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13 de outubro de 2020

Sobre a fofoca, com Silvia Federici - em defesa dos vinculos entre as mulheres

Silvia Federici é filósofa, professora emérita da Universidade Hofstra em Nova Yorke e reconhecida ativista feminista. Italiana radicada nos Estados Unidos, é autora de Calibán e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva (2004) , Revolução ao ponto zero: trabalho doméstico, reprodução e lutas feministas (2013) e Mulheres e caça às bruxas (2019), entre outros.

No vídeo, a autora aborda um ponto trabalhado no livro Calibán e a bruxa: mulheres, corpo e acumulação primitiva (2004) sobre a fofoca e a mudança do significado deste termo. Para ela, esse processo desvela uma tentativa de diluição dos vínculo entre as mulheres, de silenciamento e principalmente da recusa e desvalorização do saber que circulava entre as mulheres. 






Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

9 de setembro de 2020

Aula em forma de entrevista

A historiadora e antropóloga Lilia Schwarcz dá um show no Roda Viva, na TV Cultura, e fala sobre história, autoritarismo, racismo e a tradição brasileira. 




Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

5 de setembro de 2020

Karnal e Dunker

Dupla que dispensa qualquer legenda ou apresentação!

Os canais Falando Nisso, do Christian Dunker, e Prazer, Karnal, do Leandro Karnal, têm nos presenteado com com conteúdos excelentes e com temas super atuais. Não percam! 







Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
 

7 de agosto de 2020

Žižek: A dialética paralisada da pandemia

Para Žižek, filósofo esloveno, a reabertura gradual do comércio, apesar do crescente número de casos, denuncia que o retorno à normalidade - ou o novo normal - é um  gesto psicótico supremo, sinal de uma loucura coletiva.


A dialética paralisada da pandemia

Por Slavoj Zizek, no Blog da Boitempo

Nossa vida social não está paralisada por estarmos tendo que obedecer a regras de isolamento social e quarentena – nesses momentos de aparente paralisia, as coisas estão mudando radicalmente. A rejeição ao lockdown é na verdade uma rejeição à mudança.

O simples que é difícil de fazer

Os marxistas tradicionais costumavam estabelecer uma distinção entre o comunismo propriamente dito e o socialismo, que seria sua etapa inicial, inferior (na qual o dinheiro e o Estado ainda existiriam, os trabalhadores ainda recebem salários e assim por diante). Na União Soviética houve um debate em 1960 sobre onde eles se encontrariam nesse quesito, e a conclusão foi que embora não estivessem ainda no comunismo pleno, tampouco se encontravam na sua etapa inferior (o socialismo). O resultado foi a introdução de uma distinção adicional entre uma fase inferior e superior do próprio socialismo… Ora, será que algo semelhante não está ocorrendo agora com a epidemia da covid-19? Até cerca de um mês atrás, nossa mídia estava recheada de alertas sobre uma segunda e muito mais potente onda da epidemia que ocorreria no outono e no inverno.

Hoje, com novos picos em toda parte e números de infecção despontando mais uma vez, o que se diz é que não se trata ainda da segunda onda, mas apenas de um agravamento da primeira onda, que persiste. Essa conclusão classificatória só confirma que a situação da covid-19 está ficando grave, com o número de casos explodindo em todo o mundo novamente. Portanto passou da hora de levar a sério verdades simples tais como aquela recentemente anunciada pelo diretor geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus: “A maior ameaça diante da qual nos deparamos agora não é o vírus em si, é a falta de liderança e solidariedade a nível global e nacional. Não conseguiremos derrotar essa pandemia se permanecermos divididos enquanto mundo. A pandemia da covid-19 é um teste de solidariedade e liderança globais. O vírus floresce com a divisão, mas é aplacado quando nos unimos.” Levar essa verdade a sério significa que devemos considerar não apenas as divisões internacionais como também as divisões de classe no interior de cada país.

 “O coronavírus meramente expos a pandemia pré-existente de pobreza. A covid-19 chegou em um mundo no qual a pobreza, a desigualdade extrema e o desprezo diante da vida humana estão se alastrando, e no qual políticas econômicas e estruturas jurídicas são concebidas a fim de gerar e sustentar riqueza para os mais poderosos, não para erradicar a pobreza.”

Conclusão: é impossível conter a pandemia viral sem atacar também a pandemia da pobreza. Como? A princípio, não tem muito mistério: dispomos dos meios necessários para reorganizar adequadamente o sistema de saúde e assim por diante. No entanto, para citar a frase final do “Elogio ao comunismo”, de Brecht, presente na sua peça A mãe: “Er ist das Einfache, das schwer zu machen ist [É o simples, que é difícil de fazer]”. Há muitos obstáculos que fazem com que esse simples seja tão difícil de realizar (sobretudo a ordem capitalista global), mas quero aqui focar em um obstáculo ideológico – ideológico no sentido das posturas, preconceitos e fantasias semi-conscientes, mesmo inconscientes, que regulam as nossas vidas também (e especialmente) em tempos de crise. Ou seja, trata-se de pensar uma teoria psicanalítica da ideologia.

Nos meus livros, muitas vezes me refiro a uma série de filmes de Louis Buñuel construídos em torno do tema central recorrente da “impossibilidade não explicável da realização de um simples desejo” – as palavras são do próprio Buñuel. Em L’age d’or, o casal quer consumar seu amor, mas é repetidamente impedido de o fazer por conta de algum acidente besta. O herói do filme Ensaio de um crime quer realizar um simples assassinato, mas todas as suas tentativas fracassam. Ao final de uma noite de festa, um grupo de pessoas ricas não consegue atravessar a soleira para deixar a casa em O anjo exterminador. Em O discreto charme da burguesia, dois casais querem jantar juntos, mas complicações inesperadas sempre impedem a realização desse simples desejo. E, finalmente, em Aquele obscuro objeto do desejo, temos o paradoxo de uma mulher que, através de uma série de truques, adia repetidamente o momento final de encontro com seu amante… Será que não estaríamos testemunhando algo muito semelhante com a reação à atual pandemia? Todos nós de uma maneira ou de outra sabemos o que precisa ser feito, mas as estranhezas do destino vão nos impedindo de fazê-lo.

Agora que as infecções de covid-19 estão aumentando e as pessoas voltam a se preocupar, as novas medidas restritivas são anunciadas mas sempre junto com uma ressalva explícita ou ao menos implícita dizendo: “mas não haverá retorno a um lockdown total, a vida pública continuará…” Essa ressalva ecoa as queixas de muitas pessoas: “Eu não aguento mais [um lockdown total]. Quero minha vida normal de volta!” Por que? Terá sido o lockdown uma paralisia desprovida de dialética (para inverter o famoso tema benjaminiano da “dialética paralisada” [Dialektik im Stillstand])? Nossa vida social não está paralisada por estarmos tendo que obedecer a regras de isolamento social e quarentena – em tais momentos de (ou do que pode parecer uma) paralisia as coisas estão mudando radicalmente. A rejeição ao lockdown é na verdade uma rejeição à mudança.

Normalidade e psicose coletiva

Ignorar isso significa nada menos que um tipo de psicose coletiva. Escuto nas queixas contra o lockdown uma confirmação inesperada da afirmação de Jacques Lacan de que a normalidade é uma versão de psicose. Exigir um retorno à normalidade hoje implica um fechamento psicótico ao real do vírus – seguimos agindo como se a infecção na realidade não ocorresse. Basta reparar nos discursos mais recentes de Donald Trump: embora ele tenha consciência do verdadeiro escopo da epidemia, ele fala e age como se não soubesse de suas implicações, acusando ferozmente os “esquerdistas fascistas” de serem a principal ameaça aos EUA hoje, e por aí vai. Mas Trump aqui é muito menos uma exceção do que pode parecer – lemos regularmente na mídia e na imprensa notícias que soam algo como: “Apesar dos novos picos de infecção, a abertura continua…” De maneira insuperavelmente irônica, o retorno à normalidade torna-se assim o gesto psicótico supremo, o emblema da loucura coletiva.

Isso, é claro, não resume a verdade toda a respeito do impacto psíquico da epidemia. Em uma época de crise, o grande Outro (a ordem simbólica substancial que regula as nossas interações) está simultaneamente desintegrando, demonstrando sua ineficácia, e se fortalecendo (nos bombardeando com ordens precisas a respeito de como agir, o que fazer e o que não fazer). Isto é, o fechamento psicótico não é a única nem mesmo a mais predominante reação à epidemia. Há também a postura obsessiva.1 Muitos de nós gozamos com os rituais protetivos contra o perigo da infecção. Lavamos compulsivamente as nossas mãos, evitamos tocar nos outros e mesmo tocar a nós mesmos, esterilizarmos todas as superfícies de nossos apartamentos etc. É assim que agem os obsessivos: uma vez que o gozo objetal se encontra interditado, eles realizam uma guinada reflexiva e passam a gozar com as próprias medidas que mantêm o gozo objetal a uma distância segura.

Aqui, Jacqueline Rose levantou uma objeção crítica contra mim (durante um debate na Birkbeck Summer School): “Como você concilia a liberação de obscenidade, mesmo psicose, no espaço público com a sua explicação dos elementos progressistas do momento? Pode a ética derrotar a obscenidade? Temo que o conjunto da psicanálise sugere o contrário.” As coisas, a meu ver, são mais complexas. A obscenidade perversa não é o momento no qual o inconsciente irrompe abertamente de maneira desprovida de qualquer regulação ética a constrangê-lo. O próprio Freud chegou a escrever que na perversão, o inconsciente é o mais difícil de acessar – motivo pelo qual é quase impossível psicanalisar os perversos: primeiro eles precisam ser histericizados, é preciso que suas certezas sejam enfraquecidas pelo surgimento de questionamentos histéricos.

Mas penso que o que estamos testemunhando agora, com a epidemia se arrastando, é justamente uma gradual histericização daqueles que possuíam uma posição perversa ou mesmo psicótica. Trump e os outros novos populistas de direita estão surtando internamente, ficando nervosos, suas reações são cada vez mais inconsistentes, autocontraditórias, assombradas por uma questão. Voltando a Rose, penso que a própria obscenidade já depende de certa ética, ela se enquadra numa postura que não pode ser designada senão como ética: aqueles que agem de maneira obscena querem chocar as pessoas com seus atos e assim despertá-los de suas ilusões cotidianas. A forma de superar essa ética da obscenidade é trazer à tona suas inconsistências: aqueles que agem de maneira obscena possuem seus próprios tabus, eles nunca são tão radicais quanto pensam ser. Não há nenhum político atualmente mais constrangido pela repressão de seu inconsciente do que Trump, precisamente quando ele pretende agir e falar de maneira sincera e aberta, dizendo o que lhe der na telha.

O pessimismo de Rose se justifica, mas num nível ligeiramente diferente. Hegel não disse simplesmente que não se aprende nada da história, ele disse que única coisa que aprendemos com a história é que não há nada a se aprender com ela. É claro que “aprendemos com a história” no sentido de reagir às catástrofes do passado, de incluí-las nas narrativas de um possível futuro melhor. Digamos, depois do horror da Primeira Guerra Mundial, as pessoas ficaram completamente horrorizadas e formaram a Liga das Nações a fim de evitar futuras guerras – mas o que veio em seguida foi a Segunda Guerra Mundial. Aqui sou um pessimista hegeliano: cada trabalho de luto, cada simbolização de uma catástrofe deixa algo de fora e assim abre um caminho para uma nova catástrofe. E não adianta ter consciência do perigo que nos aguarda. Basta lembrar do mito de Édipo: seus pais sabiam o que ocorreria, e a catástrofe se realizou porque tentaram evitá-la… sem a profecia que comunicou a eles o que aconteceria, a catástrofe não teria se realizado.

Só penso que nossos atos nunca são autotransparentes, nunca sabemos o que estamos fazendo, quais serão os efeitos do que estamos fazendo. Hegel tinha plena consciência disso e aquilo que ele denominava “reconciliação” não é um triunfo da razão mas a aceitação da dimensão trágica da nossa atividade: precisamos humildemente aceitar as consequências de nossos atos mesmo que não gostaríamos que isso ocorresse. Os comunistas russos não queriam o terror stalinista, isso não fazia parte dos planos deles, mas foi o que ocorreu, e eles são de certa maneira responsáveis por ele. Será que o mesmo se dará com a epidemia do corona? E se algumas das medidas que estamos implementando para combatê-la ensejarem novas catástrofes?

O suporte fantasmático do capitalismo

É assim que devemos aplicar o idealismo de Hegel à realidade da covid-19: aqui, também, devemos ter em mente a afirmação de Lacan de que não há realidade desprovida de suporte fantasmático. As fantasias fornecem a moldura daquilo que experimentamos como realidade – a epidemia da covid-19 como fato da nossa realidade social é portanto também uma mistura do real e das fantasias: todo o arcabouço a partir do qual nós a percebemos e reagimos a à pandemia é sustentada por diferentes fantasias (sobre a natureza do próprio vírus, sobre as causas de seus impacto social e assim por diante). O próprio fato de que a covid-19 quase parou o mundo em um momento no qual muito mais pessoas vinham morrendo de poluição, fome etc, já fornece um claro indício dessa dimensão fantasmática. Temos a tendência de esquecer que há pessoas – refugiados, pessoas presas em meio a uma guerra civil – para as quais a epidemia da covid-19 representa uma preocupação menor, desprezível.

Isso significa que não há esperança? Etienne Balibar escreveu o seguinte contra mim (também no contexto de um debate na Birkbeck Summer School): “me soa um pouco infantil a ideia de que só porque a crise é uma ‘grande’ crise (concordo), todas as ‘lutas’ estão potencialmente se fundindo em um único movimento revolucionário (contanto que gritemos ‘uni-vos! Uni-vos!’ de maneira suficientemente alta)… ainda permanecem alguns obstáculos! As pessoas precisam primeiro sobreviver…” Mas penso que algo como uma nova forma de comunismo terá de surgir precisamente se quisermos sobreviver!

Se as últimas semanas demonstraram alguma coisa é que o capitalismo global não tem condições de conter a crise da covid-19. Por que não? Como observou Todd MacGowan, o capitalismo é, em seu âmago, sacrificial – em vez de imediatamente consumir o lucro, devemos reinvesti-lo, de modo que a satisfação plena é eternamente adiada.2 Em uma das últimas cenas da ópera de Mozart, Don Giovanni canta de maneira triunfal: “Giacché spendo i miei danari, io mi voglio divertir [Já que estou gastando meu dinheiro, quero me divertir]” É difícil imaginar um lema mais anticapitalista – um capitalista não gasta seu dinheiro para se divertir, mas para ganhar mais dinheiro. No entanto, esse sacrifício não é experimentado como tal, ele é ocultado: nos sacrificamos agora para lucrar lá na frente.

Com a epidemia da covid-19, a verdade sacrificial do capitalismo veio à tona. De que forma? Somos abertamente solicitados a sacrificar (parte das) nossas vidas agora a fim de manter a economia rodando. Estou me referindo aqui à maneira pela qual alguns dos seguidores de Trump, por exemplo, diretamente exigiram que pessoas maiores de 60 anos de idade deveriam aceitar morrer a fim de sustentar o “american way of life” capitalista… É claro, os trabalhadores que exercem profissões perigosas (mineradores, metalúrgicos, caçadores de baleias) já vêm arriscando suas vidas há séculos – isso sem falar nos horrores da colonização, em que quase metade da população indígena foi erradicada – mas agora o riso está direta e explicitamente formulado, e não é exclusivo aos pobres. Pode o capitalismo sobreviver a essa mudança? Penso que não: ela sobrepuja a lógica do gozo eternamente adiado que permite com que o capitalismo funcione.

O obverso desse ímpeto capitalista incessante de produzir a cada instante novos objetos são as crescentes pilhas de restos inúteis, montanhas de carros usados, sucata eletrônica e assim por diante, tal como o famoso “cemitério de aviões” no deserto de Mojave na Califórnia. Nessas pilhas cada vez maiores de “coisas” inertes, disfuncionais, que não podem senão nos provocar espanto com sua presença inútil, é possível, por assim dizer, identificar o ímpeto capitalista em estado repouso. E será que algo dessa natureza não ocorreu com todos nós quando, com a quarentena, nossa vida social se paralisou? Vimos objetos que usávamos todo dia – lojas, lanchonetes, ônibus, trens e até aviões – simplesmente em estado de repouso, fechados, desprovidos de suas funções. Não poderíamos dizer que isso foi uma espécie de epoché imposta sobre nós? Tais momentos devem nos fazer pensar: será que vale mesmo a pena voltar ao pleno funcionamento desse mesmo sistema?

O mais difícil ainda está por vir

A verdadeira provação, contudo, não é tanto o lockdown e o isolamento, ela se dará quando nossas sociedades começarem a se movimentar novamente. Em uma coluna anterior aqui no Blog da Boitempo, comparei o efeito da epidemia de covid-19 sobre a ordem capitalista à “técnica dos cinco pontos que explodem o coração” da cena final do filme Kill Bill: volume 2, de Quentin Tarantino. A técnica consiste em uma combinação de cinco golpes desferidos com a ponta dos dedos em cinco pontos de pressão diferentes no corpo do oponente. Depois de sofrer o golpe, a vítima ainda pode seguir viva contanto que não se mova. Assim que virar as costas e completar cinco passos, contudo, seu coração explode e ela desaba… Ora, não foi assim que a epidemia da covid afetou o capitalism global? É relativamente fácil manter o lockdown e o isolamento, temos consciência de que trata-se de uma medida temporária; algo como dar uma pausa. Os problemas realmente vêm à tona quando nos vemos diante do imperativo de inventar uma nova forma de vida, uma vez que fica claro que não há mais possibilidade de retorno à antiga. Em outras palavras, os tempos realmente difíceis estão chegando agora.

Em um ensaio ainda inédito intitulado “Present Tense 2020”, W. J. T. Mitchell lê a temporalidade da epidemia através das lentes da tríade da antiguidade grega composta por Chronós, Aion e Kairós. Chronós personifica o tempo linear implacável que conduz inexoravelmente à morte de todas as coisas vivas. Aion é o deus do tempo circular, das estações, do ciclo do zodíaco, da imagem da serpente devorando a própria cauda, do eterno retorno. Kairós possui um aspecto duplo de ameaça e promessa – na teologia cristã, trata-se do momento da decisão fatídica, o momento no qual “a novidade vem ao mundo”, assim como no nascimento de Cristo.

A epidemia é em larga medida lida através das lentes de Chronós ou Aion: como um acontecimento no curso linear das coisas, como uma temporada ruim, um ponto baixo que cedo ou tarde será revertido. O que eu espero é que a epidemia siga a lógica de Kairós: uma catástrofe que nos impelirá a encontrar um novo começo. Para nossos liberais, a aparição inesperada de Trump foi um momento de Kairós, algo novo que estilhaçou os fundamentos de nossa ordem estabelecida. Para mim, Trump é apenas um sintoma do que já estava errado em nossas sociedades, e ainda estamos para ver o novo surgir.

Se não inventarmos um novo modo de vida social, não será apenas um pouquinho pior, mas muito pior. Mais uma vez, minha hipótese é de que a epidemia da covid-19 anuncia uma nova época na qual teremos que repensar tudo, inclusive o significado básico do que é ser humano, e nossas ações devem ir ao encontro de nossos pensamentos. Talvez hoje devamos inverter a décima primeira tese de Marx sobre Feuerbach: no século vinte, tentamos mudar o mundo de maneira rápida demais, e agora chegou a hora de interpretá-lo de uma nova maneira.

Fonte: Blog da Boitempo


Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

28 de julho de 2020

Como a flexibilização da quarentena nos afeta?

Matéria da revista Elle sobre as consequências do afrouxamento das medidas de isolamento 


Há cinco meses, a pandemia do Covid-19 se impõe como a nossa nova realidade. O pânico inicial levou muitas pessoas a enxergarem o isolamento social como estratégia de mitigação do problema, mas com a flexibilização da quarentena a angústia e a raiva viraram emoções cada vez mais presentes.
A pandemia expôs as nossas desigualdades tanto materiais quanto estruturais. À medida em que o tempo em isolamento avança para aqueles que permanecem em casa — mesmo com todo o conforto e recursos — fica difícil lidar com quem descumpre o isolamento por opção própria.
Nos indignamos ao assistir via redes sociais, ou por meio dos discursos de governantes, aqueles que relativizam a crise e usufruem de pequenos-grandes privilégios em tempos de exaustão emocional. Um post compartilhado de um céu azul na beira da praia ou cenas de bares lotados para quem só enxerga a parede de sua casa há meses, pode ser a gota d'água.
De acordo com a pesquisa do Datafolha do dia 29 de junho, apenas 12% dos brasileiros seguem em isolamento, saindo somente para realizar tarefas extremamente necessárias. Paradoxalmente, explode o número de vítimas da doença, e nunca antes tememos tanto o vírus: 47% da população afirmou sentir muito medo de ser infectado.
Como podemos navegar, então, por esta fase em que se desenha uma retomada do cotidiano, mas ainda convivendo diariamente com os efeitos da pandemia?
O MAL-ESTAR QUE DECORRE DO PACTO COLETIVO
Segundo Christian Dunker, professor do Instituto de Psicologia da USP, o isolamento social é uma espécie de pacto coletivo que criamos e que passamos a entender como uma regra em resposta ao "novo normal".
"Para interiorizar essa regra, a gente pensou que ela valia para todo mundo. Eu fiz uma renúncia, me impus severas abstinências – de planos, de afetos, de liberdade —, mas entendi esse sacrifício como um bem comum. Aquele que fura a quarentena abala o nosso processo de interiorização da regra, e é normal que a gente se sinta enganado."
Esse pacto coletivo pode ter diferentes motivações, como a nossa noção de cidadania, a nossa moral, o nosso altruísmo, a nossa capacidade de obedecer a uma ordem, de se sentir útil ou até mesmo a nossa hipocrisia. Em O Mal-estar na Cultura (1930), Freud reflete sobre as renúncias individuais que precisamos fazer para que a vida em sociedade seja possível, e expõe o quanto esse esforço também é acompanhado de um preço a ser cobrado.
"Aquele que fura a quarentena abala o nosso processo de interiorização da regra, e é normal que a gente se sinta enganado", Christian Dunker
"O que Freud chamou de mal-estar é o fato de que a renúncia toca pontos muito caros ao sujeito, como liberdade de escolha, de deslocamento, de expressão dos desejos. Não é tudo que se pode dizer e fazer, sob pena de comprometer o arranjo que permite a vida com o outro, e do qual todos podem se beneficiar", explica a psicanalista e pesquisadora em Linguística Aplicada (PUC-SP) Amanda Mont'Alvão. "É uma renúncia porque, como humanos, somos constituídos de desejos que pressionam por satisfação, e algumas destas realizações implicam no prejuízo ou até mesmo destruição de uma outra pessoa. Daí a necessidade de a sociedade possuir leis e instâncias mediadoras que estabeleçam e zelem por pactos coletivos possíveis".
Convivemos incessantemente com esse conflito e se em condições normais a renúncia individual em prol da coletividade já é desafiadora, que dirá em um contexto de muito medo e desigualdade. Do ponto de vista cognitivo, o desencontro de informações torna tudo ainda mais difícil, como explica Fabiano Moulin, neurologista da Unifesp.

"Nós precisamos de uma narrativa que contextualize o nosso sofrimento. E é aí que entram os nossos vieses, espécie de 'atalhos' que o nosso cérebro cria para facilitar os nossos processos. Dois deles, principalmente, permitem que a gente seja muito resiliente: a nossa sensação de pertencimento e o nosso senso de propósito."
No Brasil, porém, o especialista aponta que esses dois consensos foram destruídos pela forma como a pandemia foi encarada politicamente. Passamos a conviver com discursos simplistas de uma realidade complexa, resumidos a quem acredita no vírus ou não, quem espera um milagre salvador ou não, quem advoga pela retomada da economia ou não.
Mas há uma guerra simbólica que compõe a nossa realidade. À medida em que julgamos quem fura o isolamento, nos diferenciamos daqueles que preferem negar o real e nos aproximamos daqueles que defendem o discurso científico na construção de soluções para o enfrentamento da pandemia.
Apenas 12% dos brasileiros seguem em isolamento, saindo somente para realizar tarefas extremamente necessárias.
"Chegamos em um cenário que agora está mais claro: nem todos compartilham da mesma noção de realidade. Mas como você desmonta sistemas imaginários de quem nega o real? É preciso lembrar: o real se apresenta, e se reapresenta, e insiste. A Terra é realmente redonda. O vírus realmente existe. Mas a gente tem que se colocar numa posição subjetiva humilde para criar ferramentas de compreensão desse real", aponta a psicanalista e pesquisadora do Núcleo Diversitas (USP), Maria Lucia Homem. "Eu sei que gritar 'fascistas!' nas redes sociais pode trazer algum alívio, mas ainda acredito na comunicação não violenta como ferramenta para furar essa bolha de sentidos".
OS NOSSOS LIMITES EMOCIONAIS SÃO EXPOSTOS PELA PANDEMIA
Para os especialistas, durante o processo de reabertura das cidades, e de um potencial retorno à quarentena caso o nível de contaminação volte a aumentar, cada um vai precisar fazer uma avaliação individual de suas concessões. E é esperado que desse processo surjam emoções como culpa, vergonha, medo e depressão.
"Você pode até acreditar que a quarentena é importante e você pode querer cumpri-la à risca, mas todos nós temos limites psíquicos. Não somos infinitamente elásticos. A gente quebra. Precisamos ponderar a nossa moralidade versus a matéria-prima de que a gente é feito. E esse é um exercício muito difícil, porque significa que a gente precisa sair da nossa moral binária", explica Dunker.
Se até agora entendemos a quarentena como uma lei de tudo ou nada – ou você cumpre, ou você está fora dela — a situação que se impõe, sem qualquer perspectiva de acabarmos com o vírus a curto prazo, vai nos exigir uma outra racionalidade, igualmente ética.
Talvez, tenhamos que enxergar a nossa realidade com as diversas camadas que ela exige, e isso, segundo Dunker, envolve um criterioso trabalho de avaliação de riscos: quem é você, com quem sua quarentena se comunica, quais os custos disso e quais os riscos você apresenta para os outros.
É um trabalho que envolve análise de informação para sermos o mais prudente que podemos, mas também um exercício de coragem para conviver com aquilo que não conhecemos ou controlamos. No caso, o vírus.
Em tempos como o nosso, e também na pós-pandemia, muita reconstrução vai precisar ser feita. E o luto, seja de quem perdeu entes queridos ou do abandono de uma realidade que outrora existia, precisa de espaço para se estabelecer.
"Lidar com o sofrimento, com a impotência, chorar, falar sobre a finitude de nossos corpos e de nossas certezas, e também pedir ajuda. Por mais que cada um enfrente a pandemia com a sua subjetividade, precisamos tomar todas essas perdas como nossas, porque elas são. Um país que parou e perdeu mais de 60 mil vidas, muitas vezes de forma solitária, vai precisar aprender a honrá-las", reforça a psicanalista Mont'Alvão.

Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

25 de julho de 2020

Sobre a liberdade


Vladimir Safatle é filósofo, professor titular da cadeira de Teoria das Ciências Humanas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP). 
Neste vídeo, ele fala, para o Café Filosófico, sobre as possibilidades de pensar a liberdade depois da proposta do inconsciente de Freud, que nos coloca submetidos a esta instância psíquica. 




Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

30 de junho de 2020

"1 em cada 3 pessoas, se sentem muito estressados. E isso é muito"

Coronavírus: confinamento é 'o maior experimento psicológico da história', diz especialista em trauma


Fonte: BBC
Estima-se que pelo menos 2,6 bilhões de pessoas foram colocadas sob alguma forma de quarentena em março. Isso representa um terço da população mundial.
Em meados de junho, a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, já havia contaminado mais de 9 milhões de pessoas e matado pelo menos 470 mil. Alguns países da Europa e Ásia começaram a relaxar suas medidas de contenção, mas na América Latina muitos continuam com severas restrições. Esses longos meses de confinamento podem levar a consequências psicológicas em grande parte da população.
Segundo Elke Van Hoof, professora de psicologia da saúde na Universidade de Vrije, em Bruxelas, e especialista em estresse e trauma, estamos diante do "maior experimento psicológico da história".
A falta de atenção das autoridades à assistência psicológica durante a pandemia fará o mundo pagar o preço, diz ela.
A seguir, veja trechos da entrevista de Elke Van Hoof à BBC Mundo, feita por telefone.
BBC Mundo - O que a pandemia pode nos ensinar sobre como as pessoas respondem à adversidade?
Elke Van Hoof - Primeiro, que somos resilientes, ou seja, a maioria de nós conseguiu se reinventar e recriar nossas vidas da melhor maneira possível durante a quarentena.
Temos forças para nos tornar a melhor versão de nós mesmos, independentemente da situação difícil em que nos encontramos. Então, há uma mensagem de esperança.
Segundo, temos as habilidades e o treinamento para melhorar ainda mais, porque podemos treinar as pessoas para terem resiliência.
Poderíamos estar mais bem preparados se tivéssemos abordado a importância da saúde mental antes da covid-19.
Infelizmente, não vi a saúde mental recebendo a atenção adequada nos meses em que estivemos na pandemia. E acho que é certamente algo necessário, porque existe a possibilidade de que isso aconteça novamente.
Pode haver muitos obstáculos para a saúde mental daqueles que enfrentaram a doença em unidades de terapia intensiva ou têm um membro da família doente.
Aí vemos que existe um alto nível de estresse tóxico que devemos abordar e que precisamos monitorar. Também prevemos que haverá uma reação tardia nessa população, de três a seis meses após o final da pandemia.
Portanto, ainda não temos uma boa imagem do escopo do que estamos enfrentando. Esse período de pandemia e a longevidade das possíveis consequências é algo para o qual não estamos bem preparados. É realmente um grande desafio.
BBC Mundo - Por que diz que a quarentena é o maior experimento psicológico da história?
Van Hoof - Porque não sabemos como as pessoas vão reagir. O surto de Ebola, foi local, em menor escala e apenas em alguns países.
Agora, temos empresas que tiveram que fechar e um terço do mundo está confinado. Portanto, não temos um modelo, não sabemos o que vai acontecer. E isso para mim é a definição de um experimento.
BBC Mundo - Quais podem ser as consequências psicológicas?
Van Hoof - A quarentena tem algumas possíveis consequências mentais. A primeira pode ser a pessoa ter a sensação de estar sobrecarregada, não ser capaz de lidar (com obrigações), ter problemas para dormir, ficar mais irritada...
Se você tem uma estrutura familiar, não está sozinho. Mas se você não tiver, tudo se torna bastante solitário. Muitas pessoas estão em quarentena há mais de dois meses, apenas com o contato social de ir ao supermercado ou conectar-se online em uma reunião ou encontro social. Então, os sentimentos de solidão aumentaram muito.
Ao mesmo tempo, quando somos atingidos por uma pandemia de tal magnitude, também tendemos a ser mais solidários e a ter um maior sentimento de coesão social, porque todos sentimos o mesmo. Existem más consequências, mas também existem algumas que dão esperança.
Mas com pessoas vulneráveis ​​é outra coisa. Existe um alto risco de que suas condições tenham progredido ou de que terão de enfrentar desafios adicionais. Falo de abuso de substâncias, vítimas de abuso físico ou de abuso de poder. Veremos quais são as consequências em alguns meses.
Os números variam em todo o mundo, mas existe o risco de a violência aumentar em casa. Esse não é um sinal bom, pois indica que a quarentena tem um efeito severo nas pessoas. Existem muitas incertezas e é por isso que acho que o que está acontecendo deve ser monitorado de perto para que possamos nos adaptar o mais rápido possível.
Precisamos garantir que exista um sistema de atendimento psicológico bem coordenado, que permita às pessoas resolver seus problemas por conta própria, mas para que também possam procurar ajuda para pessoas ou familiares que estão com problemas.
BBC Mundo - É possível que pessoas desenvolvam distúrbios com estresse pós-traumático, como observamos em guerras?
Van Hoof - Sim. Se olharmos para as pesquisas que existem hoje, vemos que o nível de estresse está alto. No entanto, acreditamos que apenas uma pequena porcentagem desse nível de aumento se transformará de fato em transtorno de estresse pós-traumático aproximadamente de 5 a 10%.
E existem certos grupos de risco que podemos identificar. Os mais óbvios são as pessoas que trabalham na área da saúde porque estão na linha de frente.
Há também aqueles com membros da família que foram afetados ou que morreram devido à covid-19. E também mulheres com crianças pequenas, jovens e adultos jovens, porque não suportam o confinamento.Portanto, há vários grupos de alto risco que podem ser identificados. Mas os números ainda não estão claros e só saberemos com certeza em um ano, eu acho.
BBC Mundo - Que sintomas devem causar alerta?
Van Hoof - Uma pessoa pode desenvolver qualquer sintoma. Entre eles: sentir-se mais ansioso, sentir pressão no peito, falta de ar, não dormir bem, ficar mais irritado, ficar muito emotivo...
Temos que enfatizar que essas são reações normais a uma situação excepcional e é um sinal de que o corpo e o cérebro estão tentando se adaptar à nova realidade.Mas quando ficar alerta? Quando a pessoa não consegue mais funcionar normalmente em sua rotina. É aí que é bom procurar ajuda, e pode ser autoajuda ou apoio profissional.
Em muitos países, há sites nos quais uma pessoa que não está se sentindo bem pode obter ajuda. Uma boa ferramenta para saber quando você está em uma zona vermelha (alerta) é o que chamo de "pontuação APGAR (pela sigla em inglês)", que normalmente é usada para monitorar crianças pequenas e que agora adaptamos como uma ferramenta para saber quando alguém precisa fazer alguma coisa sobre seu emocional.
APGAR significa "aparência, desempenho, crescimento, emoções e relacionamentos".
A aparência se refere a que você não pareça estar bem porque não está dormindo ou se cuidando durante esse período, enquanto o desempenho pode ser baixo ou alto e funciona tanto no trabalho quanto em casa.
Crescimento é a capacidade e vontade de adquirir novas informações. Se você geralmente entende as coisas razoavelmente rápido e de repente se vê dizendo: "eu não estou entendendo o que estão tentando me dizer" e pede para as pessoas repetirem as coisas três vezes e ainda assim você não entende pode ser sinal de que seu cérebro não está tendo a capacidade ou a vontade de assimilar novas informações.
As emoções dizem respeito a como você as controla, se fica mais emotivo, mas também se mostra uma resposta mais agressiva. E os relacionamentos estão ligados a uma mudança dramática na maneira como você se relaciona com outras pessoas. Pode ser que você fique mais solitário ou procure outras pessoas porque tem medo de ficar sozinho.
A regra geral é que, se pelo menos dois desses cinco denominadores pararem de funcionar abruptamente, você deve procurar ajuda, pois pode estar sofrendo de estresse tóxico.
BBC Mundo - Por que diz que é necessário prestarmos atenção aos tratamentos psicológicos, do contrário, sofreremos consequências?
Van Hoof - Se não prestarmos atenção suficiente e dermos uma reação tardia ao estresse tóxico, as pessoas ficarão mal e não conseguiremos fazer a economia funcionar novamente. As empresas fecharam e, para recuperar a economia e prosperar novamente como sociedade, precisamos que as pessoas se sintam bem, sem estresse ou esgotamento. Portanto, se não prestarmos atenção suficiente à saúde mental, não haverá resiliência. Se não reagirmos rapidamente a possíveis problemas que as pessoas possam sofrer, teremos uma bomba-relógio. Essas pessoas são as mesmas de que precisamos para dirigir nossa sociedade após o confinamento.
BBC Mundo - No início da pandemia, você fez uma pesquisa para descobrir os efeitos do confinamento na saúde mental dos participantes. Que resultados observou até aqui?
Van Hoof - Cerca de 50 mil pessoas de todo o mundo participaram da pesquisa online. Os resultados mostram que tivemos uma queda geral na resiliência de nossa população de 10%. E registramos um aumento nos níveis de estresse tóxico na população geral de mais de 10%. Cerca de 30%, ou 1 em cada 3 pessoas, se sentem muito estressados. E isso é muito.
BBC Mundo - É tarde demais para agir?
Van Hoof - Nunca é tarde demais, mesmo que um país não esteja fazendo nada no momento. Você sempre ganha quando se encaminha para melhores cuidados de saúde mental para a população em geral. Temos muitas ferramentas, como assistentes sociais, psicólogos e autoajuda. Se você tentar os métodos de autoajuda três vezes e eles não funcionarem, é bom procurar ajuda profissional. Pergunte ao seu clínico geral e ele poderá encaminhá-lo para o melhor atendimento psicossocial possível. Não duvide.



Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.