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17 de dezembro de 2007

Dois novos estudos reforçam o que todos já sabiam.

Matéria do G1, publicada ontem, dia 16 de dezembro:

"Crianças obesas têm alto risco de se tornar adultos doentes
Duas pesquisas sobre o assunto foram divulgadas nesta semana. Crianças precisam comer melhor e praticar mais atividades físicas.


Combater o excesso de peso na infância é ainda mais importante do que se pensava. Os estudos comprovam que crianças obesas têm alto risco de se tornarem adultos com doenças cardíacas, já a partir dos 35 anos. (...)

Dois novos estudos divulgados nesta semana reforçam o que todos já sabiam: criança que come mal pode se tornar um adulto com problemas cardíacos e diabetes.

Pesquisadores da Universidade de São Francisco, na Califórnia, fizeram projeções estatísticas a partir de dados do censo americano e do sistema de saúde pública. Pelo cenário traçado com a ajuda de modelos matemáticos, quase metade das mulheres e 37% dos homens americanos serão obesos em 2020.

Kirsten Bibbins, coordenadora da pesquisa, concluiu que se a população continuar sem fazer exercícios e com os mesmos maus hábitos alimentares, o número de mortes por doenças do coração deve aumentar 19% nos próximos anos. Seriam mais de dois milhões de americanos com coronárias obstruídas e jovens com alto risco de morte prematura.
E o problema não se restringe aos Estados Unidos. Em vários países, como o Brasil, vêm aumentando rapidamente o número de pessoas muito acima do peso. Outra pesquisa, realizada na Dinamarca, chegou à mesma conclusão. Foram estudadas 276 mil pessoas, nascidas entre 1930 e 1976, com idade entre 25 e 60 anos. Resultado: quanto mais gordas as crianças entre 7 e 13 anos, maior o risco de doença cardíaca na idade adulta.
A receita para uma vida saudável pode ser simples e divertida: além de reduzir açúcar, gorduras e frituras, simplesmente brincar (...). "

Para ver a matéria na íntergra clíque aqui.


.....................................................................Fernanda Pimentel

Mais cursos...

A Coordenação Central de Extensão da PUC - Rio abriu, essa semana, as inscrições para o curso sobre Transtornos Alimentares que vai acontecer em março do próximo ano.




Confira aqui a programação e o conteúdo.

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27 de novembro de 2007

Anna O.

........Mais do que lendo, estou devorando o livro de Irvin D. Yalom, Quando Nietzsche Chorou.

........O romance começa com Dr. Breuer atormentado por suas fanatasias com Bertha (Anna O.) e ainda envolvido com a sedução desta paciente, logo depois de deixar o caso e entregá-lo ao jovem Dr. Freud.
........A mente perturbada de Breuer, sendo invadida pelos pensamentos em relação a sedutora Bertha ficam claros no livro de Yalom:
"Quanto tempo durara seu devaneio? Consultou novamente o relógio. Outros dez minutos de vida desperdiçados. E desperdiçados em quê? Como de hábito, devaneara sobre Bertha, a bela Bertha, sua paciente nos últimos dois anos. Estava recordando sua voz provocante: 'Doutor Breuer, por que tem tanto medo de mim?' Lembrou suas palavras quando lhe dissera que deixaria de ser seu médico: 'Aguardarei. Você sempre será o único homem em minha vida.' Ele se censurou: 'Pelo amor de Deus, pare! Pare de pensar! Abra os olhos! Veja! Deixe o mundo entrar!”
........É inegável a importância desta paciente para a história da psicanálise. Foi atendendo esta jovem mulher com sérios sintomas histéricos que muitos conceitos psicanalíticos surgiram. Ou até mesmo a própria psicanálise, visto que Breuer inicialmente trabalhava com hipnose e no decorrer dos dois anos de tratamento com Bertha ele abandona esta técnica pois ambos percebem que ela podia relembrar traumas de sua infância sem a hipnose, usando a penas o diálogo. Essas conversas, segundo a própria Bertha faziam seus sintomas desaparecerem. Este seria o início do que ela chamou de "Terapia da Conversa", que deu origem a futura psicanálise.
........A própria tentativa de sedução de Bertha e o desespero de Breuer (motivo que o faz deixar o caso) foram essenciais, pois levaram Freud, num outro momento a decrever o que seria Transferência e Contra-tranferência.
........Movida por uma curiosidade que a obra de Yalom despertou, fui pesquisar uma imagem desta paciente que tanto mexeu com dois dos grandes nomes da psicanálise:

Bertha Pappenheim, a famosa Anna O.


Carta de Freud para Fliess sobre o caso Anna O.

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Veja aqui a entrevista de Yalon, para a revista Superinteressante..

....................................................................Fernanda Pimentel

26 de novembro de 2007

Novas Formas

........Li recentemente um texto de Jô Gondar (Psicanalista, professora adjunta do Departamento de Filosofia e Ciências Sociais da UNI-Rio, membro do Espaço Brasileiro de Estudos Psicanalíticos.): Sobre as compulsões e o dispositivo psicanalítico, que fala sobre as novas formas de padecimento psíquico. A autora destaca a compulsão, o que ela identifica uma modalidade de recusa que não oferece lugar ao desejo e os impasses trazidos por estes pacientes. Ela separa dois exemplos, um onde essa recusa se dá sob a forma de uma quase petrificação e outro onde ela conduz ao mover-se e ao agir.
Segue abaixo algumas partes que julgo importantes:
........"(...) Em ambos os casos, contudo, há uma recusa a obedecer as injunções, mas realizada de forma vazia, estando ausentes os argumentos ou atos que poderiam efetivamente fazer objeção aos mandamentos. É como se diante de uma lei experimentada como imperativo categórico — imperativo que não leva em conta os prazeres, desejos e inclinações singulares — a resposta do indivíduo fosse uma recusa igualmente categórica, uma desobediência que conduziria, paradoxalmente, à obediência do imperativo, na imposição de manter o desejo fora do campo. (...)
........Pensamos que este modo de dizer não a uma lei experenciada como tirânica e inegociável se encontra presente naquilo que se convencionou chamar de "novos sintomas", ainda que possamos perguntar se eles são, de fato, tão novos assim. À primeira vista, o que nos surpreende nesses distúrbios psíquicos — implicados na bulimia, anorexia, alcoolismo, toxicomania, fenômenos de pânico e disposições melancólicas — é a sua freqüência na cultura e, conseqüentemente, na clínica atual, a ponto de constituírem uma espécie de figura-tipo da contemporaneidade. E o que está em questão, nessa figura-tipo, é a esfera do ato. Trata-se de formas de padecimento que podem ser consideradas patologias do ato, tanto na sua vertente de inibição quanto na de realização. Por este motivo, o problema das compulsões ganha tanta importância na atualidade: nelas, a patologia do ato aparece em sua forma mais nítida.
........O sujeito contemporâneo poderia ser descrito como um sujeito compulsivo, sem que se possa situá-lo numa estrutura clínica definida. Sujeito? Com relação às compulsões, talvez fosse melhor falarmos em atos aos quais não se associa um sujeito capaz de por eles se responsabilizar ou se engajar em suas conseqüências.
........Dissemos já que a compulsão não é um fenômeno novo na psicanálise. É sob dois modos principais que ela se apresenta na obra de Freud. Por um lado, a compulsão (Zwang, em alemão) remete diretamente à neurose obsessiva (Zwangneurose), ainda que, no interior desse quadro, ela apresente matizes. Nas explicações que Freud apresenta sobre essa neurose, compulsão não é simplesmente sinônimo de obsessão, mas diz respeito a uma peculiaridade de determinados sintomas obsessivos: trata-se de pensamentos ou atos que o sujeito realiza ainda que lhe pareçam um corpo estranho, pensamentos ou atos movidos por uma força irresistível contra a qual o sujeito gostaria de lutar. A compulsão, nesse caso, resulta de um conflito psíquico e de uma luta subjetiva entre duas injunções opostas, estando o sujeito impossibilitado de escolher qualquer uma delas. Encurralado nessa hesitação exasperante, a resposta do sujeito é o ato compulsivo
........Mas a compulsão tem em Freud um outro sentido importante: Zwang alude também ao que há de mais radical na pulsão, isto é, sua irrefreável repetição. Mas, diferentemente dos atos compulsivos do neurótico obsessivo, a compulsão à repetição (Wiederholungszwang) não poderia ser encarada como o resultado de um conflito, motivo pelo qual não é necessariamente experenciada, por quem a sofre, como expressão de uma luta íntima. Grosso modo, poderíamos caracterizar a compulsão à repetição como um impulso avassalador ao qual sucumbe o sujeito, que passa então a justificá-lo por contingências da atualidade: é como se ele tentasse organizar o impulso cego segundo os ditames de uma "cena", buscando conteúdos capazes de preencher uma forma vazia, autônoma, e, em última instância, irredutível aos seus próprios conflitos.
........Pensar as compulsões contemporâneas nos obrigaria a manter esse segundo sentido — já que o que as move é a repetição pulsional; em contrapartida, deveríamos distingui-las do primeiro: não se trata de idéias ou atos compulsivos, tais como se apresentam na neurose obsessiva. Tudo indica que, nesta última, a compulsão implica um caminho mais longo, envolvendo elementos psíquicos mais complexos: encontram-se em jogo dois mandamentos opostos — funcionando como ordem e contra-ordem — diante dos quais o indivíduo se vê num estado de hesitação, de dúvida, produzindo-se assim um intervalo de tempo no qual a compulsão não ocorre. Por meio desta hesitação, o obsessivo relativiza a obediência cega ao mandamento, mantendo, ao mesmo tempo, a crença de que seria possível escolher simultaneamente a possibilidade a e a possibilidade b, ou, mais rigorosamente, que seria possível não escolher nem a nem b, para não ter que pagar o preço que se impõe a qualquer escolha. É justamente esse elemento de hesitação, fazendo obstáculo à obediência do mandamento, que se encontra ausente nas compulsões contemporâneas. É como se fosse aí eliminado o intervalo de tempo que a dúvida impõe a este processo, produzindo-se então a compulsão por um caminho mais curto: à injunção impossível se segue diretamente, em resposta, a passagem ao ato.
........Quando falamos em realização pelo caminho mais curto, somos remetidos à pulsão de morte ou, mais exatamente à prática de um gozo destrutivo. O psicanalista que trabalha com compulsivos não demora a notar o quão fortemente se apresenta, nesses pacientes, a aliança entre o supereu e a pulsão de morte, redundando numa forma cruel de injunção superegóica: ao invés de funcionar como barreira a um gozo mortífero, o supereu o exigiria, desprezando por completo a esfera das inclinações subjetivas singulares. O mandamento do supereu ordenaria que o sujeito abdicasse de sua dimensão desejante, agindo única exclusivamente por dever. O que implica, em termos psicanalíticos, que o sujeito se coloca como objeto de gozo a serviço de uma lei cruel. Este carrasco íntimo é a grande personagem dos funcionamentos compulsivos. As compulsões não se reduzem a uma pura e simples obediência ao imperativo superegóico, que os compulsivos não são figuras da moral kantiana, e que o empuxo ao gozo não pode ser diretamente traduzível pelas ordens: coma, beba ou drogue-se. Pensamos, ao contrário, que os atos compulsivos são uma tentativa de fazer obstáculo ao cumprimento da injunção cruel, ainda que essa tentativa fracasse: há neles um lampejo de subjetivação que não chega a efetivar-se como afirmação de desejo.
........(...) Uma das maiores dificuldades encontradas na clínica desses pacientes reside na relação que estabelecem com seus sintomas, tornando-os inacessíveis à interpretação. Em seu sentido clássico, um sintoma é uma formação de compromisso entre uma instância recalcada e uma instância recalcante, por meio da qual o inconsciente se expressa. O que significa dizer que esse sintoma fala, representando um sujeito e revelando algo sobre o seu desejo. Na situação analítica clássica, o paciente chegaria à análise queixando-se de seu sintoma; a partir disso poderia construir uma questão sobre si mesmo, endereçando-a ao analista. Com base nesta questão e neste endereçamento, seria possível formular-se, no campo transferencial, uma interpretação, produzindo-se uma verdade a respeito do desejo.
........Ora, toda essa lógica cai por terra diante dos modos contemporâneos de subjetivação. (...) Raras vezes esses indivíduos, a partir de seus sintomas, se colocam em questão ou produzem associações. Tudo se passa como se seu sofrimento fosse da ordem de uma fatalidade que não inclui um outro, uma fatalidade que a eles se impinge sem matizes, como um monolito do qual eles pouco têm a dizer. Os discursos esvaziados de desejo são freqüentes. (...) Uma constante sensação de estranheza e de não-pertencimento, nem sempre claramente enunciada: uma das grandes fontes de sofrimento para esses pacientes reside no fato de sua própria realidade e a do mundo lhe parecerem profundamente discordantes, como se houvesse um hiato irredutível entre as regras que fazem o mundo funcionar e aquelas que organizam o seu próprio funcionamento.
........Os sintomas compulsivos não podem ser considerados simplesmente como manifestações do inconsciente ou formações de compromisso. Dificilmente poderíamos pensar que o ato compulsivo de beber ou drogar-se, por exemplo, estaria representando um sujeito, ou dizendo algo sobre um desejo inconsciente. Esses sintomas não se produzem a partir de uma operação de recalcamento, ou melhor, não consistem num retorno do recalcado; eles se formam por um caminho mais curto, no qual uma satisfação pulsional, com forte tonalidade destrutiva, se exerce mais diretamente. Por este motivo, estes sintomas resistem, como o azeite à água, à intervenção clássica da clínica psicanalítica — a interpretação. Lembremo-nos aqui das interpretações que Freud dirigia às suas histéricas: eram intervenções que procuravam revelar o sentido oculto de seus sintomas, apontando a verdade do desejo que por eles se expressava; as interpretações tinham por objetivo oferecer um pano de fundo fantasmático a partir do qual os sintomas poderiam ser situados no plano do sentido.
........Todavia, não existe um pano de fundo fantasmático a partir do qual se possa ler as compulsões. Na verdade, o que aí se encontra em falta é justamente essa tela protetora que articula as relações entre a subjetividade e o real. Faltam a fantasia e seus derivados. Esses indivíduos apresentam uma falha brutal na dimensão do imaginário, expressando-se em todos os níveis: na fantasia, na constituição de um semelhante, na constituição da própria imagem corporal. É como se o corpo fosse reduzido a uma matéria da qual eles são meros portadores, criando-se a necessidade de próteses de sustentação egóica, encontradas algumas vezes através de exercícios físicos ou de adereços que rasgam a pele.
........(...) A falha no registro imaginário se articula à relação especial que esses indivíduos estabelecem com a lei. Para eles, a lei não pôde ser subjetivamente construída; ela se impõe sob moldes kafkianos, sem receber o revestimento imaginário que poderia lhe fornecer um sentido particular. (...) Não havendo uma subjetivação da lei, esta se apresenta ao indivíduo em toda a sua crueza e arbitrariedade: parece-lhe que aquilo que a lei proíbe é vetado em si mesmo, de forma violenta e inexplicável; do mesmo modo, parece-lhe que aquilo que a lei obriga se torna uma fatalidade inexorável.
........A forma clássica da interpretação não apela simplesmente para a desconstrução do imaginário; ela se exerce sob a forma de um corte cuja lógica é a da lei da castração. Mas foi justamente esta que não pôde ser subjetivada por esses pacientes. A forma da lei por eles conhecida é a que se apresenta sob forma tirânica, cruel: a lei superegóica.
........Mas estando descartada a interpretação, que modalidade de intervenção clínica seria eficaz, no campo psicanalítico? Pensamos que na direção do tratamento dos pacientes compulsivos, algumas condições, mutuamente implicadas, são requeridas: o esvaziamento do imperativo superegóico, fonte propiciadora de seus sintomas; a constituição de uma esfera imaginária e fantasística; e, o mais importante, a assunção da dimensão desejante, comumente esmagada pelo supereu cruel. Neste ponto a sensibilidade clínica e a disposição para o risco, por parte do analista, são radicalmente convocadas: como criar as condições para que o desejo se afirme, quando não há desejo?
........(...) Retornemos então à hipótese que apresentamos sobre as novas formas de padecimento: dissemos que as compulsões seriam tentativas de dizer não ao imperativo superegóico, sem que, contudo, pudessem demarcar positivamente um território subjetivo. Por elas se expressaria um lampejo de subjetivação que não pôde configurar-se como afirmação de desejo. Contudo, ao valorizarmos as noções móveis e processuais, somos levados a reconhecer que, ainda que não haja desejo, existe aí um índice, uma fagulha, um lampejo desejante que serviria de apoio a um trabalho de construção, a partir do qual uma negação sem consistência poderia transmutar-se em afirmação. Trabalho delicado, árduo, persistente: seria preciso inserir atritos num caminho liso, possibilitando o incremento de matizes, velamentos e ligações onde a satisfação pulsional costumava se exercer num circuito mais direto. Nesse caso, as tonalidades pulsionais — encaradas como parte de um processo de subjetivação — tornam-se a própria matéria a partir da qual se exerce um trabalho.
........(...) A escuta e as intervenções do analista precisarão expandir-se, mostrando-se distintas da mera escuta de palavras ou da produção de interpretações que inflam o supereu. Tornam-se extremamente importantes a esfera do olhar e da voz, agindo mais diretamente no campo pulsional. Da mesma maneira, é preciso que o analista esteja atento às modalidades expressivas do paciente, aos brilhos e sombras do olhar, às suas modulações de voz ou gestuais. Não para fornecer a elas uma interpretação, mas para discriminar através delas os momentos em que pequenas inflexões de desejo são capazes de se colocar em jogo.
........(...) As pequenas percepções nos permitiriam valorizar as intensidades que extrapolam o domínio significante, intensidades que se mostram presentes no tom e ritmo da voz, na expressão do rosto, no tônus e postura corporal. (...) Ao trazer essa noção para a clínica psicanalítica, (...) propõe-se que a "atenção flutuante" não se reduza à escuta, e que inclua também o que é percebido por um "olhar flutuante", capaz de apreender pequenos gestos e atos que não estariam indicando uma cena fantasmática ou uma representação recalcada; para aquém destas, eles seriam um índice de impressões que não se registraram como traços, mas que, todavia, buscam um caminho para se manifestar.
........(...) Trata-se, portanto, de levar ainda mais longe a atenção flutuante, envolvendo uma maior disposição do analista para abster-se da condição de sujeito. (...) Este refinamento perceptivo acolheria de modo mais pregnante os signos de subjetivação que ainda não instituíram como traço, signos que se manifestam através de imagens ou expressões fugidias, aparentemente inócuas, e dificilmente notadas pela percepção corrente. Sobre a base desses signos, todavia, poderiam ser construídas as relações transferenciais.
........No tratamento dessas novas formas de padecimento, o campo transferencial seria convocado para propiciar um traçado de consistência aos lampejos de desejo, aqueles que o supereu não foi capaz de submeter de todo. É neste campo que as ínfimas manifestações desejantes podem encontrar uma possibilidade de expressão e de articulação, um reconhecimento e uma legitimidade. (...) A fineza e delicadeza da escuta e do olhar buscariam, nesses casos, fazer ressoar e persistir os pequenos movimentos de subjetivação, fornecendo consistência ao desejar. O que aqui se coloca em pauta não é a desconstrução do dispositivo psicanalítico, mas a sua ampliação: seria preciso tornar mais finas e mais complexas as regras da associação livre e da atenção flutuante, bem como a proposta de abstenção do analista, a fim de que possam abarcar essas novas modalidades subjetivas."
........Para ver o texto na íntegra, clique aqui.
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18 de novembro de 2007


A "anti-publicidade" satiriza propagandas conhecidas, criando novas alternativas.

Aqui, brinca com a marca Calvin Klein para nos chamar atenção para a verdadeira obsessão.
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.............................................Fernanda Pimentel

5 de novembro de 2007

Comer


Atualmente a alimentação se tornou um fator desencadeante de vários sintomas. Ou se come demais, ou se come de menos, ou se come com culpa. Sentimentos, sensações e desejos temperam nossos pratos, mostrando-nos que nos alimentamos muito mais do que apenas de carboidratos e proteínas, mas nos alimentamos também de lembranças, sonhos, imaginários e cultura. Portanto, o comer não está somente ligado à biologia, à satisfazer necessidades fisiológicas, mas também está associado ao sujeito do inconsciente, já que esta alimentação vem impregnada de significados simbólicos.

É justamente na alimentação que há o encontro desse homem biológico, que busca saciar a fome, com o sujeito, que busca saciar muito mais.

Mudanças no cotidiano alimentar dos indivíduos, o crescimento alarmante dos transtornos do comportamento alimentar, como a bulimia, a anorexia ou a compulsão, nos indicam algo a respeito do significado desse comer. Ou pelo menos nos faz questionar a respeito desse significado.

Pesquisando os escritos Freudianos, podemos perceber desde o início uma articulação entre o alimentar e o sexual. Desde as primeiras experiências com o seio materno, onde saciedade se mistura com prazer. A boca tem uma dupla função: com a ingestão do alimento supre a necessidade, mas propicia satisfação, colocando o desejo em jogo. Em “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade” (1905), Freud diz que na fase oral “A atividade sexual ainda não se separou da nutrição, nem tampouco se diferenciaram correntes opostas em seu interior. O objeto de uma atividade é também o da outra, e o alvo sexual consiste na incorporação do objeto – modelo do que mais tarde irá desempenhar, sob a forma de identificação, um papel psíquico tão importante”.

De acordo com Justos, “A fase oral da sexualidade deixa marcas permanentes nos usos da linguagem. O oral é o emblema regressivo do sexual. Além da separação deste objeto parcial, o seio da mãe, que é também seu primeiro alimento, abre a possibilidade de uma alimentação variada e sólida, que permita o filho dizer o que quer... comer”

Essa questão regressiva nas desordens alimentares contemporâneas fica evidente na clínica.
É uma clínica onde muito se fala de peso, calorias, gorduras e medidas. Os pacientes sempre sabem tudo sobre técnicas para perder peso, se exercitar mais e todos os cuidados com o corpo. É um discurso reduzido ao corpo. Obesos, compulsivos, bulímicos e anoréxicos, todos falam muito sobre o corpo num discurso vazio, onde os desejos são ignorados e o que resta nessa ausência de discurso é só o corpo, reduzido a exibir um quadro que só nos remete a uma “não simbolização”.

A dificuldade de se envolver com questões simbólicas faz o sujeito se manter ancorado nos sintomas corporais. E a psicanálise vai trabalhar no objetivo de uma passagem, onde o sintoma apresentado no corpo poderá aparecer pela via da palavra, acessando assim o desejo inconsciente. Indo mais além da imagem que o corpo transparece.
Não se trata do alimento. Trata-se de uma outra coisa que ocupa o lugar do comer. Que está associado ao significado do alimento desde os primórdios da alimentação. Desde as relações primitivas entre mãe/bebê, mediadas pela alimentação.
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.........................................................................Fernanda Pimentel


26 de outubro de 2007

Mesa Redonda


Está programado para o próximo dia 10 de novembro uma Mesa Redonda na PUC sobre A Clínica Psicanalítica com Criança na Atualidade. O evento, coordenado pelo departamento de Psicologia, vai ser aberto ao público e vai contar com grandes nomes do trabalho psicanalítico com crianças.
Não percam!
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17 de outubro de 2007

Canibalismo II



Falei sobre antropofagia aqui, sobre uma matéria da MenteCerebro chamada Canibalismo: Da Cultura à Perversão. Neste artigo a autora Nahlah Saimeh começa seu trabalho falando de Armin Meiwes (foto ao lado), que há 6 anos atrás anunciou na net que procurava um homem para ter seu pênis amputado, devorado e no final ser morto, após o exótico banquete.
O bizarro anúncio foi respondido por Bernd Juergen Brandes (e segundo Meiwes, por mais 400 homens) que aceitou a proposta que foi cumprida exatamente como combinado.

Esse caso levantou muitas questões quando veio a tona em 2002. A principal delas era se isso deveria ser considerado crime, já que foi concedido por ambas as partes. Na verdade mais do concedido, já que Brandes implorou para ser devorado, como fica claro no vídeo que o canibal alemão fez de todo o processo: do abate a degustação. Um crime ou um casal perfeito?

De qualquer maneira Meiwes foi julgado e condenado à prisão perpétua e cumpre sua pena em Kassel, na região central da Alemanha.

A novidade é que Meiwes falou pela primeira vez sobre o assunto no último dia 15, em entrevista para a emissora de TV RTL. (Por coincidência na mesma semana que levantei esse assunto aqui no blog.) Ele conta, como diz a matéria do G1, que passou os meses seguintes à morte de Brandes degustando sua carne que ele armazenou congelada em pequenas porções. Ele estima que tenha consumido, no total, 20 Kg de Brandes. Além disso, o canibal comentou que tinha esse "desejo de consumir outro homem ha décadas", e que desde criança adora a história de João e Maria.

Outro ponto interessante da entrevista é quando Meiwes conta como foi servida a iguaria. Segundo ele a carne foi temperada com sal, pimenta, alho e noz-moscada, e servida com croquetes "princesa", couve de Bruxelas e molho de pimentão verde. Ele relata que "A primeira mordida foi com certeza única, indefinível, já que eu tinha sonhado com isto durante trinta anos, com esta conexão íntima que se faria perfeita através desta carne".

O mais assustador disso tudo é que a avaliação psiquiátrica feita antes do seu julgamento concluiu que ele não é louco, mas tem uma "alma muito perturbada". O próprio Meiwes diz "Eu sou um ser humano normal, em princípio". Mas afinal de contas, o que seria "uma alma muito perturbada"?

De acordo com matéria do G1: "A polícia estima que em torno de 10 mil pessoas, na Alemanha somente, partilham o fascínio de Meiwes pelo canibalismo - seja por comer carne humana ou por ser comido."

Veja outra notícia sobre antropofagia aqui.

Parece que Nahlah Saimeh está correta quando afirma que o fenômeno é mais freqüente do que ousamos pensar.
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.......................................................................Fernanda Pimentel
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15 de outubro de 2007

Auto-imagem nos Transtornos Alimentares

video

Esse vídeo, da campanha de uma ONG sueca, circulou pela net meses atrás. Mas essa semana eu assisti novamente no curso de Transtornos Alimentares da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro que estou participando e vi que ele ainda me choca. E como falei de realidades chocantes outro dia...

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.....................................................................Fernanda Pimentel

10 de outubro de 2007

Canibalismo

Muito interessante a matéria da revista Mente Cérebro deste mês, intitulada Canibalismo: Da Cultura à Perversão, escrita por Nahlah Saimeh, médica especialista em medicina legal e diretora do Centro de Psiquiatria Forense da Vestfália (Alemanha.)

A autora mostra casos de canibalismo que aparecem no noticiário de tempos em tempos, indicando que o fenômeno é mais freqüente do que podemos pensar.

Ressaltando que as práticas canibais existem desde o início da humanidade, a autora difere a antropofagia presente em rituais tribais, onde o consumo de carne humana tinha como objetivo incorporar atributos dos mortos, como força, coragem e integridade; a que ocorre em situações extremas e de escassez de alimento, tratando-se de uma questão de sobrevivência; e por fim o canibalismo patológico que, segundo a autora, "está sempre associado a indivíduos de alguma forma deslocados na sociedade, quase sempre portadores de transtornos psíquicos."

No que diz respeito a origem deste comportamento, Nahlah Saimeh diz que "A motivação do canibal poderia ser explicada pela perversão sexual sádica, que teria origem em problemas no processo de individuação, quando a criança se “separa” do corpo da mãe. Assim, a assimilação da carne humana serviria para restabelecer a ligação simbiótica original."

Da anorexia, onde se come o nada, ao canibalismo, onde se come o outro, tudo parece estar intimamente relacionado com estágios primitivos da infância e as relações estabelecidas nesta época da vida. A oralidade e seus componentes sexuais determinam o modo como o bebê conhece o mundo e marcam toda sua existência.

Veja toda matéria aqui


Canibal mais famoso da ficção, Dr. Hannibal Lecter, interpretado por Anthony Hopkins em O Silêncio do Inocentes. (1991)


Antropofagia no Brasil, segundo relato de Hans Staden, ilustrado por Théodore de Bry (1549).
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.................................................................Fernanda Pimentel

5 de outubro de 2007

Campanha Italiana

Isabelle Caro, fotografada por Oliviero Toscani
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Pois é... Parece que a tal campanha italiana com a modelo anoréxica nua foi retirada das ruas de Milão. Muitos a concideraram violenta e agressiva. Alberto Contri, presidente da associação Publicidade Progresso declarou que "A campanha de Toscani com a menina anoréxica é uma verdadeira violência visual e a mercantilização de um problema social." Mas não seria uma maneira de fazer a população perceber a realidade chocante desse distúrbio?

É claro que é agressiva. Assim como o número de jovens que morrem por conta de problemas decorrentes da anorexia.
Não falar disso, não mostrar uma realidade atual, evitar que esse tema seja discutido abertamente é mais violendo que as fotos. Impede que este assunto circule e vela, mais ainda, a questão dos transtornos alimentares.
Acho que neste caso o que gera polêmica e opiniões divergentes é positivo. É sinal que o tema está sendo pensado e debatido, o que pode beneficiar algumas jovens anoréxicas e seus familiares.

A modelo das fotos, Isabelle Caro disse em entrevista à Vanity Fair: "Eu me escondi cobrindo meu corpo por muito tempo. Agora eu quero me mostrar sem medo, mesmo sabendo que meu corpo é repugnante."

Já Oliviero Toscani, fotógrafo e criador da campanha disse: "Quando se faz algo extremo, sempre há pessoas que se opõem. O resultado é que todo o mundo fala disso." E completou... "Não existe foto chocante, só a realidade choca"
Segundo ele, a sua intenção é levar reflexão ao mundo da moda. "É esse meio que leva as mulheres a fazer dieta e a querer ficar magra a qualquer custo."

Se é real, se vemos nas ruas e nos consultórios, porque não pode ser exibido?
Partindo deste principio, segue abaixo o meu protesto pelas fotos terem sido retiradas...



Fotos retiradas de um Website Pró-Anorexia.

Imagem publicada em revista espanhola.

Imagem retirada de um Blog Pró-Anorexia, apresentada como "Thinspiration" (Lindsay Lohan e Nicole Richie)
......................................................Fernanda Pimentel

2 de outubro de 2007

Fome de que?

Ainda sobre Anorexia...

.....A palavra Anorexia é composta pela partícula “a” que significa privação, mais “orexia”, que se origina do grego “orektos” e significa apetite e desejo. Colocando a anorexia não somente como uma patologia da ordem da privação do apetite, mas também da privação de desejo.
.....O que o sintoma anoréxico sustenta é uma impossibilidade de satisfazer um desejo. Com esta visão, o jejum e a perda de peso são encarados como um modo do sujeito obter satisfação, negando a presença deste desejo. A inapetência pela comida se traduz também como uma inapetência de desejo. Desejo este que por algum motivo se mantém recalcado e permanece inconsciente.
.....A relação do desejo com o objeto é uma falta e não algo que lhe proporcionará uma satisfação. É isto que mantém o desejo e nos mantém como sujeitos desejantes, porque a estrutura do desejo implica nesta inacessibilidade do objeto, tornando-o indestrutível. Dessa forma, a insatisfação do desejo não é uma insuficiência, mas uma eficiência, já que é esta característica que o faz impossível de ser satisfeito e, portanto indestrutível.
.....O que caracteriza o desejo, segundo Freud é este impulso para reproduzir uma satisfação original, ou seja, produzir um retorno a algo que já não é mais, a algo perdido cuja presença é marcada pela falta.
.....A anoréxica nega o desejo, nega sua impossibilidade de satisfação e se satisfaz comendo nada. Negando o desejo, nega-se também a falta. E é aí que entra a figura materna
.....As mães das moças anoréxicas tem algo em comum: apresentam-se como mulheres fortes, fálicas, completas. A partir disso pode-se pensar a Anorexia como um sintoma endereçado a esta mãe fálica, com o objetivo de inscrever nela uma falta, um espaço. Como uma forma de reagir ao controle materno.
.....Segundo J. Lacan, é necessário que algo falte para que se instale o desejo e o sujeito advenha como sujeito desejante, sujeito da linguagem. As mães de anoréxicas não permitem a instalação desse vazio.
.....No caso das anoréxicas, a falta não se presentifica devido à presença avassaladora da mãe. Assim, o objetivo da anoréxica é criar uma separação, um brecha. O sintoma aparece para marcar o desejo do sujeito de inserir uma falta no outro e assim, nele próprio. Para evitar que a voracidade materna continue obturando seu desejo, a anoréxica passa a devorar o nada, passa a desejar o nada, diante da impossibilidade de desejar outra coisa.
.....Segundo A. Nogueira, em tese de mestrado, “o sujeito massacrado pelos cuidados do outro, recusa o objeto oral, o esvazia e diz a esse outro que busque um objeto de desejo além dele, fora dele, além do próprio sujeito porque assim, este encontrará a via rumo ao desejo”.
.....O sintoma, então, surge diante da onipotência da mãe. Na tentativa de preencher todos os buracos, ela obtura, com a satisfação de necessidades, o vazio que daria espaço para a filha se constituir sujeito. Dizendo não á demanda da mãe, a criança pede que ela olhe em outra direção, diferente dela própria.
.....Para encerrar, fica uma frase de J. Lacan (Escritos, 1958):
“É a criança alimentada com mais amor que recusa o alimento e usa sua recusa como desejo”.

....................................................................Fernanda Pimentel

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27 de setembro de 2007

Anorexia

...E o mundo continua firme nas campanhas contra a Anorexia. A indústria da moda, que antes era a grande vilã, encabeça campanhas tão criativas quanto polêmicas. O G1 divulgou a seguinte matéria hoje...

"Campanha Polêmica Contra Anorexia é Lançada na Itália

Cartaz traz imagem de modelo nua que aparenta sofrer o distúrbio. Fotógrafo Oliviero Toscani ficou famoso por campanhas de impacto da Benetton.



Cartaz da campanha contra anorexia exposto em avenida italiana. (Foto: Reuter)

O fotógrafo italiano Oliviero Toscani, que ficou famoso por suas campanhas polêmicas para a grife Benetton, lançou nesta segunda-feira (24) uma iniciativa contra a anorexia em plena semana de moda de Milão. A imagem impactante da campanha traz a foto de uma garota nua e extremamente magra, com a inscrição 'No Anorexia'. A campanha é financiada pela marca de roupa italiana 'No-l-ita'. Além de enormes painéis pelas ruas de Milão, o anúncio foi publicado nos principais jornais da Itália, em fotos de duas páginas. O fotógrafo já fez várias campanhas para a Benetton entre 1982 e 2000, entre as quais abordou a questão do racismo e mostrou doentes terminais que eram portadores do vírus HIV. "
A revista Época também falou sobre a campanha.
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........................................................................Fernanda Pimentel
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Anorexia e Psicanálise


Transtornos alimentares se tornaram o sintoma “da moda” na época contemporânea. Devido ao grande número de mulheres que apresentam esta patologia, a anorexia encontrou um espaço na sociedade, sendo encarada não mais como uma doença, mas como um comportamento que reflete a cultura atual, um estilo de vida, onde estar belo e magro é a condição mais importante.A era da Internet e do mundo globalizado, o padrão de beleza, a mídia e a moda permitiram que as anoréxicas se encaixassem e entrassem em sintonia com a sociedade. A mania mundial por alimentos e produtos diets e light e a vida agitada que se tem atualmente, assim como a exigência da sociedade para que se tenha um corpo saudável, jovem e longelíneo, possibilitou que essas anoréxicas não fossem percebidas como doentes. Esta sintonia entre a paciente com Anorexia e a sociedade atual, além de permitir que a anoréxica fosse aceita, sem chamar atenção, permitiu, também, que este modelo de beleza fosse introjetado pelas adolescentes, que passaram a fazer qualquer coisa pare se enquadrar neste modelo. A parceria anoréxica-sociedade contemporânea é tão grande que permite que algumas olhem este transtorno alimentar, não como uma doença, mas como um estilo de vida.

A ditadura da beleza, de um corpo esguio e sem curvas como padrão atual confundem o normal e o patológico, que apresentam fronteiras cada vez mais difusas. Existe tanta energia canalizada no objetivo de tornar-se magra e tanto sofrimento envolvido no processo, que nos sugere um sutil deslizamento para a patologia. Um natural desejo de sentir-se bonita torna-se uma obsessão.Para atingir este modelo de ideal de beleza, as mulheres buscam miraculosas fórmulas para emagrecer, que proliferaram nas últimas décadas. Fórmulas que, de uma forma indireta, influenciam na busca obsessiva pelo corpo perfeito, já que divulgam que qualquer mulher pode atingir este ideal de beleza e que é este o modelo no qual toda mulher deve se enquadrar, como se o corpo fosse infinitamente maleável. Negam-se, assim, as particularidades do corpo de cada um e as limitações biológicas e genéticas existentes.As imagens que a mídia impõe para vender estes produtos relacionam um ideal de felicidade ao corpo perfeito, que funciona não apenas como fonte de aquisição de amor, mas, também, de status, significando que a imagem do corpo ideal é acompanhada de conotações simbólicas de sucesso, autocontrole, disciplina, liberação sexual, classe, competência, bom nível econômico, etc.

Embora a industria da publicidade argumente que esta é predominantemente informativa, basta um exame mais cuidadoso das revistas, da TV e de anúncios para perceber que ela é avassaladoramente persuasiva e simbólica e que suas imagens não apenas tentam vender o produto, ao associá-lo com certas qualidades socialmente desejáveis, mas também tentam vender uma visão de mundo, um estilo de vida e um sistema de valor congruente com os imperativos do capitalismo de consumo:O novo complexo cultural, representado pela combinação entre a cultura popular e as novas tecnologias de comunicação, está produzindo uma transformação nos processos de produção de subjetividade e identidade. Estas importantes transformações exigem novas interpretações e novos olhares, pois dizem respeito a um novo sujeito, com novos valores e novos sintomas.
Não ficam dúvidas de que estes fatores socio-culturais influenciam no desenvolvimento dos transtornos alimentares. Porém, de todas as mulheres que estão imersas na mesma cultura e sob o mesmo imperativo de ser magra, apenas algumas desenvolvem a doença. Esta realidade nos permite afirmar que devem existir fatores para além do imperativo da cultura atual, precipitantes no desenvolvimento da Anorexia.

O que a psicanálise pode dizer da Anorexia? O que o analista pode fazer diante de uma paciente esquálida, que chega a ele levada pela família ou por indicação médica e que nada tem a dizer de si mesma?

Uma das maiores questões vem do fato da paciente não se sentir doente, não apresentar uma queixa por não achar que existe um sintoma. Do mesmo modo que as pacientes negam este sintoma, negam também o desejo, a palavra, colocando o analista numa posição complicada, já que devem trabalhar com um sujeito que tem fome, mas não se deixa alimentar, e mesmo assim parece não sofrer. Por outro lado, apresentam um corpo frágil, deteriorado, e que em casos mais severos apresenta grande risco de morte.

Algumas hipóteses psicanalíticas sustentam que as anoréxicas de hoje seriam as histéricas da época de Freud. O comportamento histérico do século XIX assemelha-se aos sintomas da Anorexia em sua estrutura e na maneira como se apresentam. Freud explica a Histeria baseado na repressão sexual que imperava nesta época, sobretudo no que diz respeito ao comportamento feminino. Pressões em relação à conduta sexual, ao modo como essa sexualidade era expressa e os afetos envolvidos marcaram a cultura da época. Assim, a Histeria, bem como a Anorexia, estavam influenciadas pelo padrão de mulher idealizado na época e pelo significado da feminilidade. Se no passado a mulher devia ser pura e casta, hoje ela tem que ser magra.
Desta forma, pode se dizer que os sintomas histéricos das pacientes eram uma expressão do que estava reprimido. O que, devido a uma pressão cultural e social não podia ser falado e elaborado, tornava-se inconsciente e era expresso por uma outra linguagem: a linguagem do sintoma. Assim, os afetos reprimidos se articulavam e apareciam sob a forma de um sintoma produzindo um efeito no corpo.

A mesma idéia pode ser transposta para os dias de hoje para percebermos a semelhança entre a Anorexia e a Histeria. A Anorexia também pode ser vista como uma expressão da influência de um padrão exigido pela sociedade. Um ideal impossível de ser alcançado, a não ser pala via do adoecer. Seja no século XIX ou no século XXI, a mulher tenta se adequar a esses padrões de conduta ou de beleza. Mas a que preço?

O que a paciente anoréxica mostra através do seu sintoma, é algo que na impossibilidade de ser representado conscientemente, será expresso metaforicamente pela via do sintoma. É o seu corpo que irá representar o que não pode ser dito. Assim, também há na Anorexia Nervosa, algo que só se faz possível através de um doloroso sintoma inscrito no corpo. Pode-se dizer então que a Anorexia é, assim como a Histeria, uma maneira de expressar uma mensagem que o sujeito não suportaria conhecer.
Existe uma mensagem no adoecer da anoréxica. Sua inanição tem um significado, um conteúdo. Isto que não pode ser falado é o que a clínica psicanalítica vai investigar. O que leva uma mulher a arriscar sua vida na busca de um ideal de beleza é o que é questionado na tentativa de compreender o que está envolvido neste jogo que mistura a exigência da sociedade e desejos, aparecendo inscritos no corpo, como uma metáfora.

Só de curiosidade...
Conheça algumas mulheres anoréxicas que entraram para a história.



Santa Wilgefortis (século VIII)
Jovem portuguesa que foi prometida pelo pai para casar com um nobre italiano. Para evitar o matrimônio, fez um jejum rigoroso e iniciou um voto de virgindade. Algumas lendas relatam que seu sonho desde criança era ser freira. Além do voto, pediu também para Deus que a convertesse num ser repulsivo. Em respostas às suas orações, pêlos teriam começado a crescer em seu corpo esquálido. O nobre italiano nunca mais apareceu.















Santa Catarina de Siena (1347-1380)

Foi educada por uma mãe dominadora, com quem tinha uma relação conflituosa. Aos 7 anos de idade Catarina consagrou a sua virgindade, sua existência e seu apetite a Cristo e aos 15 ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. A moça começa jejuns rigorosos que só terminam com sua morte aos 33 anos.







Mary Stuart (1542-1587)

Foi a primeira de várias outras mulheres da realeza a levantar suspeitas de uma possível anorexia. Herdeira do trono inglês morreu executada a mando da rainha Elizabeth I.















Santa Maria Madalena de Pazzi (1566- 1607)

Seu nome de batismo era Catarina, em homenagem à Santa Catarina de Siena (Coincidências?). Esta Santa também fazia prolongados períodos de jejuns e provocava vômitos quando forçada a comer, pois via a vontade de comer como tentações do Diado.

















Santa Rosa de Lima (1586-1617)

A peruana, única “santa anoréxica” da América Latina, comia apenas três dias por semana. Além do inadequado comportamento alimentar, a jovem também ficou conhecida por praticar atos de auto-flagelação que incluíam coroas de espinhos de metal, cilício e uma cinta de ferro na cintura.













Santa Verônica Giuliani (1660-1727)

Era devota de Santa Rosa de Lima e a tomou como modelo. Nas sextas-feiras, esta italiana comia apenas cinco sementes, em memória às cinco chagas de Cristo. Nos outros dias não se alimentava.









Sara Jacobs (1857-1869)
Depois do declínio do jejum religioso (
com regras mais restritivas para a canonização), veio o jejum como espetáculo com as ‘virgens jejuadoras'. Essa irlandesa começou a jejuar ainda criança. Seus pais a transformaram em atração de circo aos 10, mas morreu aos 12 anos de inanição. Estes foram considerados negligentes e cumpriram pena de trabalho forçado.




Katherine Anne Porter (1890-1980)

Americana, a escritora anoréxica, foi a primeira mulher a tratar do tema na ficção, ao publicar o romance Old Mortality, em 1937.














Jane Fonda
(1937)

A atriz americana foi a primeira mulher a revelar publicamente seus transtornos alimentares. Conta que lutou contra a bulimia e exercícios excessivos dos 15 aos 45 anos.














Sally Field (1946)

Atriz famosa nos anos 60, pesava 45 Kg e tinha 1,70 de altura. Começou a se tratar com 20 anos e passou 3 anos nesta batalha.













Karen Carpenter (1950-1983)

Cantora americana da dupla The Carpenters era gordinha na infância e ficou obcecada com a magreza ao se tornar famosa. Morreu, no auge de sua carreira, em 1983, vitima da anorexia, pesando 34 Kg.










Diana Spencer (1961-1997)

A princesa de Gales confessou que teve anorexia e bulimia por 10 anos, associadas a fortes crises de depressão.











Victoria Désirée Bernadotte (1977)

A princesa Vitória da Suécia assumiu, em 1997, o seu distúrbio alimentar após diversas especulações sobre sua magreza excessiva.










Kate Moss (1974)

Aos 26 anos, a top model pesava 43 kg. Foi internada duas vezes e provocou uma grande discussão sobre o tema, iniciando a polêmica anorexia X mundo fashion. Embora nunca tenha assumido a anorexia publicamente, se tornou o retrato da ''estética anoréxica'' que marcou uma geração de estrelas das passarelas.














Keira Knightley (1985)

A atriz inglesa, já relatou em entrevista que teve avó e a bisavó anoréxicas. Mas, mesmo pesando menos de 40 Kg ela garante que não é...















Mary-Kate Olsen (1986)
Depois de meses de especulação sobre seus ossos aparecendo excessivamente, a jovem atriz assumiu publicamente que tinha um Transtorno Alimentarar e se internou numa clínica para o tratamento da anorexia.



















Nicole Richie (1981)
Depois de perder muito peso nos últimos anos, a "socialite" (?) tem mantido um corpo esquálido e assustado quem vê suas imagens mais recentes.




















Allegra Versace (1987)
Filha da estilista Donatella Versace, a jovem de 20 anos foi internada no início deste ano pesando 32 Kg. Sua situação era tão grave que ela estava sendo alimentada por um tubo nasogástrico, utilizado quando a alimentação oral não tem condições de suprir as necessidades.
















Ana Carolina Reston (1985-2006)

A modelo brasileira morreu em novembro do ano passado por causa de problemas decorrentes da anorexia. Ela tinha 19 anos e pesava 42 quilos - e reacendeu a polêmica da ditadura da magreza no Brasil.

















Outras mulheres que foram questionadas por sua magreza recentemente:

Madonna (Cantora)
Angelina Jolie (Atriz)
Lindsay Lohan (Atriz)
Victoria Beckham (Cantora)
Portia de Rossi (Atriz)
Calista Flockhart (Atriz)

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