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28 de fevereiro de 2010

´´meu lado mais doce e bruto: a escrita``

Quinta feira passada, barzinho com amiga de infância, Bohemias geladas, papo cabeça, poesia...




Atrevo

Quero sentir o gosto daquilo que lhe é possível saborear. Não quero invadir nem me quero mexida. Penso leve, palavras duras e pontiagudas. Tudo se dá na cabeça: essa que fala, que escuta, que pende para trás em êxtase. Digo coisas ao seu ouvido... ãh?! Diz-me coisas que não escuto... ãh?! Perdoe-me, mas somos da mesma espécie: só piso no caminho que acho que devo seguir.


Me atrevo pouco. Mas rio do seu sorriso... quê fazer?!...

Um certo humor leve que ganha proporções monumentais quando escuto em voz e melodia. Percebo seus caminhos pelo mundo todo... vão livre, um certo horizonte interminável de um olhar que beira o exótico, o ingênuo, o inacreditável, o profundamente elaborado.

E assim ouço tudo o que me tem a dizer. Palavras que saem dessa tocha de fogo humana como cuspe de dragão. Aceito sim, sua proposta de amizade anunciada - mesmo sem acreditar que amizades (ou inimizades) possam ser resolvidas em contratos verbais... - aceito tudo o que me diz, carbonizada.

Me atrevo um pouco. Continuo rindo do seu sorriso... discordo do que não concebo. Deixo para conceber mais tarde.

Apresento-me pelo meu lado mais doce e bruto: a escrita. Porque também eu sei cuspir fogo. Também castigo minha garganta com coisas entaladas ou que serão ditas como num grito que leva à rouquidão. Minha recuperação de cicatrizes é lenta, mas fecha por inteiro. Só que não quero fechar, mostro-me em palavras rimadas e descompassadas que é a única forma que sei fazer. Não cultivo pudores. Tento fazer o mesmo com traumas.

Jurei que não escreveria. Quase impossível... tom de provocação mansa, presença sutil, também alimento meu ego cultivando pessoas e impossibilidades. Seres reais que merecem uma narrativa real. E fogo... ah, esses seres de fogo... garganta em brasa, incêndio fora do controle. Pessoas assim, em própria autodefinição subjetiva.

Me atrevo muito. Porque o que tenho para servir é água com açúcar, e pimenta.

Percebo o receio de envolver-se. Percebo o desejo de in-volver-se (sic), paradoxalmente. Misto de curiosidade e coragem, essa gente que tá sempre botando a mão no fogo pra ver se queima. E, em insólitas situações, sempre queima... - enxugo suas duas lágrimas - sensação de faísca de fósforo: assim te toco, lixa e pólvora... fogo, que já sabíamos que éramos fogo, filhos do mesmo dia do ano.

Espelhadamente faz as perguntas que faço.
Diz as palavras que digo.
Pessoa-fogo, desde a garganta até às palavras.

Eu sou esse tipo de pessoa também que vive se explicando. Tenho a insana percepção de que não sou realmente compreendida pelas minhas palavras duras, radicalismo, uma certa ironia. Para poucos. Sou assim, pessoa para poucos. Querida por muitos, mas compreendida por poucos. Entrego minha essência nas entrelinhas.

Me atrevo demais... e não me acho.

Meu toque de água nesse ferver em banho-maria. Vou deixar o fogo baixo se acalmar, sem queimar o fundo da panela... sem pressa... incêndio controlado. Energia dócil e feroz. Mas vou deixar, fogo baixo... quero o saborear da vida leve.

Voto de silêncio para curar.
E não me atrevo mais...


_ml_fevereiro/2010
para jean kuperman

Um comentário:

marcele disse...

obrigada pela citação, pela noite, pelo papo e pela celebração constante da nossa amizade de jardim de infância... beijo!