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30 de janeiro de 2010

publicidade e sexualidade

Imagens do feminino na propaganda brasileira.

Dentro da proposta de examinar o papel fundamental da composição sígnica da sexualidade na linguagem publicitária, r
ealizamos um estudo analítico cujo fundamento teórico principal é a teoria semiótica peirceana em constante diálogo com a teoria psicanalítica. Investigamos como a imagem do feminino está instalada nos anúncios, carregada de signos que representam os valores sexuais na complexa sociedade de consumo brasileira. O corpus dessa análise constitui-se de anúncios veiculados nas revistas CLAUDIA, nos meses de outubro, novembro e dezembro de 2005, que serviu de observação para constituirmos a amostra a ser analisada, cujo critério de seleção deu-se pela identificação de apelos sexuais nas mensagens. A partir dos ensaios freudianos sobre a sexualidade, posteriormente atualizados pela psicanálise lacaniana, buscamos identificar nesses anúncios significantes sexuais que produzem sentido para o consumidor. Entendendo, ao modo de Lacan, que existem apenas significantes que definem o masculino sendo o feminino impossível de ser dito, concluímos que a sexualidade humana é dialeticamente desenvolvida em torno de uma ordem fálica de ser ou ter. Nas propagandas dirigidas às mulheres, estas se apresentam com um véu, ou mascaradas, numa tentativa inconsciente de tampar uma diferença simbólica, provocando várias identificações de ordem imaginária, simbólica e fantasística e, conseqüentemente, o produto é encarado – ilusoriamente - como mediador de uma satisfação.
Encontrei o artigo blog Objeto a
Veja na íntegra aqui.

29 de janeiro de 2010

valor ao que é banal

Sempre fico por fora dos constantes comentários a respeito dos participantes do big brother e para falar a verdade me orgulho disso! Me orgulho de não ter visto nem um minuto da banalidade, baixaria e ignorância campeã de audiência de todo verão há 10 anos!
Recebi este email hoje e achei sensacional!
Parabéns Antonio Barreto!!!!

"Curtir o Pedro Bial
E sentir tanta alegria
É sinal de que você
O mau-gosto aprecia
Dá valor ao que é banal
É preguiçoso mental
E adora baixaria.

Há muito tempo não vejo
Um programa tão ‘fuleiro
Produzido pela Globo
Visando Ibope e dinheiro
Que além de alienar
Vai por certo atrofiar
A mente do brasileiro.

Me refiro ao brasileiro
Que está em formação
E precisa evoluir
Através da Educação
Mas se torna um refém
Iletrado, ‘zé-ninguém’
Um escravo da ilusão.

Em frente à televisão
Lá está toda a família
Longe da realidade
Onde a bobagem fervilha
Não sabendo essa gente
Desprovida e inocente
Desta enorme ‘armadilha’.

Cuidado, Pedro Bial
Chega de esculhambação
Respeite o trabalhador
Dessa sofrida Nação
Deixe de chamar de heróis
Essas girls e esses boys
Que têm cara de bundão.

O seu pai e a sua mãe,
Querido Pedro Bial,
São verdadeiros heróis
E merecem nosso aval
Pois tiveram que lutar
Pra manter e te educar
Com esforço especial.

Muitos já se sentem mal
Com seu discurso vazio.
Pessoas inteligentes
Se enchem de calafrio
Porque quando você fala
A sua palavra é bala
A ferir o nosso brio.

Um país como Brasil
Carente de educação
Precisa de gente grande
Para dar boa lição
Mas você na rede Globo
Faz esse papel de bobo
Enganando a Nação.

Respeite, Pedro Bienal
Nosso povo brasileiro
Que acorda de madrugada
E trabalha o dia inteiro
Dar muito duro, anda rouco
Paga impostos, ganha pouco:
Povo HERÓI, povo guerreiro.

Enquanto a sociedade
Neste momento atual
Se preocupa com a crise
Econômica e social
Você precisa entender
Que queremos aprender
Algo sério – não banal.

Esse programa da Globo
Vem nos mostrar sem engano
Que tudo que ali ocorre
Parece um zoológico humano
Onde impera a esperteza
A malandragem, a baixeza:
Um cenário sub-humano.

A moral e a inteligência
Não são mais valorizadas.
Os “heróis” protagonizam
Um mundo de palhaçadas
Sem critério e sem ética
Em que vaidade e estética
São muito mais que louvadas.

Não se vê força poética
Nem projeto educativo.
Um mar de vulgaridade
Já tornou-se imperativo.
O que se vê realmente
É um programa deprimente
Sem nenhum objetivo.

Talvez haja objetivo
“professor”, Pedro Bial
O que vocês tão querendo
É injetar o banal
Deseducando o Brasil
Nesse Big Brother vil
De lavagem cerebral.

Isso é um desserviço
Mal exemplo à juventude
Que precisa de esperança
Educação e atitude
Porém a mediocridade
Unida à banalidade
Faz com que ninguém estude.

É grande o constrangimento
De pessoas confinadas
Num espaço luxuoso
Curtindo todas baladas:
Corpos “belos” na piscina
A gastar adrenalina:
Nesse mar de palhaçadas.

Se a intenção da Globo
É de nos “emburrecer
Deixando o povo demente
Refém do seu poder:
Pois saiba que a exceção
(Amantes da educação)
Vai contestar a valer.

A você, Pedro Bial
Um mercador da ilusão
Junto a poderosa Globo
Que conduz nossa Nação
Eu lhe peço esse favor:
Reflita no seu labor
E escute seu coração.

E vocês caros irmãos
Que estão nessa cegueira
Não façam mais ligações
Apoiando essa besteira.
Não deem sua grana à Globo
Isso é papel de bobo:
Fujam dessa baboseira.

E quando chegar ao fim
Desse Big Brother vil
Que em nada contribui
Para o povo varonil
Ninguém vai sentir saudade:
Quem lucra é a sociedade
Do nosso querido Brasil.

E saiba, caro leitor
Que nós somos os culpados
Porque sai do nosso bolso
Esses milhões desejados
Que são ligações diárias
Bastante desnecessárias
Pra esses desocupados.

A loja do BBB
Vendendo só porcaria
Enganando muita gente
Que logo se contagia
Com tanta futilidade
Um mar de vulgaridade
Que nunca terá valia.

Chega de vulgaridade
E apelo sexual.
Não somos só futebol,
baixaria e carnaval.
Queremos Educação
E também evolução
No mundo espiritual.

Cadê a cidadania
Dos nossos educadores
Dos alunos, dos políticos
Poetas, trabalhadores?
Seremos sempre enganados
e vamos ficar calados
diante de enganadores?

Barreto termina assim
Alertando ao Bial:
Reveja logo esse equívoco
Reaja à força do mal…
Eleve o seu coração
Tomando uma decisão
Ou então: siga, animal…"

Autor: Antonio Barreto

Cordelista, natural de Santa Bárbara-BA, residente em Salvador.

22 de janeiro de 2010

mais...

Anna Wintour, da Vogue America, concorda com a SPFW que é preciso tomar medidas para se discutir a questão da saúde (magreza) das modelos

http://twitter.com/RevistaEpoca

Um assunto que insiste...

Dois artigos da Folha de São Paulo falam sobre a magreza das meninas/modelos no SPFW:

Moda tem que parar de sacrificar modelos

Chegou a um nível irresponsável e escandaloso a magreza das modelos nas semanas brasileiras de moda. As garotas, muitas delas recém-chegadas à adolescência, exibem verdadeiros gravetos como pernas e, no lugar dos braços, carregam espécies de varetas desconjuntadas. De tão desencarnadas e enfraquecidas, algumas chegam a se locomover com dificuldade quando têm que erguer na passarela os sapatos pesados de certas coleções.

Usualmente consideradas arquétipos de beleza, essas modelos já estão se acercando de um estado físico limítrofe, em que a feiura mal se distingue da doença.
Essa situação tem o conluio de todo o meio da moda, que faz vista grossa da situação, mesmo sabendo das crueldades que são impostas às meninas e das torturas que elas infligem a si mesmas para permanecerem desta maneira: um amontoado de ossos, com cabelos lisos e olhos azuis.

Uma rede de hipocrisia se espalhou há anos na moda, girando viciosamente, sem parar: os agentes de modelos dizem que os estilistas preferem as moças mais magras, ao passo que os estilistas justificam que as agências só dispõem de meninas esqueléticas. Em uníssono, afirmam que eles estão apenas seguindo os parâmetros de beleza determinados pelo “mercado” internacional -indo todos se deitar, aliviados e sem culpa, com os dividendos debaixo do travesseiro.

Alguns, mais sinceros, dizem que não querem “gordas”, com isso se referindo àquelas que vestem nº 36. Outros explicitam ainda mais claramente o que pensam dessas modelos: afirmam que elas não passam de “cabides de roupas”. Enquanto isso, as garotas emagrecem mais um pouco, mais ainda, submetidas também a uma pressão psicológica descomunal para manterem, em pleno desenvolvimento juvenil, as características de um cabide.

Um emaranhado de ignorâncias, covardias e mentiras vai sendo, assim, tecido pelo meio da moda, inclusive pelos estilistas mais esclarecidos, que não pesam as consequências do drama (alheio) no momento em que exibem, narcisicamente, suas criações nas passarelas. Para uma semana de moda, que postula um lugar forte na sociedade brasileira, é um disparate e uma afronta que ela exiba a decrepitude física como modelo a milhões de adolescentes do país.

Para a moda como um todo, que vive do sonho de embelezar a existência, a forma como os agentes e os estilistas lidam com essas moças é não apenas cruel, mas uma blasfêmia. Eles, de fato, não estão afirmando a grandeza da vida, mas propagando a fraqueza e a moléstia. O filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu que as modelos são “as vítimas sacrificiais de um deus sem rosto”. É hora de interromper esse ritual sinistro. É hora de parar com essas mistificações da moda, que prega futuros ecológicos, convivências fraternais e fantasias de glamour, enquanto exibe nas passarelas verdadeiros flagelos humanos.


modelo desfilando no SPFW 2010

Hipermagreza domina passarelas da SPFW

“Gente, o que é isso, essa menina está doente?” A frase, de um fashionista sentado na primeira fila de um desfile da SPFW, ilustra um espanto recorrente na atual edição do evento: as modelos estão mais magras do que nunca. Prova disso é que estilistas estão tendo dificuldades em montar seus “castings”, fazem ajustes de última hora e escolhem peças estratégicas que escondam os ossos saltados das modelos.

Na SPFW da magreza radical brilham modelos na faixa dos 18 anos, que têm índice de massa corporal, calculado pela Folha, igual ao de crianças de 9 anos. No mundo dos adultos, a Organização Mundial da Saúde chama esse índice de “magreza severa”.

A explicação vem da top Aline Weber, 21, que mora em Nova York e participou do filme “Direito de Amar”, de Tom Ford. “Três coleções atrás, no auge do pânico antianorexia, as pessoas pesavam as modelos no backstage para ver se elas estavam saudáveis. Agora, a poeira baixou. Se você engorda um pouco, todo mundo está ali pra te julgar. Se você emagrece, falam que você está linda.” Aline diz conhecer muitas meninas bulímicas e anoréxicas fora do Brasil. “As russas são as piores”, conta.

O stylist David Pollak identifica o padrão supermagro europeu como uma das causas da onda que atinge a atual edição da SPFW. “Muitas meninas estão trabalhando fora e por isso estão supermagras. Estão dentro do padrão de Paris, que é esquelético.”

A magreza radical fez com que ele tivesse dificuldades na hora de montar o “casting” da Cavalera. “A marca tem uma imagem mais adolescente, saudável. Por isso, peguei meninas que não são badaladas [leia-se, as que ainda não têm carreira internacional]. Outros stylists tiveram de fazer o improvável: dispensar meninas de suas seleções porque elas estavam magras demais.
A onda tem feito eles inverterem uma antiga lógica da moda: ao invés de avaliarem roupas ideais para esconder, por exemplo, um quadril mais largo, têm de descobrir os looks que vão ocultar um corpo esquálido. “As meninas muito magras causam problemas. Seus ossos apontam num vestido de seda mais fluido. Ou seus corpos, muito estreitos, deixam a proporção toda estranha”, avalia o stylist Maurício Ianês.

Muito café

O estilista Reinaldo Lourenço não só percebe a hipermagreza das modelos desta temporada como também conta que teve que fazer hora extra por conta do fenômeno. “Tive que fazer vários ajustes de última hora em roupas que ficaram largas nas meninas, o que me deu o maior trabalho”, diz. Segundo ele, isso acontece porque a atual safra de modelos é “muito jovem”.
Nos camarins, longe da mesa de salgadinhos e quitutes -relegada aos jornalistas-, modelos desfilam com copos de café. “Identifico as mais magras como a turma do cafezinho, já que elas passam o dia todo tomando café para não comer e ficarem ligadas”, diz Pollak. Em entrevistas, elas escondem o peso e as medidas. “Não sei quanto peso. Nunca subo na balança”, disfarça uma delas.

Cristina Theiss, 18, jovem aposta da Ford Models, teoriza: “Para fazer passarela de inverno, precisa ser mais magrinha mesmo, porque as roupas são volumosas, enchem demais”. Para agências de modelos, o assunto ainda é tabu. Ou foi deixado de lado. “Magreza? Anorexia? Mas que assunto antigo, datado!”, diz um agente, interrompendo a entrevista da Folha com uma modelo. Basta olhar para as passarelas para ver que não é.”

21 de janeiro de 2010

Geração Zapping

Geração Zapping: tá ligado?

Crianças e jovens estão descobrindo novas maneiras de entender o mundo e se relacionar com base em avanços tecnológicos e transformações culturais.

Televisão, telefone, fone de ouvido, computador, MP3, Orkut, Twitter, Facebook, MSN, SMS. A conexão é on-line e os estímulos vêm de toda parte. No monitor do laptop ou no visor do celular incontáveis telas são abertas, reduzidas e fechadas em segundos. Surge uma nova linguagem, na qual a grafia das palavras é adaptada, simplificada, e prevalecem abreviações. A informação chega descontextualizada e truncada, inaugurando um novo jeito de compreender o mundo – e se relacionar, na horizontalidade do conhecimento – e caracterizando a chamada geração zapping (expressão de origem inglesa que se refere ao ato de mudar constantemente de canal).

Surge assim um novo jeito de pensar, graças à síntese de vários dados coletados de forma imediata e simultânea. O zapping tipifica justamente essa relação intensa e aparentemente inesgotável. Fragmentados os corpos, a informação e as relações, os jovens ficam à mercê dos estímulos, sem tempo para a introspecção e assimilação do bombardeio de conteúdos. O apelo ao mundo externo é intenso e vem de todos os lados.

Enquanto para a maioria daqueles que já passaram dos 30 anos a simultaneidade (tudo ligado ao mesmo tempo) é vivida como estressante, adolescentes parecem não se incomodar nem um pouco em receber vários estímulos concomitantes. Não por acaso, a expressão “tá ligado?” é bastante usada por aqueles que não chegaram a conhecer o mundo antes do computador.

São visíveis sua rapidez e destreza em localizar e selecionar informações, bem como esta agilidade em zapear o mundo, coletando os mais diversos dados, nas diferentes fontes.

O som permanece ligado enquanto leem, telefonam, trocam mensagens pelo computador, assistem à televisão. E, para desespero de muitos pais, até quando estudam. Por mais difícil que seja para alguns adultos compreenderem, o fato é que os jovens estabelecem uma forma singular de vínculo com o exterior: suas referências são de curta duração também pela necessidade de se diferenciar da maioria. Assim, modismos e cultos a ídolos deixam de ser parte do ideário de uma geração e passam a ser apenas objetos de diversão pura e simples. A expressão ídolo de uma geração pode não fazer mais sentido. A ideia do ídolo como símbolo de uma forma de pensar e viver ou modelo de identificação parece mais ligada a décadas anteriores. Assim como outros aspectos do cotidiano, o entretenimento é descartável e, como tal, passa rápido.

O rapaz que nas férias passadas era surfista poderá adotar o visual emo no próximo fim de semana, alterando rapidamente seus hábitos, pôsteres porventura afixados na parede, estilos musicais preferidos, locais que frequenta etc. Nesse momento em que a transitoriedade impera, não há estilos definitivos.

O mesmo ocorre com relação às drogas: entre a geração dos anos 60 e 70, por exemplo, o uso frequentemente estava associado à contestação e aos ideais de liberdade de expressão.

Atualmente, é mais um objeto de consumo, voltado ao prazer mais pragmático e objetivo. O psicanalista americano Christopher Lasch reconhece este momento como resultante de uma espécie de cultura de consumo, que acaba por debilitar a própria capacidade dos indivíduos de discriminar fantasia de realidade, já que, como em um caleidoscópio, surgem a todo momento novidades que despertam novas necessidades.

Todo indivíduo nesta sociedade parece ser elo de múltiplas redes de comunicação, informação, interpretação, divertimento, aflição e evasão. Os movimentos e centros de emissão estão dispersos, desterritorializados pelo mundo afora. Principalmente para jovens das classes mais baixas, com menos acesso às evoluções tecnológicas, a televisão oferece scripts sobre os papéis sociais, gênero, gratificação social, sexual, lazer, resolução de conflitos e valores. Publicado nos Estados Unidos, o relatório Growing up in the prime time: analyses of adolescent girls on the television examinou mais de 200 episódios de programas para adolescentes e constatou que a aparência deles é considerada mais importante que sua inteligência; meninas cultas que gostam de estudar são exibidas como socialmente desajustadas; elas são mais passivas que seus colegas do sexo masculino. E frequentemente o jovem é retratado como obcecado por compras, pela própria imagem, excessivamente voltado para a vida amorosa e pouco interessado em conversas sobre questões existenciais, acadêmicas ou mesmo profissionais. A falta de senso crítico, aliada à ideologia do consumo, tem gerado também uma tendência à banalização da posse material, uma vez que aparelhos tecnológicos acabam assimilados como móveis e utensílios da casa, e passa a importar pouco ao jovem onde as informações são obtidas, contanto que sejam acessíveis.

A rapidez e o fracionamento da informação são incorporados ao cotidiano dessa geração; o mergulho nessa realidade não se dá no meio, mas entre os meios. Valoriza-se a narrativa curta com significado quase imediato. Há uma aceleração temporal conciliada à fragmentação espacial. A televisão é considerada ao mesmo tempo invisível e onipresente, ainda que apareça como coadjuvante nos bares, restaurantes, no intervalo da escola e em vários ambientes da casa. É o jovem que capta dados nas incursões aos diferentes campos de informação quem vai construir um significado inerente ao fluxo dessas informações.


ESCOLA E FAMÍLIA
Dentro de um novo contexto social, instaura-se também um modelo de juventude. Relações familiares com nova conformação trazem outros referenciais ao adolescente. Os modelos e o conjunto do saber não advêm mais dos pais – pelo menos não necessariamente. A figura paterna está hoje mais diluída. O sociólogo francês Eugène Enriquez, ligado à psicossociologia e à sociologia clínica, considera que esse enfraquecimento está associado à incapacidade paterna de se situar no lugar da lei e de, consequentemente, desempenhar seu papel de interventor e polo de identificação. A criança e o jovem aprendem com os meios de comunicação de massa, com seu grupo de companheiros e com sua experiência pessoal. Também a escola tem deixado de exercer o papel de grande educadora; se o capitalismo valoriza uma relação clientelista, visando o lucro e estimulando o consumo, os alunos das escolas e universidades particulares são, em sua maioria, também atendidos sob essa perspectiva.

A proposta de satisfação imediata estende-se na relação família-escola, e a livre concorrência do mercado, direta ou indiretamente, autoriza as instituições a oferecer aos pais os instrumentos para esse nível de gratificação. É possível observar, em alguns casos, a tendência de um modus operandi empresarial por parte, inclusive, de algumas instituições educacionais, voltadas primordialmente ao lucro e aos investimentos que garantam o menor número possível de evasão dos alunos. Em consonância com as ideias do psicanalista Peter Blos, esta queda gradual e radical da convivência familiar – com reflexos na educação, nutrição, hábitos e preceitos morais – leva os pais a acreditar, cada vez mais, nas recomendações públicas que a mídia faz entrar nos lares. A tradição fica, então, substituída pelos especialistas que oferecem respostas para os problemas cotidianos. Isso favorece ainda mais o enfraquecimento da autoridade das figuras parentais, que muitas vezes abdicam de suas próprias convicções em favor de escolhas feitas por especialistas.

Na clínica de adolescentes, observa-se claramente a dificuldade dos pais em assumir uma posição de autoridade. A questão vem, muitas vezes, justificada por compromissos profissionais e o consequente sentimento de culpa em decorrência do afastamento do convívio diário. Esses fatores, aliados ao forte acesso aos meios de comunicação, especialmente a TV e a internet, têm levado algumas pesquisas a entender o comportamento dos jovens com base nesses novos referenciais.

A força e o poder da mídia permitem observá-la com características conceitualmente institucionais. Para Nicola Abbagnanno, autor do Dicionário de filosofia (2000), a instituição pode ser entendida como um conjunto de normas que regulam a ação social. Autores como o sociólogo G. Lapassande ressaltam que as instituições estão inseridas em um sistema social, vinculadas ao contexto político. A relação entre ideologia e instituição também se faz presente, considerando que todas as mediações institucionais atravessam a sociedade e determinam suas opções, preferências, rejeições e aspirações. O controle ideológico provoca o que o autor chama de desconhecimento social, fruto de mecanismos que interferem na educação, informação e cultura.

O vazio e a falta de perspectiva resistem à sociedade espetacular, pregadora da beleza e da felicidade. Elaborar, pensar e criticar são atos humanos que exigem uma postura ativa diante das experiências. Manter-se constantemente no papel de espectador remete à alienação e à passividade. Não é possível ignorar que a indústria do entretenimento, aliada aos valores do capitalismo, transforma todas as informações em show e, assim, realidade e fantasia se confundem. O educador americano Neil Postman vê o excesso de informação levando à impossibilidade de pensar: “Por pensar, entendo ter tempo e motivação para perguntar-me: Qual o significado deste acontecimento? Qual é sua história? Quais são as razões disso? Como isso se encaixa no que já sei do mundo?”, questiona.

O jovem hoje, por outro lado, pode estar desenvolvendo um novo modo de pensar, voltando à rapidez da capacidade de detectar a informação e sintetizá-la. Mas, assim como as informações zapeadas, sua mente, seu corpo e suas relações podem estar fragmentados, dificultando uma percepção mais apurada e cuidadosa, seja de seus sentimentos, seja das experiências que o mundo tão intensamente lhe oferece


Artigo da Mente&Cérebro

13 de janeiro de 2010

Simplesmente eu, Clarisse Lispector

A Peça Simplesmente eu, Clarisse Lispector, com Beth Goular ,reestréia no Rio as terças e quartas as 19h30 no Teatro do SESI Rio (temporada de 12 a 27 de janeiro).

SINOPSE DA PEÇA - Joana, uma mulher inquieta e criativa, primeira personagem de Clarice Lispector que Beth Goulart conheceu. No auge da adolescência, ao ler Perto do coração selvagem, romance de estréia da autora, a identificação foi inevitável. "Eu também acho que não sou compreendida. O que vou fazer com isso tudo dentro de mim, com esse processo criativo maluco?", confessa Beth. Depois de Joana, vieram outras mulheres na escrita de Clarice. Entre elas, está Ana, do conto "Amor", que leva uma vida simples, dedicada ao marido e aos filhos, tem a rotina quebrada ao se impressionar com um homem cego, que masca chicletes na rua. Lóri, da obra Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, é uma professora primária que mora sozinha e se prepara para descobrir o amor. Há ainda outra mulher sem nome, que, no conto "Perdoando Deus", se deixa mergulhar na liberdade enquanto passeia por Copacabana. Essas quatro mulheres, que, para Beth, "representam algumas facetas da própria Clarice", foram escolhidas para apresentar ao público a obra de um dos maiores nomes da literatura brasileira. Em Simplesmente eu. Clarice Lispector, espetáculo que teve estreia nacional em Brasília, no Centro Cultural Banco do Brasil, a atriz interpreta, mais do que a escritora e suas personagens, fragmentos que reconhece em si mesma: "Usando as palavras dela, eu também estou falando de mim". Na peça, Beth faz reflexões sobre temas como criação, vida e morte, Deus, cotidiano, solidão, arte, loucura, aceitação e entendimento e trabalha pontos característicos da obra de Lispector, como o vazio, o silêncio e o instante-já, "aquele momento único, que é como um flash", explica a atriz. Para o monólogo, que ela também dirige, passou os últimos dois anos mergulhada em longa pesquisa. A narrativa se constrói a partir de trechos de entrevistas, depoimentos e correspondências. Segundo Beth, toda essa ligação se dá por uma única linha: o amor. "Ela falava sobre o amor maternal, o do relacionamento, o amor a Deus, à natureza, ao próximo. Escolhi esse viés para apresentá-la ao público." Para a atriz, representar Clarice Lispector é realizar um antigo desejo. "Eu sempre acalentei essa vontade de um dia poder dar meu corpo, minha voz, minhas emoções para colocá-la viva em cena." A caracterização foi feita de forma cuidadosa. Detalhes como a maquiagem ganharam tratamento especial de Beth Goulart, que optou por um caminho neutro para passear livremente pela pele das personagens e da autora. "O espetáculo todo é como se fosse uma grande folha em branco a ser escrita por esses personagens, pelos movimentos, pelas ações, pela luz."



O ESPETÁCULO - O espetáculo mostra a trajetória desta mulher em direção ao entendimento do amor, de seu universo, suas dúvidas e contradições. Uma autora e seus personagens dialogando sobre a vida e morte, criação, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, entrega, inspiração, aceitação e entendimento. O texto é extraído de depoimentos, entrevistas, correspondências de Clarice e trechos das obras: "Perto do Coração Selvagem", "Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres" e os contos "Amor" e "Perdoando Deus".

ENCONTRO DE BETH GOULART COM CLARICE LISPECTOR - O que me levou a fazer Clarice Lispector no teatro foi o mistério do espelho, a identificação que sinto por ela. A vontade de trazer mais luz sobre esta mulher que revolucionou a literatura brasileira, redimensionou a linguagem falando do indizível com a delicadeza da música, usando a escrita como uma revelação, buscando o som do silêncio ou fotografar o perfume. “A arte é o vazio que a gente entendeu” diz Clarice. Quero atingir de mim mesma para refletir a profundidade mulher que conhece o segredo das palavras e suas dimensões. O questionamento, é a busca constante do artista diante de sua escolha, como ela, eu gosto de intensidades. Há dois anos mergulhei num processo de pesquisa para escrever este roteiro lendo tudo o que podia de sua obra e livros biográficos. Fiz dois workshops com Daisy Justus uma psicanalista especializada em Clarice Lispector que analisa sua obra sob a ótica da psicanálise. Vi e ouvi tudo o que podia sobre ela, suas entrevistas, fotos, o depoimento no MIS, a entrevista póstuma na TV Cultura, enfim me tornei uma esponja de tudo o que se referia a ela. Neste olhar apaixonado escolhi sua obra para recontá-la. Construí um corpo narrativo com trechos de entrevistas, depoimentos e correspondências que preparam os personagens que irão se apresentar ao público como desdobramentos dela mesma. Os temas abordados são reflexões sobre criação, vida e morte, Deus, cotidiano, palavra, silêncio, solidão, arte, loucura, amor, inspiração, aceitação e entendimento. Clarice é muito pessoal em seus escritos e todos os seus personagens tem algo de si mesma. Acho que Joana de “Perto do coração selvagem” talvez seja a mais parecida com sua essência criativa e indomável. Ana do conto “Amor” é a dona de casa e mãe dedicada que Clarice certamente foi. Lori de “Uma Aprendizagemdu ou O livro dos prazeres” vive em cena as descobertas do amor e A Mulher do conto “Perdoando Deus” é uma bem humorada auto-critica.