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22 de janeiro de 2010

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Anna Wintour, da Vogue America, concorda com a SPFW que é preciso tomar medidas para se discutir a questão da saúde (magreza) das modelos

http://twitter.com/RevistaEpoca

Um assunto que insiste...

Dois artigos da Folha de São Paulo falam sobre a magreza das meninas/modelos no SPFW:

Moda tem que parar de sacrificar modelos

Chegou a um nível irresponsável e escandaloso a magreza das modelos nas semanas brasileiras de moda. As garotas, muitas delas recém-chegadas à adolescência, exibem verdadeiros gravetos como pernas e, no lugar dos braços, carregam espécies de varetas desconjuntadas. De tão desencarnadas e enfraquecidas, algumas chegam a se locomover com dificuldade quando têm que erguer na passarela os sapatos pesados de certas coleções.

Usualmente consideradas arquétipos de beleza, essas modelos já estão se acercando de um estado físico limítrofe, em que a feiura mal se distingue da doença.
Essa situação tem o conluio de todo o meio da moda, que faz vista grossa da situação, mesmo sabendo das crueldades que são impostas às meninas e das torturas que elas infligem a si mesmas para permanecerem desta maneira: um amontoado de ossos, com cabelos lisos e olhos azuis.

Uma rede de hipocrisia se espalhou há anos na moda, girando viciosamente, sem parar: os agentes de modelos dizem que os estilistas preferem as moças mais magras, ao passo que os estilistas justificam que as agências só dispõem de meninas esqueléticas. Em uníssono, afirmam que eles estão apenas seguindo os parâmetros de beleza determinados pelo “mercado” internacional -indo todos se deitar, aliviados e sem culpa, com os dividendos debaixo do travesseiro.

Alguns, mais sinceros, dizem que não querem “gordas”, com isso se referindo àquelas que vestem nº 36. Outros explicitam ainda mais claramente o que pensam dessas modelos: afirmam que elas não passam de “cabides de roupas”. Enquanto isso, as garotas emagrecem mais um pouco, mais ainda, submetidas também a uma pressão psicológica descomunal para manterem, em pleno desenvolvimento juvenil, as características de um cabide.

Um emaranhado de ignorâncias, covardias e mentiras vai sendo, assim, tecido pelo meio da moda, inclusive pelos estilistas mais esclarecidos, que não pesam as consequências do drama (alheio) no momento em que exibem, narcisicamente, suas criações nas passarelas. Para uma semana de moda, que postula um lugar forte na sociedade brasileira, é um disparate e uma afronta que ela exiba a decrepitude física como modelo a milhões de adolescentes do país.

Para a moda como um todo, que vive do sonho de embelezar a existência, a forma como os agentes e os estilistas lidam com essas moças é não apenas cruel, mas uma blasfêmia. Eles, de fato, não estão afirmando a grandeza da vida, mas propagando a fraqueza e a moléstia. O filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu que as modelos são “as vítimas sacrificiais de um deus sem rosto”. É hora de interromper esse ritual sinistro. É hora de parar com essas mistificações da moda, que prega futuros ecológicos, convivências fraternais e fantasias de glamour, enquanto exibe nas passarelas verdadeiros flagelos humanos.


modelo desfilando no SPFW 2010

Hipermagreza domina passarelas da SPFW

“Gente, o que é isso, essa menina está doente?” A frase, de um fashionista sentado na primeira fila de um desfile da SPFW, ilustra um espanto recorrente na atual edição do evento: as modelos estão mais magras do que nunca. Prova disso é que estilistas estão tendo dificuldades em montar seus “castings”, fazem ajustes de última hora e escolhem peças estratégicas que escondam os ossos saltados das modelos.

Na SPFW da magreza radical brilham modelos na faixa dos 18 anos, que têm índice de massa corporal, calculado pela Folha, igual ao de crianças de 9 anos. No mundo dos adultos, a Organização Mundial da Saúde chama esse índice de “magreza severa”.

A explicação vem da top Aline Weber, 21, que mora em Nova York e participou do filme “Direito de Amar”, de Tom Ford. “Três coleções atrás, no auge do pânico antianorexia, as pessoas pesavam as modelos no backstage para ver se elas estavam saudáveis. Agora, a poeira baixou. Se você engorda um pouco, todo mundo está ali pra te julgar. Se você emagrece, falam que você está linda.” Aline diz conhecer muitas meninas bulímicas e anoréxicas fora do Brasil. “As russas são as piores”, conta.

O stylist David Pollak identifica o padrão supermagro europeu como uma das causas da onda que atinge a atual edição da SPFW. “Muitas meninas estão trabalhando fora e por isso estão supermagras. Estão dentro do padrão de Paris, que é esquelético.”

A magreza radical fez com que ele tivesse dificuldades na hora de montar o “casting” da Cavalera. “A marca tem uma imagem mais adolescente, saudável. Por isso, peguei meninas que não são badaladas [leia-se, as que ainda não têm carreira internacional]. Outros stylists tiveram de fazer o improvável: dispensar meninas de suas seleções porque elas estavam magras demais.
A onda tem feito eles inverterem uma antiga lógica da moda: ao invés de avaliarem roupas ideais para esconder, por exemplo, um quadril mais largo, têm de descobrir os looks que vão ocultar um corpo esquálido. “As meninas muito magras causam problemas. Seus ossos apontam num vestido de seda mais fluido. Ou seus corpos, muito estreitos, deixam a proporção toda estranha”, avalia o stylist Maurício Ianês.

Muito café

O estilista Reinaldo Lourenço não só percebe a hipermagreza das modelos desta temporada como também conta que teve que fazer hora extra por conta do fenômeno. “Tive que fazer vários ajustes de última hora em roupas que ficaram largas nas meninas, o que me deu o maior trabalho”, diz. Segundo ele, isso acontece porque a atual safra de modelos é “muito jovem”.
Nos camarins, longe da mesa de salgadinhos e quitutes -relegada aos jornalistas-, modelos desfilam com copos de café. “Identifico as mais magras como a turma do cafezinho, já que elas passam o dia todo tomando café para não comer e ficarem ligadas”, diz Pollak. Em entrevistas, elas escondem o peso e as medidas. “Não sei quanto peso. Nunca subo na balança”, disfarça uma delas.

Cristina Theiss, 18, jovem aposta da Ford Models, teoriza: “Para fazer passarela de inverno, precisa ser mais magrinha mesmo, porque as roupas são volumosas, enchem demais”. Para agências de modelos, o assunto ainda é tabu. Ou foi deixado de lado. “Magreza? Anorexia? Mas que assunto antigo, datado!”, diz um agente, interrompendo a entrevista da Folha com uma modelo. Basta olhar para as passarelas para ver que não é.”

21 de janeiro de 2010

Geração Zapping

Geração Zapping: tá ligado?

Crianças e jovens estão descobrindo novas maneiras de entender o mundo e se relacionar com base em avanços tecnológicos e transformações culturais.

Televisão, telefone, fone de ouvido, computador, MP3, Orkut, Twitter, Facebook, MSN, SMS. A conexão é on-line e os estímulos vêm de toda parte. No monitor do laptop ou no visor do celular incontáveis telas são abertas, reduzidas e fechadas em segundos. Surge uma nova linguagem, na qual a grafia das palavras é adaptada, simplificada, e prevalecem abreviações. A informação chega descontextualizada e truncada, inaugurando um novo jeito de compreender o mundo – e se relacionar, na horizontalidade do conhecimento – e caracterizando a chamada geração zapping (expressão de origem inglesa que se refere ao ato de mudar constantemente de canal).

Surge assim um novo jeito de pensar, graças à síntese de vários dados coletados de forma imediata e simultânea. O zapping tipifica justamente essa relação intensa e aparentemente inesgotável. Fragmentados os corpos, a informação e as relações, os jovens ficam à mercê dos estímulos, sem tempo para a introspecção e assimilação do bombardeio de conteúdos. O apelo ao mundo externo é intenso e vem de todos os lados.

Enquanto para a maioria daqueles que já passaram dos 30 anos a simultaneidade (tudo ligado ao mesmo tempo) é vivida como estressante, adolescentes parecem não se incomodar nem um pouco em receber vários estímulos concomitantes. Não por acaso, a expressão “tá ligado?” é bastante usada por aqueles que não chegaram a conhecer o mundo antes do computador.

São visíveis sua rapidez e destreza em localizar e selecionar informações, bem como esta agilidade em zapear o mundo, coletando os mais diversos dados, nas diferentes fontes.

O som permanece ligado enquanto leem, telefonam, trocam mensagens pelo computador, assistem à televisão. E, para desespero de muitos pais, até quando estudam. Por mais difícil que seja para alguns adultos compreenderem, o fato é que os jovens estabelecem uma forma singular de vínculo com o exterior: suas referências são de curta duração também pela necessidade de se diferenciar da maioria. Assim, modismos e cultos a ídolos deixam de ser parte do ideário de uma geração e passam a ser apenas objetos de diversão pura e simples. A expressão ídolo de uma geração pode não fazer mais sentido. A ideia do ídolo como símbolo de uma forma de pensar e viver ou modelo de identificação parece mais ligada a décadas anteriores. Assim como outros aspectos do cotidiano, o entretenimento é descartável e, como tal, passa rápido.

O rapaz que nas férias passadas era surfista poderá adotar o visual emo no próximo fim de semana, alterando rapidamente seus hábitos, pôsteres porventura afixados na parede, estilos musicais preferidos, locais que frequenta etc. Nesse momento em que a transitoriedade impera, não há estilos definitivos.

O mesmo ocorre com relação às drogas: entre a geração dos anos 60 e 70, por exemplo, o uso frequentemente estava associado à contestação e aos ideais de liberdade de expressão.

Atualmente, é mais um objeto de consumo, voltado ao prazer mais pragmático e objetivo. O psicanalista americano Christopher Lasch reconhece este momento como resultante de uma espécie de cultura de consumo, que acaba por debilitar a própria capacidade dos indivíduos de discriminar fantasia de realidade, já que, como em um caleidoscópio, surgem a todo momento novidades que despertam novas necessidades.

Todo indivíduo nesta sociedade parece ser elo de múltiplas redes de comunicação, informação, interpretação, divertimento, aflição e evasão. Os movimentos e centros de emissão estão dispersos, desterritorializados pelo mundo afora. Principalmente para jovens das classes mais baixas, com menos acesso às evoluções tecnológicas, a televisão oferece scripts sobre os papéis sociais, gênero, gratificação social, sexual, lazer, resolução de conflitos e valores. Publicado nos Estados Unidos, o relatório Growing up in the prime time: analyses of adolescent girls on the television examinou mais de 200 episódios de programas para adolescentes e constatou que a aparência deles é considerada mais importante que sua inteligência; meninas cultas que gostam de estudar são exibidas como socialmente desajustadas; elas são mais passivas que seus colegas do sexo masculino. E frequentemente o jovem é retratado como obcecado por compras, pela própria imagem, excessivamente voltado para a vida amorosa e pouco interessado em conversas sobre questões existenciais, acadêmicas ou mesmo profissionais. A falta de senso crítico, aliada à ideologia do consumo, tem gerado também uma tendência à banalização da posse material, uma vez que aparelhos tecnológicos acabam assimilados como móveis e utensílios da casa, e passa a importar pouco ao jovem onde as informações são obtidas, contanto que sejam acessíveis.

A rapidez e o fracionamento da informação são incorporados ao cotidiano dessa geração; o mergulho nessa realidade não se dá no meio, mas entre os meios. Valoriza-se a narrativa curta com significado quase imediato. Há uma aceleração temporal conciliada à fragmentação espacial. A televisão é considerada ao mesmo tempo invisível e onipresente, ainda que apareça como coadjuvante nos bares, restaurantes, no intervalo da escola e em vários ambientes da casa. É o jovem que capta dados nas incursões aos diferentes campos de informação quem vai construir um significado inerente ao fluxo dessas informações.


ESCOLA E FAMÍLIA
Dentro de um novo contexto social, instaura-se também um modelo de juventude. Relações familiares com nova conformação trazem outros referenciais ao adolescente. Os modelos e o conjunto do saber não advêm mais dos pais – pelo menos não necessariamente. A figura paterna está hoje mais diluída. O sociólogo francês Eugène Enriquez, ligado à psicossociologia e à sociologia clínica, considera que esse enfraquecimento está associado à incapacidade paterna de se situar no lugar da lei e de, consequentemente, desempenhar seu papel de interventor e polo de identificação. A criança e o jovem aprendem com os meios de comunicação de massa, com seu grupo de companheiros e com sua experiência pessoal. Também a escola tem deixado de exercer o papel de grande educadora; se o capitalismo valoriza uma relação clientelista, visando o lucro e estimulando o consumo, os alunos das escolas e universidades particulares são, em sua maioria, também atendidos sob essa perspectiva.

A proposta de satisfação imediata estende-se na relação família-escola, e a livre concorrência do mercado, direta ou indiretamente, autoriza as instituições a oferecer aos pais os instrumentos para esse nível de gratificação. É possível observar, em alguns casos, a tendência de um modus operandi empresarial por parte, inclusive, de algumas instituições educacionais, voltadas primordialmente ao lucro e aos investimentos que garantam o menor número possível de evasão dos alunos. Em consonância com as ideias do psicanalista Peter Blos, esta queda gradual e radical da convivência familiar – com reflexos na educação, nutrição, hábitos e preceitos morais – leva os pais a acreditar, cada vez mais, nas recomendações públicas que a mídia faz entrar nos lares. A tradição fica, então, substituída pelos especialistas que oferecem respostas para os problemas cotidianos. Isso favorece ainda mais o enfraquecimento da autoridade das figuras parentais, que muitas vezes abdicam de suas próprias convicções em favor de escolhas feitas por especialistas.

Na clínica de adolescentes, observa-se claramente a dificuldade dos pais em assumir uma posição de autoridade. A questão vem, muitas vezes, justificada por compromissos profissionais e o consequente sentimento de culpa em decorrência do afastamento do convívio diário. Esses fatores, aliados ao forte acesso aos meios de comunicação, especialmente a TV e a internet, têm levado algumas pesquisas a entender o comportamento dos jovens com base nesses novos referenciais.

A força e o poder da mídia permitem observá-la com características conceitualmente institucionais. Para Nicola Abbagnanno, autor do Dicionário de filosofia (2000), a instituição pode ser entendida como um conjunto de normas que regulam a ação social. Autores como o sociólogo G. Lapassande ressaltam que as instituições estão inseridas em um sistema social, vinculadas ao contexto político. A relação entre ideologia e instituição também se faz presente, considerando que todas as mediações institucionais atravessam a sociedade e determinam suas opções, preferências, rejeições e aspirações. O controle ideológico provoca o que o autor chama de desconhecimento social, fruto de mecanismos que interferem na educação, informação e cultura.

O vazio e a falta de perspectiva resistem à sociedade espetacular, pregadora da beleza e da felicidade. Elaborar, pensar e criticar são atos humanos que exigem uma postura ativa diante das experiências. Manter-se constantemente no papel de espectador remete à alienação e à passividade. Não é possível ignorar que a indústria do entretenimento, aliada aos valores do capitalismo, transforma todas as informações em show e, assim, realidade e fantasia se confundem. O educador americano Neil Postman vê o excesso de informação levando à impossibilidade de pensar: “Por pensar, entendo ter tempo e motivação para perguntar-me: Qual o significado deste acontecimento? Qual é sua história? Quais são as razões disso? Como isso se encaixa no que já sei do mundo?”, questiona.

O jovem hoje, por outro lado, pode estar desenvolvendo um novo modo de pensar, voltando à rapidez da capacidade de detectar a informação e sintetizá-la. Mas, assim como as informações zapeadas, sua mente, seu corpo e suas relações podem estar fragmentados, dificultando uma percepção mais apurada e cuidadosa, seja de seus sentimentos, seja das experiências que o mundo tão intensamente lhe oferece


Artigo da Mente&Cérebro

13 de janeiro de 2010

Simplesmente eu, Clarisse Lispector

A Peça Simplesmente eu, Clarisse Lispector, com Beth Goular ,reestréia no Rio as terças e quartas as 19h30 no Teatro do SESI Rio (temporada de 12 a 27 de janeiro).

SINOPSE DA PEÇA - Joana, uma mulher inquieta e criativa, primeira personagem de Clarice Lispector que Beth Goulart conheceu. No auge da adolescência, ao ler Perto do coração selvagem, romance de estréia da autora, a identificação foi inevitável. "Eu também acho que não sou compreendida. O que vou fazer com isso tudo dentro de mim, com esse processo criativo maluco?", confessa Beth. Depois de Joana, vieram outras mulheres na escrita de Clarice. Entre elas, está Ana, do conto "Amor", que leva uma vida simples, dedicada ao marido e aos filhos, tem a rotina quebrada ao se impressionar com um homem cego, que masca chicletes na rua. Lóri, da obra Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, é uma professora primária que mora sozinha e se prepara para descobrir o amor. Há ainda outra mulher sem nome, que, no conto "Perdoando Deus", se deixa mergulhar na liberdade enquanto passeia por Copacabana. Essas quatro mulheres, que, para Beth, "representam algumas facetas da própria Clarice", foram escolhidas para apresentar ao público a obra de um dos maiores nomes da literatura brasileira. Em Simplesmente eu. Clarice Lispector, espetáculo que teve estreia nacional em Brasília, no Centro Cultural Banco do Brasil, a atriz interpreta, mais do que a escritora e suas personagens, fragmentos que reconhece em si mesma: "Usando as palavras dela, eu também estou falando de mim". Na peça, Beth faz reflexões sobre temas como criação, vida e morte, Deus, cotidiano, solidão, arte, loucura, aceitação e entendimento e trabalha pontos característicos da obra de Lispector, como o vazio, o silêncio e o instante-já, "aquele momento único, que é como um flash", explica a atriz. Para o monólogo, que ela também dirige, passou os últimos dois anos mergulhada em longa pesquisa. A narrativa se constrói a partir de trechos de entrevistas, depoimentos e correspondências. Segundo Beth, toda essa ligação se dá por uma única linha: o amor. "Ela falava sobre o amor maternal, o do relacionamento, o amor a Deus, à natureza, ao próximo. Escolhi esse viés para apresentá-la ao público." Para a atriz, representar Clarice Lispector é realizar um antigo desejo. "Eu sempre acalentei essa vontade de um dia poder dar meu corpo, minha voz, minhas emoções para colocá-la viva em cena." A caracterização foi feita de forma cuidadosa. Detalhes como a maquiagem ganharam tratamento especial de Beth Goulart, que optou por um caminho neutro para passear livremente pela pele das personagens e da autora. "O espetáculo todo é como se fosse uma grande folha em branco a ser escrita por esses personagens, pelos movimentos, pelas ações, pela luz."



O ESPETÁCULO - O espetáculo mostra a trajetória desta mulher em direção ao entendimento do amor, de seu universo, suas dúvidas e contradições. Uma autora e seus personagens dialogando sobre a vida e morte, criação, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, entrega, inspiração, aceitação e entendimento. O texto é extraído de depoimentos, entrevistas, correspondências de Clarice e trechos das obras: "Perto do Coração Selvagem", "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" e os contos "Amor" e "Perdoando Deus".

ENCONTRO DE BETH GOULART COM CLARICE LISPECTOR - O que me levou a fazer Clarice Lispector no teatro foi o mistério do espelho, a identificação que sinto por ela. A vontade de trazer mais luz sobre esta mulher que revolucionou a literatura brasileira, redimensionou a linguagem falando do indizível com a delicadeza da música, usando a escrita como uma revelação, buscando o som do silêncio ou fotografar o perfume. “A arte é o vazio que a gente entendeu” diz Clarice. Quero atingir de mim mesma para refletir a profundidade mulher que conhece o segredo das palavras e suas dimensões. O questionamento, é a busca constante do artista diante de sua escolha, como ela, eu gosto de intensidades. Há dois anos mergulhei num processo de pesquisa para escrever este roteiro lendo tudo o que podia de sua obra e livros biográficos. Fiz dois workshops com Daisy Justus uma psicanalista especializada em Clarice Lispector que analisa sua obra sob a ótica da psicanálise. Vi e ouvi tudo o que podia sobre ela, suas entrevistas, fotos, o depoimento no MIS, a entrevista póstuma na TV Cultura, enfim me tornei uma esponja de tudo o que se referia a ela. Neste olhar apaixonado escolhi sua obra para recontá-la. Construí um corpo narrativo com trechos de entrevistas, depoimentos e correspondências que preparam os personagens que irão se apresentar ao público como desdobramentos dela mesma. Os temas abordados são reflexões sobre criação, vida e morte, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, arte, loucura, amor, inspiração, aceitação e entendimento. Clarice é muito pessoal em seus escritos e todos os seus personagens tem algo de si mesma. Acho que Joana de “Perto do coração selvagem” talvez seja a mais parecida com sua essência criativa e indomável. Ana do conto “Amor” é a dona de casa e mãe dedicada que Clarice certamente foi. Lori de “Uma Aprendizagemdu ou O livro dos prazeres” vive em cena as descobertas do amor e A Mulher do conto “Perdoando Deus” é uma bem humorada auto-critica.


18º Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise


O 18º Congresso do Círculo Brasileiro de Psicanálise será realizado em 2010 no Pestana Rio Atlântica Hotel, em Copacabana, no Rio de Janeiro, de 20 a 22 de maio. O tema do evento é “Psicopatia da Vida Cotidiana” e tem a simpática ilustração de Freud passeando de chinelos no calçadão de Copacabana.

O congresso terá a presença dos psicanalistas Joel Birman, José Outeiral, Luiz Alberto Py , Maria Rita Kehl, entre outros

Os trabalhos para apresentação devem ser enviados até 15 de março de 2010.

O valor para profissionais até 27 de fevereiro é R$ 250. Até esta data, membros do CBP pagam R$ 220.

A ficha de inscrição faz parte do folder, que está disponível no site da Seção Rio de Janeiro do Círculo Brasileiro de Psicanálise.


12 de janeiro de 2010

NEM HOMO, NEM HETERO?

Artigo NEM HOMO, NEM HETERO

Celebridades já assumiram. Sexólogos, psicólogos e até cientistas dizem que esse é o futuro da humanidade. Será mesmo que o mundo está cada vez mais bissexual?

O fato é que o número de pessoas que declara abertamente relacionar-se com os dois sexos aumenta todos os dias. Angelina Jolie antes de Brad Pitt manteve um romance de 10 anos com a modelo Jenny Shimizu e nunca teve problemas em assumir a bissexualidade. As atrizes Megan Fox e Lindsay Lohan, a performática Lady Gaga e a cantora Fergie, do Black Eyed Peas, engrossam a lista das celebridades que já se declararam total flex. Por aqui, as mais novas adeptas do grupo, cuja veterana é a cantora Marina Lima, são Preta Gil e a ex-BBB Fani Pacheco.

Será que isso é marketing, moda ou tendência?

— Se olharmos historicamente, o bissexualismo sempre existiu. Mesmo em Roma ou na Grécia. É algo que sempre esteve presente nas relações humanas e pode se manifestar mais ou menos dependendo do quanto existe de liberalidade na sociedade ou em um determinado meio social que possa ser mais aberto para esse tipo de coisa — defende Rafael Raffaelli, professor da UFSC, mestre em Psicologia Social e doutor em Psicologia Clínica.

Não são apenas os artistas e as celebridades que declaram abertamente seu desejo por homens e mulheres. A jornalista Sandra**, 25 anos, não exclui nenhum público alvo quando sai solteira para a balada.

— Não acho que seja uma moda. Eu acho que as pessoas estão se libertando. Quando eu saio, fico com homem ou mulher, tanto faz. Acho que as mulheres suprem outras necessidades, elas se envolvem mais emocionalmente do que os homens. Já com eles, tenho uma necessidade mais física. Então, ficar com um ou com outro vai depender de como estou me sentindo no dia e do que aparecer — conta.


Fotografia Helmut Newton

Conforme o pai da psicanálise, todos nós nascemos potencialmente bissexuais. Sigmund Freud dizia que a escolha seria determinada na infância, de acordo com as experiências. Ou seja, a condição sexual seria muito mais cultural do que biológica, e a bissexualidade teria conotações instintivas. Para ele, a diminuição da repressão sexual teria como desfecho a pluralidade dos afetos.

— As crianças logo percebem um ambiente de proibição e culturalmente vão se encaixando nessas ideias. O pai e a mãe, os casais ao redor. E é obvio que a nossa cultura e sociedade levam a uma certa estigmatização da experiência erótica, embora isso já tenha mudado muito — explica Raffaelli.

O psicólogo lembra o fato de termos herdado metade do genes do pai e metade dos gens da mãe, o que significaria termos os dois lados. Com base nisso, seria possível explorar os dois sexos.

— Isso só não aparece claramente porque existe uma repressão da sociedade — diz ele.

Em 1953, o segundo volume do Relatório Kinsey, elaborado pelo pesquisador americano Alfred Kinsey, já revelaria o quanto a bissexualidade era uma realidade, mesmo dentro da conservadora sociedade americana. Nos questionários, muitas mulheres relataram que já haviam tido experiências sexuais com pessoas do mesmo sexo. Seus relatórios foram vistos por muitos como o início da revolução sexual da década de 1960. Kinsey defendia que a homo e a heterossexualidade eram os extremos de um amplo espectro de possibilidades sexuais.

— Para ele, a fluidez dos desejos sexuais faz com que, para cada heterossexual, exista pelo menos uma pessoa que sinta, em graus variados, o desejo pelos dois sexos — explica a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, autora do livro A Cama na Varanda (Ed. Best Seller, 434 págs, R$ 40), em que aborda, entre outros temas, essas questões.

As novas gerações, já influenciadas pelos frutos da revolução sexual, estariam aptas ao novo modelo.

— Hoje as coisas estão bem diferentes — defende o sociólogo Roberto Warken.

** Os nomes utilizados são fictícios

Rótulos x orientação sexual

Ter uma experiência com alguém do mesmo sexo significa que a pessoa tem orientação bissexual?

— Nosso objetivo não é criar rótulos. Defendemos que as pessoas sejam felizes sem a rigidez da orientação sexual - responde o sexólogo Toni Reis, presidente da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT).

— Minha sexualidade é circunstancial. Não gosto de me impor barreiras. Hoje eu fico mais com meninos, mas se achar uma menina que me interesse eu fico também — assume o estudante Juliano**, 22 anos.

— Acho que são duas coisas diferentes. Ter experimentado algo com alguém do mesmo sexo não caracteriza alguém como bissexual. O que vai caracterizar é a pessoa ter o desejo frequente não só de sexo, mas de amor, de poder se apaixonar, por ambos os sexos — avalia a psicóloga Shirley Stamou.

A sexóloga Regina Navarro Lins vai adiante:

— Estamos caminhando para uma sociedade com tendências à androgenia. O objeto do amor não será mais o sexo oposto e sim a pessoa, não importa se homem ou mulher — teoriza a autora.

Até mesmo cientistas já engrossaram o coro dos sexólogos e psicanalistas, provocando polêmica. O italiano Umberto Veronesi, por exemplo, afirma que o ser humano caminha para a bissexualidade como uma evolução natural das espécies. De acordo com sua tese, dentro de algumas décadas, a humanidade será definida como bissexual. A explicação, segundo ele, está ligada inclusive a mudanças hormonais. Homens e mulheres estariam perdendo suas características específicas e se transformando em indivíduos sexualmente ambíguos.

Se a liberdade traz ganhos, também pode causar confusão para muitos. A terapeuta de família e sexóloga Jerusa Figueiredo acredita que o amor foi reduzido ao desejo e essa fragilidade de valores leva à liberação das vivências sexuais.

— Vivemos numa sociedade onde tudo é permitido, e as pessoas não estão sabendo se comportar dentro desse contexto — critica.

Mulher com mulher dá audiência

Quem assistiu ao desfile de Jean-Paul Galtier na última Semana de Moda de Paris contou que o papo nas festas pós-desfile não girava tanto em torno dos modelitos apresentados pelo designer francês, mas sim da mensagem com forte conteúdo erótico que sugeria homo e/ou bissexualidade. As peças eram marcadas por símbolos sadomasoquistas, como meias de rede e transparências. Como pano de fundo do desfile, um bar decadente onde modelos, como Raquel Zimmermann e Coco Rocha, vestidas em looks andrógenos, lançavam olhares sugestivos umas às outras.

Já em 2006, a atriz Scarlett Johansson e a stripper Dita Von Teese também foram protagonistas de um ensaio pra lá de sensual na revista Flaunt. A mesma Scarlett, quando dirigida por Woody Allen em Vicky Cristina Barcelona, beijou Penélope Cruz, acontecimento que foi badalado insistentemente antes de o filme entrar em cartaz.

Para divulgar o filme Ne te Retourne pas (Não se volte, em tradução livre), em que interpretam a mesma pessoa, as atrizes francesas Sophie Marceau e Monica Bellucci apareceram nuas e abraçadas na capa da revista Paris Match em 2009.

Mas há quem diga que toda essa moda na mídia tenha começado com o beijo entre Madonna e Britney Spears no MTV Music Awards, em 2003.

A mídia e a publicidade nacional também parecem ter aderido. Basta folhear as revistas para ter a nítida sensação de que o bissexualismo está na moda. A campanha de verão da Arezzo trazia Juliana Paes e Cléo Pires, duas das mulheres mais cobiçadas da atualidade, em poses sugestivas e olhares provocadores.

O erotismo parece infalível em termos de mídia - graças à curiosidade geral sobre a homossexualidade e ao fato de ser a fantasia número um dos homens.

— A gente sabe que 99,9% dos homens têm como fantasia ver duas mulheres transando. Esse erotismo vende — declara a psicóloga e blogueira antenada em moda Shirley Stamou.

E a influência desses segmentos da cultura contemporênea no comportamento geral é inegável.

— Esse momento é bastante influenciado pela moda, música e cinema. Todo mundo quer ter ou ser aquela mulher da foto. É natural que isso acabe se tornando uma moda, quase que um estilo de vida — diz Shirley.

Eu gosto de meninos e meninas

É preciso lembrar que, de acordo com a Psicologia Social, na sociedade existem grupos com valores diferenciados. Por isso, dependendo das características de cada setor, a bissexualidade pode ser uma experiência mais ou menos comum.

— A gente não pode pensar a sociedade como uma coisa homogênea, temos que pensar nos grupos que formam o todo — explica Rafael Raffaeli, mestre em Psicologia Social.

Um grupo onde essa tendência aparece claramente é o dos adolescentes.

— As meninas acham supertranquilo ir para a festa e beijar outras meninas. Mas isso não revela necessariamente uma vontade. Pode ser uma maneira de transgressão, uma vontade de ver como é. Querer ser como os outros. Isso não significa ou determina nada — aposta a psicóloga Shirley Stamou.

Para alguns adolescentes, transitar entre categorias sexuais parece tão natural quando mudar o cabelo.

— Ao ver tantos ícones da música e mesmo modelos reproduzindo esse comportamento, é normal que os adolescentes também queiram imitar. Principalmente entre as meninas, a bissexualidade virou uma espécie de arma de sedução. Também é uma coisa de provocação, de quebrar a regra, quase como pintar o cabelo de rosa — acredita Shirley.

Para especialistas, a natureza feminina, menos defensiva em relação à afetividade, proporciona uma liberdade na hora de experimentar diferentes formas de relacionamento, como ocorreu com Sandra**, a jornalista de Florianópolis.

— Sempre tive interesse em caras, mas de vez em quando beijava meninas. No ano passado, me surpreendi bem interessada em uma menina e pintou uma atração. Aí rolou algo mais íntimo. Me apaixonei e teria continuado com ela, mas ela não quis. Não acho que seja uma moda. Acho que, no futuro, as pessoas não vão ter que optar por serem homossexuais ou heterossexuais.

Ainda que não tão revelada, a bissexualidade entre homens também ocorre:

— A liberdade sexual entre as mulheres é maior. Mas depois que tive coragem de admitir que gostava de homens, não deixei de excluir as meninas dentre as possibilidades de relacionamento. E tenho prazer com ambos os sexos, embora as mulheres me levem menos a sério por saber que me relaciono com homem também — contou Juliano, estudante da Capital.

Há quem diga que o fenômeno bissexual seja mais intenso na capital catarinense.

— Florianópolis é uma cidade onde temos uma relação diferente, mais aberta e tranquila com a sexualidade. Aqui elas se permitem experimentar. E aí vem as descobertas. Algumas pessoas passam a se autodenominar bissexuais porque tiveram uma ou duas relações, mas nao é bem por aí — defende o sociólogo Roberto Warken.

O sexo fluído

A bissexualidade entre as mulheres não é apenas uma fase de indecisão. Pelo menos foi o que concluiu um estudo feito pela professora de Psicologia e de Estudos de Gêneros da Universidade de Utah, nos Estados Unidos, Lisa Diamond, publicada no ano passado. Lisa acompanhou o comportamento sexual de um grupo de 79 mulheres que se declararam não-heterossexuais durante uma década e observou que a bissexualidade é mais uma condição estável do que um estado temporário.

— O traço de desejo não-exclusivo permaneceu lá durante esse tempo, mesmo entre as mulheres que se casaram — declarou Lisa à imprensa internacional.

A pesquisadora também sugere que a maioria das mulheres, quando expostas a determinadas circunstâncias, tem capacidade de sentir desejo por ambos os sexos. Embora o estudo seja importante por ser um dos únicos a observar o comportamento de mulheres por uma década, uma limitação foi o grupo de mulheres eleito: trata-se de uma maioria de brancas e de classe média.

Mas o resultado levantado pela pesquisa, de que a bissexualidade pode, sim, ser uma identidade sexual, não é unanimidade.

— A experiência bissexual implica estabelecer relação com ambos os sexos, mas são poucos os casos em que essa experiência se consolida como uma identidade sexual - avisa o professor da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Denilson Lopes, autor do livro O homem que amava os rapazes e outros ensaios (Ed. Aeroplano, 270 págs., R$ 30).

Cusro de Psicologia Hospitalar em SP


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