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27 de setembro de 2007

Anorexia e Psicanálise


Transtornos alimentares se tornaram o sintoma “da moda” na época contemporânea. Devido ao grande número de mulheres que apresentam esta patologia, a anorexia encontrou um espaço na sociedade, sendo encarada não mais como uma doença, mas como um comportamento que reflete a cultura atual, um estilo de vida, onde estar belo e magro é a condição mais importante.A era da Internet e do mundo globalizado, o padrão de beleza, a mídia e a moda permitiram que as anoréxicas se encaixassem e entrassem em sintonia com a sociedade. A mania mundial por alimentos e produtos diets e light e a vida agitada que se tem atualmente, assim como a exigência da sociedade para que se tenha um corpo saudável, jovem e longelíneo, possibilitou que essas anoréxicas não fossem percebidas como doentes. Esta sintonia entre a paciente com Anorexia e a sociedade atual, além de permitir que a anoréxica fosse aceita, sem chamar atenção, permitiu, também, que este modelo de beleza fosse introjetado pelas adolescentes, que passaram a fazer qualquer coisa pare se enquadrar neste modelo. A parceria anoréxica-sociedade contemporânea é tão grande que permite que algumas olhem este transtorno alimentar, não como uma doença, mas como um estilo de vida.

A ditadura da beleza, de um corpo esguio e sem curvas como padrão atual confundem o normal e o patológico, que apresentam fronteiras cada vez mais difusas. Existe tanta energia canalizada no objetivo de tornar-se magra e tanto sofrimento envolvido no processo, que nos sugere um sutil deslizamento para a patologia. Um natural desejo de sentir-se bonita torna-se uma obsessão.Para atingir este modelo de ideal de beleza, as mulheres buscam miraculosas fórmulas para emagrecer, que proliferaram nas últimas décadas. Fórmulas que, de uma forma indireta, influenciam na busca obsessiva pelo corpo perfeito, já que divulgam que qualquer mulher pode atingir este ideal de beleza e que é este o modelo no qual toda mulher deve se enquadrar, como se o corpo fosse infinitamente maleável. Negam-se, assim, as particularidades do corpo de cada um e as limitações biológicas e genéticas existentes.As imagens que a mídia impõe para vender estes produtos relacionam um ideal de felicidade ao corpo perfeito, que funciona não apenas como fonte de aquisição de amor, mas, também, de status, significando que a imagem do corpo ideal é acompanhada de conotações simbólicas de sucesso, autocontrole, disciplina, liberação sexual, classe, competência, bom nível econômico, etc.

Embora a industria da publicidade argumente que esta é predominantemente informativa, basta um exame mais cuidadoso das revistas, da TV e de anúncios para perceber que ela é avassaladoramente persuasiva e simbólica e que suas imagens não apenas tentam vender o produto, ao associá-lo com certas qualidades socialmente desejáveis, mas também tentam vender uma visão de mundo, um estilo de vida e um sistema de valor congruente com os imperativos do capitalismo de consumo:O novo complexo cultural, representado pela combinação entre a cultura popular e as novas tecnologias de comunicação, está produzindo uma transformação nos processos de produção de subjetividade e identidade. Estas importantes transformações exigem novas interpretações e novos olhares, pois dizem respeito a um novo sujeito, com novos valores e novos sintomas.
Não ficam dúvidas de que estes fatores socio-culturais influenciam no desenvolvimento dos transtornos alimentares. Porém, de todas as mulheres que estão imersas na mesma cultura e sob o mesmo imperativo de ser magra, apenas algumas desenvolvem a doença. Esta realidade nos permite afirmar que devem existir fatores para além do imperativo da cultura atual, precipitantes no desenvolvimento da Anorexia.

O que a psicanálise pode dizer da Anorexia? O que o analista pode fazer diante de uma paciente esquálida, que chega a ele levada pela família ou por indicação médica e que nada tem a dizer de si mesma?

Uma das maiores questões vem do fato da paciente não se sentir doente, não apresentar uma queixa por não achar que existe um sintoma. Do mesmo modo que as pacientes negam este sintoma, negam também o desejo, a palavra, colocando o analista numa posição complicada, já que devem trabalhar com um sujeito que tem fome, mas não se deixa alimentar, e mesmo assim parece não sofrer. Por outro lado, apresentam um corpo frágil, deteriorado, e que em casos mais severos apresenta grande risco de morte.

Algumas hipóteses psicanalíticas sustentam que as anoréxicas de hoje seriam as histéricas da época de Freud. O comportamento histérico do século XIX assemelha-se aos sintomas da Anorexia em sua estrutura e na maneira como se apresentam. Freud explica a Histeria baseado na repressão sexual que imperava nesta época, sobretudo no que diz respeito ao comportamento feminino. Pressões em relação à conduta sexual, ao modo como essa sexualidade era expressa e os afetos envolvidos marcaram a cultura da época. Assim, a Histeria, bem como a Anorexia, estavam influenciadas pelo padrão de mulher idealizado na época e pelo significado da feminilidade. Se no passado a mulher devia ser pura e casta, hoje ela tem que ser magra.
Desta forma, pode se dizer que os sintomas histéricos das pacientes eram uma expressão do que estava reprimido. O que, devido a uma pressão cultural e social não podia ser falado e elaborado, tornava-se inconsciente e era expresso por uma outra linguagem: a linguagem do sintoma. Assim, os afetos reprimidos se articulavam e apareciam sob a forma de um sintoma produzindo um efeito no corpo.

A mesma idéia pode ser transposta para os dias de hoje para percebermos a semelhança entre a Anorexia e a Histeria. A Anorexia também pode ser vista como uma expressão da influência de um padrão exigido pela sociedade. Um ideal impossível de ser alcançado, a não ser pala via do adoecer. Seja no século XIX ou no século XXI, a mulher tenta se adequar a esses padrões de conduta ou de beleza. Mas a que preço?

O que a paciente anoréxica mostra através do seu sintoma, é algo que na impossibilidade de ser representado conscientemente, será expresso metaforicamente pela via do sintoma. É o seu corpo que irá representar o que não pode ser dito. Assim, também há na Anorexia Nervosa, algo que só se faz possível através de um doloroso sintoma inscrito no corpo. Pode-se dizer então que a Anorexia é, assim como a Histeria, uma maneira de expressar uma mensagem que o sujeito não suportaria conhecer.
Existe uma mensagem no adoecer da anoréxica. Sua inanição tem um significado, um conteúdo. Isto que não pode ser falado é o que a clínica psicanalítica vai investigar. O que leva uma mulher a arriscar sua vida na busca de um ideal de beleza é o que é questionado na tentativa de compreender o que está envolvido neste jogo que mistura a exigência da sociedade e desejos, aparecendo inscritos no corpo, como uma metáfora.

Só de curiosidade...
Conheça algumas mulheres anoréxicas que entraram para a história.



Santa Wilgefortis (século VIII)
Jovem portuguesa que foi prometida pelo pai para casar com um nobre italiano. Para evitar o matrimônio, fez um jejum rigoroso e iniciou um voto de virgindade. Algumas lendas relatam que seu sonho desde criança era ser freira. Além do voto, pediu também para Deus que a convertesse num ser repulsivo. Em respostas às suas orações, pêlos teriam começado a crescer em seu corpo esquálido. O nobre italiano nunca mais apareceu.















Santa Catarina de Siena (1347-1380)

Foi educada por uma mãe dominadora, com quem tinha uma relação conflituosa. Aos 7 anos de idade Catarina consagrou a sua virgindade, sua existência e seu apetite a Cristo e aos 15 ingressou na Ordem Terceira de São Domingos. A moça começa jejuns rigorosos que só terminam com sua morte aos 33 anos.







Mary Stuart (1542-1587)

Foi a primeira de várias outras mulheres da realeza a levantar suspeitas de uma possível anorexia. Herdeira do trono inglês morreu executada a mando da rainha Elizabeth I.















Santa Maria Madalena de Pazzi (1566- 1607)

Seu nome de batismo era Catarina, em homenagem à Santa Catarina de Siena (Coincidências?). Esta Santa também fazia prolongados períodos de jejuns e provocava vômitos quando forçada a comer, pois via a vontade de comer como tentações do Diado.

















Santa Rosa de Lima (1586-1617)

A peruana, única “santa anoréxica” da América Latina, comia apenas três dias por semana. Além do inadequado comportamento alimentar, a jovem também ficou conhecida por praticar atos de auto-flagelação que incluíam coroas de espinhos de metal, cilício e uma cinta de ferro na cintura.













Santa Verônica Giuliani (1660-1727)

Era devota de Santa Rosa de Lima e a tomou como modelo. Nas sextas-feiras, esta italiana comia apenas cinco sementes, em memória às cinco chagas de Cristo. Nos outros dias não se alimentava.









Sara Jacobs (1857-1869)
Depois do declínio do jejum religioso (
com regras mais restritivas para a canonização), veio o jejum como espetáculo com as ‘virgens jejuadoras'. Essa irlandesa começou a jejuar ainda criança. Seus pais a transformaram em atração de circo aos 10, mas morreu aos 12 anos de inanição. Estes foram considerados negligentes e cumpriram pena de trabalho forçado.




Katherine Anne Porter (1890-1980)

Americana, a escritora anoréxica, foi a primeira mulher a tratar do tema na ficção, ao publicar o romance Old Mortality, em 1937.














Jane Fonda
(1937)

A atriz americana foi a primeira mulher a revelar publicamente seus transtornos alimentares. Conta que lutou contra a bulimia e exercícios excessivos dos 15 aos 45 anos.














Sally Field (1946)

Atriz famosa nos anos 60, pesava 45 Kg e tinha 1,70 de altura. Começou a se tratar com 20 anos e passou 3 anos nesta batalha.













Karen Carpenter (1950-1983)

Cantora americana da dupla The Carpenters era gordinha na infância e ficou obcecada com a magreza ao se tornar famosa. Morreu, no auge de sua carreira, em 1983, vitima da anorexia, pesando 34 Kg.










Diana Spencer (1961-1997)

A princesa de Gales confessou que teve anorexia e bulimia por 10 anos, associadas a fortes crises de depressão.











Victoria Désirée Bernadotte (1977)

A princesa Vitória da Suécia assumiu, em 1997, o seu distúrbio alimentar após diversas especulações sobre sua magreza excessiva.










Kate Moss (1974)

Aos 26 anos, a top model pesava 43 kg. Foi internada duas vezes e provocou uma grande discussão sobre o tema, iniciando a polêmica anorexia X mundo fashion. Embora nunca tenha assumido a anorexia publicamente, se tornou o retrato da ''estética anoréxica'' que marcou uma geração de estrelas das passarelas.














Keira Knightley (1985)

A atriz inglesa, já relatou em entrevista que teve avó e a bisavó anoréxicas. Mas, mesmo pesando menos de 40 Kg ela garante que não é...















Mary-Kate Olsen (1986)
Depois de meses de especulação sobre seus ossos aparecendo excessivamente, a jovem atriz assumiu publicamente que tinha um Transtorno Alimentarar e se internou numa clínica para o tratamento da anorexia.



















Nicole Richie (1981)
Depois de perder muito peso nos últimos anos, a "socialite" (?) tem mantido um corpo esquálido e assustado quem vê suas imagens mais recentes.




















Allegra Versace (1987)
Filha da estilista Donatella Versace, a jovem de 20 anos foi internada no início deste ano pesando 32 Kg. Sua situação era tão grave que ela estava sendo alimentada por um tubo nasogástrico, utilizado quando a alimentação oral não tem condições de suprir as necessidades.
















Ana Carolina Reston (1985-2006)

A modelo brasileira morreu em novembro do ano passado por causa de problemas decorrentes da anorexia. Ela tinha 19 anos e pesava 42 quilos - e reacendeu a polêmica da ditadura da magreza no Brasil.

















Outras mulheres que foram questionadas por sua magreza recentemente:

Madonna (Cantora)
Angelina Jolie (Atriz)
Lindsay Lohan (Atriz)
Victoria Beckham (Cantora)
Portia de Rossi (Atriz)
Calista Flockhart (Atriz)

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..........................................................Fernanda Pimentel

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