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5 de fevereiro de 2020

Resposta de Maleval a Paul Preciado na 49ª Jornada da Escola da Causa Freudiana


Cometei da fala polêmica de Paul Preciado aqui no blog - e postei seu texto na íntegra - que critica uma posição assumida pelos psicanalíticas lacanianos atualmente no que diz respeito ao gênero e sexuação. 
As criticas de Paul, sobre este tema tão atual e necessário, levantaram um debate, já que vários psicanalistas responderam à sua intervenção, alguns incisivamente contra, outros compartilhando de suas ideias. 

Abaixo, segue a resposta de Maleval, psicanalista francês. 





Resposta à intervenção de Paul B. Preciado na 49ª Jornada da Escola da Causa Freudiana
Jean- Claude Maleval


Um longo comentário criticando a psicanálise, acusada de obsolescência, nunca havia ressoado na tribuna de um congresso de uma escola de Lacan antes do dia 17 de novembro de 2019. Não podemos duvidar que a diatribe de Paul B. Preciado vem testemunhar uma nova conjectura histórica.
Ele rejeita a binaridade dos sexos, considerada patriarcal, em nome de um construtivismo do gênero, que supostamente estaria mais comprometido com a modernidade. Ele ignora que a abordagem lacaniana da sexuação não é essencialista. Ela se afirma tão construtivista quanto a sua abordagem: não consideramos que o devir sexual seja determinado pela fisiologia (1). Existem fortes identificações contrárias ao sexo biológico entre os neuróticos. E existem suplências que passam pela transexualização.
No entanto, segundo Lacan, a escolha do sexo não está aberta à infinita diversidade de gêneros. Ele a concebe como sendo determinada por uma fixação de gozo em um sintoma, ao qual ele reduz a função fálica: fixação feita “toda” pelo dito homem, e não-toda pela dita mulher. Este é um dado histórico? É o patriarcado que gera o primado da referência fálica? A hipótese de Lacan (2) o relaciona a um efeito de linguagem sobre o falasser. Mortificando o vivente, o significante produz um limite que se impõe ao gozo de cada um - parcialmente, totalmente ou de modo algum (ele pode falhar). A conexão do gozo com a linguagem, que une a perda traumática do vivente (a) e sua cifragem significante (S1), constitui o que Lacan designa como a função fálica em seu último ensino (3). Embora de maneira diferente, ela vale tanto para o homem como para uma mulher. Ela é própria ao falasser qualquer que seja a conjuntura social na qual é construída (4). No entanto, ela leva a abordar o gozo, destaca Jacques-Alain Miller, "pelo lado onde ele é interditado" (5); enquanto P. B. Preciado o gostaria ilimitado.
            Considerando que "a pornografia diz a verdade da sexualidade" (6), P. B. Preciado postula, escreve Sophie Marret-Maleval, um corpo gozante "capaz de escapar da influência do significante", que o leva a "visar a correlação entre verdade e gozo", na busca pela "desalienação total" (7). A existência de um corpo biológico natural, não tocado pela linguagem, está no início de suas hipóteses; a partir de então, ele o concebe aberto a todas as construções possíveis. Na sua perspectiva, ele mesmo, hoje Paul, Beatriz ontem, o gozo é mal limitado por escolhas identitárias, voluntárias, temporárias, reversíveis e estendidas ao infinito. Por outro lado, segundo Lacan, existe um limite com o qual é preciso compor. Na época do Outro que não existe, fica claro que esse limite não é determinado por uma ordem simbólica. O modo de gozo, para a maioria dos sujeitos, se encontra restrito e limitado por uma captura contingente e singular a um significante. Disso resulta uma constatação: um modo de gozo próprio a cada um. Uma das conclusões mais seguras do passe, já esclarecida por Lacan, revela a produção de "esparsos disparatados" (8) e desfaz a ilusão de uma travessia comum.
A diatribe de P. B. Preciado certamente se baseou em uma leitura rápida de Lacan, que tendia a congelar sua abordagem em um binário da sexuação; no entanto, sua inserção em 2019, em um congresso de psicanálise, não pode ser considerada um evento menor. Os aplausos que pontuaram positivamente seus comentários várias vezes atestam que eles não deixaram de ecoar em um grande público. Por mais questionável que nos pareça seu discurso, ele não deixa de ter uma grande repercussão sobre os sujeitos cada vez mais numerosos que aderem a ele: ele modifica alguns de seus comportamentos e às vezes transforma voluntariamente seus corpos.
B. Preciado iniciou sua intervenção formulando questões que não devemos negligenciar muito rapidamente: quantos analistas da Escola (AE) (9) são homossexuais (10)? Quantos AEs são transexuais (11) ou transgêneros? É certo que o passe implica uma desidentificação que exclui se apresentar sob esses significantes, mas é ele compatível com esses modos de gozo? Como um analista que conhece hoje seu nó  subjetivo não borromeano pode abordar o passe? Como nenhum EA até agora se apresentou assim, a escolha se reduziria para ele, em renunciar a se introduzir na  experiência ou em dar uma forma neurótica ao seu testemunho? Nos dois casos, a investigação de Lacan sobre se tornar um analista sofre um abalo. Não há dúvida, porém, que no século XXI os gozos que determinam a passagem ao analista demonstram uma diversidade que vai muito além dos modos de gozo do século passado. Por que, por exemplo, uma substituição não poderia levar a isso?
A referência continuinista certamente forneceria uma solução fácil: seria suficiente no passe destacar o S1 do sinthoma sem se preocupar com as diferenças de funcionamento subjetivo. No entanto, trata-se de não ignorar a distinção entre o sinthoma "desabonado do inconsciente" (12) e aquele que, ao contrário, está articulado a ele. Até então, os passes parecem tratar apenas os últimos.
Além disso, uma discussão sobre a relevância do conceito de sinthome no autismo poderia ser evocada (13). O que o autismo tem a ver com o passe? Lembremo-nos de Jacqueline Léger, convidada da Primeira Jornada do Centro de Estudos e Pesquisas sobre Autismo (CERA) (14). Ela nos disse que, após uma longa análise, trabalhou por muitos anos como psicóloga clínica de formação analítica. Certamente ela não deu o passo para se tornar uma analista. Mas outras pessoas autistas o farão, se já não o tiverem feito. Quanto a saber se a prática de analistas não neuróticos irá se deparar com limites, a questão merece ser levantada. Seria muito ilusório, no entanto, supor que os analistas neuróticos nunca iriam se deparar com limites - se eles fossem bem analisados.
P. B. Preciado chamou nossa atenção para a estreiteza do modelo no qual o passe seria baseado. Devemos afirmar, contra a experiência, que a prática analítica é reservada aos neuróticos? Isso é pouco provável, exceto para retornar ao ato de Lacan que institui uma autorização que se baseia em uma decisão do analista. Portanto, por que limitar a investigação desejada por Lacan sobre tornar-se analista? Suas modalidades de ontem ainda são as de hoje? Não se costuma dizer que o passe não pode ser a verificação de qualquer conformidade? Levar Lacan a sério quando ele convida quem recorre à psicanálise a "alcançar em seu horizonte a subjetividade de seu tempo" (15) não implica uma renovação contínua do passe? - à semelhança por exemplo de um posicionamento acolhedor do casamento para todos. Certamente, nada proíbe um homossexual, um transexual, um transgênero, ou um autista de se apresentar a um passe, mas na prática eles não passam por ele, não o atravessam ou mesmo não o declaram. Pois o AE ainda não está obrigado a aderir a uma parte da ordem simbólica?
Uma dificuldade, no entanto, P. B. Preciado não deixou de enfatizar: os entrelaçamentos sempre persistentes da teoria psicanalítica com o discurso da psiquiatria. Como apresentar-se ao passe dando a entender que se é psicótico, perverso ou autista? Obviamente, o processo é dificultado por esses significantes. A ampliação do passe leva então à premissa de uma mutação da denominação dos funcionamentos subjetivos? Deveríamos falar de estrutura repressiva ou substitutiva? (16) Talvez seja melhor, para produzir uma ruptura mais radical, distinguir apenas entre o nó borromeano, o nó não borromeano e o nó pela borda?
Todas essas questões complexas sobre o passe e nossa terminologia hoje estão surgindo com maior força. Ainda é muito cedo para levantá-las? Mas quando chegará o momento certo? Devemos temer que elas abram um abismo? Ou devemos tentar entender melhor uma mutação já em andamento? A escolha que nos é oferecida é de sufocá-las, o que não as impediria de surgir, ou acompanhar seu progresso, sem deixar de considerá-las. Temos que ter cuidado para não deixar de ouvir a intervenção de P. B. Preciado: ele veio lembrar a psicanálise da necessidade de evolução permanente. Os modos de gozo são tributários das mudanças sociais. Também Lacan nunca para de apontar que "o inconsciente é a política" (17)!


1- São os psicanalistas que dizem se referir a Lacan tendo uma abordagem essencialista da sexuação que fazem com que a transexualidade seja considerada “uma loucura”: segundo Frignet: “é impossível não ser um homem ou uma mulher. A essa primeira impossibilidade, se soma uma segunda: a transformação exterior e o desejo pessoal do sujeito, é impossível modificar esse pertencimento. Somente a aparência será mudada, o sujeito, queira ou não, será para ele mesmo e para os outros, um homem ou uma mulher” (Frignet H., Le transsexualisme, Paris, Desclée de Brouwer, 200, p.149 & 128)
2 - A abordagem lacaniana da sexuação, como qualquer teoria, se baseia em hipóteses indemonstráveis, isso vale também para a teoria de gênero. Invocar a experiência analítica em favor de uma, ao invés da outra, seria recorrer ao que Lacan chamou de “carta marcada da clínica” (Escritos, p. 815).
3- “O falo é a conjunção do que chamei de esse parasita, ou seja, o pedacinho de pau em questão, com a função da fala”. (Seminário 23, p.16)
4- Ganharíamos no século XX em acentuar a abordagem lógica da função fálicas, que a reduz a uma barra sobre o gozo operado por uma cifragem significante, a fim de destacá-la mais radicalmente de qualquer imagem peniana.
5- J.-A. Miller, “Orientação Lacaniana, O Partenaire-sintoma” (1997-1998) lição de 18 de março de 1998
6- Preciado, B. Testo Junkie. Sexe drogue et biopolitique. Paris, Grasset, 2008, p. 218
7- Marret-Maleval S. “Sur Testo Junkie. Sexe drogue et biopolitique de Beatriz Preciado”, Ornicar? 58, 2018, p. 195-198
8- Lacan, Outros Escritos, p. 569
9-AE: título concedido por três anos àqueles cujo percurso e o fim da análise têm valor de ensino, ao final do procedimento do passe, instituído por Lacan, por sua vez, os passadores, analisandos ainda em análise, transmitem ao cartel do passe o testemunho do passante.
10- No que diz respeito ao sujeito homossexual, Miller afirma que a psicanálise visa “essencialmente obter que o ideal deixe de impedir o sujeito de praticar seu modo de gozo, [...] aliviar o sujeito de um ideal que o oprime por ocasião e colocá-lo em posição de sustentar seu mais-de-gozar, o mais-de-gozar que ele é capaz, o mais-de-gozar que lhe é próprio, ter uma relação mais confortável” (Miller & Laurent, O outro que não existe e seus comitês de ética, lição de 21 de maio de 1997, publicado em espanhol). Não compartilhamos as opiniões dos psicanalistas que afirmam ser capazes de identificar o normal e o patológico, tal como Charles Melman no jornal Le monde de 01 de outubro de 2005: “Façamos uma pergunta simples, a homossexualidade constitui uma patologia? É o que psiquiatria americana hoje rejeita. Se admitirmos que ela está organizada por uma defesa contra a diferença e a alteridade, neste caso, é incontestável que ela constitui”.
11- Quando a psicose ordinária é suplantada, por exemplo por uma transexualização bem assumida, ela constitui um dos modos de conformidade social, e nada autoriza a considerá-la como uma patologia. (ver Maleval J.-C., « Du fantasme de changement de sexe au sinthome transsexuel », Repères pour la psychose ordinaire. Paris, Navarin, 2019, p. 186-208).
12- Lacan J., « Joyce le symptôme I », em Joyce avec Lacan, Paris, Navarin, 1987, p. 24
13- Parece que a cura do autismo permite às vezes não liberar o S1 de um sinthoma, mas sim construir um S1 como síntese.
14- Jornada do Centro de Estudos e Pesquisas sobre o Autismo, Paris, 10 de março de 2018.
15- Lacan J., « Fonction et champ de la parole en psychanalyse » (1953), Écrits, Paris, Seuil, coll. Champ Freudien, 1966, p. 321.
16 : Cf. Maleval J.-C., Repères pour la psychose ordinaire, Paris, Navarin, 2019, p. 199-200.
17 : Lacan, Seminário 14, lição de 10 maio de 1967, disponível no blog Lacan em .pdf


Tradução para o português por Arryson Zenith Jr.
Versão original em francês disponível aqui 


Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
e investigas os temas relativos 
à psicanálise na atualidade e à clínica contemporânea. 

3 de fevereiro de 2020



"A ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranquilizador tão eficaz como o são umas poucas palavras boas"
S. Freud

Ilustração: Tute



Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
e investigas os temas relativos 
à psicanálise na atualidade e à clínica contemporânea. 

31 de janeiro de 2020

A teoria da 'química do cérebro' que não explica os transtornos mentais



Uma série de Twittes do psiquiatra, doutor em psiquiatria e professor da Unicamp, Luis Fernando Tófoli, reacendeu a discussão sobre a hipótese - nunca comprovada! - da causalidade química dos transtornos mentais. 
Acompanhando a discussão esbarrei com dois excelentes artigos que compartilho aqui: Por que a teoria da 'química do cérebro' não explica transtornos mentais... de Luiza Pollo e Desequilíbrio químico no cérebro é mito, de Michelle Muller.




Depressão, ansiedade e outros transtornos mentais são a soma de diversos fatores — pessoais, biológicos, ambientais... A lista de causas para um distúrbio psiquiátrico é extensa e varia de pessoa para pessoa. Tanto que os psiquiatras afirmam ser impossível encontrar um único "culpado". Por que, então, é tão comum ouvir que esses casos podem ser explicados simplesmente por um desequilíbrio químico no cérebro? Essa teoria vigorou por muito tempo, desde que a indústria farmacêutica descobriu que os remédios que reduziam os sintomas de depressão e ansiedade, por exemplo, aumentavam os níveis de alguns neurotransmissores no cérebro: em geral serotonina, dopamina e noradrenalina.
Mas espera: por que falar disso agora? Bem, não há nenhuma novidade bombástica sobre o tema, mas uma sequência de tuítes do professor Luís Fernando Tófoli, da Unicamp, causou alvoroço nesta semana. Sob o título "O mito do desequilíbrio químico como causa das doenças mentais", o doutor em psiquiatria explicou que os transtornos mentais não são comprovadamente causados pela carência de determinadas substâncias no cérebro, como se costuma acreditar. É muito (muito, sério, muito) mais complexo do que isso.
De onde veio essa ideia, então? A hipótese monoaminérgica, termo técnico que descreve a ideia de que os transtornos são causados por desequilíbrio químico, vigorou por muito tempo e ajuda a simplificar a explicação para nós, o público leigo, além de contribuir com a adesão ao tratamento. Isso porque a hipótese surgiu a partir de bons resultados com remédios, explica Tófoli. "Descobriram que existem remédios que melhoravam os sintomas da depressão. Depois, descobriram que eles agiam aumentando serotonina, dopamina e noradrenalina", afirma o psiquiatra. Foi natural juntar "dois mais dois" e chegar à conclusão de que a causa dos transtornos seria, então, a falta desses neurotransmissor no cérebro. O problema é que não há comprovação alguma disso.
Repete e melhora? Vamos a uma comparação: pense que você quebrou um braço e o médico te deu morfina no hospital. A dor não foi causada pela falta de opioides no corpo, certo? Mas, mesmo assim, a morfina fez a dor diminuir. Apesar de ainda não conhecermos exatamente as causas da depressão e da ansiedade, já conhecemos algumas opções de tratamento dos sintomas com psicofármacos comprovadamente eficazes.
Mas, se não é o desbalanço químico, então qual a causa? A resposta é anticlimática: ainda não sabemos. Depressão, ansiedade e outros transtornos psiquiátricos são multifatoriais, a soma de fatores pessoais, biológicos e ambientais. Não há um exame de sangue que possa identificá-los. Tófoli resume: "O diagnóstico é clínico. Tem que conversar com o paciente".
Ué, mas se os remédios funcionam... Sim, funcionam mesmo. Aliás, o próprio Tófoli defende o uso deles no tratamento. Mas é essencial que paciente e psiquiatra construam um tratamento que vá além dos fármacos, e inclua psicoterapia e outras abordagens. O psiquiatra Rodrigo Martins Leite, coordenador de relações institucionais do Instituto de Psiquiatria do Hospitais das Clínicas da USP, defende que a mudança no estilo de vida do paciente seja uma das prioridades. "Caímos na real de que não existe uma constante biológica tão clara quanto gostaríamos. Então precisamos sim de exercício físico, meditação, contato social, relações pessoais com afeto... A medicação pode ajudar, mas definitivamente não resolve o problema da existência humana", reflete. Estudos sugerem inclusive que mudanças na alimentação podem ser benéficas, principalmente quando levamos em conta evidências recentes de que a depressão pode ser um processo inflamatório. Mas, de novo: é difícil explicar transtornos psiquiátricos com apenas um fator.
Por que tanta gente acredita em uma hipótese ultrapassada? Antes de mais nada, a hipótese do desequilíbrio químico simplifica a explicação do médico para o paciente. "A teoria dos neurotransmissores é muito útil como ferramenta de trabalho, apesar de não conseguirmos mensurar [os níveis de químicos no cérebro] e bater o martelo. A gente acaba usando essa explicação para motivar o paciente a aderir ao tratamento", explica Leite. Para justificar o uso de um remédio que vai mexer nos neurotransmissores x, y e z, é mais fácil dizer que há um problema com eles. Além disso, essa explicação ajuda a reduzir o estigma do tratamento ao apontar um "culpado". São reações químicas, é a biologia, e ponto.
E tem a indústria, sempre ela. Não dá para esquecer que essa teoria ajudou a psiquiatria a evoluir, ressalta Tófoli, e ainda ajuda os médicos na clínica. Mas é também do interesse da indústria farmacêutica vender uma solução pronta, e há estudos que apontam que os grandes laboratórios ajudaram a alardear essa ideia. A quem possa interessar, essa relação é explorada com mais detalhes neste artigo da revista Piauí assinado por Marcia Angell, que foi diretora de redação do New England Journal of Medicine (NEJM) e escreveu o livro "A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos" (publicado pela editora Record em 2007). Ok, mas precisava ter mexido num tema tão delicado? Tófoli recebeu muitas críticas por ter tratado de um tema tão complexo no Twitter. Ele reconhece que algumas ideias não ficaram muito claras, como o fato de que ele não contesta a eficácia dos remédios. Ainda assim, o psiquiatra defende a importância de debater o tema, inclusive para que médicos e pacientes estejam sempre dialogando para definir e alterar o tratamento em conjunto, quando necessário. "O que funciona para uma pessoa não necessariamente funciona para outra. É preciso trabalhar para encontrar o arranjo adequado para cada um", afirma.



A ação prática das pílulas pode ser tentadora - e até necessária em alguns casos - mas ela acabou se tornando mais um perigoso excesso da sociedade, mais um ponto de desequilíbrio, disfarçado de solução.

Não existe nenhuma comprovação de que a que depressão, TDAH e outros distúrbios mentais sejam causados por baixa produção de certos neurotransmissores. Até quando esse mito será sustentado pela mídia e até por profissionais da saúde mental?
Muito pais mostram, inicialmente, grande resistência em medicar seu filho diagnosticado com Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Até serem informados que os estimulantes corrigem um problema que seria causado por um desequilíbrio químico no cérebro da criança. A teoria da baixa produção de dopamina, divulgada pelos laboratórios, foi recebida com entusiasmo por médicos, psicólogos e professores quando surgiram os medicamentos que provocam aumento nos níveis desse neurotransmissor. Afinal, agora poderiam corrigir, de forma prática e rápida, o "problema" da falta de uma substância no cérebro das crianças desatentas e inquietas.
Essa é a ideia que continua imperando nas diversas áreas ligadas à saúde mental infantil e à educação. Ao conversar com pais de crianças diagnosticadas com TDAH, muitos ainda comparam a necessidade de estimulantes à de reposição da insulina em diabéticos. O fato é que não existe nenhuma comprovação das raízes biológicas do transtorno. O que existem são especulações que se contradizem. E mesmo que se chegue em um consenso, a pouca produção de determinados neurotransmissores já pode ser descartada das possibilidades, pois há anos é repetidamente derrubada por inúmeras pesquisas.

Talvez por ser assimilada tão facilmente pela população, talvez por acender a esperança de uma cura rápida e simples, o desequilíbrio químico tornou-se a explicação mais aceita não apenas para o TDAH, mas para quase todo o tipo de transtorno mental - sendo a depressão e a esquizofrenia os dois grandes pilares que sustentam essa hipótese.
Convenientemente divulgada pelos laboratórios ainda antes do lançamento das marcas famosas de fluoxetina e principal argumento de muitas campanhas publicitárias nos países em que a propaganda de psicotrópicos pode ser feita diretamente ao consumidor, a teoria ainda está longe de ser enterrada. Na tentativa de derrubar o mito, o diretor do Instituto de Saúde Mental americano (National Institute of Mental Health - NIMH), Thomas Insel, já declarou que "as noções iniciais de que transtornos mentais são desequilíbrios químicos estão começando a ficar antiquadas". Isso foi em 2011. Muitos anos antes - em 2003 - o psiquiatra e pesquisador de Standford, David Burns, já havia revelado que mesmo tendo dedicado anos de sua carreira à pesquisa do metabolismo da serotonina no cérebro, ele nunca havia se deparado com "nenhuma evidência convincente de que algum transtorno psiquiátrico, incluindo depressão, seja ocasionado por uma deficiência de serotonina no cérebro". Quanto tempo vai levar para que os profissionais da saúde mental no Brasil abandonem esse argumento?

A popularização dessa hipótese colabora com o uso indiscriminado e irresponsável de psicotrópicos. Pode estar entre os fatores que explicam o aumento expressivo do uso de antidepressivos na última década em todo o mundo. De acordo com o National Health and Nutrition Examination Survey (2008), atualmente 23% das mulheres americanas tomam esses medicamentos - um índice que reflete a realidade ocidental, em geral. A certeza de que "produzem pouca serotonina" leva muitas pessoas a acreditar na cura milagrosa das drogas até no caso de depressão leve e moderada - em que esses medicamentos têm resultados comprovadamente iguais aos de placebos.
Autor de diversos livros sobre medicação psiquiátrica e consultor do Instituto Nacional de Saúde Mental, o psiquiatra Peter Breggin destaca que são as drogas que causam o desequilíbrio químico - e não o contrário. E o resultado desse desequilíbrio está evidente nas diversas reações de abstinência que sofrem os pacientes ao largar as medicações psiquiátricas.

No caso dos antidepressivos mais comuns, por exemplo - os ISRS (inibidores seletivos de recaptação de serotonina) - o neurotransmissor, liberado pela célula pré-sináptica, tem seu canal de receptação bloqueado. Assim, ao invés de concluir seu ciclo natural e retornar ao neurônio pré-sináptico, ele é acumulado entre as sinapses. No entanto, os neurônios têm receptores que monitoram o nível de serotonina na sinapse e como o cérebro é plástico, ele naturalmente vai regular a produção do neurotransmissor. Portanto, os antidepressivos causam - e não ajustam - o desequilíbrio químico. Evidências apontam que sua ação sobre a via serotoninérgica provoca o nascimento de novas células nervosas no hipocampo - região afetada nos casos depressão profunda. Isso explicaria o tempo, de cerca de três semanas, que os antidepressivos levam para começar a agir nesses casos.

O metilfenidado - estimulante usado para "corrigir" o TDAH - têm ação quase imediata sobre alguns dos sintomas comuns de crianças hiperativas. Assim como a cocaína, faz com que a dopamina se acumule nas sinapses por muito tempo, levando as células pré-sinápticas a liberar quantidades cada vez menores do neurotransmissor. Com o tempo, o cérebro ajusta a produção de neurotransmissores e a criança desenvolve tolerância à medicação, precisando de doses maiores. O desequilíbrio então realmente se estabelece, o que leva os médicos a receitar outras drogas para compensá-lo.
Para se certificar se tudo isso compensa em longo prazo, uma equipe de 18 pesquisadores, com apoio do Instituto de Saúde Mental americano (NIMH), investigou o desempenho de 579 crianças diagnosticadas com TDAH no período de oito anos. Maior pesquisa já realizada com essa finalidade, o "Estudo Multimodal de Tratamento para TDAH", publicado em 2009, concluiu que depois de um ano e meio, mesmo com o aumento contínuo de dose, as crianças medicadas não apresentaram melhor desempenho em nenhum aspecto com relação às que não receberam medicação. Depois de um tempo, portanto, restam apenas os efeitos colaterais do desequilíbrio provocado pela droga.
"A verdade é que ninguém sabe qual deveria ser a quantidade 'correta' de diferentes neurotransmissores. O nível dessas substâncias é apenas um fator em um complexo ciclo de influências que interagem, como vulnerabilidade genética, stress, hábitos no pensamento e circunstâncias sociais", escreve Christian Jarrett em Great Myths of The Brain (Os Grande Mitos do Cérebro).
A ponte do equilíbrio transformou-se numa corda bamba num mundo de tantos excessos. Buscá-lo passou a ser um desafio que coloca em jogo a saúde física e mental. A ação prática das pílulas pode ser tentadora - e até necessária em alguns casos - mas ela acabou se tornando mais um perigoso excesso da sociedade, mais um ponto de desequilíbrio, disfarçado de solução.


Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
e investigas os temas relativos 
à psicanálise na atualidade e à clínica contemporânea. 


28 de janeiro de 2020

49 anos sem Winnicott


Em 28 de janeiro de 1971 falecia o pediatra e psicanalista Donald Winnicott, grande referência na clínica com as crianças.



"A criança brinca para expressar agressão, adquirir experiência, controlar ansiedades, estabelecer contatos sociais como integração da personalidade e, acima de tudo, por prazer." Winnicott





"De fato, somos pobres se formos apenas sãos." Winnicott



Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
e investigas os temas relativos 
à psicanálise na atualidade e à clínica contemporânea. 

26 de janeiro de 2020

Sobre a clínica...








Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
e investigas os temas relativos 
à psicanálise na atualidade e à clínica contemporânea. 

13 de janeiro de 2020

Gênero, política e Paul Preciado

"Um processo de redesignação de gênero (...) é cruzar aquela que talvez seja, juntamente com a raça, a mais violenta das fronteiras políticas inventadas pela humanidade"

Em novembro de 2019, na 49º Jornada da Causa Freudiana, na França, O filósofo Paul Preciado fez uma apresentação que, além de ter sacudido algumas sólidas proposições da psicanálise, trouxe uma discussão muito interessante e atual para nos fazer pensar. 

Preciado nasceu na Espanha, em 1970, e dedicou seus estudos e pesquisas às questões de gênero, identidade, pornografia e sexualidade. Tem mestrado em Filosofia na New School, em Nova York, doutorado na Universidade de Princeton e foi professor de História Política do Corpo, Teoria de Gênero e História da Performance na Université Paris VIII. 
O autor aborda os temas a partir de sua própria experiência. 


“Mudar de sexo” não é, como quer a guarda do antigo regime sexual, dar um salto para a psicose. Mas também não é, como pretende a nova gestão neoliberal da diferença sexual, um mero trâmite médico-legal que pode ser completado durante a puberdade para dar lugar a uma normalidade absoluta (Preciado)

Ele iniciou sua jornada de transição em 2004, quando começou a autoadministrar pequenas doses de testosterona, num processo político e performático. Inicialmente transitou entre o masculino e o feminino - ou como ele mesmo designa "um espaço de reconhecimento de gênero que oscilava entre o feminino e o masculino, entre a masculinidade lésbica e a feminilidade King" - como o que hoje é considerado gênero fluido. Esta jornada é registrada no livro "Testo Junkie: sexo, drogas e biopolítica na era farmacopornográfica" (2008).

Posteriormente, o filósofo abre mão da fluidez e decide mudar de gênero, consolidando seu processo de transição em 2014, iniciando um protocolo médico-psiquiátrico de redesignação de gênero na Audre Lorde Clinic, em Nova York.
É a partir daí que Preciado  inicia suas considerações na Jornada da causa Freudiana.

Abaixo, segue a transcrição da conferência de Preciado traduzida por camilla Kushnir e retirada do Blog Lacan em PDF 





Bom dia, queridas damas, queridos cavalheiros, da Escola de psicanálise da França, damas e cavalheiros da Escola da Causa Freudiana, e não sei se vale a pena que se diga também bom dia a todos aqueles que não são nem damas nem cavalheiros, porque creio que não há entre vocês alguém que haja renunciado legal e publicamente à diferença sexual e que tenha sido aceito como psicanalista (...), depois de haver conseguido exitosamente o passe. Falo aqui de um psicanalista trans ou não binário que tenha sido admitido entre vocês. Se existe, permitam-me enviar a esse mutante, imediatamente, a saudação mais calorosa.
[Fala em espanhol] Também quero saudar aqui a todos os psicanalistas hispanofalantes da América Latina e da Espanha. Senhoras, senhores, e sobretudo todos os outros, aqueles que não são senhoras, nem senhores.
[Retorno à fala em francês] Em 1917, Franz Kafka escreveu Um relatório para uma Academia. O narrador do texto é um macaco que, depois de ter aprendido as linguagens humanas, se apresenta frente a uma Academia das mais altas autoridades científicas para explicar-lhes o que a evolução humana havia representado para ele.
O macaco, que se chama Pedro Vermelho, conta como foi capturado por uma expedição de caça organizada pelo circo Hagenbeck, como foi em seguida transportado a Europa e como logo conseguiu converter-se em um homem. Pedro Vermelho conta como aprendeu as linguagens humanas e como, para fazê-lo, e entrar na sociedade da Europa de seu tempo, teve que esquecer sua vida de macaco e tornar-se alcóolatra.
Mas o mais interessante, no monólogo de Pedro Vermelho, é que Kafka não apresenta sua história de humanização como uma história de liberação, mas sim como uma crítica do humanismo europeu.
Uma vez capturados, os macacos, dizem que não havia outra opção, mas que, ou bem morriam em uma jaula, ou bem viviam passando à jaula da subjetividade humana; e é, a partir desta nova jaula da humanidade, que se dirige à Academia científica.
Como o macaco Pedro Vermelho se dirigiu à Academia de científicos, me dirijo hoje a vocês, acadêmicos de psicanálise, desde minha jaula de homem transexual. Meu corpo, marcado pelo discurso médico e jurídico como transexual, caracterizado na maior parte de vossos diagnósticos psicanalíticos como sujeito de metamorfose impossível, segundo vosso colega Pierre-Henri Castel; estando, segundo a maior parte de suas teorias, mais além da neurose, na borda ou inclusive no interior da psicose; tendo, segundo vocês, uma incapacidade de resolver corretamente um complexo de Édipo, ou havendo sucumbido à inveja do pênis. Me dirijo a vocês, como um macaco humano de uma nova era.
Eu, enquanto corpo trans, enquanto corpo não binário, ao que nem a medicina, nem o direito, nem a psicanálise, nem a psiquiatria reconhecem o direito de falar nem a possibilidade de produzir um discurso uniforme de conhecimento sobre eu mesmo; aprendi como Pedro Vermelho, a linguagem do patriarcado colonial, vossa língua. Estou aqui para dirigir-me a vocês.
Dirão que recorro a um conto kafkiano para começar a falar-lhes, mas vosso colóquio me parece mais próximo da época do autor de “A metamorfose” que da nossa.
Vocês organizam um encontro para falar das mulheres na psicanálise em 2019 como se todavia estivéssemos em 1917, e como se esse tipo particular de animal, que vocês chamam de forma condescendente e naturalizada “mulher”, não tivesse sempre um reconhecimento pleno enquanto sujeito político; como se ela fosse um anexo ou uma nota em pé de página, uma criatura estranha e exótica entre as flores, sobre a qual há que pensar de tanto em tanto, em um colóquio em mesa redonda. Pois bem, haveria que organizar um encontro sobre homens brancos heterossexuais e burgueses, em psicanálise.
O discurso psicanalítico gira em torno do poder discursivo e político desse tipo de animal necropolítico que vocês tendem a confundir com o humano universal, e que é, ao menos até o presente, o sujeito da enunciação central no discurso das instituições psicanalíticas da modernidade colonial.
Não tenho, já verão, grande coisa que dizer sobre as mulheres em psicanálise, mas que eu também sou, como Pedro Vermelho, um fugitivo, que eu também fui, um dia, uma mulher em psicanálise; que me atribuíram um sexo feminino, e como o macaco mutante, também saí dessa jaula apertada, talvez para entrar em outra jaula; mas ao menos, dessa vez, por meus próprios pés.
Falo-lhes, hoje, desde essa jaula elegida e desenhada, do homem trans, do corpo de gênero não binário. Uma jaula política que é, em todo caso, melhor que a dos homens ou das mulheres, porque ao menos reconhece seu estatuto de jaula.
Queria transmitir-lhes hoje ao menos três ideias, se vocês me permitem. Com a estranha liberdade de falar-lhes desde uma posição discursiva impossível; pois enquanto está em trânsito, enquanto corpo de gênero não binário, mutante de uma humanidade binária e colonial que vocês representam, consagrei toda minha vida a estudar os diferentes tipos de jaulas onde os humanos se prendem.
Em primeiro lugar, gostaria de dizer-lhes que o regime da diferença sexual, com o qual trabalha a psicanálise, não é nem uma natureza nem uma ordem simbólica, mas uma epistemologia política do corpo, e, como tal, é histórica e mutável.
Em segundo lugar, queria informar-lhes, no caso de que não o saibam, que esta epistemologia binária e hierárquica está em crise a partir de 1940. Não somente por causa da resposta exercida pelos movimentos políticas de minorias dissidentes, mas também pela aparição de novos dados morfológicos, cromossômicos e bioquímicos, que tornam impossível a atribuição sexual binária.
Em terceiro lugar, gostaria de dizer-lhes que, agitada por estas profundas mudanças, a epistemologia da diferença sexual está em mutação, e vai ceder lugar, provavelmente durante os próximos dez ou vinte anos, a uma nova epistemologia.
O movimento trans-feminista, queer, de denúncia da violência hétero-patriarcal, mas também as novas práticas de filiação, de relação amorosa, de identificação de gênero, do desejo, da sexualidade, da nomeação, não são mais que indícios dessa mutação.
De cara com essa transformação epistemológica em curso vocês tenderão a dizer, senhoras e senhores psicanalistas da França, da América Latina, da Europa, do mundo. O que vão ter que dizer é o que vão fazer: Onde vão se localizar? Em que jaula querem estar/ser [être] presos? Como vão jogar suas cartas discursivas e clínicas, em um processo tão importante como este?
E mais, lhes peço alguns minutos de atenção, se vocês podem ainda, escutar ainda, o gênero não binário, e conceder-lhe um potencial de razão e de verdade.
Em primeiro lugar, senhoras e senhores e outros, o regime da diferença sexual que vocês conhecem e consideram como universal, e quase metafísico, sobre os que se apoiam e se articulam em todas as teorias psicanalíticas, não é uma realidade empírica nem uma ordem simbólica fundadora do inconsciente. Não é mais uma epistemologia do vivente, uma cartografia anatômica, uma economia política do corpo e uma gestão coletiva desta energia reprodutiva.
Se trata de uma epistemologia histórica que se constrói em relação a uma taxonomia racial, tanto como do desenvolvimento mercantil e colonial europeu, e que se cristaliza na segunda metade do século XIX.
Esta epistemologia, longe de ser a representação de uma realidade, é uma máquina performativa que produz e legitima uma ordem política e econômica específica: o patriarcado hétero-colonial. Antes do século XIX, o corpo e a subjetividade feminina não eram reconhecidos como sujeitos políticos. A mulher e as mulheres não existiam nem anatomicamente, nem politicamente, como subjetividade soberana antes do século XIX.
No regime patriarcal, anterior ao século XIX, somente o corpo masculino e a sexualidade masculina eram reconhecidos como soberanos. O corpo feminino e a sexualidade eram subalternos, dependentes e minoritários.
É interessante pensar que a psicanálise freudiana, como teoria do aparato psíquico, como prática clínica, aparece precisamente no momento onde se cristalizam as noções centrais da epistemologia da diferença sexual: o homem e a mulher definidos como anatomicamente diferentes e complementares por sua potência reprodutiva, como figuras potencialmente paternais e maternais, respectivamente, na instituição familiar, colonial, burguesa; mas também a heterossexualidade e a homossexualidade pensadas como normal e patológica, respectivamente.
A psicanálise, vista desde o ângulo da história do corpo abjeto, da história do monstro da sexualidade normativa, e a ciência do inconsciente, patriarcal e colonial. Lhes peço, por favor, não tentar negar a complexidade... perdão, a cumplicidade... e a complexidade, as duas, se vocês querem... a complexidade, assim como a cumplicidade, da psicanálise com a epistemologia da diferença sexual heteronormativa. Lhes ofereço a possibilidade de uma terapia política de vossa instituição. [aplausos]
Obrigado.
Mas esse processo não pode fazer-se sem uma análise exaustiva destes pressupostos. Não os refoulent pas, não os neguem, não os reprimam, não os desloquem. Não me digam que a diferença sexual não é crucial na experiência da estrutura do aparato psíquico em psicanálise.
Todo o edifício freudiano está pensado a partir da posição da masculinidade patriarcal do corpo masculino, heterossexual, entendido como um pênis eréctil, penetrante e ejaculatório. É por isso que as mulheres em psicanálise, esses animais estranhos entre as flores, com útero reprodutor e clitóris, são sempre e, todavia, um problema. É por isso que vocês têm a necessidade, todavia, no início do século XIX, de uma jornada para falar das mulheres em psicanálise. [aplausos]
Mas não me digam que a instituição psicanalítica não tem considerado, e não considera ainda, a homossexualidade como um desvio em relação à norma. Do contrário, como explicar que até faz muito pouco tempo não haviam psicanalistas podendo publicamente identificar-se como homossexuais? Lhes pergunto: quantos de vocês se definem hoje, inclusive aqui mesmo, nesta Escola da Causa Freudiana, publicamente, como psicanalista homossexual? [silêncio... seguido de aplausos]
Eu não forço a revelação de posições subjetivas privadas [risos]... de qualquer maneira, vejo que vocês não o fazem [risos], talvez não sirva, não sirva para nada.
O que lhes peço é o reconhecimento de uma posição de enunciação política, em um regime de poder hétero-patriarcal e colonial.
Contrariamente a o que pensa a psicanálise, não creio que a heterossexualidade seja uma prática sexual ou uma identidade sexual. Penso que é sim um regime político que tem reduzido a totalidade do corpo humano, vivente, e sua energia psíquica, a um potencial reprodutivo; uma posição de poder discursiva e institucional.
Os psicanalistas são epistemologicamente e politicamente ainda binários e heterossexuais, até que o contrário seja dito ou denunciado. E temos tido hoje aqui uma prova.
Eu não peço aos psicanalistas homossexuais para sair do armário – inclusive se pensa que isso te faria bem [risos] -; são os psicanalistas heterossexuais em vocês, a totalidade desta sala, os que devem sair urgentemente do armário da norma.
A psicanálise freudiana começou a funcionar desde finais do século XIX, como uma tecnologia de gestão do aparato psíquico, encerrada na epistemologia patriarcal, colonial, da diferença sexual. Não há tentativa na psicanálise freudiana de superar esta epistemologia, mas sim de inventar uma tecnologia, um conjunto de práticas discursivas e terapêuticas que permitam normalizar as posições de homens e mulheres, e suas identificações sexuais e coloniais dominantes (...).
Nesta epistemologia hegemônica os sujeitos patriarcais, coloniais, modernos, utilizam a maior parte de sua energia psíquica para produzir solidariedade normativa. Angústia, alucinação, melancolia, depressão, dissociação, opacidade, repetição, não são mais que os custos gerados para a manutenção desta epistemologia normativa. A psicologia não é uma crítica desta epistemologia dominante, mas sim a terapia necessária para que o sujeito patriarcal-colonial continue funcionando, apesar dos custos psíquicos enormes da violência indescritível deste regime. Mas esta epistemologia da diferença sexual, com a qual a psicanálise freudiana trabalha, mais além da crítica, lhes digo, tem entrado em crise depois da segunda guerra mundial. E pode ser – não estou seguro disso – se vocês são totalmente conscientes que esta epistemologia da diferença sexual, com a qual vocês continuam trabalhando, está hoje em crise. Está em uma profunda crise desde os anos 40.
A politização de subjetividades, de corpos considerados como abjetos nesta epistemologia, a organização de movimentos de luta pela soberania reprodutiva e política do corpo das mulheres e pela des-patologização da homossexualidade, como também a invenção de novas técnicas de representação de estruturas bioquímicas da vida, vai conduzir a uma situação sem precedentes depois dos anos 40. Os discursos médicos e psiquiátricos parecem ter cada vez mais dificuldades, desde os anos 40 do último século, para enfrentar a aparição de corpos nos quais não se pode imediatamente atribuir um sexo feminino ou masculino no nascimento.
Com as novas técnicas cromossômicas e endocrinológicas, e a expansão da medicalização do parto, cada vez mais bebês, antes chamados hermafroditas, aparecem. De cara para estes bebês, a comunidade científica-médica inventou uma nova taxonomia. O psiquiatra de crianças John Money, trabalhando na Universidade John Hopkins de Nova Iorque, deixa de lado a noção moderna de sexo, como realidade anatômica, e inventa a noção de gênero, para falar da possibilidade de produzir tecnicamente a diferença sexual. As noções de intersexualidade, transexualidade, aparecem também entre 1947 e 1960. Pela primeira vez, a medicina e a psiquiatria realizam com esforço a existência de uma multiplicidade de corpos e de posições sexuais mais além do binário. Mas, no lugar de mudar a epistemologia, a instituição médica, psiquiátrica, psicológica, decide modificar os corpos, normalizar a sexualidade, retificar as identificações.
Queria compartir, hoje, com vocês, a hipótese segundo a qual toda a psicanálise lacaniana, que nasce precisamente depois dos anos 40, sua re-leitura de Freud, seu rodeio pela linguística, é já uma primeira resposta a essa crise da epistemologia da diferença sexual. Creio que é possível dizer que Lacan tentou, como John Money, des-naturalizar a diferença sexual; mas, como John Money, terminou por produzir um meta-sistema que é quase mais rígido que a noção moderna de sexo e diferença anatômica. No caso de John Money este meta-sistema introduz a gramática do gênero, pensada como construção social e endocrinológica. Em Lacan, este meta-sistema – e vocês sabem muito melhor que eu – não é tampouco anatômico, mas sim aquele do inconsciente estruturado como linguagem, mas, como no caso de John Money, se trata de um sistema de diferenças que não escapa – desafortunadamente – ao binarismo sexual e a genealogia patriarcal do nome.
Minha hipótese é que Lacan não conseguiu des-fazer-se do binarismo sexual, por conta de sua filiação/apego político ao patriarcado heterossexual. Essa des-naturalização está conceitualmente em marcha; ele mesmo, não estava pronto.
A partir de 1960, com a comercialização da pílula anticoncepcional, depois com a des-patologização da homossexualidade, a epistemologia da diferença sexual entra no processo de questionamento e de mutação incontrolável. Hoje sabemos que um bebê a cada quatrocentos é identificado como intersexual. Não pode ser reconhecido nos gêneros ordinários. No curso dos último vinte anos, as crianças que têm sido operadas ou tratadas como intersexual, tem se organizado para pedir o fim da mutilação genital e os processos de reatribuição forçada. Ao mesmo tempo, que cada vez mais corpos começam a identificar-se como não-binários. De modo diferente nos Estados Unidos, mas também na Argentina, como vocês sabem, ou na Austrália, se reconhece hoje os gêneros não binários como uma possibilidade política.
Tenho o prazer também de contar a vocês que tem apenas umas semanas, minha amiga e colega, Judith Butler, se inscreveu no registro de estado civil da Califórnia como pessoa de gênero não binário. As identificações de heterossexualidade, homossexualidade, pensadas em relação com a capacidade reprodutiva dos corpos de sexo oposto, parecem cada vez mais obsoletas, de cara com a multiplicidade de técnicas de gestão da procriação assistida. Não somente a pílula anticoncepcional ou a pílula do dia seguinte, mas também a paternidade transexual, (...), gestação por outro, externalização do útero, etc.
A epistemologia da diferença sexual está em plena mutação. Assistimos a um processo de transformação na ordem da anatomia política e sexual, comparável àquele que levou a passagem da epistemologia geocêntrica à epistemologia heliocêntrica copernicana entre 1510 e 1730.
Nos próximos anos, deveremos elaborar coletivamente uma epistemologia capaz de dar conta da multiplicidade de viventes, que não reduza os corpos a sua força reprodutora heterossexual, e que não legitime a violência hétero-patriarcal e colonial.
Quando falo de uma nova epistemologia me refiro a começar um processo de ampliação radical do horizonte democrático, para reconhecer como sujeitos políticos todo corpo humano vivo, sem que a atribuição sexual ou de gênero seja a condição de possibilidade deste reconhecimento, social ou político.
Vivemos um momento – gostaria transmitir-lhes isso hoje – de uma importância histórica sem precedentes. A violência epistemológica da diferença sexual posta em questão pelo movimento feminista, homossexual, intersexual, transexual, queer, e apoiado igualmente pela confrontação de novos dados científicos, está em trânsito de mudar. Estes processos de mudança deste paradigma científico e político conduzirão ao reconhecimento, enquanto sujeitos políticos soberanos, de todo um conjunto de corpos que até agora haviam sido marcados como politicamente subalternos.
Neste contexto de transição epistêmica, honoráveis membros da academia de psicanálise da França, e da École de la Cause Freudienne, vocês têm uma enorme responsabilidade. Vocês têm... e têm que saber... de que lado querem colocar-se. Se querem permanecer do lado deste discurso patriarcal e colonial, e re-afirmar a universalidade da diferença sexual e da reprodução sexual, heterossexual; ou entrar, conosco, os mutantes deste mundo, em um processo crítico de invenção de outras formas de subjetividade política. [aplausos]
Vocês não podem recorrer – já termino... vocês não podem recorrer a cada vez aos textos de Freud e de Lacan como se estes tivessem um valor universal, não situado historicamente; como se este texto não tivesse sido escrito no interior deste epistemologia patriarcal da diferença sexual. Fazer de Freud e de Lacan a lei é também absurdo, como pedir a Galileu que retornasse aos textos de Ptolomeo ou a Einstein para seguir pensando desde a física de Aristóteles.
Hoje os corpos, outras vezes excluídos do regime da diferença sexual, falam e produzem um saber sobre eles mesmos. Os movimentos transfeministas, me too, nem uma a menos, operam uma transformação crucial.
Vocês não podem seguir falando do complexo de Édipo ou do Nome-do-Pai em uma sociedade onde as mulheres são objeto de feminicídios, onde as vítimas da violência patriarcal se expressam por denunciar a seus pais, maridos, chefes, namorados; onde as mulheres denunciam a política institucionalizada de violação; ou onde milhões de corpos descem às ruas para denunciar agressões homofóbicas, e as mortes, quase cotidianas, de mulheres trans, assim como as formas institucionalizadas de racismo.
Não podem mais seguir afirmando a universalidade da diferença sexual e a estabilidade das identificações heterossexuais e homossexuais em uma sociedade onde é legal mudar de sexo, onde podemos identificar-nos, como pessoas de gênero não binárias; em uma sociedade onde há já milhões de crianças nascidas de famílias não heterossexuais e não binárias.
Continuar praticando a psicanálise, utilizando a noção de diferença sexual e com instrumentos críticos como o complexo de Édipo seria hoje tão aberrante como pretender continuar navegando no universo com um mapa geocêntrico ptolemaico ou controlar as mudanças climáticas, ou afirmar que a Terra é plana. [aplausos]
Hoje... – sim, já sei, já termino -...; hoje meus queridos amigos psicanalistas, é mais importante escutar os corpos excluídos pelo regime patriarcal colonial, que reler Freud e Lacan. Não se refugiem nos pais da psicanálise. Vossa obrigação política é cuidar das crianças, não a de legitimar a violência dos pais.
É chegado o momento de colocar o divã na praça e de coletivizar a palavra, de politizar o inconsciente.
Nos enfrentamos com uma nova aliança necropolítica do patriarcado colonial e de novas tecnologias farmacopornográficas. Sem dúvida nenhuma, já estamos enfrentando uma nova farmacolonização crescente, (...), uma mercantilização da indústria do cuidado.
[Sussurros... o chamam: “Paul”]
Sim, penso que é necessário que pare.
[Risos, aplausos]
A última coisa. Creio que a tarefa que nos resta por fazer é começar um processo de des-patriarcalização, des-heterossexualização e de-colonização da psicanálise. [Aplausos] (...) uma psicanálise mutante ao redor desta mutação de paradigma. Talvez somente este processo de transformação, por mais terrível e desmantelador que pareça, mereça hoje, de novo, chamar-se psicanálise.



Fernanda Pimentel é psicanalista, doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ
e investigas os temas relativos 
à psicanálise na atualidade e à clínica contemporânea