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30 de junho de 2020

"1 em cada 3 pessoas, se sentem muito estressados. E isso é muito"

Coronavírus: confinamento é 'o maior experimento psicológico da história', diz especialista em trauma


Fonte: BBC
Estima-se que pelo menos 2,6 bilhões de pessoas foram colocadas sob alguma forma de quarentena em março. Isso representa um terço da população mundial.
Em meados de junho, a covid-19, doença causada pelo novo coronavírus, já havia contaminado mais de 9 milhões de pessoas e matado pelo menos 470 mil. Alguns países da Europa e Ásia começaram a relaxar suas medidas de contenção, mas na América Latina muitos continuam com severas restrições. Esses longos meses de confinamento podem levar a consequências psicológicas em grande parte da população.
Segundo Elke Van Hoof, professora de psicologia da saúde na Universidade de Vrije, em Bruxelas, e especialista em estresse e trauma, estamos diante do "maior experimento psicológico da história".
A falta de atenção das autoridades à assistência psicológica durante a pandemia fará o mundo pagar o preço, diz ela.
A seguir, veja trechos da entrevista de Elke Van Hoof à BBC Mundo, feita por telefone.
BBC Mundo - O que a pandemia pode nos ensinar sobre como as pessoas respondem à adversidade?
Elke Van Hoof - Primeiro, que somos resilientes, ou seja, a maioria de nós conseguiu se reinventar e recriar nossas vidas da melhor maneira possível durante a quarentena.
Temos forças para nos tornar a melhor versão de nós mesmos, independentemente da situação difícil em que nos encontramos. Então, há uma mensagem de esperança.
Segundo, temos as habilidades e o treinamento para melhorar ainda mais, porque podemos treinar as pessoas para terem resiliência.
Poderíamos estar mais bem preparados se tivéssemos abordado a importância da saúde mental antes da covid-19.
Infelizmente, não vi a saúde mental recebendo a atenção adequada nos meses em que estivemos na pandemia. E acho que é certamente algo necessário, porque existe a possibilidade de que isso aconteça novamente.
Pode haver muitos obstáculos para a saúde mental daqueles que enfrentaram a doença em unidades de terapia intensiva ou têm um membro da família doente.
Aí vemos que existe um alto nível de estresse tóxico que devemos abordar e que precisamos monitorar. Também prevemos que haverá uma reação tardia nessa população, de três a seis meses após o final da pandemia.
Portanto, ainda não temos uma boa imagem do escopo do que estamos enfrentando. Esse período de pandemia e a longevidade das possíveis consequências é algo para o qual não estamos bem preparados. É realmente um grande desafio.
BBC Mundo - Por que diz que a quarentena é o maior experimento psicológico da história?
Van Hoof - Porque não sabemos como as pessoas vão reagir. O surto de Ebola, foi local, em menor escala e apenas em alguns países.
Agora, temos empresas que tiveram que fechar e um terço do mundo está confinado. Portanto, não temos um modelo, não sabemos o que vai acontecer. E isso para mim é a definição de um experimento.
BBC Mundo - Quais podem ser as consequências psicológicas?
Van Hoof - A quarentena tem algumas possíveis consequências mentais. A primeira pode ser a pessoa ter a sensação de estar sobrecarregada, não ser capaz de lidar (com obrigações), ter problemas para dormir, ficar mais irritada...
Se você tem uma estrutura familiar, não está sozinho. Mas se você não tiver, tudo se torna bastante solitário. Muitas pessoas estão em quarentena há mais de dois meses, apenas com o contato social de ir ao supermercado ou conectar-se online em uma reunião ou encontro social. Então, os sentimentos de solidão aumentaram muito.
Ao mesmo tempo, quando somos atingidos por uma pandemia de tal magnitude, também tendemos a ser mais solidários e a ter um maior sentimento de coesão social, porque todos sentimos o mesmo. Existem más consequências, mas também existem algumas que dão esperança.
Mas com pessoas vulneráveis ​​é outra coisa. Existe um alto risco de que suas condições tenham progredido ou de que terão de enfrentar desafios adicionais. Falo de abuso de substâncias, vítimas de abuso físico ou de abuso de poder. Veremos quais são as consequências em alguns meses.
Os números variam em todo o mundo, mas existe o risco de a violência aumentar em casa. Esse não é um sinal bom, pois indica que a quarentena tem um efeito severo nas pessoas. Existem muitas incertezas e é por isso que acho que o que está acontecendo deve ser monitorado de perto para que possamos nos adaptar o mais rápido possível.
Precisamos garantir que exista um sistema de atendimento psicológico bem coordenado, que permita às pessoas resolver seus problemas por conta própria, mas para que também possam procurar ajuda para pessoas ou familiares que estão com problemas.
BBC Mundo - É possível que pessoas desenvolvam distúrbios com estresse pós-traumático, como observamos em guerras?
Van Hoof - Sim. Se olharmos para as pesquisas que existem hoje, vemos que o nível de estresse está alto. No entanto, acreditamos que apenas uma pequena porcentagem desse nível de aumento se transformará de fato em transtorno de estresse pós-traumático aproximadamente de 5 a 10%.
E existem certos grupos de risco que podemos identificar. Os mais óbvios são as pessoas que trabalham na área da saúde porque estão na linha de frente.
Há também aqueles com membros da família que foram afetados ou que morreram devido à covid-19. E também mulheres com crianças pequenas, jovens e adultos jovens, porque não suportam o confinamento.Portanto, há vários grupos de alto risco que podem ser identificados. Mas os números ainda não estão claros e só saberemos com certeza em um ano, eu acho.
BBC Mundo - Que sintomas devem causar alerta?
Van Hoof - Uma pessoa pode desenvolver qualquer sintoma. Entre eles: sentir-se mais ansioso, sentir pressão no peito, falta de ar, não dormir bem, ficar mais irritado, ficar muito emotivo...
Temos que enfatizar que essas são reações normais a uma situação excepcional e é um sinal de que o corpo e o cérebro estão tentando se adaptar à nova realidade.Mas quando ficar alerta? Quando a pessoa não consegue mais funcionar normalmente em sua rotina. É aí que é bom procurar ajuda, e pode ser autoajuda ou apoio profissional.
Em muitos países, há sites nos quais uma pessoa que não está se sentindo bem pode obter ajuda. Uma boa ferramenta para saber quando você está em uma zona vermelha (alerta) é o que chamo de "pontuação APGAR (pela sigla em inglês)", que normalmente é usada para monitorar crianças pequenas e que agora adaptamos como uma ferramenta para saber quando alguém precisa fazer alguma coisa sobre seu emocional.
APGAR significa "aparência, desempenho, crescimento, emoções e relacionamentos".
A aparência se refere a que você não pareça estar bem porque não está dormindo ou se cuidando durante esse período, enquanto o desempenho pode ser baixo ou alto e funciona tanto no trabalho quanto em casa.
Crescimento é a capacidade e vontade de adquirir novas informações. Se você geralmente entende as coisas razoavelmente rápido e de repente se vê dizendo: "eu não estou entendendo o que estão tentando me dizer" e pede para as pessoas repetirem as coisas três vezes e ainda assim você não entende pode ser sinal de que seu cérebro não está tendo a capacidade ou a vontade de assimilar novas informações.
As emoções dizem respeito a como você as controla, se fica mais emotivo, mas também se mostra uma resposta mais agressiva. E os relacionamentos estão ligados a uma mudança dramática na maneira como você se relaciona com outras pessoas. Pode ser que você fique mais solitário ou procure outras pessoas porque tem medo de ficar sozinho.
A regra geral é que, se pelo menos dois desses cinco denominadores pararem de funcionar abruptamente, você deve procurar ajuda, pois pode estar sofrendo de estresse tóxico.
BBC Mundo - Por que diz que é necessário prestarmos atenção aos tratamentos psicológicos, do contrário, sofreremos consequências?
Van Hoof - Se não prestarmos atenção suficiente e dermos uma reação tardia ao estresse tóxico, as pessoas ficarão mal e não conseguiremos fazer a economia funcionar novamente. As empresas fecharam e, para recuperar a economia e prosperar novamente como sociedade, precisamos que as pessoas se sintam bem, sem estresse ou esgotamento. Portanto, se não prestarmos atenção suficiente à saúde mental, não haverá resiliência. Se não reagirmos rapidamente a possíveis problemas que as pessoas possam sofrer, teremos uma bomba-relógio. Essas pessoas são as mesmas de que precisamos para dirigir nossa sociedade após o confinamento.
BBC Mundo - No início da pandemia, você fez uma pesquisa para descobrir os efeitos do confinamento na saúde mental dos participantes. Que resultados observou até aqui?
Van Hoof - Cerca de 50 mil pessoas de todo o mundo participaram da pesquisa online. Os resultados mostram que tivemos uma queda geral na resiliência de nossa população de 10%. E registramos um aumento nos níveis de estresse tóxico na população geral de mais de 10%. Cerca de 30%, ou 1 em cada 3 pessoas, se sentem muito estressados. E isso é muito.
BBC Mundo - É tarde demais para agir?
Van Hoof - Nunca é tarde demais, mesmo que um país não esteja fazendo nada no momento. Você sempre ganha quando se encaminha para melhores cuidados de saúde mental para a população em geral. Temos muitas ferramentas, como assistentes sociais, psicólogos e autoajuda. Se você tentar os métodos de autoajuda três vezes e eles não funcionarem, é bom procurar ajuda profissional. Pergunte ao seu clínico geral e ele poderá encaminhá-lo para o melhor atendimento psicossocial possível. Não duvide.



Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

24 de junho de 2020

Jornada de Psicopatologia

Vou participar hoje da I Jornada de Psicopatologia da Faculdade Santo Agostinho, falando sobre os Transtornos Alimentares.

O evento é aberto e todos podem se inscrever no link: https://eventos.fasa.edu.br/jornada-psicopatologia




Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
fernandapimentel.com.br

18 de junho de 2020

Impactos psicossociais da pandemia nas crianças

Pesquisadoras falam sobre as novas orientações da Fiocruz sobre como lidar com as crianças nesse período do isolamento. 

Veja a matéria completa aqui. E a cartilha da Fiocruz aqui.

Fiocruz lança cartilha sobre os impactos psicossociais da pandemia nas crianças

De acordo com pesquisadora, é comum que as crianças se sintam mais irritadas e tenham comportamentos agressivos

Ainda que as crianças façam parte do grupo de menor risco diante da pandemia causada pela covid-19, também estão tão suscetíveis aos impactos da situação na saúde mental quanto os adultos e idosos.
Os efeitos nas crianças podem ser observados de maneira acentuada quando se soma às desigualdades econômicas que desembocam em condições de vulnerabilidade sobre a experiência da infância.
É partindo da constatação desse cenário que o Centro de Estudos e Pesquisas em Emergências e Desastres em Saúde, da Fundação Oswaldo Cruz (Cepedes/Fiocruz), lançou a cartilha “Crianças na pandemia covid-19”, que faz parte da série “Saúde Mental e Atenção Psicossocial na Pandemia Covid-19”, sob coordenação da pesquisadora Débora Noal e de Fabiana Damásio, diretora da Fiocruz Brasília.
O objetivo da cartilha é apresentar os fatores de alterações emocionais e comportamentais apresentadas pelas crianças durante a pandemia, além de abordar casos específicos como aqueles que envolvem refúgio, migração e deficiência física e intelectual. 
De acordo com Débora Noal, pesquisadora da Fiocruz que falou com o Brasil de Fato sobre a cartilha, entre as reações mais observadas nas crianças durante a pandemia estão maior irritabilidade, alteração do padrão de fome e sono, medo e comportamentos mais agressivos. Confira a entrevista na íntegra: 
O que é e qual é o objetivo da cartilha?
Essa cartilha é um compilado de uma grande visão temática com mais de 2 mil artigos sobre os impactos, as reações mais comuns, o mais frequente, com relação à epidemias, mas principalmente a essa pandemia de covid-19.
Tem algumas experiências e alguns indicadores que nós trouxemos das epidemias como  Sars e Ebola, mas é principalmente um grande compilado desses materiais das reações mais comuns e também com ferramentas e dicas aos pais ou cuidadores o que e como fazer, se aproximar das crianças, entender como elas expressam sofrimento nesse tipo de pandemia, e o que fazer a partir disso.
Lembrando que essa cartilha é uma junção de muitos pesquisadores de várias universidades, principalmente das federais brasileiras, mas também de convidados nacionais e internacionais. 
O objetivo dessa cartilha é apresentar quais são os aspectos referentes à saúde mental e atenção psicossocial nas crianças que estão vivenciando a covid-19. E, nessa cartilha, nós destacamos em particular essas expressões que estão relacionadas à intensificação das interações familiares, articuladas à fragilização do funcionamento das redes de apoio, já que a maior parte das famílias não pode contar com a creche, as escolas, a rede de apoio afetivo, os avós, tios, vizinhos, amigos. 
E além disso nós enfatizamos como promover essa atenção às crianças que têm demandas específicas de saúde, e também as crianças refugiadas, migrantes. Esse também é um grande diferencial dessa cartilha: abordar outros públicos.
Que tipo de reações as crianças podem ter frente à pandemia? 
Cada criança tem sua forma de demonstrar sofrimento e normalmente esses cuidadores mais frequentes, pais e mães, que estão mais próximos da criança, já conseguem identificar quais são essas características, de como costumam se alterar no comportamento da criança.
Mas lembrando que em termos estatísticos, das reações mais frequentes, nós destacamos a dificuldade de concentração, irritabilidade maior, a criança acaba com comportamentos mais agressivos às vezes, tendo manifestações que não teria fora da pandemia, crianças que acabam demonstrando muito mais medo, de escuro, da noite, de sair de dentro de casa.
Para as crianças maiores é muito comum a sensação de tédio. Então em crianças que já estão acostumadas a algum nível de independência, a tendência é que tenham um tédio maior. Sensação de solidão para algumas. Alteração de padrão de fome e alimentação é extremamente comum.
Então as crianças, às vezes, têm mais dificuldade para dormir, transtorno de alimentação, não querem comer mais nada ou só os mesmos alimentos. Muitas vezes uma criança que não chupava mais o dedo e nem usava mais fralda, acaba regredindo a um comportamento como esse. Todas essas reações são consideradas esperadas em um momento de pandemia.
E em relação às crianças refugiadas? Há alguma diferença?
Algumas diferenças em relação às crianças refugiadas é que normalmente elas já vêm sem essa rede apoio socioafetivo. Inclusive, tem mais dificuldade de ver qual é a alteração de comportamento porque não tem essa rede desde as estruturas básicas, não tem alimentação, local para dormir. Então tem muito mais dificuldade de ter acesso à lavagem das mãos, do sabão. 
E muitas vezes dificuldade de expressão através da cultura. Muitas vezes os cuidadores não são pai e mãe, têm essa relação institucionalizada ou está em um abrigo, casa de passagem, e muitas vezes culturalmente a gente vai precisar entender qual é a expressão de sofrimento daquela cultura.
Lembrando que não existe um refugiado único. A gente tem uma série de culturas diferentes dentro da mesma estrutura. Então [o desafio é] tentar fazer essa leitura dentro desse grande diferencial que são as várias culturas ao mesmo tempo.
Parte das nossas sugestões para essas crianças é tentar fazer pontes com a cultura, ou seja, quais são as estratégias e ferramentas que aquela criança daquela cultura específica utilizava antes da pandemia e antes da travessia de uma fronteira? Ou seja, como estabelecer pontes para que essa criança se sinta mais confortável na própria pele? 
Esse é um ponto importante, estabelecer pontes com essas ferramentas que as crianças já utilizavam, e muitas vezes a nossa ponte vai ser o adulto mais próximo dela, então vai ser mais fácil de cuidar. Porquê? Porque muitas vezes essas criança já vêm de uma situação de violência, de institucionalização, de um risco eminente de morte. Então a aproximação de adulto, às vezes, fere mais ainda, ainda que esse adulto tente ajudar. Então muitas vezes o nosso trabalho deve se dar pelo adulto.
Como lidar com essas reações?
O primeiro passo para gente conseguir ajudar as crianças é tentar apoiar por meio de uma escuta sensível, o que a gente chama de escuta ativa. Aquilo que eu vejo, aquilo que eu escuto, que eu sinto de diferente... A capacidade que eu tenho, inclusive, de me aproximar corporalmente dessa criança. Sempre tentando incentivar a busca por apoio, junto aos pais, para essa promoção de práticas parentais positivas, ou seja, essa aproximação positiva dos familiares com essa criança.
Muitas vezes o que a criança precisa é da presença física. Mesmo que a criança não fale nada, só de ela saber que existe um adulto mais próximo e disponível, vai fazer muita diferença.
A melhor forma sempre de cuidar de uma criança é fazer com que os adultos em seu entorno, sejam os pais ou as pessoas responsáveis por essa criança, demonstrem o máximo possível de calma, tranquilidade e segurança, porque a criança aprende muito mais pelo comportamento do que pelas palavras. Não basta só dizer "fica tranquilo, fica calmo". O adulto vai ter que mostrar que naquele entorno dele está confortável dentro daquele estrutura, por mais difícil que seja nesse momento de pandemia.
O que é aceitável e o que deve ser tratado com ajuda médica? Quando é necessário um ponto de vista mais especializado?
Lembrando que nos primeiros três meses, que é o que a gente está vivendo ainda agora, as reações são consideradas esperadas, e a gente quer, inclusive, que a criança demonstre mais irritabilidade, confusão, dificuldade para se concentrar. A gente espera isso, a gente vai mudando nosso comportamento.
Alguns critérios vão servir para determinar se aquele comportamento já começa como uma reação que vira um sintoma e que pode vir a desencadear alguma psicopatologia, principalmente se são sintomas persistentes, se é um sofrimento intenso que a criança não consegue brincar mais, se relacionar, deixa de se alimentar... Nesse momento, a gente começa a pensar na possibilidade de alguma complicação.
Para algumas crianças, muitas vezes, acontece a auto agressão e agressão a outras crianças, automutilação. Então essas são informações de alerta para o adulto começar a pensar já numa possibilidade de buscar um auxílio especializado.
Então lembrando que há um comprometimento significativo do funcionamento social do cotidiano, mais dificuldade nas famílias, não tem uma rede de suporte. A mãe ou pai já se sente no limite, que não tem mais a possibilidade de conseguir ajudar. Às vezes existem nas famílias problemas relacionados, por exemplo, a dependência de álcool ou outro tipo de droga. Às vezes depressão, psicose. Isso tudo a gente já vai pensando em um encaminhamento mais rápido.

Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

12 de junho de 2020

Para o dia dos namorados


No dia dos namorados vamos pensar o amor na atualidade da pandemia com dois vídeos da maravilhosa Rita Von Hunty.
No primeiro ela aborda os aplicativos de relacionamento e os processos de reificação e falência na capacidade de sustentar narrativas, diálogos e relações que se evidenciam no cenário atual.
No segundo, onde cita Lacan no seminário 6 - O desejo e sua interpretação, Rita aponta o imperativo da nossa época - "seja feliz!" - e o quanto isso nos aliena de nosso próprio desejo. 







Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

3 de junho de 2020

Epidemias e seus impactos na história da humanidade

Leandro Karnal fala, no Café Filosófico, sobre Epidemias e seus impactos na história da humanidade e nos ajuda a entender um pouco mais da situação atual a partir da analise histórica de outras epidemias em outros momentos.


"Ao longo da história, epidemias provocaram medo, mortes, produziram culpados, teorias conspiratórias... mas também promoveram avanços da ciência, novas demandas políticas, sociais, econômicas... despontaram líderes responsáveis e criatividade. Que lições podemos aprender com a história? 
Diversos pensadores apontam algumas direções e legados desta crise que a pandemia da COVID19 trouxe ao mundo. Este programa, gravado no formato live (seguindo a orientação da OMS), traz uma análise do historiador Leandro Karnal sobre como a humanidade viveu os impactos causados por epidemias ao longo do tempo e como o momento atual pode também promover mudanças fundamentais na maneira como temos vivido até aqui."





Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

2 de junho de 2020

O dia que descobri que minha mãe era gorda… Por Kasey Edwards


Kasey Edwards é uma colunista e autora australiana, que nos presenteou com esse belíssimo texto onde ela relata, em forma de carta, a experiência de presenciar a relação dolorosa de sua mãe com seu copro e seu peso. 
O texto original está neste link.



Querida mãe,
Eu tinha sete anos quando descobri que você era gorda, feia e horrorosa.
Até então, eu acreditava que você era linda – em todos os sentidos da palavra. Eu lembro de fuçar os antigos álbuns e ficar um bom tempo olhando para fotos suas no deck de um barco. Seu maiô branco, tomara que caia, parecia glamuroso como o de uma estrela de cinema. Sempre que eu tinha a chance, tirava aquele maiô maravilhoso do fundo do seu armário e ficava imaginando quando é que eu seria grande o suficiente para vesti-lo, quando é que eu seria como você.
Mas numa noite, tudo isso mudou. Estávamos todos vestidos para uma festa e você me disse:
“Olha para você, tão magra e bonita. E olha para mim, gorda, feia, horrorosa.”
De primeira, não entendi o que você quis dizer.
“Você não é gorda.” - eu disse, inocente e com sinceridade - ao que você respondeu, “Sim, eu sou, querida. Sempre fui gorda, desde criança.”
Nos dias seguintes, eu tive algumas revelações doloridas, que moldaram a minha vida toda. Concluí que:
1. você deveria ser mesmo gorda, porque mães não mentem.
2. gordo é sinônimo de feio e horroroso.
3. quando eu crescesse, seria como você e, portanto, seria gorda, feia e horrorosa também.
Passados alguns anos, eu revivi essa conversa e todas as centenas de outras que vieram depois e tive muita raiva de você. Por não se julgar atraente ou digna de atenção. Por ser tão insegura. Porque, como meu grande modelo de mulher, você me ensinou a agir assim também.
A cada careta que você fazia em frente ao espelho, a cada nova dieta do momento que iria mudar sua vida, a cada colherada culpada de “ai, eu não devia”, eu aprendia que mulheres deveriam ser magras para serem dignas e socialmente aceitas. Que meninas deveriam passar por privações porque a maior contribuição delas para o mundo era a aparência física.


Exatamente como você, eu passei a minha vida inteira me sentindo gorda – (nem sei quando foi que “gorda” se tornou um sentimento). E porque eu acreditava que era gorda, também me achava imprestável.
Mas os anos se passaram. Sou mãe. E sei que te culpar por minha péssima relação com meu corpo é inútil e injusto. Hoje entendo que você também é um produto de uma longa linhagem de mulheres que foram ensinadas a se odiar.
Olha só para o exemplo que a vovó te deu. Era uma vítima da própria aparência, e fez regime todos os dias da vida dela até morrer, aos 79 anos. Costumava se maquiar para ir ao correio, por medo de alguém vê-la de cara lavada.
Eu lembro do “suporte” que ela te deu quando você anunciou que papai tinha te deixado por outra mulher. O primeiro comentário dela foi, “Eu não entendo porque ele te deixaria. Você se cuida, usa batom. Entendo que você esteja acima do peso, mas não é muito.”
Papai também não te acalentava.
“Meu Deus, Jan”, uma vez ouvi ele te dizer. “Não é difícil. Calorias consumidas x calorias gastas. Se você quer perder peso, você só tem que comer menos.”
Aquela noite, no jantar, eu assisti você implementar essa dica milagrosa de emagrecimento do papai. Você preparou um chow mein para o jantar (se lembra como, nos anos 80, no subúrbio da Austrália, essa combinação de carne moída, repolho e shoyu era considerada o melhor da culinária exótica?). A comida de todo mundo estava em um prato comum, mas a sua estava em um pratinho de sobremesa.
Enquanto você sentava em frente a sua patética porção de carne moída, lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto. Eu não disse nada. Nem quando os seus ombros começaram a curvar por causa do seu incomodo.
Ninguém te amparou. Ninguém te disse para deixar de ser ridícula e se servir um prato decente. Ninguém te disse que você já era amada, já era boa o suficiente. Suas conquistas e seu valor – como professora de crianças com necessidades especiais e mãe de três filhos – eram repetidamente reduzidos à insignificância quando comparados aos centímetros de cintura que você não conseguia perder.
Me despedaçou o coração testemunhar seu desespero, e sinto muito por não ter te defendido. Eu já tinha aprendido, àquela altura, que você ser gorda era culpa sua. Eu tinha ouvido papai falar de perder peso como um processo “muito simples” – coisa que, ainda assim, você não conseguia fazer. A lição: você não merecia comer e com certeza não merecia nenhuma compreensão.

Mas eu estava errada, mãe. Hoje eu entendo o que é crescer em uma sociedade que diz para as mulheres que a beleza delas é o que mais importa, e, ao mesmo tempo, define padrões estéticos absoluta e eternamente fora de alcance. Eu também entendo a dor que é internalizar essas mensagens. Nós acabamos nos tornando nossos próprios carcereiros e nos impomos punições sempre que não conseguimos chegar lá. Ninguém é mais cruel conosco do que nós mesmas.
Mas essa maluquice precisa acabar, mãe.
Acaba com você, acaba comigo. Acaba agora. Merecemos mais – mais que ter dias horríveis por pensamentos ligados a nossa péssima forma física, desejando que ela fosse diferente. E não é mais só sobre você e eu. É também sobre a Violet. Sua neta tem apenas 3 anos e eu não quero que esse ódio ao corpo tome conta dela e estrangule sua felicidade, sua confiança, seu potencial. Eu não quero que ela acredite que a aparência é o maior ativo que ela possui, e que vai definir o valor dela no mundo. Quando a Violet nos olha para aprender a ser uma mulher, precisamos ser os melhores modelos que pudermos. Precisamos mostrar para ela, com palavras e com as nossas ações, que as mulheres são boas o suficiente exatamente como são. E para ela acreditar, nós precisamos acreditar primeiro.
Quanto mais velhas ficamos, mais pessoas queridas perdemos, doentes ou em acidentes. A perda é sempre trágica, sempre muito precoce. Às vezes eu penso o que essas pessoas não dariam para ter mais tempo num corpo saudável. Um corpo que as permitisse viver um pouco mais. O tamanho das coxas ou os pés de galinha não importariam. Seria vivo, e portanto seria perfeito.
O seu corpo é perfeito.
Ele te permite desarmar todo mundo com seu sorriso, contaminar cada um com sua risada. Te dá seus braços para envolver a Violet e apertá-la até ela gargalhar. Cada momento que gastamos nos preocupando com a nossa forma física é um momento jogado fora, um pedaço precioso de vida que a gente não vai recuperar nunca mais.
Vamos honrar e respeitar nossos corpos pelo que eles fazem ao invés de desprezá-los pelo que eles são. Vamos manter o foco em viver vidas saudáveis e ativas, deixar nosso peso de lado e largar nosso ódio ao corpo no passado, que é onde ele merece ficar.
Quando eu olhava para aquela foto sua de maiô branco anos atrás, meus olhos inocentes de criança enxergavam a verdade. Eu via amor incondicional, beleza e sabedoria. Eu via a minha mãe.
Com amor,
Kasey.


Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

2 de junho - Dia mundial da Conscientização dos Transtornos Alimentares.

Hoje é dia mundial da Conscientização dos Transtornos Alimentares. As anorexias, bulimias e compulsões alimentares acometem milhares de pessoas por ano. As estatísticas só aumentam e incluem cada vez uma população mais jovem. Hoje, crianças de 4 anos já se queixam da forma do seu corpo e relatam o desejo de se engajar em alguma dieta com o objetivo de perder peso.
Precisamos pensar sobre a relação do sujeito com seu corpo, com sua imagem e com seu peso. 
Que peso é esse que pesa tanto? Que peso é esse que, por mais que se perca, nunca parece suficiente?





Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.