.300 médicos de saúde mental de todo o Reino Unido, constatou que 43% haviam visto um aumento em casos urgentes, enquanto 45% relataram uma redução nas consultas de rotina.
"Na psiquiatria da velhice nossos pacientes parecem ter evaporado, acho que as pessoas têm medo demais de procurar ajuda", disse um psiquiatra.
Outro escreveu: "Muitos de nossos pacientes desenvolveram distúrbios mentais como resultado direto da interrupção da rotina gerada pelo coronavírus, do isolamento social, do aumento do estresse e da falta de remédios".

Idosos e jovens estão entre os grupos que geram maior preocupação
"Estamos preocupados que crianças e jovens com doença mental que possam estar com dificuldades não estejam recebendo o apoio de que precisam", diz Bernadka Dubicka, que preside a faculdade de psiquiatria infantil e adolescente do Royal College of Psychiatrists. "Precisamos passar a mensagem e deixar claro que os serviços ainda estão abertos."
Tanto do Reino Unido quanto no Brasil, o atendimento psicológico continua funcionando e pode inclusive ser feito à distância, através de plataformas de videochamada. No entato, o uso da tecnologia para chamar um médico durante o bloqueio é difícil para algumas pessoas mais velhas, explica Amanda Thompsell, especialista em psiquiatria para idosos.
Idosos também costumam ser "relutantes" em procurar ajuda, e sua necessidade de apoio à saúde mental provavelmente é maior do que nunca, diz ela.

'Prioridade clara'
A instituição de saúde mental Rethink Mental Illness disse que as preocupações levantadas pelos especialistas são apoiadas por evidências de que as pessoas estão convivendo com mais doenças mentais.
Em uma outra pesquisa feita no país, a maioria das pessoas disse que sua saúde mental piorou desde o início da pandemia, devido à interrupção de rotinas e estratégias que elas utilizavam para controlar problemas de saúde mental como depressão, ansiedade, pânico, entre outros.
"O NHS (sistema de saúde público do Reino Unido) está fazendo um trabalho incrível nas circunstâncias mais difíceis, mas a saúde mental deve ser uma prioridade clara", diz Danielle Hamm, da instituição de caridade. "É preciso investimentos para garantir que os serviços possam lidar com esse aumento antecipado da demanda."
Segundo ela, sem o atendimento adequado no momento, pode levar anos para que algumas pessoas se recuperem dos problemas mentais gerados pela pandemia.



Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

13 de maio de 2020

Pesquisa indica aumento de depressão e ansiedade durante o isolamento


Apesar dos índices que indicam aumento de depressão e ansiedade neste período de isolamento social, quem recorreu a análise online apresenta menos sintomas e lida melhor com algumas dificuldades típicas deste momento.

Pesquisa da Uerj indicaaumento de casos de depressão entre brasileiros durante a quarentena

As incertezas com o novo coronavírus e as mudanças impostas pelo isolamento social vêm provocando sofrimento psíquico. Logo após a decretação da quarentena por causa da pandemia de Covid-19, o professor Alberto Filgueiras, do Instituto de Psicologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), iniciou uma pesquisa sobre o comportamento dos brasileiros durante o isolamento. Os resultados mostram que os casos de depressão praticamente dobraram entre os entrevistados, enquanto as ocorrências de ansiedade e estresse tiveram um aumento de 80%, nesse período.
Filgueiras coordena o estudo por meio do Laboratório de Neuropsicologia Cognitiva e Esportiva (LaNCE), em parceria com o Dr. Matthew Stults-Kolehmainen, do Yale New Haven Hospital, nos EUA.  Para a realização da pesquisa, 1.460 pessoas em 23 estados e todas as regiões do país responderam a um questionário on-line com mais de 200 perguntas, em dois momentos específicos, de 20 a 25 de março e de 15 a 20 de abril.
De acordo com os dados analisados, as mulheres são mais propensas do que os homens a sofrer com estresse e ansiedade durante a quarentena. Outros fatores de risco são: alimentação desregrada, doenças preexistentes, ausência de acompanhamento psicológico, sedentarismo e a necessidade de sair de casa para trabalhar. Já para depressão, as principais causas são idade mais avançada, ausência de crianças em casa, baixo nível de escolaridade e a presença de idosos no ambiente doméstico.
De acordo com o professor Alberto Filgueiras, os resultados sugerem um agravamento preocupante. “A prevalência de pessoas com estresse agudo na primeira coleta de dados foi de 6,9% contra 9,7%, na segunda. Para depressão, os números saltaram de 4,2% para 8,0%. Por último, no caso de crise aguda de ansiedade, vimos sair de 8,7% na primeira coleta para 14,9%, na segunda coleta”, ressalta.



Por outro lado, a pesquisa sinaliza que quem recorreu à psicoterapia pela internet apresentou índices menores de estresse e ansiedade. Da mesma forma, aqueles que puderam praticar exercício aeróbico tiveram melhor desempenho do que os que não fizeram nenhuma atividade física, ou que praticaram apenas atividade de força.Mas Filgueiras faz um alerta, pois a pressão social pode acabar impondo mais estresse às pessoas, em tempos de isolamento. “Esse período da quarentena não é o momento de mudar seus hábitos radicalmente. Isso pode gerar ainda mais angústia. Respeite seu estilo de vida e seus limites”, reforça.
Nos próximos meses, a pesquisa terá continuidade com novos ciclos de aplicação do questionário, enquanto durar a quarentena.

Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

4 de maio de 2020

Sobre a influência da tecnologia na subjetividade das crianças


No momento em que as crianças estão mais em suas casas é importante retomar a discussão sobre a influência da tecnologia na subjetividade e desenvolvimento da criança. 
A psicanalista Julieta JerusalinskyOrganizadora do livro “Intoxicações Eletrônicas, O Sujeito na Era das Relações Virtuais” ( Agalma, 2017), fala, para a Revista Gama, sobre o impacto da tecnologia na formação da criança e de como ‘é preciso de gente para ser gente’

"A internet é pior babá eletrônica do que foi a televisão em outros tempos. A partir do momento em que a mobilidade permitiu que cada integrante de uma família usasse uma tela para assistir ou jogar o que bem entendesse, houve a individualização de um processo que antes era coletivo. Dar um tablet para uma criança ficar quieta pode ser abrir a porta para um estado de passividade.
“A infância é um momento de estruturação em que o cérebro, o corpo e o psiquismo estão em formação. As experiências de vida são decisivas para quem a criança será no futuro, e por isso é tão importante pensar que lugar se dá para a ela em casa, na escola e na sociedade”, afirma a psicanalista Julieta Jerusalinsky, professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP) e especialista em primeira infância e desenvolvimento infantil.
Organizadora do livro “Intoxicações Eletrônicas, O Sujeito na Era das Relações Virtuais” ( Agalma, 2017), em entrevista a Gama ela fala sobre o impacto das telas na criação e no desenvolvimento dos filhos e sobre como a convivência é fundamental para moldar que adultos essas crianças serão amanhã. “A gente precisa de gente para virar gente, pois é pela relação com o outro que uma criança se estrutura.”
G |Da perspectiva de pais esmagados por obrigações profissionais e domésticas, como não cair na armadilha da tela apaziguadora? Como criar filhos nesse mundo de telas? 
A questão seria a tela ou o fato de estarmos todos demasiadamente ocupados trabalhando, em um afastamento de contextos comunitários de família extensa e vizinhança, enquanto as crianças ficam sozinhas? Essa é a pergunta que a gente precisa se fazer. Porque a infância é um tempo da vida crucial para a formação, mas ela termina. Por isso precisamos pensar em como arrumar tempo e lugar para transmitir à criança aquilo que achamos que é decisivo para que ela se torne o adulto de amanhã. Dá muito trabalho, é verdade. Mas ao conviver com uma criança acabamos inventando brincadeiras e evocando passagens da nossa própria infância que, se não fosse pela criança, cairiam no esquecimento. Assim elas acabam por nos fazer um favor aos nos tirar do automatismo da vida adulta e nos convidar a construir uma brincadeira entre gerações. Costuma ser surpreendente o que pode acontecer quando desligamos as telas e abrimos lugar para o convívio.

O que mudou em relação a crianças e telas durante a quarentena? 
A quarentena tem sido um grande desafio de convívio familiar na medida em que as crianças passaram a ficar sob o cuidado dos pais 24 horas por dia, sem poder compartilhá-los com a escola, com outros familiares, com as babás ou as empregadas domésticas. Se produz assim um encontro entre pais que costumam delegar o cuidado dos filhos com crianças que estão muito acostumadas a ter atividades propostas por outros — e que em muitos casos não sabem construir suas próprias brincadeiras. Enquanto os pais estão sobrecarregados pelo home office e os cuidados com os filhos, pululam na internet mil e uma sugestões para entreter as crianças. Em vez de virar recreacionistas dos filhos, é um bom momento para compartilhar ludicamente das atividades da casa: cozinhar, estender a roupa, fazer a cama. Tais atividades estão repletas de sequências que exigem planejamento, motricidade ampla e fina, classificações centrais na construção do pensamento, bem como dotadas de grande valor simbólico capaz de fazer uma criança se orgulhar de poder “fazer sozinha” o que sempre foi feito por outros.

Existe uma dosagem saudável para o uso de TV ou internet? Ela muda com a idade? 
Há 20 anos, se discutia quanto tempo de televisão uma criança poderia assistir. Mas a televisão implicava que todos assistissem juntos, o que permitia comentários. Com uma tela individual, não há mais a conversa. A programação da televisão terminava; a internet não termina. Os pais já não sabem mais o que as crianças estão vendo, a não ser as muito pequenininhas. Outro aspecto é a passividade. Uma criança que brinca está em atividade, construindo uma história. A criança que está na frente da tela é uma espectadora, o que traz diferentes consequências em cada idade. Uma criança de zero a três anos vive um momento decisivo para a apropriação de seu corpo e entrada na linguagem. Que noção do seu corpo ela terá se está passiva e não circula pelo espaço? Que modo de entrada na linguagem terá se está exposta a um tablet que emite sons, mas que não sustenta a lógica de uma conversa? Até os três anos, a utilização das telas deveria ser zero porque nesse momento de vida é fundamental a relação com o outro.

E depois da primeira infância? 
Dos três aos dez anos é o momento da construção do faz de conta, de armar brincadeiras que impliquem em fantasiar. Brincar é algo extremamente complexo porque é preciso construir uma sequência e negociá-la conjuntamente com outro, dizendo para o companheiro de brincadeira o que se imaginou para que, a partir dessas palavras, os demais companheiros possam construir uma imagem e fantasiar junto. Nos jogos virtuais, esse trabalho é poupado. Mesmo nos mais criativos, os contextos aparecem dados, seja o cenário, a missão ou o personagem de cada um. E esse é um trabalho psiquicamente estruturante. Mais adiante isso é necessário para escrever um texto a partir de uma ideia ou interpretar o que lemos. Há tabelas que indicam um limite de tempo de uso de eletrônicos para cada idade, mas a questão crucial a se fazer é: no lugar do que isso está? Quando um adolescente de 13 ou 14 anos fica de duas a três horas por dia na internet, e se esse é o tempo que uma família tem para estar junto ao final do dia, se perde um momento irrecuperável.

Mas existe alguma medida que o uso de telas pode ser positivo? 
Não se trata de demonizar as novas tecnologias, mas de considerar que uso fazemos delas. As intoxicações eletrônicas não começam quando se larga o celular na mão de uma criança. A questão é como nós, adultos, estamos usando esses aparelhos. Com a internet móvel, não temos mais divisão entre o tempo de trabalho e de lazer. Um pai chega em casa e senta para brincar com seu filho, enquanto olha para as mensagens no celular. Ao ficarmos o tempo inteiro disponíveis aos que não estão ali, perdemos a importância da presença dos que estão ali conosco. Para as crianças, que dependem radicalmente do lugar que os pais lhes dão, isso tem consequências muito mais contundentes.

Você organizou um livro sobre as intoxicações eletrônicas. O que é isso exatamente? 
Para elaborar o que acontece na vida, as crianças precisam produzir, ativamente, suas representações no lugar de ficarem como espectadoras passivas de um entretenimento digital. Fazer um desenho, uma escultura de massinha, uma encenação na brincadeira ou produzir narrativas com acontecimentos ficcionais ou biográficos permite a elaboração do que é vivido, transformando acontecimentos em experiências sobre as quais se produziu algum saber. Mas quando todo intervalo passa a ser preenchido por outro e mais outro conteúdo digital suprime-se o tempo necessário para poder até mesmo evocar isso que foi vivido. É aí que um efeito tóxico se instaura, já que essa exigência de estar sempre atualizado e online torna-se um excesso que suprime o lugar e o tempo para a elaboração subjetiva que dá significado à vida.

Como se identifica que uma criança está intoxicada? 
Nos últimos anos, principalmente a partir do advento da internet móvel, começamos a receber pequenas crianças que, em vez de brincar, conversar, fazer perguntas, compartilhar atividades com adultos, explorar o espaço ou simplesmente observar o entorno, ficavam absortas em jogos eletrônicos. Para os bebês de menos de três anos, isso se traduzia em um desinteresse de estar com os outros, apresentando linguagens com repetição de fragmentos de jogos eletrônicos e aplicativos, algumas vezes em língua estrangeira, em lugar de sustentar um diálogo ou compartilhar uma brincadeira. Muitas vezes os tablets ou celulares passaram a ser entregues na mão de pequenas crianças como “chupetas eletrônicas”. Um bebê precisa explorar o espaço para encontrar os perigos reais do mundo e ser advertido simbolicamente das regras de convívio. A partir do momento em que entra essa chupeta eletrônica, ele deixa de fazer um registro do seu próprio corpo no espaço. E isso tem uma consequência.

O que os pais que permitiram o uso de eletrônicos pelas crianças se deram conta de que há problemas e querem restringi-lo podem fazer? 
Dizer “não” não basta. Em primeiro lugar é preciso pensar o que se propõe à criança. Em segundo lugar é preciso considerar o que o próprio adulto faz. Muitas vezes, as crianças convivem com um adulto que está de corpo presente, mas psiquicamente ausente olhando para uma janela virtual. As crianças não aprendem simplesmente pelo que os adultos lhes dizem, mas pelo cruzamento disso com o que eles mesmo fazem. Há bebês que, siderados por eletrônicos, podem acabar caindo em diagnósticos de transtorno do espectro do autismo. Não estou dizendo que o autismo é causado pelos eletrônicos, mas que muitas crianças com intoxicações eletrônicas são colocadas nessa valeta diagnóstica, ou em outra grande valeta diagnóstica da contemporaneidade que é o déficit de atenção e hiperatividade.

Crianças que não têm contato com telas podem ter algum tipo de distância cultural das que as utilizam? 
Não existe uma única maneira de educar — existem várias e os pais não devem se eximir de transmitir aos filhos aquilo em que acreditam, mesmo que isso implique impor limites diferentes dos que estão acostumados a ver nos colegas. É uma ilusão entregar a elas aparelhos achando que vão prepará-las para o futuro. A era digital traz uma possibilidade de acesso à informação sem precedentes, mas as crianças precisam de outros seres humanos, pais, professores, para construir suas perguntas e seus percursos de investigação.
Fonte: Revista Gama

Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

31 de janeiro de 2020

A teoria da 'química do cérebro' que não explica os transtornos mentais



Uma série de Twittes do psiquiatra, doutor em psiquiatria e professor da Unicamp, Luis Fernando Tófoli, reacendeu a discussão sobre a hipótese - nunca comprovada! - da causalidade química dos transtornos mentais. 
Acompanhando a discussão esbarrei com dois excelentes artigos que compartilho aqui: Por que a teoria da 'química do cérebro' não explica transtornos mentais... de Luiza Pollo e Desequilíbrio químico no cérebro é mito, de Michelle Muller.




Depressão, ansiedade e outros transtornos mentais são a soma de diversos fatores — pessoais, biológicos, ambientais... A lista de causas para um distúrbio psiquiátrico é extensa e varia de pessoa para pessoa. Tanto que os psiquiatras afirmam ser impossível encontrar um único "culpado". Por que, então, é tão comum ouvir que esses casos podem ser explicados simplesmente por um desequilíbrio químico no cérebro? Essa teoria vigorou por muito tempo, desde que a indústria farmacêutica descobriu que os remédios que reduziam os sintomas de depressão e ansiedade, por exemplo, aumentavam os níveis de alguns neurotransmissores no cérebro: em geral serotonina, dopamina e noradrenalina.
Mas espera: por que falar disso agora? Bem, não há nenhuma novidade bombástica sobre o tema, mas uma sequência de tuítes do professor Luís Fernando Tófoli, da Unicamp, causou alvoroço nesta semana. Sob o título "O mito do desequilíbrio químico como causa das doenças mentais", o doutor em psiquiatria explicou que os transtornos mentais não são comprovadamente causados pela carência de determinadas substâncias no cérebro, como se costuma acreditar. É muito (muito, sério, muito) mais complexo do que isso.
De onde veio essa ideia, então? A hipótese monoaminérgica, termo técnico que descreve a ideia de que os transtornos são causados por desequilíbrio químico, vigorou por muito tempo e ajuda a simplificar a explicação para nós, o público leigo, além de contribuir com a adesão ao tratamento. Isso porque a hipótese surgiu a partir de bons resultados com remédios, explica Tófoli. "Descobriram que existem remédios que melhoravam os sintomas da depressão. Depois, descobriram que eles agiam aumentando serotonina, dopamina e noradrenalina", afirma o psiquiatra. Foi natural juntar "dois mais dois" e chegar à conclusão de que a causa dos transtornos seria, então, a falta desses neurotransmissor no cérebro. O problema é que não há comprovação alguma disso.
Repete e melhora? Vamos a uma comparação: pense que você quebrou um braço e o médico te deu morfina no hospital. A dor não foi causada pela falta de opioides no corpo, certo? Mas, mesmo assim, a morfina fez a dor diminuir. Apesar de ainda não conhecermos exatamente as causas da depressão e da ansiedade, já conhecemos algumas opções de tratamento dos sintomas com psicofármacos comprovadamente eficazes.
Mas, se não é o desbalanço químico, então qual a causa? A resposta é anticlimática: ainda não sabemos. Depressão, ansiedade e outros transtornos psiquiátricos são multifatoriais, a soma de fatores pessoais, biológicos e ambientais. Não há um exame de sangue que possa identificá-los. Tófoli resume: "O diagnóstico é clínico. Tem que conversar com o paciente".
Ué, mas se os remédios funcionam... Sim, funcionam mesmo. Aliás, o próprio Tófoli defende o uso deles no tratamento. Mas é essencial que paciente e psiquiatra construam um tratamento que vá além dos fármacos, e inclua psicoterapia e outras abordagens. O psiquiatra Rodrigo Martins Leite, coordenador de relações institucionais do Instituto de Psiquiatria do Hospitais das Clínicas da USP, defende que a mudança no estilo de vida do paciente seja uma das prioridades. "Caímos na real de que não existe uma constante biológica tão clara quanto gostaríamos. Então precisamos sim de exercício físico, meditação, contato social, relações pessoais com afeto... A medicação pode ajudar, mas definitivamente não resolve o problema da existência humana", reflete. Estudos sugerem inclusive que mudanças na alimentação podem ser benéficas, principalmente quando levamos em conta evidências recentes de que a depressão pode ser um processo inflamatório. Mas, de novo: é difícil explicar transtornos psiquiátricos com apenas um fator.
Por que tanta gente acredita em uma hipótese ultrapassada? Antes de mais nada, a hipótese do desequilíbrio químico simplifica a explicação do médico para o paciente. "A teoria dos neurotransmissores é muito útil como ferramenta de trabalho, apesar de não conseguirmos mensurar [os níveis de químicos no cérebro] e bater o martelo. A gente acaba usando essa explicação para motivar o paciente a aderir ao tratamento", explica Leite. Para justificar o uso de um remédio que vai mexer nos neurotransmissores x, y e z, é mais fácil dizer que há um problema com eles. Além disso, essa explicação ajuda a reduzir o estigma do tratamento ao apontar um "culpado". São reações químicas, é a biologia, e ponto.
E tem a indústria, sempre ela. Não dá para esquecer que essa teoria ajudou a psiquiatria a evoluir, ressalta Tófoli, e ainda ajuda os médicos na clínica. Mas é também do interesse da indústria farmacêutica vender uma solução pronta, e há estudos que apontam que os grandes laboratórios ajudaram a alardear essa ideia. A quem possa interessar, essa relação é explorada com mais detalhes neste artigo da revista Piauí assinado por Marcia Angell, que foi diretora de redação do New England Journal of Medicine (NEJM) e escreveu o livro "A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos" (publicado pela editora Record em 2007). Ok, mas precisava ter mexido num tema tão delicado? Tófoli recebeu muitas críticas por ter tratado de um tema tão complexo no Twitter. Ele reconhece que algumas ideias não ficaram muito claras, como o fato de que ele não contesta a eficácia dos remédios. Ainda assim, o psiquiatra defende a importância de debater o tema, inclusive para que médicos e pacientes estejam sempre dialogando para definir e alterar o tratamento em conjunto, quando necessário. "O que funciona para uma pessoa não necessariamente funciona para outra. É preciso trabalhar para encontrar o arranjo adequado para cada um", afirma.



A ação prática das pílulas pode ser tentadora - e até necessária em alguns casos - mas ela acabou se tornando mais um perigoso excesso da sociedade, mais um ponto de desequilíbrio, disfarçado de solução.

Não existe nenhuma comprovação de que a que depressão, TDAH e outros distúrbios mentais sejam causados por baixa produção de certos neurotransmissores. Até quando esse mito será sustentado pela mídia e até por profissionais da saúde mental?
Muito pais mostram, inicialmente, grande resistência em medicar seu filho diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Até serem informados que os estimulantes corrigem um problema que seria causado por um desequilíbrio químico no cérebro da criança. A teoria da baixa produção de dopamina, divulgada pelos laboratórios, foi recebida com entusiasmo por médicos, psicólogos e professores quando surgiram os medicamentos que provocam aumento nos níveis desse neurotransmissor. Afinal, agora poderiam corrigir, de forma prática e rápida, o "problema" da falta de uma substância no cérebro das crianças desatentas e inquietas.
Essa é a ideia que continua imperando nas diversas áreas ligadas à saúde mental infantil e à educação. Ao conversar com pais de crianças diagnosticadas com TDAH, muitos ainda comparam a necessidade de estimulantes à de reposição da insulina em diabéticos. O fato é que não existe nenhuma comprovação das raízes biológicas do transtorno. O que existem são especulações que se contradizem. E mesmo que se chegue em um consenso, a pouca produção de determinados neurotransmissores já pode ser descartada das possibilidades, pois há anos é repetidamente derrubada por inúmeras pesquisas.

Talvez por ser assimilada tão facilmente pela população, talvez por acender a esperança de uma cura rápida e simples, o desequilíbrio químico tornou-se a explicação mais aceita não apenas para o TDAH, mas para quase todo o tipo de transtorno mental - sendo a depressão e a esquizofrenia os dois grandes pilares que sustentam essa hipótese.
Convenientemente divulgada pelos laboratórios ainda antes do lançamento das marcas famosas de fluoxetina e principal argumento de muitas campanhas publicitárias nos países em que a propaganda de psicotrópicos pode ser feita diretamente ao consumidor, a teoria ainda está longe de ser enterrada. Na tentativa de derrubar o mito, o diretor do Instituto de Saúde Mental americano (National Institute of Mental Health - NIMH), Thomas Insel, já declarou que "as noções iniciais de que transtornos mentais são desequilíbrios químicos estão começando a ficar antiquadas". Isso foi em 2011. Muitos anos antes - em 2003 - o psiquiatra e pesquisador de Standford, David Burns, já havia revelado que mesmo tendo dedicado anos de sua carreira à pesquisa do metabolismo da serotonina no cérebro, ele nunca havia se deparado com "nenhuma evidência convincente de que algum transtorno psiquiátrico, incluindo depressão, seja ocasionado por uma deficiência de serotonina no cérebro". Quanto tempo vai levar para que os profissionais da saúde mental no Brasil abandonem esse argumento?

A popularização dessa hipótese colabora com o uso indiscriminado e irresponsável de psicotrópicos. Pode estar entre os fatores que explicam o aumento expressivo do uso de antidepressivos na última década em todo o mundo. De acordo com o National Health and Nutrition Examination Survey (2008), atualmente 23% das mulheres americanas tomam esses medicamentos - um índice que reflete a realidade ocidental, em geral. A certeza de que "produzem pouca serotonina" leva muitas pessoas a acreditar na cura milagrosa das drogas até no caso de depressão leve e moderada - em que esses medicamentos têm resultados comprovadamente iguais aos de placebos.
Autor de diversos livros sobre medicação psiquiátrica e consultor do Instituto Nacional de Saúde Mental, o psiquiatra Peter Breggin destaca que são as drogas que causam o desequilíbrio químico - e não o contrário. E o resultado desse desequilíbrio está evidente nas diversas reações de abstinência que sofrem os pacientes ao largar as medicações psiquiátricas.

No caso dos antidepressivos mais comuns, por exemplo - os ISRS (inibidores seletivos de recaptação de serotonina) - o neurotransmissor, liberado pela célula pré-sináptica, tem seu canal de receptação bloqueado. Assim, ao invés de concluir seu ciclo natural e retornar ao neurônio pré-sináptico, ele é acumulado entre as sinapses. No entanto, os neurônios têm receptores que monitoram o nível de serotonina na sinapse e como o cérebro é plástico, ele naturalmente vai regular a produção do neurotransmissor. Portanto, os antidepressivos causam - e não ajustam - o desequilíbrio químico. Evidências apontam que sua ação sobre a via serotoninérgica provoca o nascimento de novas células nervosas no hipocampo - região afetada nos casos depressão profunda. Isso explicaria o tempo, de cerca de três semanas, que os antidepressivos levam para começar a agir nesses casos.

O metilfenidado - estimulante usado para "corrigir" o TDAH - têm ação quase imediata sobre alguns dos sintomas comuns de crianças hiperativas. Assim como a cocaína, faz com que a dopamina se acumule nas sinapses por muito tempo, levando as células pré-sinápticas a liberar quantidades cada vez menores do neurotransmissor. Com o tempo, o cérebro ajusta a produção de neurotransmissores e a criança desenvolve tolerância à medicação, precisando de doses maiores. O desequilíbrio então realmente se estabelece, o que leva os médicos a receitar outras drogas para compensá-lo.
Para se certificar se tudo isso compensa em longo prazo, uma equipe de 18 pesquisadores, com apoio do Instituto de Saúde Mental americano (NIMH), investigou o desempenho de 579 crianças diagnosticadas com TDAH no período de oito anos. Maior pesquisa já realizada com essa finalidade, o "Estudo Multimodal de Tratamento para TDAH", publicado em 2009, concluiu que depois de um ano e meio, mesmo com o aumento contínuo de dose, as crianças medicadas não apresentaram melhor desempenho em nenhum aspecto com relação às que não receberam medicação. Depois de um tempo, portanto, restam apenas os efeitos colaterais do desequilíbrio provocado pela droga.
"A verdade é que ninguém sabe qual deveria ser a quantidade 'correta' de diferentes neurotransmissores. O nível dessas substâncias é apenas um fator em um complexo ciclo de influências que interagem, como vulnerabilidade genética, stress, hábitos no pensamento e circunstâncias sociais", escreve Christian Jarrett em Great Myths of The Brain (Os Grande Mitos do Cérebro).
A ponte do equilíbrio transformou-se numa corda bamba num mundo de tantos excessos. Buscá-lo passou a ser um desafio que coloca em jogo a saúde física e mental. A ação prática das pílulas pode ser tentadora - e até necessária em alguns casos - mas ela acabou se tornando mais um perigoso excesso da sociedade, mais um ponto de desequilíbrio, disfarçado de solução.


Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
e investigas os temas relativos 
à psicanálise na atualidade e à clínica contemporânea.