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28 de fevereiro de 2010

´´meu lado mais doce e bruto: a escrita``

Quinta feira passada, barzinho com amiga de infância, Bohemias geladas, papo cabeça, poesia...




Atrevo

Quero sentir o gosto daquilo que lhe é possível saborear. Não quero invadir nem me quero mexida. Penso leve, palavras duras e pontiagudas. Tudo se dá na cabeça: essa que fala, que escuta, que pende para trás em êxtase. Digo coisas ao seu ouvido... ãh?! Diz-me coisas que não escuto... ãh?! Perdoe-me, mas somos da mesma espécie: só piso no caminho que acho que devo seguir.


Me atrevo pouco. Mas rio do seu sorriso... quê fazer?!...

Um certo humor leve que ganha proporções monumentais quando escuto em voz e melodia. Percebo seus caminhos pelo mundo todo... vão livre, um certo horizonte interminável de um olhar que beira o exótico, o ingênuo, o inacreditável, o profundamente elaborado.

E assim ouço tudo o que me tem a dizer. Palavras que saem dessa tocha de fogo humana como cuspe de dragão. Aceito sim, sua proposta de amizade anunciada - mesmo sem acreditar que amizades (ou inimizades) possam ser resolvidas em contratos verbais... - aceito tudo o que me diz, carbonizada.

Me atrevo um pouco. Continuo rindo do seu sorriso... discordo do que não concebo. Deixo para conceber mais tarde.

Apresento-me pelo meu lado mais doce e bruto: a escrita. Porque também eu sei cuspir fogo. Também castigo minha garganta com coisas entaladas ou que serão ditas como num grito que leva à rouquidão. Minha recuperação de cicatrizes é lenta, mas fecha por inteiro. Só que não quero fechar, mostro-me em palavras rimadas e descompassadas que é a única forma que sei fazer. Não cultivo pudores. Tento fazer o mesmo com traumas.

Jurei que não escreveria. Quase impossível... tom de provocação mansa, presença sutil, também alimento meu ego cultivando pessoas e impossibilidades. Seres reais que merecem uma narrativa real. E fogo... ah, esses seres de fogo... garganta em brasa, incêndio fora do controle. Pessoas assim, em própria autodefinição subjetiva.

Me atrevo muito. Porque o que tenho para servir é água com açúcar, e pimenta.

Percebo o receio de envolver-se. Percebo o desejo de in-volver-se (sic), paradoxalmente. Misto de curiosidade e coragem, essa gente que tá sempre botando a mão no fogo pra ver se queima. E, em insólitas situações, sempre queima... - enxugo suas duas lágrimas - sensação de faísca de fósforo: assim te toco, lixa e pólvora... fogo, que já sabíamos que éramos fogo, filhos do mesmo dia do ano.

Espelhadamente faz as perguntas que faço.
Diz as palavras que digo.
Pessoa-fogo, desde a garganta até às palavras.

Eu sou esse tipo de pessoa também que vive se explicando. Tenho a insana percepção de que não sou realmente compreendida pelas minhas palavras duras, radicalismo, uma certa ironia. Para poucos. Sou assim, pessoa para poucos. Querida por muitos, mas compreendida por poucos. Entrego minha essência nas entrelinhas.

Me atrevo demais... e não me acho.

Meu toque de água nesse ferver em banho-maria. Vou deixar o fogo baixo se acalmar, sem queimar o fundo da panela... sem pressa... incêndio controlado. Energia dócil e feroz. Mas vou deixar, fogo baixo... quero o saborear da vida leve.

Voto de silêncio para curar.
E não me atrevo mais...


_ml_fevereiro/2010
para jean kuperman

beleza

Vi no blog Amigos do Freud

O que significa, para uma mulher, ser feia nos tempos atuais? Qual o preço pago, os sacrifícios impostos e os sofrimentos vividos? A quais práticas se submetem para escapar do “intolerável da feiúra?”

“A gordura acabou com a minha vida” estampava a manchete do Jornal da Família, suplemento dominical do jornal O GLOBO, de 19/01/2003.

Sabemos que, historicamente, a imagem de mulher se justapõe com a de beleza e, como segundo corolário, à de saúde (fertilidade) e juventude. A contemporaneidade,contudo, parece ter levado ao paroxismo tais representações, como veremos no decorrer de nosso trabalho. As imagens refletem corpos super trabalhados, sexuados, respondendo sempre ao desejo do outro ou corpos medicalizados, lutando contra o cansaço, contra o envelhecimento ou mesmo contra a constipação.




Fotografia David LaChapelle

Implícita está a dinâmica perfeição/imperfeição, buscando atender aos mais antigos desejos do ser humano, conforme narram os mitos, os elixires e fontes de eterna juventude. Beleza exterior e saúde, aparência desagradável e doença, cada vez mais se associam como sinônimos, no tocante às representações do corpo feminino. A questão tradicional, aceitar ou não o corpo recebido parece transformar-se em – como mudar o corpo e até que ponto?

O corpo, nos dizia Levi Strauss, é a melhor ferramenta para aferir a vida social de um povo. Ao corpo cabe algo muito além de ocupar um espaço no tempo. Cabe a ele uma linguagem que se institui antes daquilo que denominamos “falar”, que se exprime, evoca e suscita uma gama de
marcas e falas implícitas.

O corpo fala e as marcas nele feitas também. A questão estética se impõe como forma e fôrma e o que é belo pode vir a ser feio. Da mesma maneira, o belo pode instituir um padrão de feiúra. No fundo, vivemos no fio de uma navalha, fio este que tenuamente separa feiúra e beleza. O presente trabalho tem como objetivo investigar qual a relação existente entre a mulher e a beleza na contemporaneidade e qual o preço pago para “ser bela”. A feiúra, conforme demonstraremos a seguir, é uma das mais penosas formas de exclusão social na atualidade. Mas
quais são as insígnias da feiúra? Acreditamos que significa não ter o corpo e a estética aceitos socialmente, ou seja: ser jovem, ser magro e ser saudável.

Buscamos também apontar como a imagem da mulher e do feminino continua associada à da beleza, havendo cada vez menos tolerância para os desvios nos padrões estéticos socialmente estabelecidos. Neste sentido, tomamos a gordura como o paradigma da feiúra e apontamos para os processos de exclusão vividos por aqueles que nela se enquadram. As falas que ilustram o trabalho, e que utilizaremos como epígrafes, referem-se à uma pesquisa realizada em 2001, sobre a qual falaremos mais adiante.





ESTÉTICA E EXPECTATIVAS SOCIAIS : O DEVER MORAL DE SER BELA

“Acho que a cultura atual preconiza que estejamos bem para poder expor ao máximo o corpo. Hoje em dia vale muito mais um braço sarado do que roupas caríssimas, e olha que eu posso dizer, pois já fui estilista.” Courtine (1995) evidencia, através de alguns exemplos históricos, o fascínio e o estado de corpolatria característico da sociedade em que vivemos. Segundo o autor esse processo remete-nos ao fato de que, em outros momentos históricos, a apreciação estética do corpo, se dava de uma forma menos fragmentada, na qual não estavam em jogo pedaços/recortes da anatomia humana, sendo valorizado um todo harmônico.

“A atração que Charles Atlas exercia sobre o público dos anos 20 centrava-se na visão do conjunto de uma pujança corporal harmoniosa; o sucesso de Jhonny Weismuller, nas salas de cinema dos anos 40, decorria da elegância “natural” de sua musculatura(...) A fascinação que o corpo de Schwarzenegger provoca sobre o grande público da telinha é de outra natureza: congelado numa luz crua, quase cirúrgica, o body-builder faz sobressair os mínimos detalhes de sua massa corporal. Estrias das fibras musculares, ramificações da rede vascular, palpitações de um tórax estufado: a imagem ideal do corpo que o body-builder de hoje configura é aquela dos corpos destinados aos estudos anatômicos”. (p.103)

É também preciso ressaltar que o controle exercido através da fiscalização de um olhar minucioso sobre a aparência e com o aval da ciência, contribui para regulamentar diferenças e determinar padrões estéticos em termos daquilo que é próprio e impróprio, adequado ou inadequado, normal ou anormal. Como bem sugere Durif, “o corpo torna-se álibi de sua própria imagem.”. Esse controle da aparência traduz-se não somente na atribuição de características estéticas, como investem-nas de julgamentos morais e significados sociais.

Leia o artigo todo aqui.


PRAZER OU DOENÇA?

O DSM-5 já esta causando polêmica. O aumento de números de novos diagnósticos e transtornos (mais 300 novos transtornos) nos faz pensar nesse excesso que transforma qualquer comportamento num oficial transtorno psiquiátrico. O manual só será lançado em 2013, mas seu rascunho ficará disponível na internet (www.dsm5.org) até abril.

O que mais tem chamado atenção são os transtornos relacionados a sexualidade, que colocam em jogo a a questão: E PRAZER OU E DOENÇA?

Veja a matéria da Revista Época:

O manual da psiquiatria está sendo revisto. Entre os novos distúrbios deverá estar o impulso incontrolável de fazer sexo

A paulistana Priscila S., de 49 anos, considera sua vida absolutamente normal. Ela dá aulas de inglês, faz ginástica, gosta de ir ao teatro e a bares e restaurantes com o marido e os amigos. Priscila diz que seu casamento sempre foi ótimo e está ainda melhor desde 2000, depois que o casal descobriu o BDSM, sigla para a expressão Bondage, Disciplina, Sadismo e Masoquismo. Os adeptos da prática gostam de dominar ou ser submissos para atingir o prazer sexual, o que pode ou não envolver dor. Há os que, como Priscila, se excitam ao ser amarrados ou ficar pendurados nus por horas sendo observados. E aqueles que, como seu marido, sentem prazer em amarrar, dominar e, às vezes, dar mais do que uns tapinhas. Tudo é feito com o consentimento do outro. “É uma sensação indescritível de bem-estar”, afirma a professora. A prática que dá prazer a Priscila é classificada como distúrbio psiquiátrico pela Associação de Psiquiatria Americana (APA). A entidade elabora o Manual Diagnóstico e Estatístico dos Distúrbios Mentais (DSM), referência para médicos de todo o mundo.

Publicado em 1952 e atualizado pela quarta e última vez em 1994 (houve apenas uma revisão de texto em 2000), o documento de 943 páginas, que descreve cerca de 300 distúrbios psiquiátricos – entre eles os sexuais –, está sendo reformulado. O DSM-5 será publicado em 2013, mas a lista com as propostas dos comportamentos que passam a ser considerados anormais, os que deixam de ser e os que se mantêm foi divulgada em fevereiro. Aqueles que, como Priscila, não concordam com a permanência das práticas de BDSM no manual, como está sendo proposto, ou com qualquer outro item da lista, poderão se manifestar. O rascunho ficará disponível na internet (www.dsm5.org) até abril.

Se depender do apoio de maridos pegos sobre a cerca, uma das propostas que deve fazer sucesso é transformar o impulso sexual excessivo – ou compulsão sexual – oficialmente em transtorno psiquiátrico. Estima-se que o problema – caracterizado pela obsessão incontrolável pelo ato sexual, capaz de prejudicar a capacidade de concentração e de dedicação às tarefas do dia a dia e comprometer o trabalho, a saúde e os relacionamentos da pessoa – afete cerca de 6% da população dos Estados Unidos. Mesmo assim, tal impulso incontrolável é visto com certa desconfiança, dada a quantidade de homens que já apelaram a ele para justificar suas aventuras sexuais fora do casamento. Depois de antecessores famosos como os atores Michael Douglas e David Duchovny, o compulsivo da vez é Tiger Woods, que deu uma entrevista coletiva se desculpando por seu problema incontrolável na semana passada. O campeão de golfe passou um tempo internado para tratar da suposta compulsão sexual depois que vieram à tona seu caso extraconjugal com uma garçonete de Nova York e aventuras com pelo menos uma dezena de outras mulheres

A vantagem de incluir no novo manual uma doença que já é tratada pela medicina, segundo o psiquiatra Luiz Alberto Hetem, vice-presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria, é poder estudá-la mais detalhadamente e descobrir quais tratamentos e intervenções dão melhores resultados. No caso da hipersexualidade, isso também poderá aumentar a credibilidade dos pacientes. “Mas pode ter como efeito colateral mais justificativas médicas para casos de adultério”, diz. De acordo com Hetem, mais controversa do que a proposta de incluir a hipersexualidade no rol das doenças psiquiátricas é a que pode servir de argumento para livrar estupradores da cadeia. Ele diz que essa é a segunda vez que se considera incluir no DSM o Transtorno Obsessivo Coercivo, definido como “fantasias e desejos intensos com a possibilidade de forçar outra pessoa a fazer sexo”. A primeira foi em 1984, na terceira revisão do documento. A inclusão foi rejeitada, pois os responsáveis concluíram que seria impossível validar de maneira confiável o que diferenciava os estupradores doentes dos antissociais. A proposta atual continua com a mesma dificuldade. Mesmo os especialistas que não são contrários a ela, como o psiquiatra Aderbal Vieira Júnior, do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes, da Unifesp, acreditam que ela deve ser barrada novamente. “O conceito é bom, não me oponho. Nem toda pessoa que comete estupro tem personalidade amoral, a maior parte sofre com o que está fazendo”, afirma. “Mas é fato que qualquer estuprador pego vai alegar o transtorno. E o diagnóstico é feito com base no relato do paciente.”

Fotografia Helmut Newton


Um dos grandes problemas de transformar comportamentos em distúrbios mentais é definir o limite entre a normalidade e o excêntrico, o inofensivo e o prejudicial. Em relação ao sexo, quais práticas são naturais e quais precisam de intervenção médica? Com base em que isso é definido? O conceito de saudável para a Organização Mundial da Saúde (OMS) define-se pelo “bem-estar biopsicossocial do ser humano”. Guiados por essa definição, os profissionais que estudam a mente humana dizem que comportamentos sexuais só precisam ser tratados quando afetamPamplona, psiquiatra e sexólogo, autor do livro Os 11 sexos, as múltiplas faces da sexualidade humana. O objetivo do DSM, portanto, é apenas servir como base para o diagnóstico e a identificação de um distúrbio. negativamente a vida do indivíduo ou dos que se relacionam com ele. “Se a pessoa não sofrer e não prejudicar terceiros, não é uma patologia”, diz Ronaldo

“A partir do reconhecimento do problema é possível conduzir um tratamento não para curar, mas para reduzir o sofrimento da pessoa.” E apenas quando este for o desejo do indivíduo, como foi o do advogado paulistano que prefere ser identificado como Márcio (nome adotado para proteger sua identidade). Ele é crossdresser, alguém com compulsão de se vestir e se portar como mulher, e fez 15 anos de terapia. Aos 46, casado, com uma filha, profissional de sucesso, leva uma vida tranquila. Duas vezes por semana ele se transforma em Márcia, em um apartamento que mantém no centro da cidade. “Não me sinto doente. Sou diferente dos padrões morais e éticos da sociedade”, diz. “O fato de eu não poder pôr para fora meus sentimentos é que me causava problemas, mas a terapia me ajudou a me aceitar.” O comportamento do advogado está descrito na atual versão do DSM, no capítulo das “parafilias”, definidas como preferências ou obsessões por práticas sexuais socialmente não aceitas. A proposta é que continue no DSM-5.

Márcio tem duas visões distintas sobre a lista de parafilias do manual psiquiátrico, que também inclui – e deverá manter – o voyeurismo (obtenção de prazer sexual através da observação de outras pessoas) e o fetichismo (uso compulsivo de objetos ou partes do corpo como estímulo à satisfação sexual.). Como advogado, é contra a retirada de algumas delas da classificação. Na Justiça, é preciso comprovar a “doença” para ter direito a atendimento médico público – inclusive para a operação de mudança de sexo em transgêneros. Como crossdresser, não acredita na necessidade de estar incluído numa lista de distúrbios. “Os comportamentos desviantes têm de ser analisados caso a caso, não precisam estar numa lista”, diz.

A lista é necessária, afirmam os médicos, porque ela vai orientar os diagnósticos clínicos e a pesquisa científica. Segundo a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, a classificação ajuda a normatizar. “Um psiquiatra recém-formado se baseia nela até aprender todas as características que fazem parte de determinado quadro clínico”, diz. Daí a necessidade das revisões periódicas. Um psiquiatra que estudou há 30 anos aprendeu que a pedofilia era um distúrbio exclusivamente masculino. Não é verdade, hoje se sabe. Até 1970, a homossexualidade era tratada como doença e fazia parte do DSM. Talvez não tivesse permanecido ali por tanto tempo se os homossexuais tivessem tido a oportunidade de se manifestar, como agora podem fazer os sadomasoquistas, os crossdressers e todos os que se identificarem na lista que está sendo proposta e não concordarem com ela. “Ainda que a decisão final caiba ao grupo de pesquisadores envolvidos na revisão, tenho certeza de que a opinião pública vai pesar”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Hetem

22 de fevereiro de 2010

O Avesso da Psicanálise

O Avesso da Psicanálise de Jacques Lacan, em quatro conferências de Alain Grosrichard, no IPLA, em São Paulo.

Veja o texto/convite:

O AVESSO E SUAS SURPRESAS

Durante essas quatro sessões, nossa principal referência será o seminário conduzido pelo Doutor Lacan na Faculdade de Direito, em 1969-1970. O lugar (em frente ao Panteão), a data (maio de 68, que ainda paira no ar), sem esquecer o desconcertante título O Avesso da Psicanálise, tudo deixava antever que seria cheio de surpresas. E não nos decepcionamos.
Lacan foi ali construindo, a partir de quatro letrinhas de sua álgebra, quatro figuras de quatro pés representando as únicas quatro maneiras de fazer laço social, em outras palavras, de se inscrever no que ele chamava de discurso, e isso sem mesmo precisar abrir a boca.
Eu que tenho, contudo, o dever de abrir a minha diante de vocês, é necessário que eu me inscreva, ao menos por jogo, no interior de um desses discursos, que são apenas quatro (mais uma variante capitalista um pouco enigmática que Marx nos ajudará a decifrar). Mas qual escolher?
Se eu decidisse não me situar em nenhum, eu me encontraria fora do discurso. Assim, desatado de qualquer laço social, eu ficaria completamente louco. Como vocês não saberiam o que fazer com o meu delírio, excluo essa hipótese.
Nem pensar, também, de me inscrever no discurso da Universidade. Para sustentá-lo, por muito tempo paguei com a minha pessoa, durante minha longa carreira, fazendo-me passar pelo Saber encarnado.
Quanto ao discurso do Mestre, aprecio demais minha liberdade reencontrada para sentir-me à vontade nele.
Mas nem por isso essa liberdade me autoriza a instalar-me diante de vocês no lugar chamado do “mais de gozar”, lugar do Analista no discurso do mesmo nome. Não tendo feito nenhum tipo de passe (confessá-lo-ei para minha vergonha, ou sem vergonha?), eu seria tratado de impostor.
Sobra o discurso da Histérica. Para um sujeito falante qualquer, mulher ou homem, é de longe o discurso mais acolhedor. Ocorre que é também o discurso do filósofo. É o discurso daquele que, tal como Sócrates, não tem medo de por em questão o Mestre, na esperança de fazê-lo produzir um saber do qual uma terceira orelha saberá tirar proveito. Não é exatamente o que vocês estão esperando de mim? Não hesito mais, então. Minha escolha está feita: vou reabrir meu velho Avesso da Psicanálise e questionar Lacan para vocês, desde a posição histérica.
No momento em que redijo essas linhas, ignoro evidentemente quais novas surpresas me reservará essa releitura. Uma coisa é certa: boas ou más, surpresas não faltarão. Além disso, para quem ainda acredita hoje no inconsciente, até as más surpresas sempre têm algo de bom. Por que diabo, então, eu teria medo?
Fica só entre nós, é claro. Em qualquer outro lugar, todo mundo exclamaria que estou assumindo um risco enorme, que eu deveria tremer de medo, tomar mil precauções, reler ao menos Jonas antes de reabrir Lacan. Vocês não. No temor e no tremor em que afundam seus contemporâneos, vocês fazem figura de exceção. Por mais que lhes citem Hobbes, para quem o medo está no fundamento de todo laço social, seu homo homini lupus os faz sorrir. “Basta de medo!” tal é o slogan de vocês, assinado Jorge Forbes.
Eu o deixo assumir corajosamente a responsabilidade. De minha parte, vou me contentar em lhes lembrar o conto de Grimm, que talvez vocês tenham lido na infância.
Era uma vez um menino que não conhecia o medo. Ora, ele desejava muitíssimo saber o que era ter medo. Seu pai, depois o padre, as pessoas caridosas que encontrava, e até mesmo o rei de seu país, bem que tentaram lhe ensinar. Infelizmente, todas as suas tentativas, até as mais terrificantes, se mostraram vãs. Até o dia em que sua jovem esposa (pois nem medo de casar ele tivera) lhe reservou a mais imprevista das surpresas...
Qual? Não adivinharam? Azar de vocês. Agora, vamos ao trabalho!
Alain Grosrichard

Mais informações:
Rua Augusta, 2.366 - Casa 2
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11 3081.6346 / 3061.0947

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19 de fevereiro de 2010

Porque os homens se vestem de mulher no carnaval?

Todo ano, desde criança, assistia passar um tradicional Bloco das Piranhas da varanda do apartamento da minha avó. Lembro de sempre ter achado divertido aqueles homens que tentavam ser mais mulheres que as próprias mulheres, com trejeitos exagerados, brincando de ofender as mulheres de verdade e se oferecendo para todo e qualquer (outro) homem que passasse.
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Li na Época e gostei dos pontos abordados pela jornalista Ruth de Aquino...
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Eles são héteros, muito machos, mas no Carnaval soltam a franga. Essa expressão significa “desinibir-se, geralmente assumindo um lado feminino, alegre”. Não é novidade, e acontece no Brasil inteiro. Eles não se fantasiam de mulher discreta. Precisa ser vulgar e desejável. Salto alto, seios pontudos, maquiagem pesada, decotes... e rebolation. No Bloco das Piranhas ou no Bloco das Virgens, nosso vizinho circunspecto fica irreconhecível até a Quarta-Feira de Cinzas. É tão divertido assim ser mulher?
Não existem blocos de mulheres fantasiadas de homens. Se a mulher quiser se desreprimir, a última fantasia será a de homem. “Mulher já pode se vestir de homem no dia a dia, usar calça comprida, camisa social, mocassim...e ninguém põe em dúvida sua sexualidade. Já o homem...”, diz o psiquiatra Luiz Alberto Py. “Quando Gilberto Gil e Caetano Veloso apareceram de pareô, a reação foi supernegativa. Em 1956, um artista plástico, Flávio de Carvalho, fez um desfile com homem de saia no Viaduto do Chá, em São Paulo, e foi vaiadíssimo.”
Minissaia, vestido de alcinha, frente única, tomara que caia, sandália, shortinho. É tudo ótimo no calor. Mulher tem um enorme leque de variações no vestuário. Homem é mais conservador. As novidades na roupa masculina desde os anos 60 foram a bermuda, a bata e a camiseta regata. Mesmo assim... Vários lugares noturnos e restaurantes admitem mulher de sandália, mas homem não. Mulher de short sim, mas homem de bermuda não.
Mas a roupa é só o visível. A fantasia de piranha desnuda outras fantasias. “O Carnaval é um rito profano e sagrado. O homem se veste de mulher porque quer ser mais afetivo de maneira escancarada, sair beijando todos, de qualquer sexo. Homem afetivo, nos outros dias do ano, é coisa de gay”, afirma o psicoterapeuta Sócrates Nolasco. “É um contraponto. Um momento do ano em que ele não precisa afirmar sua masculinidade. Mulher pode ser afetiva, carinhosa, extrovertida, dada, e nem por isso será tachada de ‘piranha’.”
Não se duvida de que uma mulher seja mulher. Ela pode até ter relações amorosas ou conjugais com outra. Continua sendo mulher, caso não imite machos. Ela pode beijar amigos e amigas, abraçar, fazer carinho publicamente. Isso não fará dela “piranha” ou lésbica. A mulher pode, no trabalho, assumir atitudes estereotipadas masculinas – isso não fará dela um homem. O inverso é mais complicado.
É como se esses homens que se equilibram com pernas cabeludas sobre saltos altíssimos aproveitassem o Carnaval para exorcizar sua dificuldade de mostrar afeto ou fragilidade no dia a dia. Tudo é permitido porque é fingimento. No filme Se eu fosse você, em que Tony Ramos e Gloria Pires trocam de alma e papéis, as plateias o acham muito mais engraçado que ela. Porque Tony Ramos não se comporta exatamente como a sua mulher no filme. “A compulsão por futilidades e os trejeitos exagerados lembram mais o comportamento de um gay afeminado”, diz Nolasco. Para virar homem, Gloria Pires fala grosso, não abaixa a tampa do vaso e faz embaixadinhas – ela muda bem menos.
Os homens que se fantasiam de mulher para zoar à vontade fazem do Carnaval uma catarse de seus fetiches. Claro que só saem em bando. Coisa de macho mesmo. Porque sair sozinho vestido de mulher pode dar origem a outras interpretações.
“Todos, homens e mulheres, temos um lado homossexual”, diz Py. “A sexualidade é uma limitação brutal. A percepção de que a gente pertence a um sexo significa não pertencer ao outro, o que de certa forma nos rouba uma parte da humanidade. A mulher tem uma versatilidade comportamental muito maior. O homem não pode nem fazer carinho em outro homem. O Carnaval é a transgressão inocente, o liberou geral para desfrutar seu lado feminino sem perigo.”
Simpatizo com esses bandos de homens fantasiados de mulheres fálicas em tantos blocos espalhados pelo Brasil. Por um instante, eu me lembro de Freud. O pai da psicanálise dizia que a mulher sentia inveja do pênis. Não seria o contrário?

10 de fevereiro de 2010

Amigos Imaginários


Uma em cada três crianças nutre temporariamente uma relação existente apenas na fantasia – o que não é motivo para preocupação. O curioso é que também adolescentes e adultos, em especial idosos, usam esse recurso para superar fases difíceis

Vivemos tempos em que conversar com gente que nunca vemos não é nada incomum: perambulamos por chats, blogs e twitter e trocamos informações e segredos com pessoas com quem mantemos relacionamentos virtuais, às vezes bastante íntimos. Mas e quando uma criança “cria” um amigo imaginário – brinca, fala e até mora com ele, como se fosse real? Esse fenômeno, que surge principalmente entre 3 e 7 anos, não é tão raro. Quando pais e educadores percebem a existência desses companheiros invisíveis quase sempre ficam preocupados. Uma mãe escreve em um fórum on-line: “Nosso filho de 5 anos tem falado há três dias de ‘sua amiga Pia’. Ela só existe em sua imaginação, mas parece ser absolutamente real para ele. Ele se comporta como se pudesse vê-la! Nós não tivemos esse tipo de experiência com sua irmã três anos mais velha. A amizade com ‘Pia’ parece fazer bem ao nosso filho, mas nós nos preocupamos mesmo assim. Será que devemos deixá-lo com sua fantasia ou tentar convencê-lo a abandoná-la?”.

Mas os pais podem respirar aliviados, pois todos os estudos sobre esse fenômeno chegam ao mesmo resultado: não há motivo para preocupações! Os amiguinhos imaginários têm sido estudados de forma intensiva há muito tempo, nos últimos 100 anos, mas poucos psicólogos se dedicaram a esse tema. E há um ponto em comum: todos concordam que os amigos imaginários estimulam o desenvolvimento das crianças, podem suprir eventuais lacunas afetivas e ajudam na elaboração de questões psíquicas.

Para os mais novos, o amigo “de mentirinha” é quase sempre um companheiro de brincadeiras que pode estar “presente” também à mesa na hora das refeições, ser chamado pelo nome, mas não raramente acompanha a criança durante todo o dia. Alguns pesquisadores afirmam que praticamente todos nós temos um parceiro imaginário em um determinado estágio do desenvolvimento – porém, ele quase nunca é descoberto pelos adultos e a própria pessoa normalmente não se lembra disso mais tarde.

Os acompanhantes invisíveis são frequentemente crianças da mesma idade de seus criadores – como, por exemplo, Sebastian Nigge, o amigo imaginário de Madita, personagem do livro de mesmo nome, de Astrid Lindgren. Podem ser também animais, magos ou super-heróis. Alguns cabem no bolso e podem ser levados para todo lugar – como o canguru invisível Pantouffle no filme de Hollywood, Chocolate, de 2000, dirigido por Lasse Hallström.


Veja o artigo completo na Mente&Cérebro.

4 de fevereiro de 2010

ATENÇÃO PSICOSSOCIAL NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA.

Estão abertas as inscrições para a seleção de candidatos para o Curso de Especialização do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPUB/UFRJ), ATENÇÃO PSICOSSOCIAL NA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA.

Este curso, com duração de dois (2) anos, está vinculado à Divisão de Ensino do IPUB e será realizado através da parceria entre o Núcleo de Pesquisa em Políticas Públicas de Saúde Mental do IPUB/UFRJ (Nuppsam) e o Centro de Atenção e Reabilitação para a Infância e Mocidade (CARIM/IPUB/UFRJ). O principal objetivo é a formação de profissionais para a rede pública de saúde mental dirigida às crianças e adolescentes, com foco no trabalho em dispositivo de atenção diária e intensiva. O curso contará com módulos teóricos e práticos, sessão clínica e supervisão regulares.

As inscrições serão feitas no período de 18 de janeiro a 26 de fevereiro de 2010, das 9h às 13h, na Secretaria Acadêmica do IPUB, conforme Edital em anexo.

Para maiores informações: www.ipub.ufrj.br

Os interessados poderão acessar o site do Nuppsam (www.nuppsam.org) onde estão disponíveis alguns dos textos da bibliografia indicada no Edital.