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9 de janeiro de 2013

Colóquio Internacional da UFRJ e Escola Doutoral da Universidade Paris VII.



Coordenaçao: Joel Birman e Christian Hoffmann

Data: dias 23, 24 e 25 de maio de 2013.

Local: Universidade Federal do Rio de Janeiro – Auditório Pedro Calmon

Avenida Pasteur 250, Fundos, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

Línguas oficias: português e francês (haverá tradução simultânea)

Argumento:
A contemporaneidade, no que concerne ao registro do sujeito, tem se caracterizado pela emergência e disseminação de modalidades inéditas de subjetividades, nas quais se revela uma ruptura significativa com os padrões subjetivos anteriormente existentes. Essa mutação indica que, antes de se conceber o conceito de sujeito como uma referência universal e inequívoca, cabe se tomar uma direção oposta, dando destaque aos processos de subjetivação, o que se desdobra em apontar a importância decisiva que as dimensões histórica, social, política, ética e estética assumem na construção do sujeito.

O contraponto deste remanejamento complexo na cultura atual é a produção de experiências corporais que se ordenam em diversas e diferentes montagens, indicando igualmente uma descontinuidade com as formações corporais antes estabelecidas. Das cirurgias estéticas, passando pelos piercings e tatuagens, até as manipulações irreversíveis do somático, o espaço corpóreo se transformou em cenário estratégico e privilegiado para o engendramento das singularidades. Ao lado disso, as expansões e retrações da experiência corporal se instituem de maneira regular pela utilização de drogas, lícitas ou ilícitas.

Neste contexto, a psicanálise é confrontada com novos desafios, tanto nas descrições de tais montagens, quanto em suas formas de intervenção. Impõe-se, portanto, na atualidade, um outro delineamento da experiência clínica.


Programação:
Dia 23 de maio de 2013, quinta-feira:
Abertura – 14h – 14:30h
14:30h às 16:30h – Mesa-Redonda 
16:30h às 18:30h – Mesa-Redonda 

Dia 24 de maio de 2013, sexta-feira:
Das 9:30h às 18h: Mesas-redondas

Dia 25 de maio de 2013, sábado:
9:30h às 11h – Mesa-redonda 
11h às 12:30h – Mesa-Redonda
12:30h às 14h – Pausa para o almoço
14h às 17h: 4 mesas-redondas simultâneas com os doutorandos. 
17h às 17:30h – Coffee-break
17:30 às 18:30: Mesa de Encerramento do Colóquio

As propostas de comunicação deverão ser enviadas até o dia 31 de dezembro de 2012 para teoriapsi@psicologia.ufrj.br

4 de janeiro de 2013

Ano novo e novas atividades!



Ainda em janeiro começa o Grupo de Estudos Novas formas de mal-estar: a psicanálise na atualidade que tem o objetivo de articular a teoria psicanalítica e a prática clínica na atualidade,  investigando os efeitos do contemporâneo na subjetividade e sintomatologia atual a partir da leitura de textos freudianos clássicos, apoiados por autores contemporâneos.

Encontro inaugural gratuito16/01 - quarta-feira.




29 de novembro de 2012

Jornada de Psicanálise em Recife


Programação:

30/11 - sexta-feira

SALA A

14:00 – Abertura
14:30 – Sílvia Ferreira – Aproximações entre manhês e lalangue 
15:00 – Luiza Bradley – A clínica da criança
15:30 – Adriana Chaves – Análise Terminável e Interminável 
16:00 – Intervalo
16:30 – Mirella Dantas – Criação Feminina
17:00 – Mônica Parreiras – QUERER nem sempre é PODER! Carência Materna → Avareza Paterna
17:30 – Irene Paiva Melo – O mito do Pai
18:00 – Edigleisson Alcântara – O “inalterado” e a alteridade na constituição psíquica de bebês gêmeos

SALA B
14:00 – Abertura
14:30 – André Resende – Psicanálise e Literatura. Ou: como vês eu não me esqueci
15:00 – Dayse Costa – A Invenção da Histérica
15:30 – Isaura França 
16:00 – Intervalo
16:30 – Gertrudes Pastl Montarroyos – Culpa e Angústia
17:00 – Jerzuí Tomaz e Mírian Maranhão – Marcas do humano em A vida como ela é
17:30 – João Villacorta – Se atravessei o fantasma eu não sei, mas que eu vi, eu vi!
18:00 – Rossany Cavalcante – Aproximações para uma História da Psicanálise com Criação em Maceió

01/12 – sábado

SALA A
09:00- Benes Alencar Sales – O Mito e a Psicanálise 
09:30 – Luciane Batista – Procura-se um menino
10:00 – Maria Teodora de Barros Oliveira – Anotações sobre a melancolia 
10:30 – Intervalo11:00 – Mírian Maranhão – O corpo feminino e sua função de fetiche
11:30 – Sônia Coelho – A Angústia em Graciliano Ramos: entre ratos e sururus
12:00 – Mariel Rocha Pereira de Lyra – A escuta do discurso materno diante do desamparo na amamentação do bebê

14:00 – Luiz Carlos de Siqueira Bezerra – Aproximações entre o Outro lacaniano e o outro hegeliano
14:30 – Carlos Santos – Uma Hélade Freudiana
15:00 – Jacques Laberge – Chiste (witz – wit – vite)
15:30 – Rachel Rangel – Vamos falar de Paulinho?
16:00 – Intervalo
16:30 – Pedro Gabriel Bezerra da Fonseca – Alea Jacta Est: a lógica no Ato Psicanalítico
17:00 – Carlos Domingues – Sobre um certo temor sexual masculino
17:30 – Lia da Fonte – Os desatinos do supereu
18:00 – Suzana Cannizarro – Dora, histeria e feminilidade

SALA B
09:00 – Daniely Siqueira - Pulsão Invocante, Constituição Subjetiva e Supereu 
09:30 – Antônio José Bezerra dos Santos – Toxocomania por via oral e algumas observações da Psicanálise
10:00 – Ana Lúcia Falcão – O feminino em Lacan
10:30 – Intervalo
11:00 – Alduísio Moreira de Souza – Para não dizer que não falei de flores – o tempo de florescimento de um ato
11:30 – Roberta Cristina Rodrigues Aymar – “De líquidos que pingam das mesas de mármore da Morgue”.
12:00 - Alyne Barbosa, Daniela Charamba, Joana Bandeira de Melo e Thyeri Bione – Pulsão: reflexões sobre Freud e Lacan

14:00 – Francisco Rafael Barbosa Caselli – Incidências da reprodução assistida no imaginário da procriação 
14:30 – Juliana Falcão Barbosa – Reprodução assistida e ultrapassagem dos limites: considerações a partir do filme Minhas mães e meu pai
15:00 – Charles Elias Lang – Reflexões sobre a paternidade em Minhas mães e meu pai
15:30 – Ana Beatriz 
16:00 – Intervalo
16:30 – Eliane Bryon – Passando pelo chiste: Freud e o humor na análise
17:00 – João Camilo de Melo - "O fazer inútil da melancolia e o seu interminável fuso".
17:30 – Luciana de Andrade – “A aposta de um sujeito dito autista”
18:00 – Natália Laporte – “O olho que não olha: sobre a não instauração do eu no autismo”

27 de novembro de 2012

Grupo de estudos para 2013 - Novas formas de mal-estar: a Psicanálise na atualidade.








As novas formas de mal-estar - anorexias, bulimias, síndromes do pânico, toxicomanias, depressões, entre outros - desafiam a prática clínica psicanalítica com uma organização sintomática cheia de especificidades

A agressividade do próprio sintoma que se evidencia na deterioração e mortificação do corpo e uma defasagem simbólica que aparece na clínica como uma extrema dificuldade de dizer sobre o que se sente, apresentam um terreno árido para o analista trabalhar.

Com o objetivo de articular a teoria psicanalítica e a prática clínica na atualidade, o grupo pretende estudar os efeitos do contemporâneo na subjetividade e sintomatologia atual a partir da leitura de textos freudianos clássicos, apoiados por autores contemporâneos como Nieves Soria Dafunchio, Massimo Recalcati, Fabian Schetjman, Claudio Godoy e outros.







23 de novembro de 2012

Documentário: Muito Além do Peso


Muito se fala sobre o aumento da obesidade infantil e as consequências do excesso de peso na vida adulta. 
Mas pouco se fala da responsabilidade dos pais, da baixa qualidade dos alimentos oferecidos em casa e na escola, da falta de informação das crianças e principalmente dos hábitos nada saudáveis que são, despreocupadamente e inconsequentemente, passados para as crianças no dia a dia.


Este documentário discute a alimentação infantil, para além das questões do peso, mostrando que o ponteiro da balança que indica o ganho de peso é apenas a ponta do ice berg de um problema muito maior.
Dirigido pela paulistana Estela Renner, a fita percorre o Brasil do Rio Grande do Sul ao Pará, das metrópoles às áreas rurais com um propósito: mostrar como a garotada se alimenta mal e só quer saber de comida industrializada. Muito elucidativo, o filme traz ainda depoimentos de pediatras e endocrinologistas e declarações inusitadas dos pequenos entrevistados. 

25 de outubro de 2012

Da geração Coca-Cola à geração Ritalina...

Ótima matéria na Revista Trip sobre o diagnóstico de TDAH. O artigo questiona o tratamento, a causa, a utilização do transtorno como justificativa de baixo desempenho escolar e sobretudo, da impossibilidade dos pais lidarem com seus filhos.

GERAÇÃO RITALINA

Falta de atenção e foco virou doença. O nome? Transtorno de déficit de atenção com hiperatividade. A suposta solução? O remédio tarja preta, do qual o Brasil é o segundo maior consumidor do mundo. Psiquiatras culpam o cérebro; outros, a sociedade. Nosso repórter ouviu os dois lados e passou uma semana sob o efeito da “droga da obediência”



“Bom, é o seguinte: você tem sinais de déficit de atenção e de ansiedade. Vou te prescrever um medicamento”, sentenciou o psiquiatra. O gravador escondido no bolso marcava exatos 23 min de consulta – tempo suficiente para ele me diagnosticar com TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade) e escorregar pela mesa uma receita para três caixas de Ritalina. Não precisei mentir nem exagerar nada. Em resumo, relatei que vez ou outra tenho dificuldade para me concentrar em coisas que não me interessam, que prazos podem ser um problema e que faz tempo que não leio um livro até o fim. O que foi? Se identificou com alguma coisa?
Não se preocupe. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS) e a Associação Americana de Psiquiatria, cerca de 4% dos adultos e de 5% a 8 % de crianças e adolescentes de todo o mundo sofrem de TDAH, “uma síndrome caracterizada por desatenção, hiperatividade e impulsividade”, atigamente chamada apenas de DDA (déficit de atenção). Em uma sala de aula com 40 crianças, por exemplo, estima-se que pelo menos dois sejam portadores. E cada vez mais o destino delas é o mesmo que o meu: o consultório de um psiquiatra.
Grande parte da psiquiatria vê o TDAH como uma doença neurobiológica, causada por um desequilíbrio químico no cérebro, tal qual a depressão. O diagnóstico é feito a partir de entrevistas, isto é, não há exames que detectem a doença. Seus “defensores”, por assim dizer, afirmam existir mais de 10 mil estudos relatando seus sintomas, os primeiros datando dos anos 1700.
Todavia, isso são hipóteses, teorias. Muitos profissionais, especialmente de outros ramos da medicina, questionam a causa, o diagnóstico, o tratamento com remédios e a utilização do transtorno como justificativa para desempenhos fracos na escola. Alguns, mais radicais, duvidam até da própria existência do TDAH.
Muitos profissionais questionam a causa, o diagnóstico, o tratamento com remédios e a utilização do transtorno como justificativa para desempenhos fracos na escola
Mesmo assim, resolvi seguir as recomendações do meu médico. Durante uma semana, vivi sob o efeito do remédio tarja preta (leia o diário no fim do texto), apelidado por seus críticos de “droga da obediência”. Nem a Novartis, laboratório fabricante, nem a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (anvisa) revelam os números de vendas. Mas previsões do Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos (Idum) dizem que, em tese, nos últimos 11 anos, elas galoparam cerca de 3.200%. O número coloca o Brasil como o segundo maior consumidor de Ritalina do mundo, perdendo apenas para os Estados Unidos.
A pesquisa não contempla o mercado negro, que, ao que parece, é bem movimentado. Bastou meia hora no Google para encontrar diversos anúncios de gente oferecendo o remédio “off label” (sem receita). Por telefone, acordei de encontrar um vendedor em uma estação de metrô na manhã do dia seguinte. Chegando lá, um motoboy me entregou em mãos um envelope pardo e pediu que eu conferisse o conteúdo: Ritalina 10 mg, 20 comprimidos, lacrada e dentro da validade. Valor: R$ 80. Nas farmácias, sai em média por um quarto do preço. Relativamente barata, fácil de conseguir e teoricamente segura, a “Rita” vem sendo usada também por estudantes e baladeiros que querem bombar a energia e espantar o sono. A moda teria surgido em clubs e colleges norte-americanos.
O efeito de cada drágea de cloridrato de metilfenidato, nome verdadeiro da Ritalina, dura em média quatro horas. Assim como outras “inas” – a cocaína, a cafeína e as anfetaminas –, ela é considerada um psicoestimulante. Seu mecanismo de ação ainda não foi completamente elucidado. Mas acredita-se que ela aumenta a produção e o reaproveitamento da dopamina e da noradrenalina, neurotransmissores associados às sensações de prazer, excitação e ao estado de alerta do sistema nervoso. A bula alerta para a dependência física ou psíquica, além de elencar uma série de reações adversas como nervosismo, dificuldade em adormecer, diminuição no apetite, dor de cabeça, palpitações, boca seca e alterações cutâneas.
No FDA, órgão governamental dos Estados Unidos responsável por controlar alimentos e medicamentos, há 186 registros de óbito citando o uso prolongado do metilfenidato. Um dos nomes é o do jovem Matthew Smith – falecido aos 14 anos, metade deles fazendo uso da substância. Seus pais fundaram o Ritalindeath.com com a missão de “prover informações sobre a verdade oculta do TDAH e das drogas usadas em seu tratamento”.

Laboratórios é que bancam

O site da Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA) é o primeiro que aparece quando se faz uma busca virtual sobre TDAH. Nele há o cadastro de médicos do país todo especialistas no assunto, onde encontrei o contato do psiquiatra que me atendeu. A associação, fundada pelo doutor Paulo Mattos e um paciente em 1999, também realiza eventos para divulgar a causa e oferece cursos de treinamento para professores.
A entidade é patrocinada pelos laboratórios que fabricam, segundo o site, “os remédios de primeira linha para o tratamento de TDAH”. São eles: Novartis, produtora da Ritalina e da Ritalina LA (mesma substância, mas com dosagens mais altas); Janssen Cilag, do sugestivo Concerta; e Shire, do recém-lançado Vevanse. “Ninguém recebe salário, exceto a secretária. Por isso precisamos de incentivos privados. Não há conflito de interesse, desde que, claro, você apresente a situação para as outras pessoas”, explica o doutor Paulo Mattos.
No ano passado, a Novartis e a ABDA promoveram em parceria o concurso “Atenção Professor”, com o objetivo de “ajudar os educadores a conhecer e lidar melhor com o TDAH”. Ganhavam as três escolas que apresentassem as melhores propostas de inclusão de portadores na sala de aula. Como prêmio, R$ 7 mil em dinheiro e uma garrafa de champanhe. Recentemente, um projeto de lei institucionalizando o diagnóstico e o tratamento de TDAH nas escolas foi aprovado no Senado, restando apenas três comissões para que a aprovação se repita na câmara dos deputados.
“Nenhum medicamento no mundo daria conta da complexidade que é o processo de atenção e aprendizado de uma criança”

“Ciência não se discute”

A psicóloga Iane Kestelman, atual presidente da ABDA, descobriu a organização quando seu filho, “sumariamente reprovado em todas as matérias na escola”, foi diagnosticado com o transtorno. “Nossa vida mudou, e para melhor. Meu filho iniciou o tratamento e passou na melhor faculdade de economia do país. Ele toma remédio há 12 anos e não virou nenhum robô, como dizem por aí”, ela conta, a voz embargada do outro lado do telefone. Orgulhosa do caso de sucesso na família, ela relativiza a epidemia do TDAH e o boom nas vendas da Ritalina: “É um bom sinal. Significa que estamos cumprindo nosso papel, que mais gente está conhecendo a doença e o tratamento adequado”.
De acordo com uma pesquisa recente realizada por USP, Unicamp e Albert Einstein College of Medicine quase 75% dos jovens brasileiros que utilizam Ritalina ou similares não foram diagnosticados corretamente. Iane e doutor Paulo Mattos, porém, furtam-se a discutir uma possível fragilidade e/ou subjetividade no diagnóstico da doença. “Achamos isso ofensivo, inclusive. Ciência não se discute. Ela não está preocupada se você concorda com ela ou não”, diz a psicóloga. “Isso é um pseudodebate. Quem duvida da existência do TDAH nunca publicou nenhum artigo sobre o assunto, não tem qualificação. Você não vai chamar um pajé para discutir com um neurocientista”, engrossa o coro seu colega.
“TDAH não existe”

Marilene Proença não é um pajé. É psicóloga, integrante do Instituto de Psicologia da USP, e opõe-se à razão de ser da ABDA. “TDAH não existe. O que existe são crianças diferentes, com formas de aprender diferentes. Algumas são mais focadas, outras mais dispersas. Não existe um padrão de aprendizado”, ela postula. Para Marilene, a solução não cabe em um comprimido branco de pouco mais de 1 cm de diâmetro: “Nenhum medicamento no mundo daria conta da complexidade que é o processo de atenção e aprendizado de uma criança. Ele envolve afetividade, desejo, representações que a criança cria”.
Para os pais aflitos, que não sabem o que fazer com seu filhos travessos, ela acena um caminho, antes que eles decidam passar a bola para um psiquiatra: “A primeira coisa é ouvir a sua criança. O que ela tem a dizer sobre a escola? Os amigos a tratam bem? O professor escuta ela? Mudar para uma escola que entenda melhor a criança também deve ser levado em consideração”.
O problema não estaria na cabeça das pessoas, mas na sociedade. É o que acredita Maria Aparecida Moyses, pediatra e professora da Unicamp: “Se tem tanta gente deprimida ou desatenta, temos que entender que elas estão sendo produzidas pelo modo que a gente vive. Nunca se tomou tanto remédio e nunca houve tantas pessoas doentes. Isso não pode estar certo. O que eles fazem é uma biologia de um corpo morto, de um cérebro sem vida, sem afeto, isolado do meio em que vive”.
Atendendo em um centro de saúde público em Campinas, ela diz já ter presenciado casos de jovens viciados no metilfenidato, que clamavam pela sua dose diária durante as férias, quando normalmente a posologia é suspendida. Pergunto então se ela daria Ritalina para um filho seu. “Sou contra”, ela retruca. “Ficar parado é, na verdade, uma reação adversa dos estimulantes. Focar atenção é sinal de toxicidade, não é efeito terapêutico.” Mas então o que você daria para ele? “Ritalina nem pensar. Daria... Rita Lee.”

Doente, eu?

Pela primeira vez na vida, nosso repórter visitou um psiquiatra. A razão: averiguar o surto nos diagnósticos de TDAH. Para sua surpresa, deixou o consultório com uma receita para três caixas de Ritalina 10 mg. Na dúvida, resolveu acatar o doutor – mesmo que apenas por uma semana
Quarta-feiraTomo o primeiro comprimido às 10h30. Meia hora depois, sinto um anestesiamento sutil, como se uma película me separasse do entorno. Enquanto preparo a quentinha que levarei para almoçar, meu pai fala sobre uma passeata pró-Amazônia. Tenho que parar mais de uma vez para entendê-lo, como se não conseguisse fazer duas coisas ao mesmo tempo. Sinto uma pressão na cabeça. Assim que ponho os pés na rua, percebo que esqueci a quentinha. A caminhada do ponto de ônibus até a redação, coisa de 5 min, me dá uma sede surreal. Ninguém nota nada de diferente em mim.
Quinta-feiraAcordei várias vezes durante a noite, algo incomum para mim. Sonhei que estava na escola e que entregava uma prova de matemática em branco. Desperto com uma espinha na testa e uma enxaqueca fortíssima, que dura até a hora em que tomo o comprimido do dia. Não percebo nenhum upgrade na atenção, mas meus editores se espantam quando entrego um texto de duas páginas ainda no meio do dia – nenhum recorde, mas sem dúvida um episódio inédito na minha carreira. Relendo- o, porém, não gosto tanto do resultado. Não lembro da última vez que bocejei, mesmo sem tomar um gole de café há dois dias.
Sexta-feira
Hoje o negócio bateu de verdade. Sinto o maxilar travado. Estou ansioso. E a pressão na cabeça voltou. Tomar banho, esperar o elevador, pegar o ônibus e demais atos corriqueiros parecem mais enfadonhos que o normal. Estranhamente, fico doido para chegar à redação e trabalhar. Meu chefe diz que estou com uma cara estranha. De fato sinto os músculos da face meio paralisados, as expressões limitadas. Fico abespinhado sempre que algo ou alguém me interrompe. Sinto-me mais concentrado, mas percebo que só consigo focar uma coisa por vez.
Sábado e domingoComo o doutor disse que o medicamento só deveria ser ingerido quando a atenção fosse exigida e que ele não combina muito com os prazeres mundanos da vida, resolvo suspender o uso pelos dois dias.
Segunda-feiraEstou introspectivo. Sinto os mesmos efeitos colaterais de antes – pressão na cabeça, ansiedade, irritação –, porém mais fortes e acompanhados de uma sudorese nas mãos. O pensamento embaralhou, passo o dia todo escrevendo e deletando na mesma proporção. No fim do expediente, um saldo mísero de um parágrafo. Não sinto fome na hora do almoço – outro episódio inédito. Me forço a comer uma torta de frango, que deixo pela metade. Fico preocupado.
Terça-feiraPor conta do rendimento pífio de ontem, estou atrasado para escrever esta matéria. Dado o revertério do dia anterior, decido não arriscar e ficar clean por hoje. Doeu, mas consegui parir o texto. Concluo que, no meu caso, nada melhor do que um prazo e um editor à espreita para acertar o foco e fazer o que deve ser feito.

18 de outubro de 2012

II Simpósio de Psicanálise da USS


Nos dias 9 e 10 de novembro vai acontecer o II Simpósio de Psicanálise da USS, em Vassouras.
Vou dar uma conferência no dia 10 sobre Anorexia e a pesquisa que venho conduzindo no Mestrado na UERJAgradeço a profª. Fernanda Samico, organizadora do evento, pelo convite.