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20 de abril de 2018

Última entrevista de Clarice Lispector



Última entrevista de Clarice Lispector, dada ao jornalista Junio Lerner no programa Panorama, em 1977. Os vídeos que vocês podem assistir abaixo são da reapresentação da entrevista de 1977 no programa 30 Anos Incríveis da TV Cultura, em 1990, apresentados por Gastão Moreira em três partes.

A primeira se dedica a exibição de boa parte da entrevista original. A segunda parte, além da entrevista, conta também com a contribuição das biógrafas Nadia Battella Gotlib e Olga Borelli, que também foi sectária de Clarice por mais de 10 anos. Maria Bethania encerra o episódio recitando trechos de livros
A terceira parte exibe o final da entrevista original e trechos do filme A hora da Estrela, além de depoimentos de Suzana Amaral, diretora do filme.










Testemunho de Julio Lerner sobre sua experiencia de entrevistar Clarice Lispector.

"De minha sala na redação de “Panoma” até o saguão dos estúdios tenho que percorrer cerca de 150 metros. Estou tão aturdido com a possibilidade de entrevistá-la que mal consigo me organizar naquela curta caminhada. Talvez falar sobre A paixão segundo GH… Ou quem sabe sobre A maçã no escuro e Perto do coração selvagem… Vou recordando o que Clarice escreveu. Será que li tudo? Em apenas cinco minutos consegui um estúdio para entrevistá-la.
São quatro e quinze da tarde e disponho de apenas meia hora. Às cinco entra ao vivo o programa infantil e quinze minutos antes terei de desocupar o estúdio. Estou correndo e antes mesmo de vê-la a pressão do tempo começa a me massacrar. Não terei condições de preparar nada antes, nem mesmo conversar um pouco. Não poderei sequer tentar criar um clima adequado para a entrevista. Eu odeio a TV brasileira! Só meia hora para ouvir Clarice. O pessoal da técnica foi novamente generoso e se empenhou para conseguir essa brecha. Olho o relógio, não consigo me organizar, estou correndo, olho novamente o relógio. Estou desconcertado, atinjo o saguão dos estúdios e a vejo ali, dez metros adiante, Clarice de pé ao lado de uma amiga, perdida no meio do vaivém dos cenários desmontados, de diversos equipamentos e de técnicos que falam alto, no meio de um grande alvoroço.
Paro diante dela, estou um pouco ofegante, estendo-lhe a mão e sou atravessado pelo olhar mais desprotegido que um ser humano pode lançar a semelhante. Ela é frágil, ela é tímida, e eu não tenho condições para explicar que o problema do tempo elevou meus níveis de ansiedade. Clarice me apresenta Olga Borelli, entramos e a conduzo ao centro do pequeno estúdio. Peço para que ela sente numa poltrona de couro de tonalidade café-com-leite. Clarice segura apenas um maço de Hollywood e uma caixa de fósforos, providencio um cinzeiro, os refletores malditos são ligados. Clarice me olha. O olhar de Clarice me interroga, só disponho de uma única câmera, o olhar de Clarice suplica, Olga se ajeita numa lateral escurecida, chega Miriam, a estagiária do programa e fica encolhida e calada, o calor está ficando insuportável e o ar-condicionado não está ajustado, são apenas quatro e vinte, Clarice tenta me dizer alguma coisa mas não falo com ela, preocupado em ajustar uma questão de iluminação, o hálito da fornalha já nos atinge a todos, devemos ter agora no estúdio uns 50 ou 60 graus, maldita TV, bendita TV do terceiro mundo que me possibilita estar agora frente a frente com ela, Clarice me olha melindrosa, assustada e seu olhar me pede para que a tranquilize.
“OK, Júlio, tudo pronto”, a voz metálica vem da caixa dos alto-falantes. Peço a toda equipe para sair, cabo man, iluminador, assistente de estúdio, agradeço. Clarice percebe que caiu numa arapuca e já não há como voltar atrás. Peço silêncio e depois de uns dez segundos ecoa um “gravando”.
Não conversamos antes e disponho apenas de 23 minutos. Estou completamente desconcertado, fico um minuto em silêncio fitando Clarice. Estou oco, vazio, não sei o que dizer. Clarice me olha curiosa, mas vigilante, defendida. Sou o senhor do castelo e — prepotente — guardo comigo a chave desta prisão. Ninguém pode entrar ou sair sem meu expresso consentimento. Todos devem se submeter à minha autoritária vontade.
A fornalha arde, meu coração dispara, minha boca está seca e debaixo destes tirânicos mil sóis sou o maior dos tiranos. Começa a entrevista. A entrevista avança. Seus olhos azuis-oceânicos revelam solidão e tristeza. Clarice está nua, não há perdão, Clarice agora está encapotada, ela se deixa agarrar, mas logo escapa, e volta, e me pega, e me sugere o longe, o não dizível, depois se cala. E quando nada mais espero, ela volta a falar. Faço uma antientrevista, pausas, silêncios, Clarice agora está fugindo para uma galáxia inabitada e inatingível, mas volta em seguida e, tolerante, suporta toda a minha limitação.
Acho que ela vai se levantar a qualquer instante e me dizer: “Chega!”. Clarice pressente que por trás de meu sorriso aparentemente compreensivo e de minha fala suave esconde-se um ser diabólico autodenominado “repórter” e que quer possuir sua intimidade. Seu corpo exprime receios, ela me afasta, mas de novo me atrai, suas pernas se cruzam e se descruzam sem parar e telegrafam que de repente ela poderá se levantar e partir."


Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

13 de abril de 2018

Jacques Lacan completaria hoje 117 anos ...



"O neurótico é um doente que se trata com a palavra, e acima de tudo, com a dele. Ele deve falar, contar, explicar-se a si próprio. Freud define a psicanálise como a assunção da parte do sujeito de sua própria história, na medida em que ela é constituída pela palavra endereçada a um outro
A psicanálise é a rainha da palavra, não há outro remédio." 
(Entrevista para revista Panorama, Itália, 1974) 




Sorbonne junho/1974 - Conferência sobre Joyce




Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

13 de março de 2018

Pos graduação em Psicanálise da Celso Lisboa

Quando o projeto é bom, a gente faz questão de divulgar! Faço parte do corpo docente da Pós graduação em Psicanálise e assino embaixo quanto à seriedade, comprometimento com a psicanálise e com os alunos. 

A próxima turma começa em abril e as aulas acontecem de quinze em quinze dias, aos sábados.  
As inscrições devem ser feitas diretamente com o Prof. Leonardo Miranda, coordenador do curso, no telefone (21) 99389-0932.
Os alunos indicados pelos professores têm 50% de desconto na mensalidade!




5 de março de 2018

Diálogos do Lacaneando - Alma, Amor e Desejo

O Diálogos do Lacaneando abre suas atividades de 2018 em Curitiba, com o tema ALMA, AMOR E DESEJO. O evento, que acontece na Livraria da Vila, é organizado pela jornalista e psicanalista Patrizia Corzetto e, dessa vez, conta com a presença das psicanalistas Ana Suy e Tatiana Assadi, e do músico José Eduardo Costa e Silva.

Conheço o projeto de perto e recomendo a todos que se interessam pelo tema. Participei em 2015 em São Paulo, em 2016 e 2017 em Curitiba e retorno agora em 2018 para São Paulo para mais uma manhã regada a psicanálise, filosofia e muita gente boa compartilhando suas experiencias clínicas, suas pesquisas e seu amor pela psicanálise. 





Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

19 de fevereiro de 2018

Notas sobre o desejo, de Ana Suy - 10 anos do ViaFreud!


Iniciando essa semana a série de posts em comemoração dos 10 anos do ViaFreud! #10anosViaFreud"

A cada semana (ou quinzena, ok?) postarei um artigo selecionado pelo próprio autor especialmente para os leitores do ViaFreud! Claro que não são autores quaisquer, são pessoas que fizeram - e fazem - parte do percurso do blog e que são importantes na minha formação, seja como referencia teórica, como professor, como parceiro de trabalho e pesquisa ou colega do doutorado... 

O primeiro escrito é da Ana Suy, com quem já troco figurinhas há 10 anos, desde o início do blog. Apesar de morarmos longe e termos mantido um contato virtual todo esse tempo, nossos percursos se cruzaram na UERJ no ano passado e acabamos nos conhecendo no doutorado. 



“Nota sobre o desejo. 
A gente não precisa beber todo o vinho do mundo num único jantar e nem todas as cervejas no começo do churrasco. Não precisamos dormir até entrar em coma e nem comer até vomitar. A gente não precisa ser amado até se deixar sufocar e nem amar até tirar o ar do outro. Não precisamos abraçar alguém tão forte até esmagar os ossos dela e nem beijar alguém com tanta intensidade que a deixe roxa (ao menos não sempre). Não precisamos estudar o tempo todo, nem trabalhar o tempo todo, nem tirar férias o tempo todo. Não é preciso que sejamos felizes ou tristes o tempo todo. A vida está nas oscilações. As grandes alegrias, assim como as grandes tristezas, só são sentidas em alguns intervalos. Nem toda falta dói, nem toda realidade nos angustia. As nossas fantasias, às vezes (muitas vezes) (quase sempre), são melhores do que a realidade e isso não significa que tenhamos que “criar menos expectativas” (como se fosse possível!), mas que talvez seja o caso de curtirmos a nossa capacidade de fantasiar. 
O desejo está aí para ser desejado e isso não significa que todos os desejos devam ser realizados (aqueles que fazem análise bem sabem o tanto de coisas que a gente deseja, mas que deuzolivre desses desejos virarem realidade). As demandas das outras pessoas sobre nós, estão aí, nem todas para serem atendidas, mas nem todas para serem recusadas. 
Freud nos ensina que não existe objeto de satisfação para o nosso desejo na realidade, que só há objeto de satisfação para o desejo na nossa fantasia, ou no nosso delírio. Assim sendo, nosso desejo nunca poderá ser plenamente satisfeito. Isso não significa que devamos ser cínicos e sequer irmos em busca daquilo que queremos, pois dizer que o nosso desejo não pode ser plenamente satisfeito não é o mesmo que dizer que o nosso desejo não pode ser parcialmente satisfeito. Então, que nos satisfaçamos parcialmente! Que sejamos não-todos felizes, mas ainda assim, felizes. Que sejamos não-todos leves, mas ainda assim, leves. Deixemos espaço para o desejo!"


Chema Madoz

"Há várias maneiras de amar. Há várias possibilidades de desejar. Freud diz que o ser humano tem uma predisposição à bissexualidade pulsional. Com isso ele afirma que a nossa sexualidade não é instintiva como a dos animais. Ninguém nasce sabendo que é homem ou mulher, nossa anatomia não garante nosso modo de nos posicionar na sexualidade. 
Assim Freud inaugura seu conceito de pulsão. O instinto é animal, a pulsão é humana. Se o instinto concede ao animal um saber o que fazer com sua existência, com sua sobrevivência (um animal selvagem não tem crise de ansiedade por estar entre muitos animais ou crise de culpa porque precisou matar seu semelhante para comê-lo), já o humano não carrega consigo um sentido para a vida, um saber o que fazer com seu corpo e com sua existência. 
Então, em nós, humanos, tudo isso será construído: o gênero, a sexualidade, como queremos gastar nosso tempo de vida, os valores que teremos, quem vamos amar, etc. Essas coisas serão construídas ao longo do tempo que, em psicanálise, chamamos de complexo de édipo. 
É como se viéssemos desprogramados para a vida e o complexo de édipo fosse o tempo de nos programarmos. E aí, ao longo da vida, vamos nos reprogramando. É por isso que, em 1905, quando a homossexualidade ainda era considerada uma patologia, Freud já dizia de 3 possibilidades de homossexualidades e afirmava que elas não eram patológicas ou degenerativas. 
É por isso que, em 1920, ao responder a carta que uma mulher escreveu para Freud pedindo ajuda para lidar com seu filho homossexual, Freud disse que a homossexualidade não era algo do que se envergonhar. 
É por isso que, no mesmo texto de 1905 (Três ensaios sobre a sexualidade), Freud disse que a homossexualidade era um problema, sim, mas que a heterossexualidade igualmente o era. 
Entendo que, é nessa linha de raciocínio que a psicanálise, entende que a "escolha" sexual de um sujeito (com muitas aspas, visto que é uma escolha não tão escolhida assim) - se é homossexual, se é heterossexual, se é bissexual, é apenas o modo dele de lidar com a sua sexualidade, que é pulsional e não instintiva. 
Porque, sim, somos seres pulsionais. Não amamos ou desejamos as pessoas porque queremos nos reproduzir e disseminar a espécie humana. 
Amamos e desejamos as pessoas porque é o nosso modo de lidar com nosso desamparo fundamental. Porque nascemos sozinhos e biologicamente imaturos para sobrevivermos sem um outro, e para que a gente possa se tornar gente, precisa se alojar na subjetividade de alguém. 
E depois a gente vai se separar de alguém e querer encontrar outro alguém que nos dê notícias do quão é bom e necessário para nós, humanos, fazermos laços com os outros. 
Não tem nada a ver com procriação, com Adão e Eva, com genes, com nascer para isso ou com nascer para aquilo. Tem a ver com o que cada um de nós pode fazer para dar conta dessa difícil tarefa de conjugar a vida com amor, desejo e gozo." 



Ana Suy é Psicanalista, Professora universitária, Doutoranda em pesquisa e clínica em psicanálise pela UERJ, Mestre em Psicologia pela UFPR, graduada, graduada em psicologia pela PUC-PR. 
Autora dos livros "Amor, desejo e psicanálise" (Ed. Juruá, 2015) e "Não pise no meu vazio" (Ed. Patuá, 2017). 
Escreve semanalmente às segundas-feiras para o coletivo Confraria dos Trouxas  e mantém a página Ana Suy no Facebook .




Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.



29 de janeiro de 2018

O ViaFreud completou 10 anos!

2017 acabou, 2018 começou e não deu nem tempo de fazer uma postagem de feliz natal ou de feliz ano novo, de tão corrido que foi esse segundo semestre.
Foi tanta coisa nos últimos meses de 2017: qualificação do doutorado, aulas das disciplinas que ministro na pós-graduação em Psicanálise e Cultura, artigos enviados para publicação, palestras em São Paulo, Curitiba, Rio... Sem falar nos consultórios em Copacabana e em Niterói, com os atendimentos, supervisões e orientações! 

Mas teve mais uma coisa que ficou de lado no meio de tantos compromissos de trabalho... O ViaFreud completou 10 anos em setembro, mais precisamente no dia 27 de setembro, e não deu tempo de comemorar! 

Então, para remediar essa falha grave, vou passar o ano de 2018 inteiro celebrando a primeira década do blog com textos e artigos dos amigos do ViaFreud - pessoas que acompanharam esta jornada desde o início e pessoas que chegaram ha menos tempo, mas que são tão importantes no meu percurso quanto os parceiros mais antigos - escolhidos e enviados especialmente para publicação aqui! 

O primeiro presente o ViaFreud já ganhou! O blog está todo de cara nova, template novo e mais enxuto para facilitar a busca de conteúdos. 


Quem diria que um projeto que surgiu num momento de muita angústia e indecisão ia ser o motor que me tiraria daquele lugar... Foi a escrita dos posts no blog que me levaram ao projeto de mestrado, que me direcionou ao doutorado, que me levou à docência na universidade.  

No fim das contas, não conseguir comemorar os 10 anos do ViaFreud por estar colhendo os frutos desse projeto nem foi uma falha tão grave assim, porque foi pra isso que ele veio! Para dar frutos! Agora, 10 anos depois, continuo essa jornada, rumo à mais 10 anos, mais frutos, a tese defendida, um livro publicado e um pós doutorado, talvez...


Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.


11 de dezembro de 2017

Christian Dunker: de Lacan a Lacração

Christian Dunker analisa efeitos das redes sociais no comportamento contemporâneo

Entrevista concedida ao jornal Estadão, em 2 de dezembro. 

Por Ronaldo Bressane
veja a entrevista na íntegra aqui
“E aí, bichô! Você se deu bem, eu não vou mais viajar então temos tempo, chegaí! Quer um café?” Assim o alemão grandalhão me recebe em seu consultório, em um simpático sobrado antigo no bairro do Paraíso, em São Paulo. Véspera de feriado, de repente sua viagem engasgou, abrindo espaço na caudalosa agenda do psicanalista paulistano de 51 anos. Com quase três décadas de clínica, Dunker reinventou-se como professor universitário na USP, youtuber contumaz e ensaísta prolífico: acaba de publicar Reinvenção da Intimidade – Políticas do Sofrimento Cotidiano, que em três meses de lançamento caminha para sua segunda edição. A coletânea de ensaios aprofunda e diversifica as temáticas de seu livro anterior, Mal-estar, Sofrimento e Sintoma(Boitempo), em que define o conceito de “sofrimento” como uma psicopatologia do dia a dia, alinhando os sintomas mentais a problemas sociais.
Um grande mérito na escrita de Dunker é a velocidade voraz na associação de ideias, o bom humor na formulação de conceitos e a fluidez na aproximação de escolas teóricas distantes. Assim, de um lado jogam Freud, Lacan, Klein, Badiou, Bauman, Adorno, Lipovetsky, Foucault, Marx, Benjamin, Arendt. De outro, batem bola Woody Allen, Beckett, Sophia Coppola, Clint Eastwood, Marguerite Duras, Lucrecia Martel, Ian McEwan, Nelson Rodrigues, irmãs Wachowski, Zizek, Jessé de Souza… Navegando entre conceitos psicanalíticos e novas nomenclaturas para males contemporâneos – como o narcisismo digital ou a normalopatia –, Dunker pula da discussão de relacionamento à lacração mais rápido do que você soletrar Complexo de Édipo. Chama todo mundo para a conversa e, ao contrário de muitos colegas, tem horror à solenidade sisuda. Aqui, o psicanalista formula teorias sobre os sofrimentos advindos do excesso das redes sociais, a apatia política, a cultura do ódio digital e até tenta psicanalisar os candidatos à presidência da República. Após três horas de papo, passarinhos cantavam e a luz caía sobre o consultório, enquanto Dunker desafiava, rindo: “Agora quero ver você colocar em ordem toda essa loucura que falamos, bicho.”
As redes sociais podem nos levar à depressão?
As redes nos impactam de duas maneiras. A primeira é afetar nosso sistema de identificação: imagens, linguagem escrita, velocidade da relação. Gira em torno de quem sou eu, quem é você, quem somos nós. Segundo: nosso sistema de demanda. Aí uma novidade: tem sempre alguém nos esperando, nos oferecendo algo. Entramos numa espécie de deriva: “Cause o meu desejo, ofereça um objeto, um serviço, uma facilidade”, como se a gente fetichizasse nossa atenção. As redes criam a experiência de supor que nosso clique é importante. Isso causa uma deformação no tamanho do eu. Você pode afirmar: eu amo mais isso e menos aquilo. Produzimos ofertas e certa arrogância. E fetichizamos: “Dei um unfollow no cara!”. Gera uma macrocefalia egóica, porque o ego cresce sem verdadeira referência no outro. E o outro é importante para regular nossas fantasias. Então vem um terceiro processo, depois da identificação e da demanda: a criação do ódio. Seria natural passar do like, da simpatia, da afinidade, para um percurso de viagem comum. Amigos estão na mesma viagem, estão engajados. Quando você tem uma fidelidade, um compromisso, vem a questão: o que descobrimos junto? Este terceiro polo está ligado à intimidade, às noções de público e de privado. Você não consegue passar dos grupos de WhatsApp para experiências de solitude, de incerteza, de compartilhamento de coisas que você não sabe – ali você só compartilha certezas sem nuances. O que acontece com essa inflação do eu? Como os outros não respondem ao seu sistema de identificação, seu mundo diminui. Conforme o seu ego cresce, a empatia pelos outros some. Assim, você só consegue falar com os outros que falam igual a você. Daí você tem a política de identidade, e não de interesses, utopias, ideologias, futuros possíveis. Você vive numa bolha e acha que só ela existe.
E é assim que ocorrem os linchamentos virtuais?
Primeiro você infla ideais, e esse excesso é opressor. O discurso sobre a sexualidade no mundo virtual ou é de pornografia indecorosa ou é de um puritanismo malsão. Quando algo nos oprime, tem de ser destruído. É necessário um processo de idealização e também um processo de devoração dos heróis. Quando uma personalidade é desmascarada em razão de um pecado que vem à tona, se transfere para ela o oposto do amor que havia antes. “Quero puni-lo muito mais do que ele merece.” São funções ligadas ao narcisismo, que é uma função de defesa baseada no julgamento. Julgo o Outro e me coloco fora da roda, me coloco como juiz. Esta é uma autoavaliação constante quando se vai pra rede. E é uma espécie de droga. Preciso ficar julgando: curto, não curto, curto, não curto. E fico voltando à rede sempre, para reconstruir a minha identidade de juiz. Só que isso é uma pirâmide. Então acabo resolvendo as questões com juízos cruéis, intolerantes, moralistas. Em seguida vem a depressão, o sentimento de vazio, de mal-estar. Afinal, num mundo onde só há contrato, julgamento, vítimas e carrascos, cedo ou tarde eu também vou virar réu – pois esta é a regra do jogo. 
Isso explica a polarização política nas redes, que tende a se acirrar em 2018, ano de eleições? 
Esse ponto Melanie Klein explica na figura do esquizoparanoide. Funciona assim: entre eu e você existe uma relação em que eu não te satisfaço e você não me satisfaz. Então vou brigar com você. Mas, na verdade, o problema não é você… é um cara lá fora. Aí, em vez de a gente pensar no que a gente tem em comum, que tal pensarmos em qual é o nosso inimigo? Precisamos nos purificar, porque no outro lado é que estão os ruins – aqui, eu e você ficamos numa boa. Precisamos então não decidir o que queremos, e sim reagir ao que os outros querem. Daí pensamos em como reagir com o petralha, o coxinha, o imigrante, o isentão… voltamos ao bode expiatório da tragédia grega. Vou bloquear a pessoa no Face, silenciar no Twitter, transformar o adversário em inimigo. O adversário não merece ter uma opinião contrária. Portanto pode ser destruído. 
Mas, mais estridente que essa cultura do ódio, existe uma massa apática. Apesar da crise política, as ruas não estão mais mobilizadas: onde estão as panelas? 
Na superfície existe o ódio, mas abaixo existe a vergonha. “Ah, então você apoiou o PT mesmo sabendo de coisas estranhas… Como?” Quando evoluiu-se para escândalos de corrupção, dá vergonha: “Puxa, lá atrás eu deveria ter sido mais crítico.” E do outro lado: “Então eu vou ser hostil à Dilma e apoiar o Temer? Aquele ato de destituição contra a Dilma virou apoio a corruptos?” Vergonha! “Ah, mas você bateu panela contra a Dilma e a favor do Temer?” “Eu não!” Aí você tem uma dissonância cognitiva. A pessoa se engana e sente vergonha. Foi enganada por um monte de lorota. Poxa, no fundo as pessoas têm algum sentimento crítico. De um lado tem uns caras enganados por uma esquerda que não fez o que queriam; de outro, caras enganados por um discurso contra a corrupção. A apatia e a imobilidade são causadas pela vergonha, que é um afeto introspectante: você esconde a cara, se fecha, não quer olhar. A vergonha desmascara a sua fantasia. Mostra como você é tolo, ridículo, infantil. Fica como criancinha enganada: “Enganei o bobo, na casca do ovo…” Assim surge o ódio. 
Recentemente o líder do MTST, Guilherme Boulos, que também é psicanalista lacaniano, contou que as pessoas que passaram a integrar o movimento têm menos transtornos mentais do que quando vagavam pelas ruas: como isso é possível? 
Os sem-teto organizados têm menos neuroses por causa do objetivo comum: a luta. Encontramos o mesmo fenômeno em Belo Monte, só que ao contrário. Junto com a jornalista Eliane Brum, levamos uma equipe de analistas para escutar pessoas que tinham sido desalojadas de uma ilha e postas criminosamente em assentamentos urbanos. Em três meses você observava suicídios, drogas, sintomas psicológicos inexplicáveis – com pessoas que então moravam em casas. Havia essa lacuna de entendimento: por que essas pessoas sofrem agora? Antes estava péssimo, não tinham teto nem água encanada. Só que antes essas pessoas tinham uma narrativa de sofrimento: todos nós juntos dividimos um peixe, todos nós fazemos juntos um mutirão. Existia um funcionamento em torno de um comum, que foi perdido com a chegada da hidrelétrica. No sofrimento, você cria um registro comum, você pode ter uma valência política, tanto geral quanto individual.


Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.