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24 de junho de 2020

Jornada de Psicopatologia

Vou participar hoje da I Jornada de Psicopatologia da Faculdade Santo Agostinho, falando sobre os Transtornos Alimentares.

O evento é aberto e todos podem se inscrever no link: https://eventos.fasa.edu.br/jornada-psicopatologia




Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
fernandapimentel.com.br

2 de junho de 2020

O dia que descobri que minha mãe era gorda… Por Kasey Edwards


Kasey Edwards é uma colunista e autora australiana, que nos presenteou com esse belíssimo texto onde ela relata, em forma de carta, a experiência de presenciar a relação dolorosa de sua mãe com seu copro e seu peso. 
O texto original está neste link.



Querida mãe,
Eu tinha sete anos quando descobri que você era gorda, feia e horrorosa.
Até então, eu acreditava que você era linda – em todos os sentidos da palavra. Eu lembro de fuçar os antigos álbuns e ficar um bom tempo olhando para fotos suas no deck de um barco. Seu maiô branco, tomara que caia, parecia glamuroso como o de uma estrela de cinema. Sempre que eu tinha a chance, tirava aquele maiô maravilhoso do fundo do seu armário e ficava imaginando quando é que eu seria grande o suficiente para vesti-lo, quando é que eu seria como você.
Mas numa noite, tudo isso mudou. Estávamos todos vestidos para uma festa e você me disse:
“Olha para você, tão magra e bonita. E olha para mim, gorda, feia, horrorosa.”
De primeira, não entendi o que você quis dizer.
“Você não é gorda.” - eu disse, inocente e com sinceridade - ao que você respondeu, “Sim, eu sou, querida. Sempre fui gorda, desde criança.”
Nos dias seguintes, eu tive algumas revelações doloridas, que moldaram a minha vida toda. Concluí que:
1. você deveria ser mesmo gorda, porque mães não mentem.
2. gordo é sinônimo de feio e horroroso.
3. quando eu crescesse, seria como você e, portanto, seria gorda, feia e horrorosa também.
Passados alguns anos, eu revivi essa conversa e todas as centenas de outras que vieram depois e tive muita raiva de você. Por não se julgar atraente ou digna de atenção. Por ser tão insegura. Porque, como meu grande modelo de mulher, você me ensinou a agir assim também.
A cada careta que você fazia em frente ao espelho, a cada nova dieta do momento que iria mudar sua vida, a cada colherada culpada de “ai, eu não devia”, eu aprendia que mulheres deveriam ser magras para serem dignas e socialmente aceitas. Que meninas deveriam passar por privações porque a maior contribuição delas para o mundo era a aparência física.


Exatamente como você, eu passei a minha vida inteira me sentindo gorda – (nem sei quando foi que “gorda” se tornou um sentimento). E porque eu acreditava que era gorda, também me achava imprestável.
Mas os anos se passaram. Sou mãe. E sei que te culpar por minha péssima relação com meu corpo é inútil e injusto. Hoje entendo que você também é um produto de uma longa linhagem de mulheres que foram ensinadas a se odiar.
Olha só para o exemplo que a vovó te deu. Era uma vítima da própria aparência, e fez regime todos os dias da vida dela até morrer, aos 79 anos. Costumava se maquiar para ir ao correio, por medo de alguém vê-la de cara lavada.
Eu lembro do “suporte” que ela te deu quando você anunciou que papai tinha te deixado por outra mulher. O primeiro comentário dela foi, “Eu não entendo porque ele te deixaria. Você se cuida, usa batom. Entendo que você esteja acima do peso, mas não é muito.”
Papai também não te acalentava.
“Meu Deus, Jan”, uma vez ouvi ele te dizer. “Não é difícil. Calorias consumidas x calorias gastas. Se você quer perder peso, você só tem que comer menos.”
Aquela noite, no jantar, eu assisti você implementar essa dica milagrosa de emagrecimento do papai. Você preparou um chow mein para o jantar (se lembra como, nos anos 80, no subúrbio da Austrália, essa combinação de carne moída, repolho e shoyu era considerada o melhor da culinária exótica?). A comida de todo mundo estava em um prato comum, mas a sua estava em um pratinho de sobremesa.
Enquanto você sentava em frente a sua patética porção de carne moída, lágrimas silenciosas escorriam pelo seu rosto. Eu não disse nada. Nem quando os seus ombros começaram a curvar por causa do seu incomodo.
Ninguém te amparou. Ninguém te disse para deixar de ser ridícula e se servir um prato decente. Ninguém te disse que você já era amada, já era boa o suficiente. Suas conquistas e seu valor – como professora de crianças com necessidades especiais e mãe de três filhos – eram repetidamente reduzidos à insignificância quando comparados aos centímetros de cintura que você não conseguia perder.
Me despedaçou o coração testemunhar seu desespero, e sinto muito por não ter te defendido. Eu já tinha aprendido, àquela altura, que você ser gorda era culpa sua. Eu tinha ouvido papai falar de perder peso como um processo “muito simples” – coisa que, ainda assim, você não conseguia fazer. A lição: você não merecia comer e com certeza não merecia nenhuma compreensão.

Mas eu estava errada, mãe. Hoje eu entendo o que é crescer em uma sociedade que diz para as mulheres que a beleza delas é o que mais importa, e, ao mesmo tempo, define padrões estéticos absoluta e eternamente fora de alcance. Eu também entendo a dor que é internalizar essas mensagens. Nós acabamos nos tornando nossos próprios carcereiros e nos impomos punições sempre que não conseguimos chegar lá. Ninguém é mais cruel conosco do que nós mesmas.
Mas essa maluquice precisa acabar, mãe.
Acaba com você, acaba comigo. Acaba agora. Merecemos mais – mais que ter dias horríveis por pensamentos ligados a nossa péssima forma física, desejando que ela fosse diferente. E não é mais só sobre você e eu. É também sobre a Violet. Sua neta tem apenas 3 anos e eu não quero que esse ódio ao corpo tome conta dela e estrangule sua felicidade, sua confiança, seu potencial. Eu não quero que ela acredite que a aparência é o maior ativo que ela possui, e que vai definir o valor dela no mundo. Quando a Violet nos olha para aprender a ser uma mulher, precisamos ser os melhores modelos que pudermos. Precisamos mostrar para ela, com palavras e com as nossas ações, que as mulheres são boas o suficiente exatamente como são. E para ela acreditar, nós precisamos acreditar primeiro.
Quanto mais velhas ficamos, mais pessoas queridas perdemos, doentes ou em acidentes. A perda é sempre trágica, sempre muito precoce. Às vezes eu penso o que essas pessoas não dariam para ter mais tempo num corpo saudável. Um corpo que as permitisse viver um pouco mais. O tamanho das coxas ou os pés de galinha não importariam. Seria vivo, e portanto seria perfeito.
O seu corpo é perfeito.
Ele te permite desarmar todo mundo com seu sorriso, contaminar cada um com sua risada. Te dá seus braços para envolver a Violet e apertá-la até ela gargalhar. Cada momento que gastamos nos preocupando com a nossa forma física é um momento jogado fora, um pedaço precioso de vida que a gente não vai recuperar nunca mais.
Vamos honrar e respeitar nossos corpos pelo que eles fazem ao invés de desprezá-los pelo que eles são. Vamos manter o foco em viver vidas saudáveis e ativas, deixar nosso peso de lado e largar nosso ódio ao corpo no passado, que é onde ele merece ficar.
Quando eu olhava para aquela foto sua de maiô branco anos atrás, meus olhos inocentes de criança enxergavam a verdade. Eu via amor incondicional, beleza e sabedoria. Eu via a minha mãe.
Com amor,
Kasey.


Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

2 de junho - Dia mundial da Conscientização dos Transtornos Alimentares.

Hoje é dia mundial da Conscientização dos Transtornos Alimentares. As anorexias, bulimias e compulsões alimentares acometem milhares de pessoas por ano. As estatísticas só aumentam e incluem cada vez uma população mais jovem. Hoje, crianças de 4 anos já se queixam da forma do seu corpo e relatam o desejo de se engajar em alguma dieta com o objetivo de perder peso.
Precisamos pensar sobre a relação do sujeito com seu corpo, com sua imagem e com seu peso. 
Que peso é esse que pesa tanto? Que peso é esse que, por mais que se perca, nunca parece suficiente?





Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

1 de junho de 2020

Vai ter mais live!

A Ana Suy, minha colega de doutorado, me convidou para um bate papo numa live que vai acontecer hoje, as 21 hs, no Instagram dela: @ana_suy.
Vamos falar sobre a imagem do corpo, a obsessão pela estética perfeita, os transtornos alimentares, as patologias da beleza, os excessos de procedimentos cirúrgicos... Afinal, a beleza é uma obsessão?





Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

31 de maio de 2020

4 de maio de 2020

Sobre a influência da tecnologia na subjetividade das crianças


No momento em que as crianças estão mais em suas casas é importante retomar a discussão sobre a influência da tecnologia na subjetividade e desenvolvimento da criança. 
A psicanalista Julieta JerusalinskyOrganizadora do livro “Intoxicações Eletrônicas, O Sujeito na Era das Relações Virtuais” ( Agalma, 2017), fala, para a Revista Gama, sobre o impacto da tecnologia na formação da criança e de como ‘é preciso de gente para ser gente’

"A internet é pior babá eletrônica do que foi a televisão em outros tempos. A partir do momento em que a mobilidade permitiu que cada integrante de uma família usasse uma tela para assistir ou jogar o que bem entendesse, houve a individualização de um processo que antes era coletivo. Dar um tablet para uma criança ficar quieta pode ser abrir a porta para um estado de passividade.
“A infância é um momento de estruturação em que o cérebro, o corpo e o psiquismo estão em formação. As experiências de vida são decisivas para quem a criança será no futuro, e por isso é tão importante pensar que lugar se dá para a ela em casa, na escola e na sociedade”, afirma a psicanalista Julieta Jerusalinsky, professora do curso de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP) e especialista em primeira infância e desenvolvimento infantil.
Organizadora do livro “Intoxicações Eletrônicas, O Sujeito na Era das Relações Virtuais” ( Agalma, 2017), em entrevista a Gama ela fala sobre o impacto das telas na criação e no desenvolvimento dos filhos e sobre como a convivência é fundamental para moldar que adultos essas crianças serão amanhã. “A gente precisa de gente para virar gente, pois é pela relação com o outro que uma criança se estrutura.”
G |Da perspectiva de pais esmagados por obrigações profissionais e domésticas, como não cair na armadilha da tela apaziguadora? Como criar filhos nesse mundo de telas? 
A questão seria a tela ou o fato de estarmos todos demasiadamente ocupados trabalhando, em um afastamento de contextos comunitários de família extensa e vizinhança, enquanto as crianças ficam sozinhas? Essa é a pergunta que a gente precisa se fazer. Porque a infância é um tempo da vida crucial para a formação, mas ela termina. Por isso precisamos pensar em como arrumar tempo e lugar para transmitir à criança aquilo que achamos que é decisivo para que ela se torne o adulto de amanhã. Dá muito trabalho, é verdade. Mas ao conviver com uma criança acabamos inventando brincadeiras e evocando passagens da nossa própria infância que, se não fosse pela criança, cairiam no esquecimento. Assim elas acabam por nos fazer um favor aos nos tirar do automatismo da vida adulta e nos convidar a construir uma brincadeira entre gerações. Costuma ser surpreendente o que pode acontecer quando desligamos as telas e abrimos lugar para o convívio.

O que mudou em relação a crianças e telas durante a quarentena? 
A quarentena tem sido um grande desafio de convívio familiar na medida em que as crianças passaram a ficar sob o cuidado dos pais 24 horas por dia, sem poder compartilhá-los com a escola, com outros familiares, com as babás ou as empregadas domésticas. Se produz assim um encontro entre pais que costumam delegar o cuidado dos filhos com crianças que estão muito acostumadas a ter atividades propostas por outros — e que em muitos casos não sabem construir suas próprias brincadeiras. Enquanto os pais estão sobrecarregados pelo home office e os cuidados com os filhos, pululam na internet mil e uma sugestões para entreter as crianças. Em vez de virar recreacionistas dos filhos, é um bom momento para compartilhar ludicamente das atividades da casa: cozinhar, estender a roupa, fazer a cama. Tais atividades estão repletas de sequências que exigem planejamento, motricidade ampla e fina, classificações centrais na construção do pensamento, bem como dotadas de grande valor simbólico capaz de fazer uma criança se orgulhar de poder “fazer sozinha” o que sempre foi feito por outros.

Existe uma dosagem saudável para o uso de TV ou internet? Ela muda com a idade? 
Há 20 anos, se discutia quanto tempo de televisão uma criança poderia assistir. Mas a televisão implicava que todos assistissem juntos, o que permitia comentários. Com uma tela individual, não há mais a conversa. A programação da televisão terminava; a internet não termina. Os pais já não sabem mais o que as crianças estão vendo, a não ser as muito pequenininhas. Outro aspecto é a passividade. Uma criança que brinca está em atividade, construindo uma história. A criança que está na frente da tela é uma espectadora, o que traz diferentes consequências em cada idade. Uma criança de zero a três anos vive um momento decisivo para a apropriação de seu corpo e entrada na linguagem. Que noção do seu corpo ela terá se está passiva e não circula pelo espaço? Que modo de entrada na linguagem terá se está exposta a um tablet que emite sons, mas que não sustenta a lógica de uma conversa? Até os três anos, a utilização das telas deveria ser zero porque nesse momento de vida é fundamental a relação com o outro.

E depois da primeira infância? 
Dos três aos dez anos é o momento da construção do faz de conta, de armar brincadeiras que impliquem em fantasiar. Brincar é algo extremamente complexo porque é preciso construir uma sequência e negociá-la conjuntamente com outro, dizendo para o companheiro de brincadeira o que se imaginou para que, a partir dessas palavras, os demais companheiros possam construir uma imagem e fantasiar junto. Nos jogos virtuais, esse trabalho é poupado. Mesmo nos mais criativos, os contextos aparecem dados, seja o cenário, a missão ou o personagem de cada um. E esse é um trabalho psiquicamente estruturante. Mais adiante isso é necessário para escrever um texto a partir de uma ideia ou interpretar o que lemos. Há tabelas que indicam um limite de tempo de uso de eletrônicos para cada idade, mas a questão crucial a se fazer é: no lugar do que isso está? Quando um adolescente de 13 ou 14 anos fica de duas a três horas por dia na internet, e se esse é o tempo que uma família tem para estar junto ao final do dia, se perde um momento irrecuperável.

Mas existe alguma medida que o uso de telas pode ser positivo? 
Não se trata de demonizar as novas tecnologias, mas de considerar que uso fazemos delas. As intoxicações eletrônicas não começam quando se larga o celular na mão de uma criança. A questão é como nós, adultos, estamos usando esses aparelhos. Com a internet móvel, não temos mais divisão entre o tempo de trabalho e de lazer. Um pai chega em casa e senta para brincar com seu filho, enquanto olha para as mensagens no celular. Ao ficarmos o tempo inteiro disponíveis aos que não estão ali, perdemos a importância da presença dos que estão ali conosco. Para as crianças, que dependem radicalmente do lugar que os pais lhes dão, isso tem consequências muito mais contundentes.

Você organizou um livro sobre as intoxicações eletrônicas. O que é isso exatamente? 
Para elaborar o que acontece na vida, as crianças precisam produzir, ativamente, suas representações no lugar de ficarem como espectadoras passivas de um entretenimento digital. Fazer um desenho, uma escultura de massinha, uma encenação na brincadeira ou produzir narrativas com acontecimentos ficcionais ou biográficos permite a elaboração do que é vivido, transformando acontecimentos em experiências sobre as quais se produziu algum saber. Mas quando todo intervalo passa a ser preenchido por outro e mais outro conteúdo digital suprime-se o tempo necessário para poder até mesmo evocar isso que foi vivido. É aí que um efeito tóxico se instaura, já que essa exigência de estar sempre atualizado e online torna-se um excesso que suprime o lugar e o tempo para a elaboração subjetiva que dá significado à vida.

Como se identifica que uma criança está intoxicada? 
Nos últimos anos, principalmente a partir do advento da internet móvel, começamos a receber pequenas crianças que, em vez de brincar, conversar, fazer perguntas, compartilhar atividades com adultos, explorar o espaço ou simplesmente observar o entorno, ficavam absortas em jogos eletrônicos. Para os bebês de menos de três anos, isso se traduzia em um desinteresse de estar com os outros, apresentando linguagens com repetição de fragmentos de jogos eletrônicos e aplicativos, algumas vezes em língua estrangeira, em lugar de sustentar um diálogo ou compartilhar uma brincadeira. Muitas vezes os tablets ou celulares passaram a ser entregues na mão de pequenas crianças como “chupetas eletrônicas”. Um bebê precisa explorar o espaço para encontrar os perigos reais do mundo e ser advertido simbolicamente das regras de convívio. A partir do momento em que entra essa chupeta eletrônica, ele deixa de fazer um registro do seu próprio corpo no espaço. E isso tem uma consequência.

O que os pais que permitiram o uso de eletrônicos pelas crianças se deram conta de que há problemas e querem restringi-lo podem fazer? 
Dizer “não” não basta. Em primeiro lugar é preciso pensar o que se propõe à criança. Em segundo lugar é preciso considerar o que o próprio adulto faz. Muitas vezes, as crianças convivem com um adulto que está de corpo presente, mas psiquicamente ausente olhando para uma janela virtual. As crianças não aprendem simplesmente pelo que os adultos lhes dizem, mas pelo cruzamento disso com o que eles mesmo fazem. Há bebês que, siderados por eletrônicos, podem acabar caindo em diagnósticos de transtorno do espectro do autismo. Não estou dizendo que o autismo é causado pelos eletrônicos, mas que muitas crianças com intoxicações eletrônicas são colocadas nessa valeta diagnóstica, ou em outra grande valeta diagnóstica da contemporaneidade que é o déficit de atenção e hiperatividade.

Crianças que não têm contato com telas podem ter algum tipo de distância cultural das que as utilizam? 
Não existe uma única maneira de educar — existem várias e os pais não devem se eximir de transmitir aos filhos aquilo em que acreditam, mesmo que isso implique impor limites diferentes dos que estão acostumados a ver nos colegas. É uma ilusão entregar a elas aparelhos achando que vão prepará-las para o futuro. A era digital traz uma possibilidade de acesso à informação sem precedentes, mas as crianças precisam de outros seres humanos, pais, professores, para construir suas perguntas e seus percursos de investigação.
Fonte: Revista Gama

Fernanda Pimentel é psicanalista, professora e pesquisadora. Doutora em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

11 de outubro de 2019

Feminino e misoginia



Palestra do historiador Leandro Karnal, realizada em 2017 na UNICAMP, sobre o Feminino e a Misoginia na história. 
Ele parte da ideia de que a misoginia é de longe o preconceito o "mais solido, mais histórico, mais arraigado e o mais definidor de todos os preconceitos da espécie humana". Com isso, ele faz um percurso do lugar da mulher na história, identificando diversas formas de preconceitos que marcam o pensamento ocidental quando se trata do feminino.








Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

1 de setembro de 2019

Menos!






Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

8 de junho de 2018

Jornadas Clínicas ISEP - SEPAI


As Jornadas Clínicas do SEPAI - ISEP deste ano contam com as conferências de Marcelo Veras - O selfie entre síndromes e transtornos - e Marco Antonio Coutinho Jorge - Amar; trabalhar; deliberar, a prática analítica na contemporaneidade.
Imperdível!





Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

17 de setembro de 2017

Semana de Psicologia da Estácio de Sá Niterói

Na semana passada participei da Semana de Psicologia da Estácio de Sá Niterói, com a palestra "Quando o espelho se torna um problema: uma discussão sobra a imagem do corpo, os transtornos alimentares e os excessos de intervenções estéticas", contando um pouco dos achados da minhas pesquisa de doutorado sobre este tema.

O evento, que aconteceu em comemoração do dia do psicólogo, estava com auditório lotado! A participação dos alunos super interessados e a discussão depois da palestra  - que só acabou porque não tínhamos mais tempo - mostrou o quanto a nova geração de futuros psicólogos está antenada com a prática clínica e com os temas mais atuais! 








Fernanda Pimentel é psicanalista e atualmente cursa doutorado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise na UERJ, pesquisando sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.

2 de setembro de 2016

Curso de Extensão na Universo, em Niterói

Começa amanhã o Curso de Extensão que eu coordeno na Universo - Universidade Salgado de Oliveira, sobre Transtornos Alimentares.
A proposta é discutir o diagnóstico e tratamento das anorexias, bulimias e compulsões alimentares a partir da psicanálise, passando por uma investigação histórica, com o objetivo de aprofundar o conhecimento sobre a sintomatologia alimentar na atualidade.

Para se inscrever, entre em contato com o Centro de Atendimento Universo pelo telefone 2138-4862



4 de agosto de 2014

100 anos de "Introdução ao Narcisismo"

Era 'selfie' mantém atualidade de livro centenário de Freud sobre narcisismo

'Introdução ao narcisismo' forjou base para reformular teoria psicanalítica. Psicanalista identificou pontos positivos entre os narcisistas.




Na época em que o selfie e as redes sociais estão em alta, o livro ‘Introdução ao narcisismo’, um dos textos mais importantes de Sigmund Freud, completa 100 anos e se mantém atual. Na obra, o pai da psicanálise cunhou conceitos que serviram de base para a reformulação de toda a teoria psicanalítica. Associado a algo estritamente negativo, o narcisismo foi valorizado. “Sem uma pequena dose de narcisismo, você não sai nem de casa”, destaca o comentarista de comportamento do Estúdio i, o psicanalista Felipe Pena.
Entre os pontos positivos do narcisismo estão a capacidade de qualificar as próprias ambições e aspirações e a normatização dos ideais. “Você consegue entender o que é ou não factível”, diz Pena. Por outro lado, o narcisista pode ser incapaz de relacionar com os outros, chegando a depreciá-los.
O psicanalista diz que é possível identificar os narcisistas pelo sentimento de vazio e depressão que sentem ao não conseguir ter uma vida relacional. “É preciso separar o egocêntrico do egocentrado. O egocêntrico é o que não valoriza os outros. O egocentrado é aquele que valoriza a si próprio”, explica o comentarista.
Fernanda Pimentel é psicanalista, tem mestrado em Psicanálise pela UERJ  e pesquisa sobre a psicanálise na atualidade e a clínica contemporânea.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.
http://fernandapimentel.com.br

17 de dezembro de 2013

A velha história das mulheres e a preocupação com a beleza

Apesar da célebre frase de Francis Bacon "Não há beleza perfeita que não contenha algo de estranho nas suas proporções", as mulheres continuam reféns de padrões muito específicos. 
Sim, eles variam a cada época! Mas o que parece não variar é a busca incessante (beirando a obsessão) pela estética perfeita através de tratamentos que parecem experimentos de filme de ficção científica!

A série de fotos mostra tratamentos estéticos das décadas de 40 e 50, tão bizarros quanto os que vemos hoje em dia e nos faz questionar: desde quando a beleza é uma questão tão importante para as mulheres?

Veja todas as fotos aqui.


Fernanda Pimentel é psicanalista, tem mestrado em Psicanálise pela UERJ sobre 
Anorexia na contemporaneidade e escreve este blog entre 
uma leitura de Freud e outra de Lacan.
 Atende em consultório em Niterói e Copacabana.

23 de outubro de 2013

Anorexia popularizada na mídia

A Glamourização da magreza na mídia não é novidade p ninguém! Apesar de campanhas bem legais em prol da beleza de verdade e da diversidade do padrão de beleza feminino, é frequente encontrarmos uma publicidade extremamente agressiva e lipofóbica, como foi o caso da revista que comenta o corpo "perfeito" da modelo, que claramente tinha menos de 45 Kg. (Vale a pena dar uma olhada nessa matéria porque a revista, depois de receber uma enxurrada de críticas das leitoras, se retrata, pede desculpas e diz que, de fato, o texto não estava de acordo com o que a revista propõe sobre a diversidade e um padrão de beleza saudável!) 

Não é legal, não faz bem, temos que ir contra, mas infelizmente estamos "acostumadas" com o que vemos nas revistas femininas, ok...
Agora... programa de tv com jovem anoréxica é demais! Recentemente foi notícia na Rússia a moça de 20 anos que ficou famosa por exibir seu corpo esquálido nas redes sociais e foi convidada para participar de um programa de auditório. Os veículos de comunicação não deviam estrar tentando ir contra esses padrões? Desde quando uma pessoa vira celebridade por desfilar um corpo visivelmente doente?

No início eram blogs pró-anorexia que se destacavam pelas imagens mais chocantes e frases de impacto (muito mais que as revistas femininas!), mas hoje os vilões são os Instagram das antigas leitoras desses blogs.  Com isso perde-se a conta de quantas mulheres exibem seus ossos servindo de inspirações para meninas que ficam a mercê desse padrão de beleza bizarro! Não tem como não lembrar da  web celebrity brasileira, famosa na intimidade de seu Instagram, que faleceu recentemente em decorrência de complicações causadas pelo baixo peso.  As fotos de sua "barriga negativa" recebiam mais de 300 "likes" e exibiam legendas como "elogios me davam força para continuar enfraquecendo!"


                                          Fernanda Pimentel é psicanalista com Mestrado em Pesquisa e Clínica em Psicanálise pela UERJ e escreve este blog nas horas vagas.



21 de outubro de 2013

automutilação: o silêncio de quem fere o próprio corpo

Excelente entrevista com a socióloga Patricia Adler, que publicou recentemente o livro The Tender Cut: Inside the Hidden World of Self-Injury sobre seus estudos e pesquisas sobre a automutilação!


Fonte: Revista Cult

Navalha na carne

O que acontece quando os traumas e a solidão precisam ser exteriorizados? As manifestações silenciosas de quem flagela o próprio corpo vêm crescendo consideravelmente, ano após ano, segundo um estudo que acaba de ser publicado nos EUA –  The Tender Cut: Inside the Hidden World of Self-Injury [“O Corte Suave: Dentro do Mundo Oculto do Autoflagelo”], dos sociólogos Patricia A. Adler e Peter Adler.
O livro aponta que 4% da população adulta sofre com essa prática autodestrutiva, taxa que se agrava entre os mais jovens. A partir de 150 entrevistas feitas com pessoas de diferentes partes do globo, a obra chega à conclusão alarmante de que a automutilação vem aumentando em escala mundial, mas diz que os blogs e redes sociais trazem ajuda a seus praticantes.
Na entrevista abaixo, concedida à CULT por e-mail, Patricia Adler, que leciona sociologia na Universidade do Colorado, consegue ver um fim menos trágico na automutilação: ao canalizar as enormes frustrações de seus praticantes, evitam que estes possam praticar o suicídio.
CULT – Para a realização do livro, foram feitas 150 entrevistas com pessoas que praticam automutilação em todos os lugares do mundo. Como foi feita a escolha dessas pessoas e qual a faixa etária média? Existe algum gênero ou classe social dominante?
Patricia Adler – Começamos com pesquisas regionais, perguntando aos estudantes se gostariam de ser entrevistados e mencionados em entrevistas de rádio que estávamos procurando interessados. As pessoas nos mandavam e-mails pedindo para serem entrevistadas. Fizemos todas as conversas pessoalmente nos primeiros quatro anos.
No entanto, acabamos alcançando uma saturação de dados, não estávamos encontrando nada de novo. Começamos a coletar blogs, diários e outras postagens na internet entre 2001e 2002, nos juntando a vários outros grupos e iniciando postagens de solicitações on-line em torno de 2003 e 2004.
As entrevistas eram conduzidas por telefone. Entrevistamos pessoas do Canadá, da América Latina, do Pacífico Sul, do oeste e leste da Europa… Todas as entrevistas foram feitas em inglês.
Cerca de 80% dos entrevistados eram mulheres. Apenas duas estavam numa faixa etária abaixo dos 18 anos, por conta das restrições do nosso Conselho de Revisão Institucional, que regula as pesquisas.
A maior parte pertencia à faixa etária entre 18 e 30 anos, mas havia provavelmente 15 entrevistados na faixa dos 30, 10 pessoas na casa dos 40 e de 3 a 4 próximas dos 50 anos. Todos eram ou estudantes, ou tinham computadores em casa, então isso as coloca pelo menos na classe média, embora uma colega minha esteja pesquisando informações sobre automutilados em prisões, predominantemente grupos de negros, pessoas de classe baixa e homens.
Os entrevistados foram identificados?
Ninguém teve seu nome revelado. Usamos pseudônimos para todos.
Qual foi o período total em que as pesquisas foram conduzidas?
Iniciamos oficialmente as entrevistas em 2000 e completamos a última em 2007.
O que motivou sua pesquisa?
O embrião da ideia para os estudos começou em 1982, em Tulsa, Oklahoma. Então há pouco tempo trabalhando como professor, Peter [Adler] se deparou com uma estudante em seu escritório que veio falar com ele sobre uma estranha prática sua: ela  se cortava intencionalmente. Intrigado, ele escutou o relato, observou os pequenos cortes em suas pernas, que ela penosamente ocultava, e fez algumas perguntas, com curiosidade, sobre suas motivações e sensações ao executar a prática.
Nos anos seguintes, ambos vislumbramos comportamentos semelhantes. Como professores que ministraram cursos sobre desvios comportamentais, cultura pop, drogas e esporte, frequentemente, nos encontrávamos no papel dos adultos a que os estudantes se voltavam.
Nossos encontros seguintes com a automutilação foram raros, mas ocorreram com mais frequência no fim dos anos 1980 e início dos 1990. Na década de 90, sabíamos ou tínhamos ouvido falar de um número suficiente de pessoas à nossa volta que se cortavam intencionalmente.
Então, na primavera de 1996, uma jovem amiga nossa, estudante do Ensino Médio e filha de amigos próximos, confidenciou a Peter sobre os seus cortes. Ela nunca mencionara o fato aos seus pais, mas precisava de alguém para falar sobre o assunto. Peter era o seu conselheiro estudantil (um de seus trabalhos em paralelo) e eles mantinham uma relação próxima.
Nos anos seguintes, a prática da automutilação começou a revelar-se publicamente, mas apenas uma pequena parcela das pessoas parecia notar isso. Tinha todas as características de um fenômeno crescente no meio underground, assim como nos populares, mas que foram um dia altamente estigmatizadas, tatuagens e piercings que vínhamos testemunhando no período.
Qual a relação, se é que há, entre automutilação e tatuagens?
Embora tatuagens e piercings possam de certo modo lembrar a automutilação, são, essencialmente, práticas muito diferentes.
As pessoas se envolvem com a “modificação corporal” como modo de embelezar ou decorar seu corpo e, também, para filiar-se a uma identidade de grupo.
Já aquelas que se engajam no processo de automutilação buscam um mecanismo de enfrentamento para quando estão sentindo dores emocionais, depressão, frustração ou raiva. Não têm prazer com a automutilação, e não acredito que tatuar-se seja prazeroso para a maior parte das pessoas. Algumas delas mencionaram a mim que focavam na dor, mas essas são duas entre milhares das quais mencionei no livro ou observei em postagens on-line. Então, isso é raro.


Quais as razões mais comuns para a automutilação?
Alguns usaram a automutilação para rebelar-se contra um controle extremo, famílias religiosas ou uma determinada formação da própria imagem. Como falei, buscar a dor é extremamente raro e não merece menção.
As pessoas tiram prazer dessa prática? Talvez. Significa a liberação de emoções difíceis e dolorosas, de raiva e frustração. Isso faz com que as pessoas se sintam melhor? Sim. As pessoas se automutilam pelos seguintes motivos: emoções opressivas, as quais buscam tranquilizar ou liberar, como a) estresse e frustração, b) raiva, c) mal-estar agudo, d) desejo de libertação.

Elas também se convencem da racionalização de sua automutilação por várias razões: a) exteriorizar sentimentos introspectivos, b) punir-se ou ferir-se, c) controle (uma área em justaposição entre a automutilação e o transtorno alimentar). E também por bloqueio emocional: são incapazes de sentir, mas desejam sentir algo.
Quais são os ambientes e instrumentos mais utilizados?
Para se cortar, as pessoas utilizam vários instrumentos. Começam ainda crianças com clipes de papel, pregos e tesouras. Mudam para facas de cozinha, pedaços de vidro, ou abrem cartuchos de barbeadores e utilizam as lâminas. Elas veem na TV ou leem sobre pessoas que usam estiletes e, então, experimentam.
As mulheres tendem a usar instrumentos mais afiados do que os homens, que usam pregos enferrujados, pedaços de metal, facas serrilhadas ou qualquer coisa à mão. As mulheres normalmente se limpam depois, mas não sempre, enquanto isso é raro entre os homens.
Elas costumam fazer cortes menores em locais escondidos, enquanto homens fazem cortes mais profundos e aparentes no peito e nos braços.
Os homens costumam falar dos seus cortes grandes e viris, mais do que as mulheres, e parecem ter uma maior aceitação quando se cortam deste modo. Se fazem cortes pequenos e escondidos, são dados como femininos. Se as mulheres fazem cortes pequenos e escondidos, são mais bem aceitas, enquanto que se praticarem cortes expostos nos braços ou rosto, são altamente estigmatizadas.
As pessoas se queimam com isqueiros, fazem marcas com pedaços de metal que esquentam e prensam contra o corpo. As queimaduras não dão uma imediata sensação de prazer – incham, criam bolha, soltam pus e infeccionam. São mais difíceis de controlar e duram mais.
Algumas pessoas que praticam as duas coisas deixam para se cortar quando se sentem muito mal e se queimam quando se sentem realmente péssimas.
Outras prensam a mão contra as portas a fim de quebrar os ossos, arrancam o cabelo, fio por fio, se arranham e tiram as cascas das feridas (às vezes mantendo-as abertas por anos), abrem velhos ferimentos e evitam que cicatrizem por completo.
Muitas pessoas mantém um kit onde guardam os instrumentos preferidos. Elas podem levar consigo para onde forem ou manter em casa, caso estejam seguras de que conseguem esperar até voltar para casa.
Elas podem tanto preferir certos locais do corpo para a prática, como mudar de local assim que um torna-se “gasto”. Costumam gostar de preparar o ambiente com iluminação suave e músicas melancólicas. Buscam privacidade, pois não querem ser interrompidas. Tudo gira em volta delas mesmas.
Durante o período estudado, houve aumento ou diminuição da prática? Em sua opinião, por que isso acontece?
Houve grande aumento na prática. As estimativas atuais sobre a predominância da automutilação são difíceis de formular com a tradicional base de dados primariamente baseada em internações psiquiátricas e internações emergenciais.
O número de automutilados se aproxima dos 20% de todos os adultos em internação psiquiátrica, com 40 a 80% concentrada na população adolescente.
Em 1988, Favazza e Conterio descobriram que entre 7 a 10% dos pacientes internados em alas psiquiátricas que eles observaram começaram a praticar a automutilação, enquanto que dez anos mais tarde Briere e Gil (1998) constataram uma taxa de 21%.
Entre os adolescentes internados em alas psiquiátricas, essa taxa tem sido maior. Darche (1990) sugeriu que esse foco específico da população vem se automutilando em uma taxa de 40%, enquanto DiClemente, Ponton e Hartley (1991) afirmam que podem chegar a 61%, mas outros sugerem que se poderia alcançar a margem de 80%.
A quantidade de lesões auto-infligidas que figuram nas estatísticas oficiais das salas de emergência são difíceis de sondar, pois a automutilação é agregada com auto-envenenamento, frequentemente caracterizado como tentativa genuína de suicídio.
O problema nisso é que muitas pessoas fazem uso de ambas as práticas, e, assim, a maior parte dos episódios de automutilação não é detectada.
De qualquer modo, pesquisas sobre internações em hospitais do Reino Unido estimam um aumento substancial nas taxas e repetições da automutilação em ambos os gêneros ao longo de 11 anos de estudo, entre as décadas de 1980 e 1990 (62,1% de aumento entre os homens e 42,2% de aumento entre as mulheres).
Mesmo as Maldivas, um pequeno grupo de ilhas na costa da Índia, reportaram em 2009 que o número de entradas em hospitais por ferimentos auto-infligidos teve uma dramática ascensão ao longo dos últimos anos.
Psicólogos tentaram estimar o predomínio da automutilação na população em geral, sugerindo algo entre 1% e 4%, com mais de 20% pertencente ao subgrupo adolescente.

Estudos mais recentes no meio adolescente sugerem que as taxas norte-americanas de automutilação podem chegar a 14-15%, alcançando quase os 50% nos dois primeiros anos do Ensino Médio, com dados similares entre estudantes universitários.
A razão para isso é o fato de que a automutilação é altamente contagiosa socialmente.
Na internet há vários grupos de apoio e discussões que reúnem pessoas de todo o mundo que passaram por experiências semelhantes. Qual é o papel desses grupos?
Comunidades virtuais, salas de bate-papo, grupos, blogs, etc. são meios em que pessoas solitárias isoladas podem interagir. Quando a automutilação inicialmente explodiu no ciberespaço, em meados dos anos 2000, as postagens eram muito esporádicas. Mas agora foram substituídas por locais moderados em que raramente são encorajadas experiências de automutilação.
Achamos que eles são muito úteis para os automutiladores. Ajudam as pessoas a escapar dos estigmas do comportamento e a descobrir uma comunidade que as entenda e aceite. Se quiserem parar, existirão pessoas para ajudá-las. Se tiverem uma recaída, existirão pessoas para aceitá-las, que não desistirão delas. Para as poucas que abraçam a causa, existem outras como elas.
A propagação da automutilação na internet vem sendo terapeuticamente benéfica.
Os automutilados são, normalmente, pessoas solitárias. Qual é a relação entre esse sentimento, presente na subjetivação do indivíduo, e sua exposição em meios públicos como a internet?
É verdade que a automutilação é uma prática predominantemente solitária. As pessoas não querem estar junto de outras quando o fazem e sua atenção é interiorizada. Mas frequentemente procuram outras pessoas para falar sobre aspectos das suas vidas que as levam a cometer o autoflagelo e sobre sua luta contra isso.
A maior parte das pessoas no mundo real não tem habilidade para entender a luta dos automutiladores ou não tem a paciência para aturar suas frequentes carências emocionais.
Já on-line, há milhares de pessoas dispostas a escutar os intermináveis problemas alheios em troca de poder partilhar os seus próprios. Ou algumas pessoas apenas escutam os problemas alheios e os apoiam como uma forma de sustentar a própria abstinência; ajudam a si ajudando os outros.
Quais aspectos legitimam a prática da automutilação como fenômeno social?
Eu diria que o aumento dramático na quantidade de pessoas que se automutilam é um dos fatores que reforçam a sua legitimação. A maior parte das pessoas com quem converso conhece alguém que luta contra esse comportamento. Muitas outras viram em filmes, documentários, programas de TV ou leram sobre o assunto em algum lugar.
Não pensamos nisso mais como um gesto suicida, mas reconhecemos que é antissuicida, uma forma que as pessoas têm de se “autotranquilizar”, para poderem desviar sentimentos suicidas em potencial. É uma ponte que muitas pessoas usam durante períodos árduos das suas vidas até que as coisas melhorem.
É um mecanismo de enfrentamento que as pessoas usam para lidar com sua tristeza, raiva, chateação.
É moderadamente efetiva, não é fisicamente viciante, não é ilegal e não machuca os outros. Então, algumas pessoas a consideram uma alternativa não tão ruim quanto as drogas, a violência contra os outros ou formas piores de autoflagelo.

The Tender Cut: Inside the Hidden World of Self-Injury
Patricia A. Adler e Peter Adler
New York University Press
264 págs.
US$ 22 (R$ 43)