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5 de novembro de 2007

Comer


Atualmente a alimentação se tornou um fator desencadeante de vários sintomas. Ou se come demais, ou se come de menos, ou se come com culpa. Sentimentos, sensações e desejos temperam nossos pratos, mostrando-nos que nos alimentamos muito mais do que apenas de carboidratos e proteínas, mas nos alimentamos também de lembranças, sonhos, imaginários e cultura. Portanto, o comer não está somente ligado à biologia, à satisfazer necessidades fisiológicas, mas também está associado ao sujeito do inconsciente, já que esta alimentação vem impregnada de significados simbólicos.

É justamente na alimentação que há o encontro desse homem biológico, que busca saciar a fome, com o sujeito, que busca saciar muito mais.

Mudanças no cotidiano alimentar dos indivíduos, o crescimento alarmante dos transtornos do comportamento alimentar, como a bulimia, a anorexia ou a compulsão, nos indicam algo a respeito do significado desse comer. Ou pelo menos nos faz questionar a respeito desse significado.

Pesquisando os escritos Freudianos, podemos perceber desde o início uma articulação entre o alimentar e o sexual. Desde as primeiras experiências com o seio materno, onde saciedade se mistura com prazer. A boca tem uma dupla função: com a ingestão do alimento supre a necessidade, mas propicia satisfação, colocando o desejo em jogo. Em “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), Freud diz que na fase oral “A atividade sexual ainda não se separou da nutrição, nem tampouco se diferenciaram correntes opostas em seu interior. O objeto de uma atividade é também o da outra, e o alvo sexual consiste na incorporação do objeto – modelo do que mais tarde irá desempenhar, sob a forma de identificação, um papel psíquico tão importante”.

De acordo com Justos, “A fase oral da sexualidade deixa marcas permanentes nos usos da linguagem. O oral é o emblema regressivo do sexual. Além da separação deste objeto parcial, o seio da mãe, que é também seu primeiro alimento, abre a possibilidade de uma alimentação variada e sólida, que permita o filho dizer o que quer... comer”

Essa questão regressiva nas desordens alimentares contemporâneas fica evidente na clínica.
É uma clínica onde muito se fala de peso, calorias, gorduras e medidas. Os pacientes sempre sabem tudo sobre técnicas para perder peso, se exercitar mais e todos os cuidados com o corpo. É um discurso reduzido ao corpo. Obesos, compulsivos, bulímicos e anoréxicos, todos falam muito sobre o corpo num discurso vazio, onde os desejos são ignorados e o que resta nessa ausência de discurso é só o corpo, reduzido a exibir um quadro que só nos remete a uma “não simbolização”.

A dificuldade de se envolver com questões simbólicas faz o sujeito se manter ancorado nos sintomas corporais. E a psicanálise vai trabalhar no objetivo de uma passagem, onde o sintoma apresentado no corpo poderá aparecer pela via da palavra, acessando assim o desejo inconsciente. Indo mais além da imagem que o corpo transparece.
Não se trata do alimento. Trata-se de uma outra coisa que ocupa o lugar do comer. Que está associado ao significado do alimento desde os primórdios da alimentação. Desde as relações primitivas entre mãe/bebê, mediadas pela alimentação.
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.........................................................................Fernanda Pimentel


26 de outubro de 2007

Mesa Redonda


Está programado para o próximo dia 10 de novembro uma Mesa Redonda na PUC sobre A Clínica Psicanalítica com Criança na Atualidade. O evento, coordenado pelo departamento de Psicologia, vai ser aberto ao público e vai contar com grandes nomes do trabalho psicanalítico com crianças.
Não percam!
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17 de outubro de 2007

Canibalismo II



Falei sobre antropofagia aqui, sobre uma matéria da MenteCerebro chamada Canibalismo: Da Cultura à Perversão. Neste artigo a autora Nahlah Saimeh começa seu trabalho falando de Armin Meiwes (foto ao lado), que há 6 anos atrás anunciou na net que procurava um homem para ter seu pênis amputado, devorado e no final ser morto, após o exótico banquete.
O bizarro anúncio foi respondido por Bernd Juergen Brandes (e segundo Meiwes, por mais 400 homens) que aceitou a proposta que foi cumprida exatamente como combinado.

Esse caso levantou muitas questões quando veio a tona em 2002. A principal delas era se isso deveria ser considerado crime, já que foi concedido por ambas as partes. Na verdade mais do concedido, já que Brandes implorou para ser devorado, como fica claro no vídeo que o canibal alemão fez de todo o processo: do abate a degustação. Um crime ou um casal perfeito?

De qualquer maneira Meiwes foi julgado e condenado à prisão perpétua e cumpre sua pena em Kassel, na região central da Alemanha.

A novidade é que Meiwes falou pela primeira vez sobre o assunto no último dia 15, em entrevista para a emissora de TV RTL. (Por coincidência na mesma semana que levantei esse assunto aqui no blog.) Ele conta, como diz a matéria do G1, que passou os meses seguintes à morte de Brandes degustando sua carne que ele armazenou congelada em pequenas porções. Ele estima que tenha consumido, no total, 20 Kg de Brandes. Além disso, o canibal comentou que tinha esse "desejo de consumir outro homem ha décadas", e que desde criança adora a história de João e Maria.

Outro ponto interessante da entrevista é quando Meiwes conta como foi servida a iguaria. Segundo ele a carne foi temperada com sal, pimenta, alho e noz-moscada, e servida com croquetes "princesa", couve de Bruxelas e molho de pimentão verde. Ele relata que "A primeira mordida foi com certeza única, indefinível, já que eu tinha sonhado com isto durante trinta anos, com esta conexão íntima que se faria perfeita através desta carne".

O mais assustador disso tudo é que a avaliação psiquiátrica feita antes do seu julgamento concluiu que ele não é louco, mas tem uma "alma muito perturbada". O próprio Meiwes diz "Eu sou um ser humano normal, em princípio". Mas afinal de contas, o que seria "uma alma muito perturbada"?

De acordo com matéria do G1: "A polícia estima que em torno de 10 mil pessoas, na Alemanha somente, partilham o fascínio de Meiwes pelo canibalismo - seja por comer carne humana ou por ser comido."

Veja outra notícia sobre antropofagia aqui.

Parece que Nahlah Saimeh está correta quando afirma que o fenômeno é mais freqüente do que ousamos pensar.
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.......................................................................Fernanda Pimentel
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15 de outubro de 2007

Auto-imagem nos Transtornos Alimentares

Esse vídeo, da campanha de uma ONG sueca, circulou pela net meses atrás. Mas essa semana eu assisti novamente no curso de Transtornos Alimentares da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro que estou participando e vi que ele ainda me choca. E como falei de realidades chocantes outro dia...

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.....................................................................Fernanda Pimentel

10 de outubro de 2007

Canibalismo

Muito interessante a matéria da revista Mente Cérebro deste mês, intitulada Canibalismo: Da Cultura à Perversão, escrita por Nahlah Saimeh, médica especialista em medicina legal e diretora do Centro de Psiquiatria Forense da Vestfália (Alemanha.)

A autora mostra casos de canibalismo que aparecem no noticiário de tempos em tempos, indicando que o fenômeno é mais freqüente do que podemos pensar.

Ressaltando que as práticas canibais existem desde o início da humanidade, a autora difere a antropofagia presente em rituais tribais, onde o consumo de carne humana tinha como objetivo incorporar atributos dos mortos, como força, coragem e integridade; a que ocorre em situações extremas e de escassez de alimento, tratando-se de uma questão de sobrevivência; e por fim o canibalismo patológico que, segundo a autora, "está sempre associado a indivíduos de alguma forma deslocados na sociedade, quase sempre portadores de transtornos psíquicos."

No que diz respeito a origem deste comportamento, Nahlah Saimeh diz que "A motivação do canibal poderia ser explicada pela perversão sexual sádica, que teria origem em problemas no processo de individuação, quando a criança se “separa” do corpo da mãe. Assim, a assimilação da carne humana serviria para restabelecer a ligação simbiótica original."

Da anorexia, onde se come o nada, ao canibalismo, onde se come o outro, tudo parece estar intimamente relacionado com estágios primitivos da infância e as relações estabelecidas nesta época da vida. A oralidade e seus componentes sexuais determinam o modo como o bebê conhece o mundo e marcam toda sua existência.

Veja toda matéria aqui


Canibal mais famoso da ficção, Dr. Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins em O Silêncio do Inocentes. (1991)


Antropofagia no Brasil, segundo relato de Hans Staden, ilustrado por Théodore de Bry (1549).
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.................................................................Fernanda Pimentel

5 de outubro de 2007

Campanha Italiana

Isabelle Caro, fotografada por Oliviero Toscani
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Pois é... Parece que a tal campanha italiana com a modelo anoréxica nua foi retirada das ruas de Milão. Muitos a concideraram violenta e agressiva. Alberto Contri, presidente da associação Publicidade Progresso declarou que "A campanha de Toscani com a menina anoréxica é uma verdadeira violência visual e a mercantilização de um problema social." Mas não seria uma maneira de fazer a população perceber a realidade chocante desse distúrbio?

É claro que é agressiva. Assim como o número de jovens que morrem por conta de problemas decorrentes da anorexia.
Não falar disso, não mostrar uma realidade atual, evitar que esse tema seja discutido abertamente é mais violendo que as fotos. Impede que este assunto circule e vela, mais ainda, a questão dos transtornos alimentares.
Acho que neste caso o que gera polêmica e opiniões divergentes é positivo. É sinal que o tema está sendo pensado e debatido, o que pode beneficiar algumas jovens anoréxicas e seus familiares.

A modelo das fotos, Isabelle Caro disse em entrevista à Vanity Fair: "Eu me escondi cobrindo meu corpo por muito tempo. Agora eu quero me mostrar sem medo, mesmo sabendo que meu corpo é repugnante."

Já Oliviero Toscani, fotógrafo e criador da campanha disse: "Quando se faz algo extremo, sempre há pessoas que se opõem. O resultado é que todo o mundo fala disso." E completou... "Não existe foto chocante, só a realidade choca"
Segundo ele, a sua intenção é levar reflexão ao mundo da moda. "É esse meio que leva as mulheres a fazer dieta e a querer ficar magra a qualquer custo."

Se é real, se vemos nas ruas e nos consultórios, porque não pode ser exibido?
Partindo deste principio, segue abaixo o meu protesto pelas fotos terem sido retiradas...



Fotos retiradas de um Website Pró-Anorexia.

Imagem publicada em revista espanhola.

Imagem retirada de um Blog Pró-Anorexia, apresentada como "Thinspiration" (Lindsay Lohan e Nicole Richie)
......................................................Fernanda Pimentel

2 de outubro de 2007

Fome de que?

Ainda sobre Anorexia...

.....A palavra Anorexia é composta pela partícula “a” que significa privação, mais “orexia”, que se origina do grego “orektos” e significa apetite e desejo. Colocando a anorexia não somente como uma patologia da ordem da privação do apetite, mas também da privação de desejo.
.....O que o sintoma anoréxico sustenta é uma impossibilidade de satisfazer um desejo. Com esta visão, o jejum e a perda de peso são encarados como um modo do sujeito obter satisfação, negando a presença deste desejo. A inapetência pela comida se traduz também como uma inapetência de desejo. Desejo este que por algum motivo se mantém recalcado e permanece inconsciente.
.....A relação do desejo com o objeto é uma falta e não algo que lhe proporcionará uma satisfação. É isto que mantém o desejo e nos mantém como sujeitos desejantes, porque a estrutura do desejo implica nesta inacessibilidade do objeto, tornando-o indestrutível. Dessa forma, a insatisfação do desejo não é uma insuficiência, mas uma eficiência, já que é esta característica que o faz impossível de ser satisfeito e, portanto indestrutível.
.....O que caracteriza o desejo, segundo Freud é este impulso para reproduzir uma satisfação original, ou seja, produzir um retorno a algo que já não é mais, a algo perdido cuja presença é marcada pela falta.
.....A anoréxica nega o desejo, nega sua impossibilidade de satisfação e se satisfaz comendo nada. Negando o desejo, nega-se também a falta. E é aí que entra a figura materna
.....As mães das moças anoréxicas tem algo em comum: apresentam-se como mulheres fortes, fálicas, completas. A partir disso pode-se pensar a Anorexia como um sintoma endereçado a esta mãe fálica, com o objetivo de inscrever nela uma falta, um espaço. Como uma forma de reagir ao controle materno.
.....Segundo J. Lacan, é necessário que algo falte para que se instale o desejo e o sujeito advenha como sujeito desejante, sujeito da linguagem. As mães de anoréxicas não permitem a instalação desse vazio.
.....No caso das anoréxicas, a falta não se presentifica devido à presença avassaladora da mãe. Assim, o objetivo da anoréxica é criar uma separação, um brecha. O sintoma aparece para marcar o desejo do sujeito de inserir uma falta no outro e assim, nele próprio. Para evitar que a voracidade materna continue obturando seu desejo, a anoréxica passa a devorar o nada, passa a desejar o nada, diante da impossibilidade de desejar outra coisa.
.....Segundo A. Nogueira, em tese de mestrado, “o sujeito massacrado pelos cuidados do outro, recusa o objeto oral, o esvazia e diz a esse outro que busque um objeto de desejo além dele, fora dele, além do próprio sujeito porque assim, este encontrará a via rumo ao desejo”.
.....O sintoma, então, surge diante da onipotência da mãe. Na tentativa de preencher todos os buracos, ela obtura, com a satisfação de necessidades, o vazio que daria espaço para a filha se constituir sujeito. Dizendo não á demanda da mãe, a criança pede que ela olhe em outra direção, diferente dela própria.
.....Para encerrar, fica uma frase de J. Lacan (Escritos, 1958):
“É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa sua recusa como desejo”.

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