.
.

2 de dezembro de 2009

Elas não são gays!

Vi no blog Significantes e me chamou atenção por tem muito do que foi discutido, em algum momento, no grupo de estudo que participo as quartas à noite.

Michele e Carla são casadas, têm filhos, mas afirmam não ser homossexuais


Quando conhecem alguém, Michele Kamers e Carla Cumiotto fazem questão de se apresentar sem deixar nada por dizer: “Somos casadas, fizemos inseminação artificial em São Paulo e temos dois filhos”. Elas preocupam-se em deixar tudo claro por acreditar que são as dúvidas e sombras que alimentam maledicências e preconceitos. E, como formaram uma família diferente do padrão convencional, querem que seu casal de filhos cresça numa sociedade preparada para recebê-los. Conheci essas mulheres extraordinárias dias atrás, quando as procurei com a proposta de contar sua história. O resultado desse encontro é a reportagem "A primeira nova família brasileira", publicada na atual edição de ÉPOCA.

Michele e Carla conquistaram na Justiça o direito de registrar seus gêmeos, de 2 anos, no nome de ambas. Até agora só tinham o sobrenome de Carla, a mãe biológica. Michele não aceitava a ideia de ter de entrar com um pedido de adoção. Ela desejou esses filhos, acompanhou o processo de inseminação, via banco de esperma, esteve ao lado de Carla durante toda a gestação e no parto por cesariana, e cria junto com Carla os dois filhos na casa que ambas compraram. “Eu não poderia adotar meus próprios filhos”, diz. “Eles nasceram do meu desejo, tanto quanto do de Carla.”

É a primeira vez que a Justiça brasileira reconhece um vínculo exclusivamente afetivo, simbólico, como parental. Não há nenhum traço biológico ligando os gêmeos a Michele. Mas ninguém que conhece a família, assim como o juiz Cairo Roberto Rodrigues Madruga, da 8ª Vara de Família de Porto Alegre, tem qualquer dúvida sobre o fato de eles serem tão filhos de Michele quanto são de Carla. A surpresa é que uma das maiores vitórias na área dos direitos dos LGBTTTS é de um casal de mulheres que afirma não ser homossexual – não por preconceito, mas porque acreditam que a questão é mais complexa do que parece. A sigla, cada vez maior porque há sempre uma nova diferenciação a incluir, significa Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Trangêneros e Simpatizantes.

Quando Carla e Michele disseram-me que não se identificavam como homossexuais, meu primeiro sentimento foi de estranhamento. Até então eu me considerava heterossexual – uma definição que identifica pessoas que costumam viver suas histórias de amor com o sexo oposto, mas que raramente é usada porque ninguém precisa ficar afirmando algo que é o convencional – e, principalmente, que é aceito. E homossexual era todo aquele que vivia relações afetivas e sexuais com o mesmo sexo. Simples assim.

Pelos amigos gays e por algumas reportagens que gostaria de ter feito, sempre soube que os arranjos eram muito mais complexos e interessantes do que isso. E que, ao reduzir a diferença a uma palavra ou mais palavras fechadas em seu significado, perde-se de vista um universo pleno de nuances. E nós, ditos heterossexuais, também somos reduzidos a algo que parece muito óbvio – e que de fato não é, ou pelo menos espera-se que não seja. Mas nunca fui provocada a pensar tanto assim no assunto.

Ao entrevistar o casal em sua casa, em Blumenau (SC), seus argumentos me levaram a uma série de novas questões. Ao final do primeiro dia, eu e o fotógrafo Marcelo Min pedimos uma garrafa de vinho, no hotel, e ficamos conversando sobre as tantas perguntas inusitadas que a reportagem nos provocava. Esse é sempre o melhor cenário para um repórter e para um fotógrafo que amam o que fazem: quando a pauta se mostra muito mais complexa do que parecia e nos desafia, também do ponto de vista pessoal, a indagações inéditas. Acredito que uma reportagem só acontece quando repórteres e personagens se transformam nesse encontro. E espero ter colocado nelas quase tantas pulgas quanto elas me colocaram.

Carla e Michele são psicanalistas, professoras universitárias, que pensam bem e têm um ótimo senso de humor. Formam um casal mais tradicional do que a maioria dos casais convencionais que eu conheço. Cada uma delas tem uma papel bem definido na relação: Michele ocupa a posição masculina e Carla a feminina – entendendo tanto o feminino quanto o masculino nas definições tradicionais inscritas na cultura. Carla sempre namorou homens – masculinos – e Michele é a primeira mulher de sua vida. “Não posso me identificar como homossexual porque sou atraída pela posição oposta”, diz Carla. “Gosto de homens e mulheres masculinos. Jamais beijaria uma mulher ou um homem feminino.” Na rua, Carla segue olhando para homens e, em geral, observa uma mulher quando se interessa por seus sapatos, bolsas ou roupas.

Michele namorou gente de ambos os sexos durante a adolescência, mas acabou fixando-se em mulheres femininas na vida adulta. Quando viu Carla, sua professora no curso de Psicologia, encantou-se pelo vestido justo, de um ombro só, e pelas unhas vermelhas. Ela mesma está bem longe do que seria o esterótipo de uma mulher masculina. Michele é bonita, veste-se com estilo, inclusive usando vestidos justos nas festas, usa brincos, colares e maquiagem, tem luzes no cabelo pelos ombros. Mas, por um sentimento intangível, qualquer um que se aproxima dela sabe que ela é masculina, mas não no sentido de se parecer a um homem, mas masculina como só uma mulher pode ser.

E, para ciúmes de Carla, que descobriu-se com a novidade de um marido circulando predominantemente entre mulheres, Michele mesmo sem querer desperta paixonites entre garotas homo ou heterossexuais. Mas também não consegue ver-se como homossexual. “Hoje existem diversos modos de ser mulher, inclusive ser mulher e ter uma posição masculina. Do mesmo modo que é possível ser um homem na posição feminina. Não é preciso cortar o pênis para ter um lugar social. Muita gente, ao mudar de sexo, está resolvendo na anatomia uma questão psíquica, uma questão de reconhecer-se no corpo que se tem”, diz. “Acho que uma mulher precisa ser muito mulher no sentido de não ter medo de ser confundida com um homem. Me vejo como uma mulher masculina que gosta de mulheres femininas.”

Michele Kamers e Carla Cumiotto

Carla e Michele não frequentam guetos gays, como bares, restaurantes e danceterias. A maioria de seus amigos poderia ser identificada como heterossexual. “Todo o gueto – e não apenas o homossexual – visa excluir a diferença. Seja ele ideológico, religioso, racial ou sexual”, diz Michele. “E nós acreditamos que é o confronto com as diferenças que nos faz avançar, que nos apresenta novas possibilidades de existir, que nos permite a invenção de uma vida melhor. Nas ocasiões em que tentaram eliminar as diferenças, determinar que só existia uma forma de viver, foi muito triste, como no nazismo e no fascismo.”

Como a questão de ser ou não homossexual tangenciou as cinco horas de entrevista, Carla e Michele ainda me enviaram um email, com o objetivo de clarear sua posição. É Carla que escreve primeiro: “Não nos reconhecemos como homossexual justamente por que, ao se apresentar como ‘homossexual’ nos parece que o sujeito reduz e condensa o conjunto de traços identificatórios que o define a apenas um: ‘o homossexual’. Ou seja, como se a partir desse momento deixasse de ter nome próprio, de ser filho, de ter uma profissão, de ter uma identidade de homem ou mulher. Somos mulheres e entendemos que, na vida, se é homem ou mulher. Para depois, a partir das determinações discursivas da época em que se vive, assim como a partir das marcas infantis, e assim como dos ‘bons encontros’ na vida, cada um vai se referenciando a partir do masculino ou do feminino enquanto posição psíquica. E isso vai determinar seu jeito de amar, de namorar, de fazer laço, etc. Por exemplo: No primeiro dia em que ficamos, quando fui tocar o corpo da Michele, me surpreendi que não tinha um pênis. Isso é só para te inspirar e te dar um exemplo de que o quanto o conhecimento da anatomia e da realidade é menos determinante que a dimensão do simbólico enquanto representação. Isso é para brincar um pouco do quanto existem mil e um ordenadores e arranjos possíveis no campo da sexualidade e, principalmente, uma infinidade de arranjos possíveis para um casal”.

O texto continua, desta vez escrito por Michele. “Gostaríamos de deixar uma interrogação: o que é apresentar alguém como homossexual, na medida em que nunca vimos alguém se apresentar como heterossexual? Ou ainda, como poderíamos aceitar essa representação se a idéia do homossexual faz alusão à atração pelo mesmo sexo, se o encontro entre mim e Carla diz justamente da atração pela diferença de posição? Ou seria o estereótipo ‘homossexual’ uma forma de anular a reflexão e de manter a ilusão de que não temos ‘nada’ comum para fazer laço?”.

Considerei as questões colocadas por elas tão interessantes que quis trazê-las para essa coluna. Tudo o que nos provoca a pensar sempre nos faz avançar. Concordar ou discordar não é o mais importante. Acho que as pessoas dão valor demais ao “concordo” ou “discordo” – e assim perdem ótimas oportunidades de aprimorar sua reflexão porque sentem-se ameaçadas quando algo abala suas convicções. Provocações intelectuais valem a pena porque nos fazem refletir para além do que pensávamos antes – e tornam possível chegar a questões que também superam as iniciais. Valem a pena porque nos fazem duvidar de nossas certezas. E esse é um excelente exercício para nos tornarmos pessoas melhores, que pensam mais e melhor e conjugam a tolerância. Se o método servir para alguém, sempre que algo me parece muito novo ou mesmo absurdo, eu faço um exercício que começa por um silencioso, mas nem por isso menos sonoro: “Será?”.

É necessário ressaltar que a denominação homossexual e seus derivativos foram usadas por muito tempo para discriminar. Até pouco tempo o “homossexualismo” era considerado uma patologia, um desvio. E há quem ainda defenda essa teoria. Por outro lado, com imensa coragem e obstinação, o movimento gay conseguiu transformar uma definição que era pejorativa em ação afirmativa, fundamental para a conquista de direitos. Foi preciso afirmar a diferença para conquistar o direito de existir. Fechar-se em guetos se impôs como um espaço de proteção diante de uma sociedade preconceituosa – e uma estratégia para encaminhar as questões legais com maior poder de pressão. Hoje, o próprio desdobramento da sigla LGBTTTS, que não para de aumentar em função de novas definições, mostra um caminho de abertura. O trinômio GLS (gay, lésbicas e simpatizantes) não abarca mais todas as diferenças. E possivelmente teremos uma sociedade melhor quando as diferenças não precisarem mais ser explicitadas numa sigla.

É por esse caminho que me parecem ir Carla e Michele. Elas não ocultam nenhum elemento de sua condição. Pelo contrário, apresentam-se com uma transparência pouco vista, mesmo em militantes da causa. É preciso observar ainda que elas não circulam por guetos, mas na universidade, na escola dos filhos, nos restaurantes da cidade, no clube, nos próprios consultórios. E não em São Paulo, uma cidade que pelo tamanho permite a vivência de todos os arranjos – mas em Blumenau, uma cidade de porte médio, conservadora, com população predominantemente de origem alemã.

Ao escutar a argumentação de Carla e Michele, fiz várias indagações sobre minha vida e analisei meus arranjos amorosos em retrospectiva. Provavelmente eu nunca lidaria bem com um parceiro com uma posição masculina tão determinada. Percebo que tenho muito forte em mim as duas posições – e as alterno nos jogos amorosos e sexuais. Homens muito masculinos ou femininos demais acabam por me desinteressar. Sou atraída por gente que mistura, me fascino pelas nuances. E provavelmente por isso meu casamento tenha sobrevivido não às pequenas, mas a pelo menos uma grande crise.

Gosto, numa história de amor, da liberdade de ser uma coisa e outra. E, embora já tenha me sentido atraída por mulheres – femininas e masculinas –, nunca aconteceu. O que não significa que não acontecerá. E me exponho aqui em reciprocidade à exposição dessas duas mulheres, que entenderam que tinham a responsabilidade ética de se mostrar, para que outros brasileiros pudessem refletir sobre uma questão tão importante. Não acho que meu jeito é melhor que o de ninguém – nem que o de Michele e Carla sejam melhores ou piores que todos os outros possíveis. Acredito apenas, por tudo que vi, ouvi e senti, que elas formam um casal interessante e criaram uma família bonita.

Saí dessa experiência de reportagem com apenas uma convicção pessoal. Não sou heterossexual. Não porque pretenda começar a namorar mulheres, mas porque cheguei a conclusão de que essa definição diz muito pouco sobre a complexidade do que somos. Está na hora de criar nomes mais fluidos, acho eu. Se alguém me perguntar se sou homo ou hetero, vou dizer: “Sou uma mulher às vezes masculina, às vezes feminina, que gosta de homens às vezes femininos, às vezes masculinos”. É mais complicado, sem dúvida. Mas é bem mais estimulante. E libertador.


Eliane Brum - Revista EPOCA

Veja a história toda aqui

25 de novembro de 2009

.

"Visto-me para ocasiões, para personagens. Há mulheres em meu armário, penduradas em meus cabides, uma mulher diferente para cada terninho, cada vestido, cada par de sapatos.
Acumulo roupas. Minha maquiagem transborda das gavetas do banheiro, e há mulheres diferentes para batons diferentes."

Marya Hornbacher
In Dissipada


Fotografia Helmut Newton

Ciclo de Debates no Rio de Janeito


TEMAS DO MÊS:

OS EFEITOS DA ESCRITA NA PASSAGEM AO ATO SUICÍDA
Lenita Bentes

Psicanalista, Membro da Associação Mundial de Psicanálise (AMP), Membro da Escola Brasileira de Psicanálise /Seção Rio, Mestre e Douturanda em Teoria da Clínica Psicanalítica pela UERJ, Coordenadora da Unidade de Pesquisa da UERJ.

MORTE E LUTO
Mirtha Ramirez

Psicóloga (05/9090), Psicanalista (CEP), Sócia, Psicoterapeuta Corporal em Análise Psico-Orgânica (CEBRAFAPO) Fundadora do Banco de Horas – IDAC, Membro Titular da Associação Brasileira de Análise Psico-Orgânica (ABRAPO.


Data:
27/11/2009

Hora: 6ª f. às 19:30

End: Rua Maria Eugênia, 215/sl. 201 - Humaitá/RJ

Informações: Comissão Cultural da ABRAPO
Tels: Silvana Sacharny: 2537-4081
Ana Luisa Baptista: 3062-3400

Contribuição: R$ 10,00

www.cebrafapo.com.br
contatocebrafapo@gmail.com

23 de novembro de 2009

Freud x Deus

.
Clique para ampliar a imagem
.

Lançamento

Recebi este email e repasso:

Lançamento de CADERNOS SOBRE O MAL, de Joel Birman, na Livraria Argumento, no Leblon, dia 26/11, às 20 hs.

Veja a divulgação do evento:

A excepcionalidade do mal

Em Cadernos sobre o Mal, Joel Birman age como historiador de pequenas causas, fazendo a anatomia de um novo tipo de mal na sociedade brasileira

Há uma zona nebulosa do tempo entre o que ainda não se escreveu como história e o que não é mais parte do presente imediato. Essa nebulosa é a matéria dos ensaios de Joel Birman sobre a experiência da brasilidade entre 2000 e 2007. Lendo-os em retrospectiva, percebe-se como o passado recentíssimo pode ser estranho e surpreendente. Seja por exigência de ofício, por disposição de método ou por escolha ética, o que o conjunto dos ensaios revela é a invenção, no Brasil da cultura pós-inflacionária, de um novo tipo de economia da violência. Por dever de ofício, Birman, um psicanalista no horizonte da subjetividade de sua época, recupera tanto a teoria da agressividade em psicanálise, depurando-a de seu moralismo conservador, quanto os caminhos da constituição de uma criminologia psicanalítica, com base em Aichhorn, Winnicott e Lacan. Isso inclui gradualmente corpo, ato e outro, como categorias centrais de um novo estilo de subjetivação e uma nova forma de mal-estar. Para fazer juz à radicalidade da pulsão de morte freudiana, entram em curso os recursos críticos de método necessários para reposicionar o debate sobre a violência. Nietszche, Foucault, Derrida e Agamben lembram-nos a estreita e obscena relação entre violência e poder, e o caráter inócuo senão indesejável de pensar um sem o outro.

Quando a segregação se torna gramática invisível do poder, a violência ganha visibilidade como ruptura e invasão de fronteiras. Quando a violência simbólica é derrogada, quer pelo Estado, quer pela sociedade civil, ela retorna disseminada como violência real. Violência real intensificada, sob a forma de crueldade, no tratamento da vida nua e no esquecimento da vida qualificada. O diagnóstico é circunstanciado: a inefetividade do registro político diante do econômico e o esvaziamento da vida pelo registro da performance precarizam a subjetividade e bloqueiam estratégias de reconhecimento, como a hospitalidade e a ética da amizade, que funcionariam como moduladores simbólicos da violência.

A genealogia da violência, assim desenvolvida, consegue escapar da retórica legalista, que vê no declínio da autoridade vertical de tipo paterna a fonte da violência e, por isso, só consegue pensar formas regressivas de recomposição da autoridade. Escapa também da retórica naturalista, que cultiva o desamparo e a maternagem como aspiração reificada de solidariedade. Ou seja, depois da banalidade do mal, a excepcionalidade do mal.


Sequestro de Patricia Abravanel, filha de Silvio Santos: a violência como demanda de reconhecimento e fama

Cultura pitbull e "sequestros relâmpagos"


Se na primeira parte dos Cadernos destacam-se as virtudes metódicas e teóricas de nosso autor, o returno do livro faz falar o cronista de uma época, o historiador das pequenas causas. São vidas simples, casos banais, contados com o que lhes falta, a saber, reconhecimento da dignidade. Por exemplo, a trajetória de um homem pobre que perde trabalho, esposa e família. Errante, mata cruelmente a menina que lhe oferece flores e comida. Violência inesperada contra a única pessoa que foi gentil com ele. Cinco anos de cárcere manicomial e escuta psicanalítica não foram suficientes para que ele, réu confesso e dócil, reconstruísse os rastros psíquicos dessa passagem ao ato criminal. Vazio e ausência de reconhecimento. Semelhança invertida com os soldados egressos do Iraque matando suas esposas... inexplicavelmente. Semelhança não simétrica entre vencidos e vencedores, como o grito de dor de As Troianas, tragédia de Eurípedes. Falsa equivalência que reaparece na crítica da ideia de que a guerra é a política feita por outros meios (tese de Clausewitz). O diagnóstico desconstrói as oposições fáceis dessa nova forma de violência: crueldade asséptica, crueldade excepcional, crueldade que não faz exemplos.

Não se trata apenas da banal identificação do criminoso com a exceção transgressora que funda a lei, mas da universalização da exceção em uma nova forma de lei. É o Império de um lado e Dogville de outro. Não é o futebol arte contra o futebol força, mas a permissividade dos árbitros universalizada pela corrupção dos cartolas; Maradona procurando a cura, mas não a salvação em Cuba; impactante retrospectiva política que nos apresenta página a página a gradual substituição do poder ostensivo e da violência visível, dos tempos de Antonio Carlos Magalhães, pelo poder invisível e pela violência excessiva, da era FHC e Lula; Estado burocratizado sem densidade afetiva e efetiva; o risco como valor ético básico (para o outro).

A cultura pitbull de nossos adolescentes, assim como a massificação das tatuagens, não tem mais de 15 anos. A aliança do PT com os evangélicos ou o oportunismo de Garotinho não têm mais de oito. A moda dos charutos Cohiba em Land Rovers turbinados não tem mais de quatro. Em seus pequenos ensaios, alguns tão breves que só podem vencer por nocaute, Joel descreve a emergência de um novo tipo de rico, e também de um novo tipo de pobre. Tipos sociais nos quais medo e desalento não se completam, assim como a depressão não se cura com a droga-dependência "excitativa". Personagens dessa nova lógica de condomínio, que a um tempo sitia favelas e casas, privatizando a segurança de ambos.
Entre o miserável e o mendigo profissional, assim como entre o sequestro da filha de Silvio Santos e a popularização da prática dos "sequestros relâmpagos", infiltra-se um elemento comum: a violência como demanda de reconhecimento e fama. Devolução ao remetente do gozo predatório de nossas elites. Não há, portanto, nenhuma banalidade aqui, mas desejo desesperado de engendrar uma excepcionalidade. Cadernos do Mal é um retrato em movimento da longa trajetória de reflexão de Joel Birman sobre os destinos da modernidade. Deve ser lido, com Arquivos do Mal-Estar e da Resistência (2006), como verdadeiro desafio à nossa capacidade de imaginação política e invenção psicanalítica. Se a ideologia é eterna, como disse Althusser, nosso passado recente não é.

II SIMPÓSIO DE PSICANALISE DE NITERÓI - Vídeos

O site Espaço Mulher On Line fez a cobertura do II SIMPÓSIO DE PSICANÁLISE.
Já está disponível um vídeo em 5 partes com um pouquinho do que rolou.
.
Clique aqui e confira alguns trabalhos e entrevistas!