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1 de abril de 2009

Anorexia-bulimia

Estou lendo "La ultima cena: Anorexia y bulimia" (A última ceia)(Ed.Del Cifrado), um livro de Massimo Recalcati, psicanalista lacaniano referência quando se trata de sintomas alimentares.
Leia um trecho que eu achei importante e esclarecedor:

..."O traço discursivo dominante da anorexia-bulimia é a paixão. A anorexia-buliia é, em efeito, uma paixão do sujeito. Uma paixão causada de um objeto substância (a comida) que se coloca como objeto-causa, nunca simbolizado em sua totalidade, seja alí onde orienta o sujeito a sua recusa obstinada (anorexia), seja quando se apropria num modo demoníaco, impondo-lhe uma assimilação tão voraz quanto infinita (bulimia).
...Não obstante, esta paixão pelo objeto-comida - que parece possuir a característica da atração irresistível por um objeto-substância real - se revela, em última instância, como uma paixão pelo vazio.



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Mas não um vazio do estômago, uma vazio anatomizado, que pode ser recheado do objeto-substância, mas aquele vazio - ontológico e não empírico - que se refere ao coração do sujeito. Aquele vazio que o sujeito leva em si mesmo desde a origem. Aquele vazio que se subtrai de qualquer medida, de qualquer cálculo, de qualquer representação. Aquele vazio que constitui o ponto mais íntimo do sujeito, e ao mesmo tempo, a estranheza mais radical. Aquele vazio que abre no sujeito uma falta radical, impreenchível (registrado no ensino de Lacan como "falta a ser"), que não pode ser saturada por nenhum objeto. Porque qualquer objeto se revela vão respeito a esta meta impossível. Porque o vazio que habita o sujeito não depende da substância do objeto, mas que está feito da mesma tela, por dizer assim, que trama o próprio sujeito.

...A anorexia-bulimia é em consequência uma paixão pelo vazio no sentido que, ainda que orientando o sujeito em direções opostas ( a eleição anoréxica é a recusa do objeto comida e a bulímica é o impulso ao seu consumo ilimitado), aponta igualmente a alcançar e conservar o vazio. Porque a abolição do vazio significa a abolição do próprio sujeito.
...O vazio é, então, a condição para que possa existir, junto da falta, o desejo. Por ele a anoréxica o define desesperadamente à maneira da identificação, arrojando todo seu ser nessa empreitada, dando todo seu ser em fazer-lhe ela mesma vazio puro, puro "falta a ser". A búlimica o encontra na troca ao final de cada uma de suas comilanças. O encontra no fundo da substância-comida. O encontra no ponto no qual seu gozo toca o limite da inconsistência do objeto. Através do vômito ela faz o vazio no seu corpo. Esvazia o próprio corpo do peso da substância. Desse modo, ao fim de cada crise de fome mostra a realidade ao Outro que nada - nada de objeto-substância - poderá jamais encher-la verdadeiramente. Porque seu vazio não é o de um recipiente, e sim, aquele - estrutural - da falta a ser."
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A tradução é minha, portanto desculpem alguns possíveis tropeços...
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